quinta-feira, 24 de abril de 2014

A COPA É UM MUNDO À PARTE

Depois de muitos anos voltei a escrever para uma revista – se minha memória não falha, a última vez havia sido em 1994 para um especial da Placar. Convidado por Dirley Fernandes durante o carnaval, não perdi tempo para começar logo a escrever sobre a dolorosa Copa do Mundo de 1982 para a revista História Viva, que ele brilhantemente edita. Hoje a recebi em casa e a edição especial sobre o futebol (capa ao lado) é literalmente um show de bola.

Não sei se já publiquei isso aqui ou em outro lugar, mas me tornei jornalista, profissão que exerci regularmente de 1988 até 1º de abril do ano passado, por causa do esporte, em especial o futebol. E mais particularmente ainda, por causa das Copas do Mundo. Nunca assisti a nenhuma no local – e dificilmente estarei em algum dos estádios hiperfaturados nesta que será realizada aqui no Brasil daqui a cerca de um mês e meio -, mas participei da cobertura de cinco: 1990, no Jornal dos Sports; 1994, em O Fluminense; 1998, no Globo Online; 2002, na Lancepress, e 2010, no Globoesporte.com.

A história que conto na revista me remete aos tempos de torcedor de arquibancada, das peladas na rua de asfalto ou nos campinhos de terra. Foi uma viagem no tempo, que me fez despejar um oceano de memórias para depois pesquisar alguns fatos e ver se confirmavam as informações que o meu arquivo particular ia me mandando pôr no texto. Revi com tristeza Brasil 2 x 3 Itália, com a narração do recém-falecido Luciano do Valle, na época locutor da Globo, e posso dizer que não foi um jogo bom tecnicamente (para os altos padrões da época) e que venceu aquele que errou menos. Ou melhor, venceu quem tinha Paolo Rossi, o único a acertar tudo naquele 5 de julho de 1982, no estádio Sarrià.

Não citei os nomes, mas meu irmão, o hoje músico Léo Neiva; meu irmão de consideração Nilton Claro Júnior, auditor e contador, e os irmãos Duda (o professor de História Eduardo Barros) e Mike (o professor de Educação Física Alexandre Barros), também meus amigos, saberão se reconhecer no texto quando o lerem. Foi uma viagem no tempo que fiz sem nostalgia, apenas voltei a entender que aquela precoce eliminação decretou o fim do futebol-arte e o início da era do futebol de resultados, que teve no meu modo de entender grande influência também fora das quatro linhas, em outras áreas. Lamentável.

Tão lamentável quanto o fato de ter uma Copa como vizinha e não poder festejá-la inteiramente como um grandioso e emocionante evento, do qual tanto gosto - e acompanho inteiramente com imenso prazer desde 1974 - devido aos reincidentes e cansativos problemas brasileiros.
Charge de Dalcio Machado (http://dalciomachado.blogspot.com.br/)
Veja também: 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

sábado, 1 de março de 2014

DO CAOS SÓ VIRÁ O CAOS

O movimento #naovaitercopa chega com atraso de anos e se mostra um gigantesco equívoco. Muito maior prejuízo do que os nossos conhecidos ladrões de gravata já nos causaram com seus estádios hiper-faturados o país teria se a Copa do Mundo não fosse realizada. Ao deixarmos que tudo chegasse a este ponto, não é mais hora de tentar impedir a realização do evento, ainda mais que já se sabe muito bem que os métodos serão os mais violentos e estúpidos possíveis, tanto de um lado, quanto do outro. 

Foto: Getty Images
A ocasião que se apresenta a aproximadamente cem dias do início da Copa do Mundo é uma excelente oportunidade para se mostrar ao próprio país e ao mundo – dentro e fora dos estádios – a imensa indignação com os gastos diários com supérfluos, a nossa (in)justiça, os extorsivos impostos sem retorno à população e o sucateamento ostensivo da Saúde e da Educação pública. Esta é a melhor chance também para a população que verdadeiramente estuda e trabalha para levar este lugar a se tornar um grande país - e não apenas um país grande - mostrar a sua gigante insatisfação com o povo que só quer fazer prevalecer seus desejos passando por cima de quem quer que esteja à sua frente ou montando nas costas daqueles.

É preciso pressionar sim, fortemente, os nossos políticos. Mas é bom que se saiba que eles representam fidedignamente o que somos como povo. E lá, no microcosmo dos palácios, câmaras, assembléias legislativas, senado e tribunais de (in)justiça o que vemos é mais corrupção e luta ferrenha por interesses individuais e de pequenos grupos, do que uma preocupação com a construção de um país decente. Por isso, só mudarão eles, se mudarmos nós. Protestar com ódio, quebrando tudo - e todos -, só fará o Brasil continuar a repetir seus históricos erros de violações e violências.


  Vídeo: "Ouro de tolo", de e com Raul Seixas.
Veja também:
O Brasil em chamas
Fábrica de ídolos
Brasil, um edifício que cresce sobre frágeis alicerces
O outro ovo da serpente

sábado, 22 de fevereiro de 2014

ESTILHAÇOS 11

Há muitos momentos em que acredito ser a música e a leitura tão vitais pra mim quanto a água e o ar.



Vídeo: "Khubananukh", com Kuckhermann-Metz-Nadishana trio.
Veja também: Estilhaços 4
Há muito o que fazer
Penso, logo sinto 17

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

PENSO, LOGO SINTO 20

O brasileiro lida de forma bem distinta com duas distintas senhoras, Honestidade e Democracia. Ele só lhes exalta a beleza quando lhe convém ou elas o favorecem. Do contrário, ambas não prestam.

Veja também:
Penso, logo sinto 6
Monólogos 14
Gasolina no incêndio 9

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

PENSO, LOGO SINTO 19

O estrago tem sido tão grande no país nos últimos 50 anos, que se de uma hora pra outra, em todos os cantos do país, todos os cargos públicos fossem ocupados só por gente honesta, solidária e competente, o Brasil só passaria a ser um país justo daqui a uns 30 anos.

Veja também:
A questão Em Questão 2
Conexões
Estilhaços

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

CIA DOS À DEUX, A POESIA DO CORPO

Sem uma palavra, tudo dito, com graça, emoção. Mais uma vez assisti a um espetáculo da Cia Dos à Deux e saí do teatro enriquecido. Todas as palavras não ditas são expressadas com os gestos, o corpo, de seus magníficos atores.

Dança, teatro, circo, ilusionismo e os bonecos que são personagens à parte, regidos por músicas instrumentais originais e uma iluminação de altíssima qualidade. “Irmãos de sangue” é uma peça densa, forte, envolve alegrias e tristezas, memórias de infância, encontros e despedidas, risos e choros, esgares e ternuras, castigos e carinhos, tensões e alívios, tragédias pessoais.

Como “Fragmentos do desejo”, que tive a felicidade de assistir em outubro de 2010, “Irmãos de sangue” é mais uma obra-prima desta companhia franco-brasileira, comandada por André Curti e Artur Ribeiro. A peça fica em cartaz no CCBB-RJ até 23 de fevereiro, ao preço de apenas R$ 10, o ingresso  inteiro. Depois, estará no CCBB de Belo Horizonte, de 14 de março a 6 de abril. Imperdível!
Veja também:
Amigo Cyro, que espetáculo!
Sentença de vida
O elefante e o javali 

sábado, 1 de fevereiro de 2014

AMIGO CYRO, QUE ESPETÁCULO!

Uma amiga comprou os ingressos pra mim e minha mulher com uma semana de antecedência e fui sem grandes expectativas assistir à peça "Amigo Cyro, muito te admiro", ontem, no CCBB-RJ, apesar de a figura de Cyro Monteiro sempre ter me despertado grande simpatia e gostar de muitas de suas músicas. Saí de lá extasiado - ou melhor, saímos - com a beleza e a simplicidade - a beleza da simplicidade e a simplicidade da beleza - deste que foi certamente um dos melhores espetáculos que eu já vi no teatro.

A agilidade no palco, permitida pelo talento e o entrosamento dos atores e os músicos (Levi Chaves, Lucas Porto, Luis Barcelos e Marcus Tadeu, dirigidos por Luis Barcelos), regidos por uma direção geral perfeita de André Paes Leme, fazem o tempo passar sem que se perceba. O tempo no teatro e o tempo da vida de Cyro Monteiro, contada e cantada por Claudia Ventura, Alexandre Dantas, Milton Filho e Rodrigo Alzuguir (autor do ótimo texto), que se revezam na interpretação do personagem principal e de muitos de seus amigos - e um inimigo, Mr Evans. Todos cantam (e dançam) muito bem, mas Claudia se destaca neste quesito com uma belíssima e afinada voz. No fim, dá vontade de pedir bis, mais um!

O cenário, os figurinos e a iluminação resumem a simplicidade e a beleza do talento que caracterizam o homenageado pelo seu centenário, que seria completado em maio de 2013. Ouvindo aquelas músicas e me envolvendo com uma época que o Brasil deixou muito para trás no que tinha de melhor me fez lembrar do pai desta minha amiga, Julia Evangelista. Na última vez que estivemos juntos aqui no Rio, há uns três, quatro anos, ele me disse em referência a outro musical, "Sassaricando", algo que nunca esqueci: "O Brasil perdeu a sua delicadeza". Sábio "seu" Curcino.

Que ótimo que ainda é possível resgatar, pelo menos nos palcos, na arte, essa delicadeza perdida. É, amigo Cyro, também muito te admiro!
Claudia Ventura, Rodrigo Alzuguir, Milton Filho e
Alexandre Dantas. Foto de Silvana Marques
Veja também:
Clarice Niskier, de corpo e alma
Homenagem ao teatro
Fragmentos do desejo, um belo espetáculo
O teatro e o futebol

sábado, 25 de janeiro de 2014

EM DEFESA DE DJAVAN

Há muitos anos me desinteressei pela obra de Djavan. Passei a não curtir mais as músicas que lançava e a achar que suas letras haviam caído no ramerrão do amor romântico e da sedução. Não me tocavam mais. Porém, sempre guardei respeito pelo compositor das primeiras obras, dos primeiros discos, que para mim apresentaram sempre um frescor de novidade surpreendentte.

Nos últimos tempos, nesta “Era do Já Era”, como classificou Aderbal Freire Filho, Djavan tem sido motivo de chacotas, sendo tachado de hermético, incompreensível. Incompreensível é como o brasileiro de um modo geral conseguiu se deixar embrutecer tanto - e cair no humor barato -, manter o olhar reto, desviar ou esconder o olhar torto do artista (todo poeta é caolho!), que historicamente é quem elevou e ainda eleva este país. É certo que fica muito difícil compreender poesia para quem vive a cultura do prato feito ou do “fast-food” e “self-service” de historinhas banais e pegajosas com começo, meio e fim (necessariamente nesta ordem) e ainda assim muitas vezes com imensas dificuldades para entender.

As figuras de linguagem, alma da poesia e da grande literatura universal, estão definhando por falta de bons leitores. Pelo menos cá, por essas bandas. Há exceções, claro – e ainda bem! -, mas cada vez menos pessoas prestam-lhe a devida atenção. A poesia está sumindo da Música Popular Brasileira não é de hoje. E é por causa dos ouvintes, da maioria de seus ouvintes, de viciados ouvidos. Por isso, “açaí, guardiã, zum de besouro, um imã, branca é a tez da manhã” é ridicularizada, escorraçada, por quem não consegue mais enxergar, sentir, ouvir as cores, os cheiros, os sabores, os sons pulsantes da natureza a cada linda manhã de sol.


Foto do site oficial de Djavan: www.djavan.com.br
Vìdeo: "Açaí", com e de Djavan

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ANIMA, A MÚSICA DESPERTA

A matéria jornalística abaixo foi feita em meados de 2001 para o extinto site Papo Carioca, mas nem chegou a ser publicada. Pela primeira vez ela vai ao ar, já com o Anima em formação muito distinta daquela época, com mais três CDs lançados (Amares, de 2003, Espelho, de 2006/2007, e Donzela Guerreira, de 2010) e ainda mais premiado. Estive pessoalmente com o grupo logo após a apresentação que fizeram no iniciozinho do primeiro dia do Rock in Rio daquele ano. Por acaso, eu os vi saindo detrás do Palco "Raízes", me aproximei, me apresentei e peguei os contatos de Valeria Bittar e Luiz Fiaminghi, que são os únicos remanescentes. Meses depois, após alguns contatos por telefone, em meio à agenda cheia de shows deles, obtive os depoimentos do casal por intermédio do e-mail. 
Aos que são fãs do grupo - e os que se tornarão - finalmente aqui está um trabalho que adorei fazer e que - creio - não poderia se perder ou ficar guardado em meus arquivos:
 
     Em linhas gerais, o ANIMA se apresenta nos cuidadosos livretos que acompanham, ou melhor, envolvem os seus dois CDs (as produções independentes "Espiral do Tempo", de 1997, e "Especiarias", de 2000) como um conjunto de músicos que surgiu com a intenção de interpretar música renascentista e barroca européia, mas que com o tempo foi incorporando um cheiro popular próximo e distante. Unindo instrumentos aparentemente incompatíveis, como o imponente cravo à popularíssima e brasileiríssima - mas não menos bela - viola caipira, a alma híbrida desses músicos se mostra formada por seus sons ao mesmo tempo espantosos e belos, sofisticados e simples.
     De todos os textos encontrados nos livretos, o que melhor define a música do ANIMA talvez seja o mais subjetivo, o assinado por Rubem Alves no primeiro CD: "A música do ANIMA faz despertar uma beleza adormecida que morava no meu corpo sem que eu soubesse".
     Na estrada (em todas as possíveis e imagináveis) desde 1988, o grupo que tem sede em Campinas, mas olhos, ouvidos, coração e alma em locais e tempos tão distantes e tão próximos, passou no início deste ano pela experiência inédita de encarar um festival de rock: o Rock in Rio, em janeiro. E, mesmo com todas as dificuldades que encontraram, agradaram em cheio a um público carente de coisas novas, diferentes. Ou, como bem diz Rubem Alves, ávido por descobrir sua própria beleza adormecida por décadas de pasteurização industrial da música em rádios e TVs.
     Com atividades profissionais paralelas e apresentações do ANIMA passando por Campinas (SP), João Pessoa (PB) e Paraty (RJ) nos últimos meses, os seis componentes atuais do grupo não puderam se reunir para responder em conjunto as perguntas da entrevista feita por intermédio do correio eletrônico. Mas o casal formado pela flautista Valeria Bittar e pelo rabequeiro Luiz Henrique Fiaminghi atendeu simpaticamente ao nosso pedido para que ela fosse publicada antes que viajassem para os Estados Unidos, onde participarão de um festival na Califórnia (ver no fim da entrevista).

Ivan Vilela, José Gramani, Luiz Fiaminghi, Dalga Larrondo,
Patricia Gatti, Valeria Bittar e Isa Taube. (animamusica.art.br)

Dá para fazer uma comparação do trabalho de vocês com o idealizado e promovido por Ariano Suassuna com o Quinteto Armorial. Porém, nota-se que vocês foram além nas pesquisas musicais. Gostaria que vocês fizessem uma avaliação sobre essa afirmação (inclusive se procede!) e citassem outras referências pelo mundo afora para a música de vocês.
Com certeza, o trabalho desenvolvido pelo Armorial e Suassuna na década de 70 é uma grande referência para todos que trabalham com cultura brasileira agora, e será por muito tempo. A valorização de instrumentos típicos brasileiros, como a rabeca e a viola caipira, além da utilização da linguagem modal como um dos meios de ligação entre a Idade Média ibérica e as raízes brasileiras, que é uma das bases para a criação da sonoridade do ANIMA, já eram também utilizados conscientemente pelo Movimento Armorial. Também nos anos 60/70 estava ocorrendo na Europa um dos mais importantes movimentos de revitalização da “performance musical” no Ocidente. A música antiga tocada com os chamados “instrumentos
originais” ou “instrumentos de época”, movimento que está muito bem estudado por um de seus principais integrantes, Nikolaus Harnouncourt, em seu livro “O Discurso dos Sons”.
O ANIMA foi um grupo que se propunha, em suas origens há quinze anos enfocar a prática da música antiga por este viés. Depois de alguns anos, a partir de 1992, o grupo caminhou para outras direções, incorporando outras práticas musicais, principalmente a da música brasileira não direcionada para o grande mercado fonográfico, sempre passível de uma grande pasteurização para enquadrar-se nas regras do mercado.
Outra vertente importante do trabalho do grupo é a pesquisa da música de tradição oral e o elo  destas tradições, notadamente a brasileira e a medieval ibérica,  como fator de criação de arranjos coletivos onde a experiência musical de cada integrante do grupo é fundamental para um trabalho que se propõe realizar sem uma direção musical centralizadora.
Acreditamos que cada instrumento que é incorporado ao nosso instrumental, carrega em si mesmo um emblema da cultura de onde provém, mesclando-se com outros diferentes, muitas vezes até aparentemente antagônicos, como é o caso do cravo e da viola caipira (cultura erudita/corte versus cultura popular/praça), mas que dentro da linguagem do grupo se completam, criando um novo patamar de conexões sonoras. Se examinarmos como se foi desenvolvendo a linguagem do grupo, verificaremos que acreditar neste valor intrínseco de cada instrumento (e é claro no músico que o faz falar), foi fundamental para o estabelecimento de elos que intuitivamente os músicos estavam procurando: quando o nosso querido  Zé Gramani, integrante do grupo, falecido em 1998, trouxe a sua primeira rabeca ao grupo, imediatamente abriu-se vários pontos de conexão com diversas tradições musicais que até hoje servem de guia para nosso trabalho. Muitos destes encontros acontecem por acaso ou talvez nem tanto assim, a sincronicidade existe.

Como e onde vocês buscam essas músicas que muitas vezes ficaram esquecidas e perdidas no tempo (algumas delas passadas oralmente de geração para geração)? Vocês pretendem ampliar o espaço de composição própria nos próximos CDs?
As fontes são várias. As pesquisas de Mario de Andrade são sempre uma grande referência para nós, um exemplo. Do lado da música européia, existe muito material publicado por medievalistas nos últimos 30 anos. Cada um do grupo contribui muito também. Não somos muito de buscar tudo nos livros, mesmo porque o que nos interessa é levantar material para criar outras coisas a partir daquilo. O Ivan Vilela e agora o Paulo Freire, trouxeram, como violeiros, toda a vivência que nos aproxima da tradição popular, e esta transmissão direta foi muito importante para o grupo.


    De "Espiral do Tempo" para "Especiarias", além da perda de José Gramani - a quem o grupo dedica o segundo CD - o ANIMA trocou de violeiro, com a saída de Ivan Vilela e a entrada de Paulo Freire. A importância de Gramani para o ANIMA, como o introdutor das rabecas no lugar dos violinos, está no texto que Valeria assina em "Especiarias" em homenagem ao companheiro:
     "... O Zé Gramani era um grande violinista. Dizia que aprendeu música nas pescarias com seu pai, procurando minhocas para isca, e com sua mãe, colhendo flores para fazer arranjos.
     "Quando o Gramani começou a tocar as rabecas brasileiras no ANIMA e a compor música para cada uma delas, fomos percebendo que estava tudo lá: nas minhocas, nas flores, no riacho, nas rabecas, no zarb, nos seus contrutores (de instrumentos), no Zé, no ANIMA, em cada um de nós..."

Como vocês  superaram as mudanças ocorridas no grupo do primeiro para o segundo CD?
Cada mudança é um desafio. Considerando somente a parte musical da questão, elas contribuem para que o grupo cresça em busca de uma identidade não rigidamente associada aos músicos que participam deste ou daquele trabalho, mas que se desenvolva para uma linguagem de grupo, sem desconsiderar a individualidade de cada um, que é tão marcante ao ponto de que, cada mudança, transforme o grupo em um novo grupo. Dá pra entender? Talvez cada espetáculo seja um passo de superação, mas é preferível pensar em mutação.

Vocês foram muito prejudicados pelo som na apresentação do Rock in Rio, mas a receptividade do público foi muito boa. Que avaliação vocês fazem da participação no festival?
Num evento desta natureza, com proporções fora do comum, é previsível que alguns problemas ocorram. O que não esperávamos, no entanto, é que tantos problemas com o som ocorressem ao mesmo tempo. Retorno, PA, sem falar na qualidade do som. Por outro lado, sabemos que o som acústico do ANIMA não é fácil de ser trabalhado, especialmente em lugares abertos como foi o caso da Tenda Raízes. Pensando nisto, levamos conosco o nosso técnico de som, Murillo Correa, de Belo Horizonte, que tem vários anos de experiência em sonorização de grupos acústicos,  como  o Uakti. Como as bruxas estavam soltas naquele dia, um vento danado (que atrapalha a leitura dos microfones), muita microfonia etc tivemos que manter uma tremenda concentração, tocando praticamente sem escutar os outros companheiros, para estabelecer uma comunicação com o público, que foi extremamente receptivo, apesar dos problemas. Isto foi muito positivo para nós, já que a carreira do ANIMA se fez principalmente em teatros fechados e salas de concerto, o que é uma realidade muito diferente da que se encontra em um espaço como as Tendas do Rock in Rio.
Para nós isto é a constatação de que o público - não importa qual classificação se queira dar a ele: erudito, popular, roqueiro etc - só quer mesmo é estabelecer um canal de comunicação com o artista, e isto depende principalmente deste último, que tem que superar todas as adversidades que por ventura se imponham entre ele e seu público, desde pessoais até exclusivamente técnicas. Também foi uma grande experiência para nós, e servirá, sem dúvida, de referência para uma próxima que o grupo se apresente nesta situação.


Deu para notar na apresentação de vocês um trabalho cênico  muito integrado com as músicas (e até uma brincadeira com os roqueiros feita por Isa e Paulo na embolada "Solta o Sapo"). Isso é elaborado ou surge no momento? Algum de vocês fez teatro? Já trabalharam para alguma peça, apresentação de dança, cinema ou programa de TV? O que acham da conjunção de diversas formas de expressão artísticas?
Não, o trabalho cênico é uma forma importante para estabelecer a comunicação com o público. Para a apresentação do Rock in Rio, contamos com a ajuda da atriz e diretora de teatro Raquel Araújo, da EAD (Escola de Artes Dramáticas), da USP, São Paulo. O bom da Rachel é que ela nos faz enxergar a dramaticidade de nossos arranjos musicais e trabalha, cenicamente, o puro material sonoro se baseando na comunicação do momento de interpretação entre os músicos e entre os músicos e o público. Um dos projetos do grupo é de incorporar este trabalho e desenvolver toda a criação dos arranjos musicais também voltados para a parte cênica. É um projeto complexo, mas a pequena experiência do Rock in Rio nos mostrou que pode ser muito gratificante artisticamente falando.
Um dos trabalhos do Dalga (João Carlos Dalgalarrondo, percussionista do grupo) é com Teatro Musical e espetáculos de percussão tipo “one show men”, onde a cena serve de motivação para os quadros musicais. Ele é um gigante nisto, além de ser um grande “zarbista”.

     Os instrumentos utilizados pelos integrantes do ANIMA e a voz de Isa Taube são um capítulo a mais nessa rica história musical. Vários deles são contruídos sob encomenda especialmente para os músicos do grupo nos mais variados lugares do Brasil e do mundo. Alguns exemplos: o bendir utilizado por Dalga Larrondo é uma cópia de um modelo turco feito por António Gamez, de Madri (Espanha), em 1994; uma rabeca usada por Fiaminghi foi construída por Mestre Davino, de Cananéia (SP) e outras duas por Nelson da Rabeca, de Marechal Deodoro (AL); o cravo de Patricia Gatti foi construído por Abel Vargas, de São Paulo, em 1994, segundo Christian Zell, Hamburgo, 1741; duas violas de 10 cordas de Paulo Freire foram construídas por Vergílio Lima, de Sabará (MG); uma das flautas doce de Valeria foi construída por Helge Stiegler, da Áustria, em 1999, segundo modelo de Jacob van Eyck, no século XVI. Isso sem falar no mejuez, tradicional instrumento de sopro sírio de autor anônimo e uma kuluta tradicional da tribo Kalapalo e outra da tribo Mehinaco, ambas do Alto Xingu (MT).

O que cada um de vocês costuma ouvir em casa, quais músicos?
Eu (Fia) sempre ouvia muita música, de todo o tipo, mas principalmente a música antiga, que é a minha formação (estudei violino barroco). Atualmente, quem comanda o toca-disco é meu filho de seis anos, eu não tenho muito espaço aqui em casa. Ouvir música tem isso: ocupa espaço, e é um espaço que você necessariamente divide com as pessoas que moram com você. Eu adoro que meu filho escolha a música que ele quer ouvir e ouço junto com ele, com o maior prazer.
Eu, Valeria, mulher do Fia, ouço muito música medieval (talvez pela minha formação), Romantismo alemão em pequenos grupos de câmera - tenho dificuldade com orquestras grandes, música folclórica e popular (jazz, rock, MPB) de todas as partes do mundo (Acho que o Fia também), isto talvez com mais freqüência, antes de termos o João.

Para terminar, gostaria que vocês definissem em uma palavra o que significa a música para cada um?
Não podemos falar por seis pessoas, que no momento se encontram cada um num canto com seus trabalhos individuais a partir de quinta-feira que vem (três dias antes da apresentação no dia 24 de junho, em Paraty, como fechamento do evento que comemorou os 30 anos do grupo de teatro de bonecos “Contadores de Estórias”), mas se valer a minha opinião  (Valeria), aqui está ela: desde que escolhi ser música, me encontro com esta pergunta a todo momento. Há algum tempo atrás isto era um problema pra mim, não tinha resposta, como não tinha respostas internas para milhares de perguntas. Mas, há menos tempo ainda, muito pelo trabalho com o ANIMA começar a ter pernas próprias e dele ter nascido da relação de amizade entre nós, e principalmente porque estou mais velha - ainda bem - fazer música para mim é um caminho para me comunicar com as pessoas, e de receber esta vontade de comunicação das pessoas que nos ouvem. Mas um dia, ouvi de uma bailarina de dança Odissi (uma antiga forma de dança da Índia), que no teatro antigo da Índia, que era em forma arena, entre o público e os intérpretes havia uma roda de fogo como símbolo de transformação entre o caminho daquilo que era encenado e o público.  Existe mais coisa além disso no teatro hindu, é claro, mas essa pequena informação, ampliou minha relação com o fazer música, com o estar no palco e ser, juntamente com o público, um dos agentes de transformação e que, aquele momento, pode conter um pouco da intenção do Mistério, no sentido espiritual da palavra. E acho que essa resposta, hoje, me tranqüiliza.

     O ANIMA parte agora para uma temporada no exterior que se estenderá até o fim do ano. Neste mês de julho eles serão os representantes do Brasil no Festival de Verão da cidade de Mendoncino (Califórnia - EUA); em agosto estarão em Buenos Aires, Montevidéu e Assunção; em outubro farão uma turnê pelos Estados Unidos, passando por Washington e Carolina do Sul; e, em novembro, se apresentarão na Womex, a maior feira de produtores da chamada "world music", em Roterdã, Holanda.

O ANIMA:
Dalga Larrondo - percussão (zarb, moringa, bendir, dulcimer, triângulo, pandeiro, tambor de mina, caixa de folia, casco de búfalo, caxixi, maracá, kalimba e berimbau).
Isa Taube - voz
Luiz Fiaminghi - rabecas brasileiras
Patricia Gatti - cravo
Paulo Freire - violas brasileiras (de 10 cordas, de cocho e violaúde)
Valeria Bittar - instrumentos de sopro (flautas doce, kulutas e mejuez)
Endereço eletrônico: www.animamusica.art.br.


Atualmente, o Anima está preparando o seu sexto CD, Encantaria, e tem a seguinte formação:
Gisela Nogueira - viola de arame e violão
Luiz Fiaminghi - rabecas brasileiras e violino barroco
Marlui Miranda - voz, percussão e flautas indígenas brasileiras
Paulo Dias - percussão, organeto e cravo
Silvia Ricardino - harpa trovadoresca
Valeria Bittar - flautas-doce medieval, renascentista e barroca e flautas indígenas brasileiras.

Atual formação: Luiz Fiaminghi, Gisela Nogueira, Marlui Miranda,
Valeria Bittar, Silvia Ricardino e Paulo Dias (animamusica.art.br)

Vídeos: Je Vivroie Liement (Guillaume de Machaut) e Beira-Mar (tradição oral brasileira)
Veja também:
Espantalhos
A música é interdisciplinar
Lições de João (A música é interdisciplinar)
Dois garotos 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O ADEUS DE EUSÉBIO, O PRÍNCIPE NEGRO DO FUTEBOL

Vi na TV na noite desta segunda-feira a emocionante despedida que os torcedores portugueses prepararam para Eusébio, que faleceu ontem, dia 5, e lembrei logo de um texto que escrevi em 2002, poucos dias antes daquela Copa do Mundo na Ásia vencida pela seleção brasileira. Foi um frila que fiz pra um site esportivo sobre alguns dos maiores craques das Copas do Mundo e reproduzo abaixo as linhas que tracei imaginando o craque com a bola nos pés partindo de sua defesa em direção ao ataque com toda a sua força, agilidade e imaginação.

Eusébio, o Príncipe Negro do Futebol

A seleção portuguesa de futebol tem uma história curta em Copas do Mundo. Antes desta que se inicia no próximo dia 31, os portugueses só tiveram duas participações em Mundiais, em 1966 e 1986, esta quando não passou da primeira fase (também não passaria desta etapa em 2002, ficaria em quarto lugar em 2006 e quatro anos atrás, quando reencontraria o Brasil na primeira fase, caiu nas oitavas-de-final diante da Espanha. Este ano irá para a sua sexta Copa). Na primeira vez que foi a um Mundial, porém, deixou uma marca que para sempre será lembrada. E o maior responsável por isso foi um centroavante que conseguia aliar força, agilidade, rapidez e um faro de gol incomum: Eusébio.

Com os nove gols que marcou na surpreendente campanha dos portugueses em 1966, esse moçambicano levou Portugal ao terceiro lugar (melhor posição até hoje), tendo passado entre outras potências pelo Brasil de Pelé, o Rei do Futebol. Depois da Copa da Inglaterra passou a ser chamado de Príncipe, exatamente em alusão ao posto ocupado pelo brasileiro na hierarquia futebolística mundial da época. Ambos, inclusive, foram homenageados antes do início do recente amistoso entre Brasil e Portugal, em Lisboa, que terminou empatado em 1 a 1, entrando em campo abraçados.

Na vitória de 3 a 1 sobre o Brasil, em Liverpool, enquanto Pelé era caçado sem piedade pelos zagueiros Morais e Vicente, que contavam com a complacência do árbitro inglês McCabe, Eusébio decidia a partida com dois gols. Ele ainda comandaria a incrível reação de Portugal na partida contra a Coréia do Norte, que havia despachado a Itália na primeira fase. Naquele jogo, válido pelas quartas-de-final, também disputado na terra dos Beatles, os portugueses chegaram a estar perdendo por 3 a 0, mas o Pantera fez quatro gols, sendo dois de pênalti, e Portugal virou para 5 a 3, classificando-se assim para a semifinal contra os ingleses, que acabariam vencendo por 2 a 1 (gol de Eusébio). Na disputa do terceiro lugar, contra a União Soviética, ele fez mais um de pênalti, e Portugal conquistou a terceira colocação com a vitória de 2 a 1.

O Pantera, como também era chamado, foi descoberto por um brasileiro: Bauer, que atuou no São Paulo e que disputou a Copa do Mundo de 1950 pela seleção brasileira. Foi por indicação do brasileiro que Eusébio foi para o Benfica, após jogar contra ele em um amistoso em Moçambique. Sábio Bauer. Hoje Eusébio, que conquistou nada menos do que dez títulos nacionais pelo time encarnado de Portugal, no qual chegou em 1961, tem uma estátua em sua homenagem em frente ao Estádio da Luz, em Lisboa.

Com a mesma velocidade que imprimia em campo, Eusébio conseguiu escrever seu nome na história das Copas. Pois mesmo com apenas uma participação, conseguiu ser o artilheiro daquele Mundial, e foi eleito pela Fifa um dos dez melhores jogadores de todos os tempos. Ele ganhou a Bola de Ouro de melhor jogador da Europa e foi vice em duas ocasiões.

Eusébio, que começou a jogar aos 15 anos na filial do Sporting de Lisboa, o Sporting de Lourenço Marques, em Moçambique, ainda foi campeão mexicano pelo Monterrey, em 1976, e no fim da carreira atuou em times canadenses e americanos, mas um problema de joelho encerrou sua carreira em 1980 no Beira-Mar, de Portugal.

FICHA DO JOGADOR
Nome: Eusébio da Silva Ferreira
Nascimento: 5/1/1943 em Manfala, Moçambique
Clubes: Sporting de Lourenço Marques (de 1957 a 1961), Benfica (de 1961 a 1975), Toronto Stars (1975), Monterrey (1976), Minuteman (1977), Americans  (1978), Las Vegas Quicksilvers (1979) e Beira Mar (1980).
Títulos: campeão da Copa de Portugal em 1962, 1964, 1968 e 1970, campeão da Copa dos Campeões da Europa em 1962, e campeão português em 1963, 1964, 1965, 1967, 1968, 1969, 1971, 1972, 1973 e 1975, todos pelo Benfica; e campeão mexicano pelo Monterrey em 1976.
Jogos pela seleção:  64
Gols pela seleção:  41 (nove na Copa do Mundo de 1966)

"Eusébio tinha a força de 20 toneladas. Foi o jogador mais forte que eu já vi jogar", Bobby Robson, ex-jogador e técnico inglês falecido em 2009.



Foto da Federação Portuguesa de Futebol
Vídeo publicado no Youtube por Leonardo David Iriarte.
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sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A MEMÓRIA VIVA DE MANDELA

Na África do Sul sob o cruel apartheid, Mandela ficou preso 27 anos lutando pela liberdade dos oprimidos, o povo negro de seu país, e também pela libertação dos opressores. Entendo o pensamento e as ações do grande líder que se foi ontem como uma verdadeira ode à paz, ao entendimento, à mudança de postura ofensiva e defensiva contra alguém, ao amor. Creio que Mandela defendia a libertação do ódio para ambos os lados: o injustificável do opressor, e o da vingança, do oprimido.

Nós, brasileiros miscigenados, que temos correndo em nossas veias tanto o sangue do senhor, quanto do escravo, como bem escreveu Darcy Ribeiro, precisamos muito aprender mais essa lição. Manter viva a memória deste e de outros tantos grandes homens que lutaram pela união (e não a padronização) de todas as etnias, culturas, religiões e nações é o dever nosso de cada dia. Mandela está e continuará vivo!
Vejam como são as invisíveis conexões neste mundo. Ontem à tarde, horas antes de saber da morte de Mandela, entrei num desses sites de streaming para ouvir o grupo chileno Illapu, que gosto muito e há anos não ouvia. Pois a primeira música a tocar foi exatamente esta acima, "Mande Mandela".
Veja também:
Los fragiles y los fuertes
Adiós, La Negra
Esmola oficial

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

UMA TARDE INESQUECÍVEL NA CIDADE DE DEUS

Retratada de forma ao mesmo tempo histórica e ficcional em livro de Paulo Lins que depois foi para as telas de cinema, a Cidade de Deus sempre teve a fama justificada de um dos lugares mais violentos do lado mais cruel do Rio de Janeiro. A coisa se acalmou um pouco nos últimos anos com a "pacificação" implementada pelo Governo do Estado, que por outro lado jamais se preocupou em dar sustentação ao projeto das UPPs com os mais fortes alicerces que crianças e jovens devem ter: a Saúde e a Educação. Como o Governo se  ausenta destes e de outros vários setores prioritários, a sociedade se movimenta para fazer a sua parte e a de quem deveria estar à frente de tudo. Assim, já há três anos, a Agência do Bem atua na Cidade de Deus com um pólo da Escola de Música e Cidadania, atendendo a 200 meninas e meninos.
Levado por um grande amigo (mais que amigo, irmão), tive a honra de conhecer o trabalho dessa organização da sociedade civil em 7 de agosto deste ano em seminário realizado num hotel da Barra da Tijuca. Lá pude assistir comovido a uma apresentação de um sexteto selecionado da Orquestra Nova Sinfonia, que abrange jovens e crianças de outras duas comunidades atendidas pela Agência do Bem: Beira Rio, em Vargem Grande, e Novo Palmares, em Vargem Pequena. E no debate realizado naquele dia, após a apresentação de Alan Maia, diretor da Agência do Bem, dos seus parceiros e da sensacional palestra do economista Sérgio Besserman, vi claramente que muito mais do que formar músicos profissionais, o objetivo é sensibilizar e formar público para músicas de qualidade. E isso também vale para os adultos.
Esse trabalho fantástico me motivou a levar a ajudá-lo de alguma forma. E depois de cedermos alguns DVDs e CDs para o acervo da Escola de Música e Cidadania, tivemos a chance de levar ontem, 15 de outubro, dia do Professor, o ator-palestrante internacional Raul de Orofino para uma apresentação especial e gratuita na Cidade de Deus. E como pus no título, foi uma tarde inesquecível, por tudo. Pela apresentação inspirada e inspiradora deste grande ator, a interação com o público jovem presente, a participação de todos na conversa que houve após a peça "O Homem do Fecicebuque e outras histórias", o brilho no olhar de cada um, o carinho e o amor dado e recebido, todo o aprendizado que se colheu em mais ou menos três horas naquela sala de aula.
Saí da Cidade de Deus, pouco depois das 16h, uma pessoa muito melhor do que a que chegou lá, por volta de 13h. E vi reforçado em mim que não serão grandes reformas políticas, legislativas ou judiciárias, revoluções, protestos - ainda mais os violentos -, projetos mirabolantes e milionários, que farão mudar para melhor nosso dia a dia, nossa casa, nosso prédio, nossa rua, nosso bairro, nossa cidade, nosso estado (e o Estado), nossa região, nosso país, nosso continente, o mundo. É somente exercendo por inteiro o amor, uma palavra que anda sendo desgastada por tão mal usada, que poderemos "sacudir o mundo" (viva também o outro Raul!). Tenho agora isso definitivamente dentro de mim.
Foto: Vanderson Rodrigues
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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

LUIZ MELODIA, O NEGRO GATO E SUAS PÉROLAS

Luiz Melodia no Sesc Tijuca, com Renato Piau
ao violão. Foto: Cristina Velloso.
Corrigi ontem, no Sesc Tijuca, uma falha no meu currículo de apreciador de música: assisti pela primeira vez a um show de Luiz Melodia. Um espetáculo para guardar na memória. Casa cheia, com ingressos esgotados, e o cantor e compositor demonstrando estar ainda no auge, muito bem acompanhado de um trio de cordas de primeira linha, formado por Renato Piau (violão de seis cordas), Alessandro Cardoso (cavaquinho) e Leandro Saramago (violão de sete cordas).

Melodia brincou com a platéia, deu espaço para os seus músicos brilharem, dançou, e cantou como sempre, passeando pelos seus grandes sucessos, como "Pérola negra", "Juventude transviada", "Magrelinha", "Fadas", "Estácio, holly Estácio" e "Negro gato", que encerra o show em altíssimo astral.

Ele deixou "Codinome beija-flor" de fora, para decepção de algumas fãs. Até gosto muito da música do Cazuza (com Ezequiel Neves e Reinaldo Arias), mas sinceramente não fez falta para mim. Luiz Melodia preferiu apresentar uma música nova, "A cura", e mostrar uma de seu pai, Oswaldo Melodia, que agora não me recordo o nome. Ambas muito boas.

Neste domingo, dia 13 de outubro, houve quem escolhesse o Maracanã para ver o meu Flamengo perder para o Botafogo, outros foram à Apoteose encarar o peso pesado do Black Sabbath, mas preferi o Luiz Melodia. E posso dizer sem medo de errar: foi a melhor escolha para mim. Em todos os sentidos!


Vídeo: show gravado pelo programa "Talentos", da TV Câmara
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quinta-feira, 26 de setembro de 2013

GASOLINA NO INCÊNDIO 14

Com "Gasolina no Incêndio" pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis. A décima-quarta questão-provocação é a seguinte:

Comprar drogas no morro é financiar o tráfico, e pagar os escorchantes impostos que nos cobram os governos municipal, estadual e federal sem nos dar retorno em Saúde, Educação e Transporte Público é financiar a corrupção oficial.

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sexta-feira, 6 de setembro de 2013

ROGER WATERS SETENTÃO

Roger Waters jovem
Falar de Roger Waters, que hoje completa 70 anos de idade, é falar de Pink Floyd, para mim o mais importante grupo de rock de todos os tempos. É tão importante pessoalmente que repito aqui o que já escrevi anteriormente: se fosse condenado a ouvir apenas um artista da música para o resto da minha vida não hesitaria em escolher a banda que Mr. Waters liderou do fim dos anos 60 até 1983. Escrever sobre ele e o Floyd me faz voltar a meados dos anos 70, quando eu ouvi pela primeira vez o antológico "The Dark Side of the Moon", na casa de um vizinho. Todas as sextas-feiras, como esta, eu e meu irmão subíamos ao 404 do prédio onde morávamos no Grajaú, para juntamente com esse colega, sua irmã e uma amiga dela ouvirmos esse disco, um do Elton John que não me recordo agora, jogar War e ver As Panteras. Não necessariamente nesta ordem, muito menos separadamente.

Demorei muitos anos para me tocar qual disco misterioso, com sons amedrontadores e fantásticos, de capa preta com um "triângulo" desenhado, ouvia lá pelos meus 8, 9 ou 10 anos. E percebi que foi ali que toda minha admiração por Waters, David Gilmour, o saudoso Richard Wright e Nick Mason começara. Nunca os vi juntos ao vivo, mas tive a feliz oportunidade de me emocionar muito com duas apresentações do aniversariante deste dia 6, que trouxe ao Rio versões completas de dois álbuns históricos: o próprio "Dark Side of the Moon", em 2007, na Apoteose, com músicas de outros excelentes discos, como o "Animals", e da sua carreira solo, e um show dilacerante em março do ano passado de "The Wall", que, pelo que dizem hoje as autoridades cariocas, poderia ter posto o Engenhão abaixo.

Roger Waters, com seu baixo, em ação num show

Veja também:

Vida longa, muito longa, a este gênio da música!

Vídeo: show completo de "Dark Side of the Moon Live Tour", na Argentina, em 2007.

Para quem não sabe, Roger Waters é criador das músicas da ópera "Ça Ira", sobre a Revolução Francesa, já apresentada no Brasil (quem quiser assistir é só clicar aqui). Já ouvi, mas só verei em breve.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

FILIPE CATTO ENTRE CABELOS, OLHOS, FURACÕES

Pode a máfia internacional do jabá estender seus tentáculos de polvo faminto e impor nas rádios e TVs seus ídolos fabricados para durar pouco mais de algumas quinzenas. Pode os tecnocratas da indústria do entretenimento, em parceria com essa máfia, continuarem a pôr o lucro à frente da criatividade, como bem conta André Midani em seu livro "Música, ídolos e poder. Do vinil ao download". Pode o mercado ser hostil e estrebuchar furioso, pois nem assim vai conseguir impedir que o verdadeiro artista chegue ao seu público e dure na sua memória e em seu coração, passando de geração em geração. Mas para isso, ensina o mesmo Midani na autobiografia, o ser criativo terá de pôr as mãos na criatura ao mesmo tempo fascinante e amedrontadora aos seus olhos: a grana. E, assim, reverter a ordem das prioridades: criatividade primeiro, lucro depois.

Creio plenamente que Filipe Catto esteja fazendo seu dever de casa direitinho. Um imenso talento para cantar e compor ele tem de sobra e tem tudo para eternizar seu nome na História da música brasileira. E, mesmo sem ser tão badalado como alguns apadrinhados (ou, principalmente, algumas apadrinhadas) dos velhos coronéis da nossa música, está conquistando o seu merecido espaço, que - queiram ou não - será ilimitado.



A primeira vez que soube dele foi por intermédio de um grande amigo, e quando ouvi "Roupa do Corpo" achei que se tratasse de um samba antigo, embora a letra fale na primeira pessoa de uma mulher que foge de casa. Fiquei extremamente surpreso e feliz quando pesquisei e soube que Filipe Catto era o autor. Agora, no meu aniversário, ganhei o DVD "Entre Cabelos, Olhos & Furacões" de uma pessoa muitíssimo especial para mim e pude atestar o que já vinha pescando em alguns vídeos no youtube: interpretações inteligentíssimas, com uma sensibilidade diferenciada para tornar sua uma música de outro brilhante compositor, como é o caso de "Ave de Prata", de Zé Ramalho, e que deu nome ao primeiro disco de Elba Ramalho (1979). Para completar, uma banda muito bem entrosada e arranjos muito inspirados e inspiradores.

Vida longa a este grande artista!



Foto de Ricky Scaff.
Vídeos: "Roupa do corpo", de e com Felipe Catto; e "Ave de prata" (Zé Ramalho), com Felipe Catto no programa Ensaio, da TV Cultura.
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