sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O CAMINHANTE

Ainda na manhã desta vida errante
deixei sem sorrisos uma alegre infância.
Entre um ser meio modesto, meio fascinante,
cedo descobri que neste mundo
vaga pra mim é que não havia.
Pois porque não pude entrar,
logo percebi que é porque
vim pra caminhar,
não nasci pra competir,
perder ou ganhar.
Como se definiu Cecília, a poetisa,
também só vim aqui pra passar.
E outro dia mesmo me perguntaram:
“como pode alguém tão jovem não querer competir,
como pode alguém só querer caminhar?”
Pois é este o meu caminho,
meu mundo, minha fé,
isso que carrego em meu peito, em meus ombros
numa procissão de um homem só,
porque Deus deixei largado no meio do caminho
que ele não teve fôlego nem paciência pra me acompanhar
Ou será que foi por que eu disse logo:
homem, vê se larga do meu pé!
E caminho, caminho, nessa ausência de Deus
que Clarice, outra poetisa, também escreveu
ser um ato de fé, religião até.
Pois levo esta minha fé
como se fosse parte vital do corpo
uma fé não escrita em bíblia alguma
sem esperar nada do céu a não ser chuva,
que é tempo tão bom como dia de sol.
Pé ante pé, chão árido ou enlameado,
Pé no pó ou na poça, não deixo rastros,
pois não quero ninguém me seguindo,
e sim traçando suas próprias estradas.
Não combino com ninguém
e não é de se espantar, afinal
como encantar alguém
com palavras deslocadas no tempo
com sons até bem bonitos, mas desprezados,
maltratados, humilhados, desafinados?
Como encantar alguém que quer logo chegar
- Onde? Sei lá eu! –
se pra mim já basta andar.
Há vezes em que já não sei se caminho
ou se o caminho levado pelo tempo
é que passa sob meus pés.
Mas foi caminhando, devagar,
olhando pra tudo quanto foi lugar
que senti a verdade chegar diferente
pois não há de ser verdade
uma , nem duas, nem três
mas todas elas de uma vez.
Foi, foi olhando bem pros olhos desta gente,
que, em vez de caminhar,
espera uma hora, que mal sabe,
jamais, em tempo algum, chegará.
E eles correm, correm, correm
pra que os dias passem mais depressa,
enquanto eu, que nem relógio tenho,
sigo, sigo, sigo, sem pressa,
porque o tempo caminha pra trás
ou, senão, como ficaríamos velhos?
À margem desta estrada,
deslocado de tudo e de todos,
vivendo sem sonhos,
em andrajos, maltrapilho,
vou perseguindo o que não sei,
pois o que quero é saber,
mas não pra ensinar
e sim mostrar que muito se pode aprender
pra melhor caminhar
sem tanto cansar, sem tanto machucar.
Pois não é que quanto mais caminho
quanto mais sei,
mais me canso, mais me machuco
e mais cresço?
E deste mundo me faço esquecido e esqueço.
Do acostamento desta autopista
chamada ironicamente de vida
só vejo a violência da velocidade
a fascinação pela violência, pela velocidade
E como a velocidade me violenta!
Exercito então esta minha mente lenta
que me ensina – e nem foi preciso ver –
que se neste mundo ainda há papa, princesas, rainhas e reis
hão de sempre existir mendigos, famintos, doentes, miseráveis
pois que o homem sentado em seu trono
mais parece defecar suas maquinações
nos rostos fascinados, sorridentes, abobados
de quem os endeusa, idolatra.
O solo duro em que descalço prossigo
me fez aprender a ser meio impiedoso
e é sob este raciocínio e sentimento
que não vejo como poder diferenciar
quem despreza uma farta mesa por uma fina educação
de quem despreza qualquer educação
para se fartar com os olhos da mesa alheia.
Fora de moda, fora da mídia
sou uma mentira ambulante,
porque só o que a imprensa registra
é que se aceita ser verdade.
Vou seguindo à margem,
deslocado do mundo,
não procurando, mas achando
todo e qualquer lugar
por onde possa apenas olhar e
passar e passar e passar...

Esta poesia faz parte do livro "Profano Coração", de Eduardo Lamas. Caso queira adquirir o seu entre em contato pelo e-mail edulamasneiva@gmail.com.

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