quarta-feira, 19 de setembro de 2012

FÁBRICA DE ÍDOLOS

"A violência é tão fascinante
E nossas vidas são tão normais..." 
(Renato Russo)

CENA 1: dois meninos, um de 8 e outro de seis anos, sentados no chão, assistem à TV. Propaganda com imagens de dribles e gols: “Futebol ao vivo, amanhã!”
Os meninos se olham, levantam-se rapidamente, pegam a bola, improvisam uma baliza entre dois pés da mesa da sala e começam a jogar, um na linha, outro no gol. “Gol!”

CENA 2: os mesmos dois meninos, sentados no chão, assistem à TV. Propaganda com imagens de um jogo de basquete, com jogadas e cestas espetaculares: “NBA ao vivo, não perca este grande jogo!”
Os meninos se olham, levantam-se com pressa, pegam a bola e começam a quicá-la e arremessar para uma lata de lixo posta em cima da mesa. “Cesta!”

CENA 3: os meninos na mesma posição, novamente vendo TV. Propaganda com imagens de uma partida de vôlei, com defesas e cortadas, grandes ralis: “Vôlei ao vivo na sua tela, hoje às 21h!”
Os meninos se olham, levantam-se correndo, improvisam uma rede na varanda, com um barbante, e começam a jogar. “Que cortada! É ponto!”

CENA 4: novamente os dois meninos vendo TV. Propaganda com imagens de homens se agarrando num ringue, um esmurrando continuamente a cara do outro. Sangue espirrando pra todo lado: “Ultimate fighting, vale tudo pra você. Hoje à meia-noite, não perca!”
O mais novo nem tem tempo de olhar o mais velho, que lhe desfere um soco no meio do nariz e se debruça sobre o irmão, sufocando-o e batendo nele até se cansar.

Ilustração: imagem retirada do blog "Mais saúde no B.P.C."
Vídeo: "Baader-Meinhof blues" (Renato Russo/Flávio Lemos/André Pretorius/Fê Lemos), com Legião Urbana.
Veja também:
A midiotização
Brasil, um edifício que cresce sobre frágeis alicerces
A "arte transgressora"
Os muros
Mais uma sobre educação

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A MÍDIA BIZARRA

Será que a forma como Amy Winehouse foi se matando e os “motivos” que a levaram a desistir da vida não são muito semelhantes aos dos outros astros que se foram aos 27 anos, com a única diferença de ela ter sido muito mais exposta do que os anteriores por viver num mundo paparazzo, bigbrotheriano? A degradação de Amy era espiada e transmitida quase diariamente pela mídia. Será que as angústias, dores, depressões e pressões que sofreu não foram tão intensas quanto às de Cobain, Morrison, Hendrix e Joplin? Talvez a ela tenha sido acrescido esse pré-show de Truman que vemos diariamente na internet e na televisão, mesmo que não queiramos.
Que o homem sempre se sentiu atraído pelo escândalo e os crimes é uma verdade que existe desde que o mundo é mundo. Porém, creio que não haja precedentes na história dos veículos de comunicação tanta bizarrice e sangue para alimentar os consumidores sedentos e famintos da vida alheia. A glamourização do grotesco está nas páginas e telas sendo vendida como o último grito da moda desde o movimento punk.
Veja na cabeça de Neymar e seus imitadores o resultado da manifestação daqueles garotos pobres da Inglaterra, que revoltados por não terem grana pra pagar ingressos dos shows das mega-bandas dos anos 60 e 70 começaram a protestar gritando e xingando contra aqueles que amavam. Primeiro se tornaram tão ricos e famosos quanto os ídolos e depois foram vendidos em prateleiras de lojas de vestimentas e supermercados. Che Guevara também sofreu o mesmo processo depois de morto, mas isso esticaria demais este assunto.
Mas não é só, claro que não. No Brasil, por exemplo, veja nas bundas e peitos inchados das mulheres hortifrutigranjeiras (mais granjeiras que frutas e hortaliças) e nas desafinadas e “belas” e “cantoras” que surgem diariamente o quanto Gretchen, Rita Cadilac e Xuxa foram influentes para as jovens dos últimos 30 anos. Veja o quanto elas vêm se deformando para ficarem parecidas com esses grandes exemplos. Veja no fânqui (funk carioca) como o que de pior existia na música e cultura americanas mais a cultura do tráfico fez com a cabeça e os corpos de adolescentes dos barracões às mansões nos últimos 20, 30 anos.
Por fim, veja na mídia e nos seus patrocinadores: a bizarrice tem mais valor que a arte.

Ilustração retirada da página oficial de Amy Winhouse no facebook.
Vídeo: "Back to black" (Ronson/Winehouse), com Amy Winehouse.
Veja também: 
Há 40 anos, o fim da voz rascante de Janis Joplin
Há 40 anos, o adeus de Jimi Hendrix
A midiotização

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

ESTILHAÇOS 3

Não me apego ao livro como objeto. Há quem goste de senti-lo nas mãos, até cheirá-lo. Eu só quero lê-lo. O que me interessa necessariamente é o que ele contém, suas palavras, suas frases, suas idéias, suas imagens.



Veja também:
A grandiosidade de Victor Hugo
Poesia sem versos

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

ESTILHAÇOS 2

Eu me interesso bem mais pelas sombras, pelo lado oculto do ser, do que por aquilo que ele irradia. Isto já está presente em mim desde a infância.

Ilustração: gravura de Oswaldo Goeldi (quem souber o nome me informe, por favor)

Veja também: tudo o que foi publicado em setembro de 2011


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

GASOLINA NO INCÊNDIO 12

Com "Gasolina no Incêndio" pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis. A décima-segunda questão-provocação é a seguinte:

Uma sociedade (ou um grupo social) que não respeita nada, nem ninguém, que em nome da defesa - algumas vezes até legítima - de seus direitos atropela sem se importar com os dos demais (que seja de uma só pessoa), é tão repugnante quanto a mais feroz ditadura.

Veja também:
Gasolina no incêndio 3
Penso, logo sinto 3
Brasil, um edifício que cresce sobre frágeis alicerces

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

AGRADECIMENTO A ALTAMIRO

Dizem que pedido de amigo é uma ordem. Meu irmão Bruno Lobo me pediu que escrevesse aqui sobre Altamiro Carrilho porque não tem blog (deveria ter, deveria), portanto, a ordem foi dada e já está sendo cumprida. Sempre procurei evitar que o blog virasse um obituário, ainda mais em épocas sombrias como esta, quando no espaço de poucos dias se foram grandes músicos, como o flautista que é tema deste texto, Severino Araújo e Celso Blues Boy, que acabou motivando, em meio à consternação de sua morte, o encontro de amigos que citei na postagem Conexões.
Não desfilarei aqui as virtudes, muito menos a biografia de Altamiro Carrilho, porque isso felizmente alguns sites e jornais fizeram bem, embora seja sempre muito pouco para alguém de uma dimensão incalculável. Queria, mesmo que tardiamente, fazer um agradecimento ao grande flautista por ter com o CD "Flauta Maravilhosa", de1996, tornado mais ameno alguns dos dias mais duros de minha vida. Já conhecia algumas músicas altamiranas até aquele difícil ano de 1998, lembrando que chorinho pouco se toca em rádio - e quase nada na TV - desde sempre e que não havia a internet com toda a expansão que há hoje com acesso fácil a tudo o que se refere a música.

Naquele que foi um dos dois piores anos da minha vida, estando fora de minha casa com minha família por circunstâncias que não vem ao caso comentar - e agradecendo eternamente a hospedagem e a atenção que recebemos durante três messes de dona Lêda Cid Maia e seus filhos - ouvi pela primeira vez um "álbum" inteiro de Altamiro, justamente o citado acima. Foi um bálsamo, que me motivou a comprar posteriormente o mesmo CD e uma coletânea e sempre exaltar a obra desse grandioso músico. Aqui presto minha humilde homenagem e faço o meu agradecimento por ter tornado melhores dias tão duros. Como ele bem disse, em um especial da TV Cultura, seu nome deveria ser Flautamiro. Viva Altamiro! Altamiro vive.
Fiquem abaixo com Altamiro demonstrando todo seu talento e toda sua vitalidade aos 85 anos em show de maio de 2010, com direito a um solo de percursão e bateria de Eber de Freitas.

Ilustração: capa do CD "Flauta Maravilhosa" (1996), de Altamiro Carrilho.
Vídeos: 1- imagens de  e música "Bem-te-vi tristonho", de e com Altamiro Carrilho, música do CD "Flauta Maravilhosa; 2- "Urubu Malandro" (Louro), com Altamiro Carrilho.
Veja também:
Adiós, La Negra
Villa-Lobos, o pai da MPB
Nina Simone, a sacerdotisa do jazz
Os sopros mágicos de Carlos Malta
Tardes de outono

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

CONEXÕES

Recentemente comentei numa rede social sobre um dia ganho por ter lido uma pequena obra-prima, o conto "O Evangelho segundo Marcos", do livro "O informe de Brodie", do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), e a conexão mental e sensorial que fiz com o filme "Viridiana" (1961), do diretor espanhol Luis Buñuel (1900-1983). Em suma, as imprevisíveis e cruéis conseqüências da caridade cristã. Espero que quem conheça as duas obras venha me dizer se há insanidade, idiotice ou algo perfeitamente pertinente de minha parte. Pois bem, chego hoje em casa, já madrugada, após um ótimo encontro com velhos amigos, incluindo o meu irmão, Léo Neiva, e tenho a surpresa de ver que a locadora havia me enviado durante o dia o documentário sobre o excepcional LP "Who's next", de 1971, da mesma série (Classic Albuns) de "The dark side of the moon", do Pink Floyd, "Kind of blue", de Miles Davis, e outros que não me lembro e ainda não tive o prazer de assistir.

Este sempre foi o álbum que mais gostei do Who, especialmente pela balada-porrada "Behind blue eyes". Porém, só uns poucos anos atrás me detive mais à letra e um verso sempre me intrigou muito: "my love is vengeance that's never free" (meu amor é vingança que nunca é livre, corrija-me algum tradutor se eu estiver errado). Afinal, por mais questionador que seja, minha formação cristã ocidental tem uma força grande em meu sangue e minha mente, algo que por mais que se lute é difícil se desvencilhar. Tradição, cultura, inconsciente coletivo, nada disso se extirpa com facilidade, se é que é possível. Somos todos aqui filhos da pieguice do amor romântico, somos latinos e americanos, brasileiros, frutos da miscigenação do banzo e do fado, do lamento, do choro, da saudade.


Talvez seja, por isso, tão complexo, tão profundo, tão instigante e tão intenso este verso para mim. Como é o título do filme de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), "O amor é mais frio que a morte" (Liebe ist Kälter als der Tod, 1969), que já usei em forma de indagação em alguma poesia ou texto meu que já não me recordo agora. E vejo que tanto o verso da música, como o nome do filme me levam de volta a Borges e Buñuel, mas de forma invertida: nas obras do argentino e do espanhol haveria uma espécie de vingança pelo amor recebido. "O amor é mais frio que a morte" ainda não assisti, está na fila me esperando há anos, como alguns outros desse diretor alemão que tanto admiro e que conta, em apenas 37 anos de vida, com a impressionante marca de 43 filmes (sendo que "Berlin Alexanderplatz", de 1980, tem 15 horas e meia de duração). Porém, essa rede de conexões, tendo Towshend e Fassbinder como fios condutores, foi inevitável nesta alegre e produtiva noite.


Graças à IA, 13 anos após a publicação deste texto posso publicar aqui um "encontro" de Buñuel, Fassbinder, Townshend e Borges. Veja abaixo e diga o que achou.


Fotos:
Rainer Werner Fassbinder, Jorge Luis Borges e a capa do filme "Viridiana".
Vídeo: "Behind blue eyes", The Who.

Veja também:

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

GASOLINA NO INCÊNDIO 11

Com "Gasolina no Incêndio" pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis. A décima-primeira questão-provocação é a seguinte:

O Brasil é um país de adolescentes. Grande parte tem mais de 30 anos de idade.

Veja também:
Penso, logo sinto 10
Gasolina no incêndio 10

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #47

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46 Garrincha e Pelé, durante a Copa do Mu...

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