quinta-feira, 6 de maio de 2021

A CORRIDA DA MORTE NO "JORNALISMO"

Foto originalmente publicada no site "Brasil Escola", do UOL

Para começar e não deixar qualquer sombra de dúvida com relação à minha posição: o Jornalismo é fundamental. Ainda mais nos dias de hoje, neste país. Não fosse o Jornalismo (assim, com letra maiúscula), a boiada inteira já haveria passado com madeira ilegal no lombo, os equinos do poder estariam ainda mais despudorados e a cloroquina com agrotóxicos proibidos em várias partes do mundo estariam nas refeições diárias de quase todo brasileiro.

Paulo Gustavo
Dito isso, vamos ao que me trouxe aqui: a antecipação da morte de Paulo Gustavo publicada em alguns sites na tarde da última terça-feira (04/05). A sanha de querer ser o primeiro a dar uma informação, mesmo que segundos antes de um concorrente, nas ávidas mãos de maus jornalistas ou pseudojornalistas não respeita nada, nem ninguém, só a sua própria vaidade. Furo jornalístico neste caso não existe, ainda mais sabendo-se que a notícia da morte de alguém tão famoso como o comediante, já com sua saúde em estado muito grave, correria com a velocidade da luz. E foi o que ocorreu em alguns veículos, só que na hora errada.

O debate - importantíssimo - sobre este fato, começou num grupo do whatsapp do qual participo ainda no fim da tarde de terça, horas antes do falecimento de Paulo Gustavo, porque já se confirmara a barriga (como no meio jornalístico se chamam, ou se chamavam, as falsas notícias publicadas por erro de apuração. fake news é outra coisa, crime inclusive). Em virtude disso, lá mesmo, um dia depois, contei duas histórias que vivenciei de formas diferentes com o objetivo de ilustrar o debate.

Zuenir Ventura
Comecei pela mais recente, embora já tenha mais de 20 anos isso. Eu trabalhava no Globo Online, nos primeiros anos de internet no Brasil (segunda metade dos anos 90), quando alguém disse que a Agência Estado estava noticiando a morte de Zuenir Ventura. Acho que foi em 1998 ou 99 isso. Houve um corre-corre natural, acredito que na redação do jornal também tenha ocorrido, mas naquela época estávamos em outro prédio e não deu para ver, saber. Mauro Ventura, creio que na época colunista do Jornal do Brasil, ficou desesperado, até porque não conseguia falar com o pai. Tinha estado no mesmo dia com ele num debate, palestra ou seminário e depois cada um seguira seu rumo. Ressalte-se que celulares naqueles tempos eram aqueles tijolões que nem tantos possuíam e nem sei se o Zuenir tinha, acho que não.

No fim, soube-se que o (ou a) repórter que deu a "notícia", confirmou a informação que recebera de alguém com a empregada da casa do Zuenir. Nem sei se existia essa empregada, se ele (ou ela) ligou para o número certo (muitas vezes liga-se para um e cai em outro, até hoje, com toda tecnologia existente), nem sei como foi a abordagem. Só sei que na pressa (não confundir com velocidade), no afã de dar o furo, deu-se uma barrigada estrondosa. Zuenir continua vivão, na ativa e completa 90 anos em 1º de junho.

Renato Russo
A outra foi sobre a morte do Renato Russo, em outubro de 1996. Quem primeiro deu a notícia foi a Agência O Globo, onde eu trabalhava desde janeiro de 95. Minha amiga Valéria Rehder foi a  responsável pelo furo jornalístico. Eu e ela éramos os primeiros a chegar de manhã à Agência, às 7h, num tempo de transição que chamo de Era da Pré-Internet, quando o noticiário em tempo real da agência, 99,9% de Economia e Política, funcionava de 9h às 17h (o mesmo do mercado financeiro) e só era recebido por quem adquirisse o pacote da Agência. O assinante tinha direito a um computador específico para poder ter acesso às informações em tempo real. 

Pois bem, Valéria recebeu um telefonema bem cedo de algum amigo ou amiga em comum dela e da família do Renato Russo com a notícia de que o cantor e compositor da Legião Urbana falecera. Era fonte fidedigna, não tinha erro, mas ela não abriu a agência antes do horário (como ocorria quando acontecia algo extraordinário) enquanto não conseguiu o telefone da casa do Renato Russo ou de algum familiar e confirmou a informação dada por uma pessoa identificada da família. Ainda assim, mesmo eu dizendo que ela não devia temer nada, pois tinha feito tudo corretamente, ainda nervosa, abriu a agência antes do horário regulamentar, como mandava o protocolo, e publicou a notícia.

Mais nervosa ficou e eu também fiquei bem apreensivo quando avistamos Ali Kamel, então ocupante dos cargos mais altos do jornal, vindo como uma seta do outro lado da redação (a equipe da Agência O Globo ficava no fundo da antiga redação em L do jornal, na pequenina Rua Irineu Marinho 35, atrás das editorias Internacional e Segundo Caderno. Para quem conheceu, ficava no lado oposto ao da  lanchonete da redação). Naquele momento, alguns outros companheiros já haviam chegado para trabalhar. A cara do Ali era a mais séria possível e ele perguntou: "Quem deu a notícia da morte do Renato Russo?" Valéria se "acusou". Ele fez mais duas ou três perguntas de como tinha sabido e apurado. Ao ouvir as explicações, disse, mais seco que o mais árido dos sertões: "Parabéns!". Deu às costas e voltou para o seu aquário (as salas de vidro onde trabalhavam os peixões, ou seja, os editores).

Ressalto que o (ou a) repórter do Estadão, que nem sei quem foi, pode ter aprendido a lição e ao longo da carreira se recuperado do erro que cometeu. Inexperiência pode ser uma das causas. Porém, tudo isto - e muito mais - só prova que o Jornalismo não é, não pode ser, para qualquer um.

Veja também:
A melhor propaganda de todos os tempos
A propósito do jornalismo, o que tenho eu a dizer
O jornalismo em questão
A mídia bizarra
A midiotização

2 comentários:

  1. Já imaginava que vc escreveria sobre isso pq vc nunca decepciona! Adoro ler suas críticas pq são sempre construtivas e nos fazem refletir! Achei um absurdo e total falta de respeito c a família dele veicularem q ele já havia morrido.

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    1. Muito obrigado! Imagino que seja Renata Claro que escreveu, pelo comentário semelhante no Instagram. Volte sempre, querida. Bjs.

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