segunda-feira, 29 de outubro de 2018

NOVENTA MILHÕES EM AÇÃO

Jair disse durante sua campanha, quando ainda não havia levado a facada, que governaria para a maioria, e que a minoria se adequasse ou fosse embora do país. Ame-o ou deixe-o revisitado. Ontem, ele foi eleito com quase 58 milhões de votos, no entanto, aproximadamente 90 milhões dos mais diversos matizes políticos e ideológicos não o escolheram. Aí entram os votos ao candidato do PT mais os em branco, nulos e abstenções. Portanto, espero que estes números mostrem a Jair que, embora repudiado por suas posições extremistas em defesa de práticas hediondas, como a tortura, ele se repense e se retrate.

É fato que o presidente agora eleito amenizou o seu discurso após o atentado. Porém, ainda não foi veemente para condenar psicopatas e sociopatas saídos das fossas mais putrefatas desta Nação, que em seu nome já vem há semanas usando violentamente suas mãos e bocas imundas contra gays, negros e os mais diversos oposicionistas. A se orientar pelas falas do então candidato, tudo o que discorda dele é vermelho, portanto deve ser banido do país. Noventa milhões estarão na alça de mira desses covardes até que Jair seja contundente contra tudo o que de mais repugnante já defendeu publicamente, sem qualquer pudor. Jesus, ídolo de Jair, disse "amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei", mas Jair leu "armai-vos e vos armei".

Humildade é palavra que não caracteriza nenhum dos dois lados deste níquel gasto posto em jogo no segundo turno das eleições presidenciais. E é bom também que o lado perdedor saiba que não lidera nada, pois certamente grande parte dos votos que recebeu (o meu, inclusive) foi dado por quem não exalta, não admira, nem relativiza, tampouco releva torturas, fuzilamentos, deportações e não por acreditar no projeto de poder que, no fim das contas, permitiu o crescimento do adversário vitorioso. Muitos, mas muitos mesmo, que votaram em Haddad não confiam em Lula, eu inclusive. Sendo bem otimista, será muito difícil (para não dizer impossível) unir o país com Jair, como seria com o PT. Por isso eu clamava por uma terceira via, qualquer uma, pois temia o pior. E o pior foi se configurando desde o fim do primeiro turno. Até que ontem aconteceu.

O cenário exposto é de que ao passar da meia-noite no dia 31 de dezembro próximo, o calendário brasileiro passará a marcar 1º de abril de 1964. Millor Fernandes já havia escrito, certa vez, que o Brasil tem um grande passado pela frente, mas prefiro acreditar, contra todos os meus mais profundos pensa-sentimentos pessimistas, que algo de muito bom possa sair daí. Já identifico ao menos duas boas notícias, embora a primeira me entristeça profundamente: máscaras caíram e meus valores essenciais foram reforçados nestas eleições. 

Não tolero a tortura, nem fuzilamentos, nem condenações sem direito de defesa, tampouco injustiças e que alguém seja proclamado detentor da verdade absoluta, seja por si ou por seguidores fanáticos abobados. Não retiro meio milímetro desses pilares que procuro dia a dia construir para mim. Como disse Ulisses Guimarães, há 30 anos: "Eu tenho nojo da ditadura". Qualquer que seja ela.

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segunda-feira, 24 de setembro de 2018

ENCANTAMENTO, FANATISMO, CEGUEIRA

Siga você qualquer outra corrente política ou nenhuma, é preciso que se admita: é impressionante o nível de encantamento e fanatismo com que os correligionários defendem seus ídolos. Como se sentem afetados, ofendidos, à menor crítica ao seu respectivo líder, como se fosse direcionada a eles próprios, à mãe, a um filho ou filha. O inferno é o outro, bem dizia Sartre. Somente o outro, responsável único e exclusivamente por todos os males que sofrem.

Para o triunfo da verdade que - obviamente - habita apenas um lado, é preciso exterminar o inimigo, aquele ser abjeto que se opõe do outro lado desse Vácuo de Idéias. Vejo quase uma torrente da rodrigueana baba elástica bovina quando fotos e vídeos mostram a massa embevecida olhando para cima, com olhar fixo brilhante em direção ao Ser Superior que os guiará para uma Nova-Velha Era ou Velha-Nova Ordem. Espelho.

Mitos se misturam à realidade para tentar explicar o - aparentemente - inexplicável. Mas vez por outra são manipulados para inexplicar o explicável. Quando associados a deuses ou semideuses, são muito sedutores, irresistíveis, e se tornam irrepreensíveis, sem um único defeito aos olhos dos súditos, a iluminar as estradas sombrias da vida. Ai de quem ouse pôr uma vírgula que seja contrária ao rumo traçado pelo guia, pelo semideus. A massa cega segue o que lhe for ditado. "Papai, posso ir? Quantos passos?". Não, não é brincadeira.

O crime de pensamento está na ordem do dia. Historiadores já nos mostraram - e nos mostram constantemente - inúmeros exemplos similares e onde foram parar aqueles ídolos e povos. Porém, por aqui, um já mandou que se esqueçam os historiadores e outro jamais teve qualquer apreço pelas salas de aula e os livros. Ambos, como personagens reais oriundos da ficção orwelliana, desejando avidamente reescrever a História com o prestimoso auxílio luxuoso de seus fiéis seguidores.


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segunda-feira, 23 de julho de 2018

PENSO, LOGO SINTO 34

A saída não é pela direita, nem pela esquerda, muito menos pelo centro. A única saída possível é pela elevação do espírito público, com a união dos que agem com honestidade e competência e têm como meta a Justiça social.

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terça-feira, 19 de junho de 2018

JOGADA DE MÚSICA NO IMMuB

Desde que comecei a pesquisar as músicas que contam, cantam e tocam a História do futebol brasileiro, antes mesmo de o projeto ganhar o nome Jogada de Música, sugerido pelo jornalista, radialista e escritor Alexandre Araújo, o Instituto Memória Musical Brasileira (IMMuB) foi fundamental para o meu trabalho. Foi por intermédio de João e Luiza Carino, por exemplo, que consegui o áudio da primeira música sobre o esporte gravada no Brasil, chamada "Foot-ball", de Francisco de Oliveira Lima. Este ano, o projeto e o IMMuB começaram a conversar nos bastidores e uma parceria foi firmada para em muito breve apresentar grandes novidades.

E foi no dia que tive o imenso prazer de ir à sede do Instituto, em Niterói, que fui convidado a escrever um texto como colunista convidado sobre músicas que falam de futebol. Aceitei de pronto e o primeiro já foi ao ar, no último sábado. No total serão três, e os próximos sairão nos sábados seguintes: 23 e 30 de junho. Conto com o prestígio de todos. É só clicar aqui.

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quinta-feira, 14 de junho de 2018

ESTÁ NO AR "LAMAS NA ÁREA"

Embora jamais tenha sido um jornalista que ousasse aparecer em frente às câmeras, resolvi adotar um lema de Nelson Rodrigues: "Jamais tenha medo de ser ridículo". Ou seja, não seja ridículo de temer o ridículo. Não creio que chegue a tanto, mas posso escorregar aqui ou ali no "Lamas na Área". E é isso que dá graça ao espetáculo, não ter receio de errar. Como já aprendi muito, mas muito mesmo, com as derrotas da vida, agora quero decretar que chegou a minha hora de aprender com as vitórias, mesmo que sejam magrinhas. A primeira foi vencer minha timidez. E, para mim, particularmente, é uma goleada consagradora. 
Portanto, o programa "Lamas na Área" estreou ontem no meu canal do YouTube, seguiu com o segundo vídeo hoje e terá um episódio por dia até 15 de julho, data da final da Copa do Mundo da Rússia. Minha ideia é tentar fugir um pouco dos mesmos comentários de sempre. Não sei se vou conseguir, mas vou tentar. E conto com a ajuda de quem acompanhar com comentários, críticas e sugestões. 
Não fui convidado, mas vim mesmo assim. Conto com sua audiência. 
O endereço? Clique aqui.


Acima, o vídeo e estreia.

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quarta-feira, 4 de abril de 2018

DA BICICLETA DE CRISTIANO RONALDO AO BAILA COMIGO DE MENDONÇA

Foto: Divulgação/Real Madrid
Ao ver pela TV a torcida da Juventus aplaudindo Cristiano Ronaldo após o antológico gol de bicicleta que marcou em Turim, logo me veio à memória um episódio que muito pouca gente sabe ou lembra, mas do qual fui participante e testemunha ocular e auditiva. Quando Mendonça marcou aquele golaço no Flamengo em 1981, gol que ficou conhecido como Baila Comigo, por ser nome de música e novela de muito sucesso na época e pelo drible desconcertante em Júnior, muitos flamenguistas, inclusive eu e meu pai, aplaudimos. Foi o gol que decretou a vitória de 3 a 1 e a classificação alvinegra, que já viria com um empate, para a semifinal do Campeonato Brasileiro daquele ano. Um amigo flamenguista, ao receber a postagem que enviei com esta história pelo whatsapp, me contou que também ele aplaudiu o golaço de Mendonça e que viu e ouviu o mesmo que eu naquele dia.

Foto: Roberto Oliveira (copiada do
Globoesporte.com: http://goo.gl/DEyJSX)
Todas as (poucas) vezes em que contei esta história os botafoguenses que a leram ou ouviram se surpreenderam, claro. E não só porque muitos acham que na torcida rival só tem mal-educado e ladrão, mas também porque na hora todos deviam estar pulando, berrando, chorando e se abraçando com amigos e desconhecidos, muito justamente, aliás. Além disso, a TV não mostrou e, que eu saiba, as rádios e os jornais nada noticiaram sobre os aplausos rubro-negros.

Um dos surpresos foi o próprio Mendonça, que tive a chance de entrevistar algumas vezes na época em que foi convidado pelo então recém-empossado Bebeto de Freitas para ser técnico dos juniores do Botafogo (2003). Como correu em direção à torcida alvinegra para comemorar o golaço que fez, ele não teria como saber, diferentemente de Cristiano Ronaldo, que gentilmente agradeceu aos torcedores da Velha Senhora (Vecchia Signora), como é conhecida a Juve na Itália.

Ingresso da minha coleção
Quando pensei em escrever este texto, e depois conversando com amigos, muitas perguntas me vieram à cabeça. Por exemplo: dá para imaginar hoje em dia cenas como estas duas citadas acima em clássicos de torcida única nas arenas deste país? Dá para imaginar algo deste tipo com o ódio corroendo todos os setores da vida brasileira? E dá para imaginar um futebol como aquele que o Real Madrid de Cristiano Ronaldo jogou em Turim em nossos campos atualmente?

Infelizmente, após ter se evaporado pouco a pouco por anos e anos, a gentileza, a humildade e a educação que algum dia muitos de nós tivemos estão se esvaindo na velocidade da luz nas últimas décadas. E o futebol-arte parece mesmo que não nos pertence mais.



Veja também:
Alguns jogos que faço questão de recordar 2
O meia-armador virou desarmador (texto de 1990)
Futebol brasileiro x seleção brasileira

sábado, 10 de março de 2018

JOGADA DE MÚSICA PENETRA EM MAIS UMA GRANDE ÁREA

No ar desde o dia 1º de fevereiro, a coluna Jogada de Música do site do Pop Bola é renovada a cada quinta-feira, falando das músicas que contam, cantam e tocam a História do futebol brasileiro. O mais recente texto, com links, vídeos e áudios, é "O musical Clássico dos Milhões".  A coluna é uma extensão do quadro semanal de mesmo nome apresentado todas as terças-feiras no programa da Rádio Globo RJ Zona Mista, comandado pelo pessoal do Pop Bola

O quadro na Rádio Globo e a coluna no site do Pop Bola são apenas os dois primeiros passes de primeira do projeto Jogada de Música, que tem uma sede (fan page) no Facebook. Em tabelinha com parceiros de categoria, em breve serão feitos outros lançamentos nas grandes áreas culturais, artísticas e de comunicação e entretenimento, sempre em busca de gols e mais gols, num verdadeiro show de bola. Curta esta Jogada!

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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

EM MEIO À BARBÁRIE, O AMOR

Este texto é um canto de louvor aos abnegados e comprometidos, embora não deixe de falar indiretamente dos vaidosos e gananciosos, apenas para contrapor. Porém, o que se pretende aqui é destacar o amor, jamais o ódio, apesar do imã que ultimamente tem nos atraído em muitas ocasiões para este sentimento tão corrosivo. Em cada parede do velho hospital vi uma placa com uma relação de nomes de políticos, em vez de médicos(as), enfermeiros(as) e funcionários(as). Mas é a estes que quero agradecer e louvar.
Numa cidade, num estado calamitoso, num país, onde se têm cultivado tanto rancor, tanta ira e, ao mesmo tempo, tanta indiferença, ainda se vê o cuidado, a solidadriedade, o altruísmo, o sorriso, o amor pelo outro, mesmo desconhecido. Como já escrevi inúmeras vezes, creio em vocação, não somente em profissão. Uma deve apenas abrir o caminho para a outra, pois quando não há conjunção, somos apenas seres existentes, sobreviventes, empurrando com a barriga a nossa vida e a alheia. Para onde? De nenhum lugar para lugar nenhum.
Escrevo apenas para dizer muito obrigado ao pessoal que trabalha no Hospital Souza Aguiar e dizer que as placas em toda a cidade deveriam exaltar o nome de cada um deles e de tantos outros que passaram por lá (e por tantas outras instituições públicas de saúde). Enfrentar diariamente com dedicação incansável uma rotina pesada e com tantos problemas de estrutura e verba não é para qualquer um. Só a vocação explica tanta doação. Muito obrigado mais uma vez!

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Que me diz você?
Mãe exalta o amor em "Filho de mil homens"
A memória viva de Mandela

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

ODE AO FUTEBOL-ARTE

Não se deve subestimar de maneira alguma aqueles que conseguem inscrever seus nomes numa lista de vitoriosos, mesmo sem brilhantismo ou destaque especial. Mesmo que venha a ser apenas um nome em meio a tantos outros que muito poucos se lembrem com o passar do tempo. Aos vencedores de justas batalhas jamais se negam as honras.

Lorant, Buzansky, Hidegkuti, Kocsis, Zakarias, Czibor, Bozsic e Budai;
Lantos, Puskas e Grosics
Porém, muito menos se deve menosprezar aqueles que, mesmo fora de uma relação de campeões, ou somente excluídos de alguma lista especialmente valorizada, fazem parte de um seleto grupo que tem a sua História contada e recontada, geração após geração, incansavelmente, sempre com emoção.

Neeskens, Krol, Van Hanegen, Jansen, Suurbier, Rep, Rijsbergen, Resenbrink, Haan, Jongbloed e Cruyff
Todas as minhas homenagens aos húngaros de 54, os holandeses de 74 e os brasileiros de 82. E também a todos os craques dos gramados que, por qualquer razão, não conseguiram conquistar títulos de grande expressão, mas que levavam milhares de fãs aos estádios para assisti-los jogar.



Veja também:
Futebol-Arte: Os Maiores Jogos de Todos os Tempos 2
O meia-armador virou desarmador (texto de 1990)
O teatro e o futebol

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

NEO-FEMINISMO, O MACHISMO NO ESPELHO (RETROVISOR), OU TODO PODER QUE EMANA ABUNDA

Não sei o que é melhor,
em tempos de medrosa
e hipócrita correção,
se me expresso e me arrisco
ou me calo.
Mas não resisto,
então insisto,
pois este papo
já foi até o talo:
mulher tá usando a bunda
como se fosse falo.

Podem travestir
o vulgar com pele sensual,
transformar toda ação
em marketing político,
sócio-cultural.
Até mesmo confundir
paquera com abuso,
enquanto boçais
abusam com ou sem paquera.
Podem, nesta cínica Era,
chamar de empoderamento
ou de neo-feminismo,
pois que pra mim
não passa de reflexo
no espelho do machismo.

Ilustração retirada do site Eye 2 Magazine

Veja também:
Versos do avesso
Uma noite no Rio

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

CRÔNICA QUE NASCEU NO BOTECO TACO

Acabo de saber pela coluna Gente Boa, do jornal O Globo, que o tradicional Boteco Taco, no Humaitá, Zona Sul do Rio de Janeiro, engrossou a lista de estabelecimentos comerciais fechados na combalida cidade em que nasci e (ainda) moro. Como era bastante previsível, o legado olímpico e da Copa das Copas deixado por Cabral filho e sua gangue realmente é devastador. Ao ler a nota no site do jornal, lembrei-me de uma crônica fantasiosa, ou melhor, uma "croniqueta", que escrevi no fim dos anos 90 após uma noitada no Boteco Taco com amigos que trabalharam comigo justamente naquela empresa jornalística. Este será mais um local a freqüentar minha memória afetiva, juntamente com o Maracanã, o Jornal dos Sports, o Manoel e Juaquim da Mem de Sá, os muitos cinemas de rua que frequentei na chamada Grande Tijuca e até mesmo o antigo estádio do América, o Volnei Braune. Então, fica o texto (um dos primeiros publicados neste blog e retirado posteriormente) para relembrá-lo.

Croniqueta da madrugada readmitida

Talvez esse sonho não tenha meio nem fim. Como um salto imaginário num imenso vazio. Dormir muitas vezes pode ser um suicídio provisório, uma fuga efêmera de retorno ainda mais rápido que o caminho de ida. E foi numa dessas madrugadas, cada vez menos freqüentadas por mim, que reconheci por dentro a floresta urbana. A madrugada fora redmitida.
Um lugar irreal, sem músicos, mas animado por uma grande caixa musical. Garçons desdentados e descalços serviam as mesas com suas rudes delicadezas. O pequeno grande artista, e seus namoradinhos de ocasião circulava, sem deferências especiais.
A cinderela alviverde brilhante banhava-se com seu amante carcamano em cascatas de cerveja. Depois cansava-se da brincadeira e, frente a um espelho, lavava seus cabelos com copos de água mineral , tal qual uma sereia do asfalto. Ao lado, dois casais de meninos e meninas se revezavam na dança de rostos colados, corpos suados, roçados, tudo em sorrisos sinceros e sedutores.
Aqui, onde eu estava, como tudo na vida é um jogo – mesmo quando imaginária –, dois rapazes disputavam a vez de dançar com a dama. E, embalados por palmas ritmadas, faziam uma disputa leal, pois no fim todos se cumprimentaram e se despediram. Exatamente quando a nossa música finalmente tocou.
Saí de lá pensando o quanto seria bela a vida se sempre fosse assim. Mal dormi, pois logo estaria de pé para enfrentar o extremo oposto da vida dessa imensa selva urbana. À noite cometi meu suicídio provisório para tentar voltar àquele lugar mágico ou outro qualquer. Tudo em vão: a rotina recomeçara.

Nota de esclarecimento: no Boteco Taco, os garçons não eram desdentados e descalços, foi apenas um delírio da minha imaginação. Como no texto não citei o local, fiquei à vontade para escrever o que quisesse, sem denegrir a imagem de ninguém.

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domingo, 17 de dezembro de 2017

FUTEBOLICES DE FIM DE ANO

Cristiano Ronaldo, o segundo melhor do Mundial; Modric,
o melhor, e Urretaviscaya (Pachuca), o terceiro. Foto: EFE
O Real Madrid não fez o menor esforço para ganhar a final do Mundial Interclubes contra o apenas esforçado Grêmio. O placar de 1 a 0 é mentiroso. Podia ter sido 3 ou 4 como jogou - ou treinou - o time espanhol. Se o Real jogasse mesmo para valer, enfiaria uns 7, apesar da boa defesa gremista, o que demonstra o nível baixíssimo do futebol praticado nos gramados brasileiros e da América do Sul atualmente.
O Grêmio tem um goleiro (Grohe) e um zagueiro (Geromel) excelentes, um bom lateral (Cortez), um promissor atacante (Luan) e uma promessa de craque (Arthur), que está machucado e nem foi para os Emirados Árabes. Na decisão, Grohe esteve um pouco abaixo de suas atuações, mas não foi de todo mal (seria falha feia se entrasse a bola do croata Modric - aliás, um monstro de jogador, o Duende!).  Geromel atuou muito bem mais uma vez; mas Cortez, de boca seca, mal conseguindo dominar a bola muitas vezes, e Luan, tropeçando nas próprias pernas, sentiram o jogo, respeitaram demais o adversário e nada fizeram. O resto é de medíocre para baixo, com destaque negativo para Lucas Barrios, que além de tudo abriu a barreira no gol. É o campeão da América, imagine o resto.
Pois é, o resto. Na quarta-feira passada, o Flamengo se tornou vice da Série B da América do Sul, a chamada Copa Sul-Americana, fazendo vergonha mais fora do que dentro de campo, onde perdeu mais uma vez um título para o Independiente do excelente Barco, que já está içando velas para os Estados Unidos (por que se esconder lá?). No gramado, pelo menos houve esforço, algo que rareou na temporada medíocre do caro, mas apenas medíocre, elenco rubro-negro. A destacar, em 2017, os garotos, especialmente Lucas Paquetá, e o goleiro César, formado nas divisões de base rubro-negras há mais tempo. César assumiu o gol do Flamengo num momento muito difícil, sem ritmo de jogo, mas mesmo assim deu conta do recado. Reinaldo Rueda agora terá tempo para montar um time, pois em 2017 não se viu organização em campo com a camisa carioca de listras vermelha e preta (nem com a branca, muito menos com a feiosa amarela). 
Fora de campo, uma quantidade bastante expressiva de torcedores do clube da Gávea mostrou que desta vez não dá para dizer que eles não representam a grande massa da Nação. A quantidade de rubro-negros praticando as violências mais absurdas dentro e fora do Maracanã ficou longe de ser pequena. O Flamengo merece uma punição exemplar da Conmebol, tradicionalmente frouxa e parcial (quase sempre a favor de times de países de língua espanhola). Não será nada injusto se o time rubro-negro for eliminado da Taça Libertadores da América de 2018. Nada injusto.

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terça-feira, 28 de novembro de 2017

PENSO, LOGO SINTO 33

O Brasil entre duas mãos: a da ganância perversa que toma não mais tão discretamente quanto outrora e a do coitadismo, que afaga a cabeça de quem só quer receber sem qualquer esforço ou merecimento. Vamos prestar atenção aos discursos dos dois lados. Ambos não prestam.

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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

QUESTÃO EM QUESTÃO 7

Quando, afinal, será fundada a República (res publica) no Brasil? Desde 15 de novembro de 1889 até hoje ela só foi afundada em causas próprias. Seus afundadores desde então levam tudo quanto possível (e até o que parece impossível) da vida pública para a privada. O regime "propinocrático" foi instaurado para facilitar os trâmites ilegais e até para tornar legais os mais absurdos atos espúrios. Quarta-feira vem só mais um feriado para nos distrair.



Veja também:
Questão Em Questão 6

sábado, 7 de outubro de 2017

MÚSICA E FUTEBOL, O BRASIL NO PRIMEIRO MUNDO

Lima e Denílson, em pé. Garrincha, Pelé
e Ivair. Foto retirada do site Terceiro Tempo.
Muitas e muitas e muitas vezes, no auge da revolta e da indignação com a bandidagem e o baixíssimo nível de nossos políticos, responsabilizei o povo brasileiro por este mal que não cessa. Não totalmente desprovido de razão, ainda penso assim. Afinal, os que estão no poder não caíram do céu, vieram desta sociedade cada vez mais doente em que (sobre)vivemos. Porém, também infinitas vezes brequei tão usais frases - mesmo que só em pensamento - como "temos um povinho de merda" e suas muitas variações. 

Abre parênteses: curioso e sintomático falarmos ou escrevermos sempre na terceira pessoa, nunca na primeira. "O inferno são os outros", já bem dizia Sartre. Fecha. 

Sempre que me confrontei para estancar a minha ira, o que trazia ao meu pensamento era o tanto de maravilhoso que emerge deste mesmo povo sofrido, mas não coitado, responsável também por tudo o que de ruim ocorre. Deixemos de paternalismos, de uma vez por todas. Abre e fecha parênteses novamente.

O flamenguista João Nogueira e o tricolor Cartola,
no projeto Pixinguinha, em 1977
Entre o melhor que temos, a nossa música e o nosso futebol são certamente o que de mais lindo oferecemos ao mundo, além das inegáveis e tão decantadas belezas naturais, algo que nunca nos competiu construir, mas destruir, sem dúvida, infelizmente. Claro que não me refiro a quase tudo o que tem feito sucesso nas mídias, nem ao que tem sido apresentado em nossos gramados nos últimos anos. Mas é indiscutível que a música brasileira, com toda a sua variedade de estilos e ritmos, neste misto de simplicidade com sofisticação e de inventividade com técnica, adjetivos que bem podem se juntar ao nosso futebol, está no topo do que de melhor já se fez - e se faz ainda - no Universo. Nos campos, fomos - e espero ainda sermos - responsáveis, especialmente em 1958 e 70, por elevar o futebol ao patamar de Arte, como bem definiu o historiador britânico Eric Hobsbawn ao escrever sobre a seleção do tri.


Mesmo o espírito destrutivo de alguns compatriotas, os 7 a 1 para a Alemanha e o sucesso internacional dos ruídos mais submersos feitos por aqui ultimamente não serão capazes de rebaixar a nossa verdadeira Música e o nosso mais genuíno Futebol. Nestes dois temas - e mais em uns dois ou três, não mais - o Brasil pertence ao Primeiro Mundo. E foi da tabelinha preciosa destes dois riquíssimos aspectos de nossa vida cultural que surgiu Jogada de Música, projeto que hoje está no rádio, mas que em breve estará em outros campos.

Acredito que valorizar o que temos de melhor é a única forma de tirarmos este país do atoleiro em que todos nós o pusemos. Portanto, mãos à obra!



Vídeos: "Só se não for brasileiro nessa hora" (Galvão/Moraes Moreira), com Novos Baianos, e "Aqui é o país do futebol" (Milton Nascimento/Fernando Brant), com Wilson Simonal.

Veja também:
Músicas que nos fazem viajar 2
Jogada de Música está de volta
Futebol brasileiro x seleção brasileira

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O ROUBO DA TAÇA JULES RIMET NO JOGADA DE MÚSICA

Em episódio que reuniu, além da música e do futebol, literatura e cinema, o roubo da Taça Jules Rimet foi o tema principal do quadro Jogada de Música no dia 30 de abril, ainda no programa Panorama Esportivo do Pop Bola, da Rádio Globo Rio. Cheguei ao escritor Henrique Pongetti e seu conto publicado no livro "Inverno em Biquíni" que previu com pelo menos 19 anos de antecedência o roubo da Jules Rimet (ocorrido em 1983), por um livro que ganhei de presente no meu oitavo aniversário (20/7/74): "Futebol tem cada uma", de Armando M. Marques. Uma descoberta entre muitas neste trabalho que realizo desde o fim de 2015 sobre as músicas que contam, cantam e tocam a História do futebol brasileiro. 

Em breve, postarei no meu canal do YouTube os vídeos, com pesquisa de imagens e edição de Lucas Neiva, dos outros dois episódios da primeira fase do quadro e os que já foram ao ar no programa Zona Mista, apresentado por Alexandre Araújo e os demais integrantes do Pop Bola. Às terças, entre 18h e 20h (de 19h às 20h na internet), você ouve o Jogada de Música na Rádio Globo. Marque na agenda.

Além do rádio, é objetivo do projeto Jogada de Música estar nas TVs (série e documentário), nos cinemas, nos teatros e casas de espetáculos. Só para começo de conversa, pois as possibilidades são muitas. As empresas interessadas em financiar este trabalho, que começou comigo, mas que tem parceiros totalmente engajados nele, são muito bem-vindas. Faça esta grande Jogada de Música com a gente! Entre em contato pelo email: emquestao.el@gmail.com. Crise é esperar a bola no pé.


Veja também:
Jogada de Música está na área
A premonição literária de um crime no futebol

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

PENSO, LOGO SINTO 32

A Guerra Fria acabou? Capitalistas ainda querem nos livrar de comunistas. Comunistas continuam desejando nos livrar de capitalistas. Quem nos livra de tão estreita visão de mundo, da vida?

Veja também:
Penso, logo sinto 18
A questão em questão 3
Gasolina no incêndio 13
Estilhaços 4

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

O FLA-FLU NO JOGADA DE MÚSICA

O último episódio do quadro Jogada de Música apresentado no extinto programa da Rádio Globo Panorama Esportivo do Pop Bola teve como tema o Fla-Flu, no dia 7 de maio, poucas horas após a decisão do Campeonato Carioca deste ano. No vídeo abaixo, com pesquisa de imagens e edição de Lucas Neiva, você poderá ouvir histórias e músicas sobre este grande clássico do futebol.

Na última terça-feira o quadro reestreou na mesma Rádio Globo, no programa Zona Mista, apresentado pelo pessoal do Pop Bola, tendo Garrincha e o surgimento do "olé" no futebol como tema. Na próxima quarta (6/9) - excepcionalmente, pois na terça haverá a transmissão de Colômbia x Brasil pelas eliminatórias da Copa 2018 -, outro gênio será lembrado com as músicas feitas em sua homenagem. Não perca!



Veja também:
Alguns jogos que faço questão de recordar 2
Um Fla-Flu e um herói quase esquecidos no tempo

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

JOGADA DE MÚSICA ESTÁ DE VOLTA

Nesta terça-feira, dia 29, a História do futebol brasileiro voltará a ser cantada e tocada na Rádio Globo. Depois de fazer parte do extinto programa Panorama Esportivo do Pop Bola, entre 29 de janeiro e 7 de maio deste ano, o Jogada de Música retorna em grande estilo, desta vez no Zona Mista, novamente com o pessoal do Pop Bola. Neste primeiro episódio de retorno do quadro, que será apresentado sempre às terças, músicas em homenagem a um dos maiores gênios do futebol de todos os tempos e como surgiu uma expressão que todo torcedor adora gritar nos estádios. O programa vai ao ar de segunda à sexta, das 18h às 20h. Para ouvir a Rádio Globo: http://radioglobo.globo.com/# .

Jogada de Música é fruto de um trabalho de pesquisa que realizo desde o fim de 2015 sobre a História do futebol brasileiro e as músicas que ajudam a contá-la. Além desta volta ao rádio, em breve haverá muitas novidades sobre este projeto, que tem muita coisa para contar, cantar e tocar, de primeira. Aguarde!

Veja também:
Jogada de Música está na área
Futebol-Arte: os maiores jogos de todos os tempos 11
Garrincha, 77

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

ZICO CANTA DE GALO NO JOGADA DE MÚSICA

Zico comemora um de seus gols contra a Nova Zelândia na Copa de 82

No último 5 de março, dois dias após o seu aniversário de 64 anos, Zico foi o tema do Jogada de Música, quadro que foi ao ar entre 29 de janeiro e 30 de abril deste ano no extinto programa da Rádio Globo Panorama Esportivo do Pop Bola

O Galinho de Quintino é um dos jogadores brasileiros mais lembrados pelos compositores brasileiros, muitos deles do primeiro time da MPB. Não só foi homenageado em músicas inteiras, como fizeram Jorge Benjor, Moraes Moreira, Alexandre Pires e Carlinhos Vergueiro, como é citado em algumas delas, como em composições da dupla João Bosco e Aldir Blanc e de Erasmo Carlos.

Veja também:


Ouça no vídeo abaixo (ou no YouTube), curtindo a seleção de imagens e a edição feitas por Lucas Neiva. Este foi o terceiro episódio da série e começa com um gol histórico de Zico, narrado pelo saudoso Jorge Curi. Divirta-se!







Veja também:
"Uma coisa jogada com música" no Museu da Pelada
Templos e espetáculos
Setenta vezes Maracanã
Uma estreia muito feliz no Museu da Pelada


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terça-feira, 8 de agosto de 2017

TOSTÃO, MILTON E KID MORENGUEIRA NO JOGADA DE MÚSICA

No ar de 29 de janeiro a 30 de abril deste ano, o Jogada de Música foi um quadro do extinto programa da Rádio Globo do Rio de Janeiro Panorama Esportivo do Pop Bola. No segundo episódio, que foi ao ar no dia 19 de fevereiro, Tostão, Milton Nascimento e Moreira da Silva fizeram uma triangulação perfeita. 

Com edição do vídeo e pesquisa de fotos de Lucas Neiva, você pode ver e ouvir abaixo o quadro ou no meu canal do YouTube. A produção é de Alexandre Araújo e a narração, de Alexandre Tavares.

O projeto Jogada de Música é fruto de um trabalho de pesquisa que realizo desde o fim de 2015 sobre a História do futebol brasileiro e as músicas que ajudam a contá-la, cantá-la e tocá-la, de primeira. Em breve, haverá muitas novidades sobre este projeto que une duas das maiores paixões nacionais: o futebol e a música.

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Correção: Tostão sofreu um descolamento (e não deslocamento) de retina.


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domingo, 9 de julho de 2017

A SÍNDROME DO FUTEBOL

"O outro é seu espelho", retirado deste site:
https://www.o-curador.com/
No auge da minha vida como torcedor, naqueles anos em que minha paixão pelo futebol foi mais latente, entre os 7, 8 até 21, 22 anos, havia algo que me incomodava um pouco toda vez que vibrava muito com uma grande vitória ou conquista do meu time. Ficava e continuava alegre, mas dentro de mim havia um vácuo que, creio até ter identificado em alguns daqueles momentos, embora tenha deixado de lado com o passar do tempo. Trabalhei dentro do futebol como jornalista a partir do início dos anos 90 até 2013, com poucas interrupções. E conhecendo melhor tudo o que move este esporte que virou um grande (e muitas vezes escuso) negócio - justamente porque move paixões exacerbadas -, e observando bem colegas, amigos, conhecidos e até desconhecidos, fui tomando maior consciência do que significava aquele vazio em mim nos grandes momentos de glória do meu time: eu não havia conquistado nada.

Esta talvez seja a grande questão que faz das torcidas de futebol ao mesmo tempo um espetáculo lindo e também um cenário de horror pior que as piores selvagerias coletivas. O torcedor de futebol raramente é um apaixonado por futebol. E muitas vezes nem é apaixonado pelo seu time. Explico melhor um corriqueiro caso específico: a pessoa tem um time desde criança, porque seus amigos também têm, e passa algumas vezes boa parte da infância e até da adolescência sem dar muita atenção àquilo. Porém, quando as frustrações da vida adulta começam a bater à sua porta, passam a lhe corroer as entranhas, quando percebe que o tempo está passando e ele pouco se realiza, ou nada preenche o enorme vazio que construiu para a sua vida, agarra-se àquela ilusão infantilóide e perversa de que o time de futebol vai redimir tudo aquilo que ele não realizou e não faz para alcançar.

Vi isso muitas vezes não só nos estádios de futebol, nas mesas de bar, até mesmo nas redações em que trabalhei, e recentemente nas redes sociais, mas também nas peladas que joguei e deixei de jogar justamente porque queria me divertir e não mais disputar uma "final de Copa do Mundo" - sonho que já havia deixado para trás nos tempos em que vivia o tal auge como torcedor. É complexo lidar com uma massa de olhos vendados por uma ilusão a preencher vazios existenciais. E muito rentável também. Muito, mas para poucos. Isso só gera desilusão, frustração, e a violência advém daí, porque este tipo de torcedor, o que se agarra à superação de seus rancores por intermédio das vitórias e conquistas de seu clube não pretende só ser feliz com a felicidade que pensa ter, porque ela é insuficiente, afinal uma ilusão no fim das contas nada preenche. Ele quer ser feliz com a infelicidade do outro, do adversário, do rival, que na sua cabeça doentia é um inimigo. E busca no seu ódio por si mesmo provocar, xingar, ofender e agredir fisicamente o outro, aquele que veste a camisa "inimiga". Destilada a sua ira no espancamento, tiro, uso de arma branca ou fogos de artifício, o ato final, ele ainda crê em sua redenção. É a demência brutal e perversa alimentando a estupidez, a ignorância, a crueldade.

Sempre fui apaixonado por futebol - e continuo sendo, embora muito decepcionado com o nível técnico dos times brasileiros nas últimas décadas. E mais ainda com o show de horrores que esses pseudo-torcedores vêm protagonizando dentro e fora dos estádios já há muitos anos. Sempre assistia com prazer a jogos dos mais variados times e campeonatos do Brasil nos meus áureos tempos de torcedor. Acompanhei e vibrei muito com muito do que vi nos estádios e pela TV ou ouvi pelo rádio, um companheiro inseparável naqueles tempos. No entanto, havia o tal vácuo e tomei consciência dele. Há tempos, ele não existe mais, porque percebi que tenho de preencher meus vazios existenciais com minhas conquistas pessoais e fazer com que elas - na medida do possível - ajudem outras pessoas a se sentirem assim também. E não falo de sucesso profissional apenas, mas em todos os campos. E isso é uma busca incessante, que não acaba, só com a morte - ou talvez nem com ela, se significar um renascimento. Fico alegre com as vitórias e conquistas do meu time, sim - bem raras ultimamente, diga-se -, mas não faço disso a minha vida. Não mais.

Umberto Eco disse que a internet deu voz aos idiotas. Só que as arquibancadas dos estádios de futebol já haviam feito isso há muitas décadas. E as cenas medonhas se repetem a cada rodada, seja na primeira ou na última divisão.


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O meia-armador virou desarmador
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Das peladas de rua às arenas
O teatro e o futebol
Futebol-arte: os maiores jogos de todos os tempos 4

quinta-feira, 6 de julho de 2017

ESTILHAÇOS 17

Atordoado com dias tão surpreendentemente iguais em suas pequenas diversidades - e adversidades -, passados veloz-lentamente como se fossem aviões, andorinhas ou pardais, sem qualquer boa novidade para receber ou contar, eu me recolho ao pasmado passado espremido em minha mente sombria e em meu peito, apertado. E só aí me dou conta de dias atrás, mas num instante agora, que minha única saída é voltar aonde nunca estive e sempre apreciei tanto. Agora, mesmo que seja depois. Mas tem de ser agora. Agora quando?

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Estilhaços


quinta-feira, 29 de junho de 2017

ARIANO SUASSUNA E A GUITARRA

Foto da revista Veja
Após assistir na internet ao programa Conversa com Bial do último dia 16, quando o apresentador da TV Globo fez uma homenagem aos 90 anos de nascimento de Ariano Suassuna, entrevistando o diretor de TV e cinema Guel Arraes, o diretor e ator Luiz Carlos Vasconcelos e o jornalista Gerson Camarotti, é que me dei conta de que o grande intelectual e artista pernambucano nascido na Paraíba seria o único a ter autoridade para fazer uma marcha contra a guitarra. Seria a passeata de um homem só (mas muito poderoso, no bom sentido da palavra). Pela sua conduta de vida inteira, só ele não pareceria ridículo, como o jornalista e compositor Sergio Cabral admitiu ter sido em entrevista, anos depois.

Abre parênteses: para quem não sabe, no dia 17 de julho de 1967 - portanto em plena ditadura militar -, artistas e intelectuais resolveram protestar contra a guitarra elétrica numa passeata pelas ruas de São Paulo. Muitos dos artistas que lá estiveram depois passaram a usar e a abusar do instrumento em suas músicas, reconhecendo de alguma forma o seu erro. Gilberto Gil, inclusive, foi acompanhado pelos Mutantes em outubro daquele mesmo ano no histórico Festival da TV Record para defender "Domingo no Parque". O movimento foi liderado por artistas que admiro muito: Elis Regina, Jair Rodrigues, Zé Keti, Geraldo Vandré, Edu Lobo, MPB-4 e o próprio Gil, que muitos anos depois confessou que só foi à passeata por estar cego de paixão por Elis. O principal slogan da turma era "Defender o que é nosso". Lúcida, Nara Leão chegou a comentar com Caetano Veloso que aquele protesto parecia uma manifestação integralista. Ambos, obviamente, ficaram fora. Fecha.

Foto: Wilman /UH /Folhapress
Como já escrevi várias vezes, não concordava com a aversão de Ariano à guitarra e à música pop estrangeira. Porém, ele ainda é fundamental para a defesa da cultura popular brasileira e seus argumentos e ações sempre foram coerentes e muito fortes neste sentido. Por mais paradoxal que possa parecer, mesmo discordando dele neste aspecto, continuarei defendendo a ampla divulgação de sua posição, pois ela barra de alguma forma o extremismo oposto, bastante nocivo, pois reflete a progressão geométrica da aculturação do povo brasileiro ao longo dos últimos 40, 50 anos. E também seguirei defendendo que as peças de Ariano sejam encenadas semanalmente em todas as grandes praças do país.

Claudio Venturini. Crédito na foto
Ainda sobre o assunto guitarra elétrica: no sábado passado assisti ao show do 14 Bis com participação de Beto Guedes e de Sergio Hinds, ex-guitarrista de O Terço, e posso afirmar sem medo de errar que Claudio Venturini já é um dos maiores guitarristas brasileiros de todos os tempos. Antes que algum gato mestre (e como há "master cat" por aí!) torça os bigodes, sugiro que assistam ao mineiro em ação.

Enquanto isso, soube hoje que nos Estados Unidos a venda de guitarras caiu 30%. No Brasil não se tem notícia, mas creio que com a crise econômica (bem diminuta em relação à moral e política) tenha havido uma queda também. Porém, gostaria que a garotada, além da guitarra e outros instrumentos elétricos e eletrônicos, abrisse seus ouvidos, mente e coração para violinos, violoncelos, oboés, clarinetes, rabecas, viola sertaneja, bandolins...

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Ariano Suassuna é eterno

domingo, 11 de junho de 2017

PENSO, LOGO SINTO 30

É árdua, dolorosa, porém imprescindível, a tarefa de tornar as pequenas vitórias do dia-a-dia maiores do que as gigantescas e dilacerantes derrotas da vida.
Ilustração copiada deste link: http://andersonalsan.blogspot.com.br/2014/04/rosa-no-deserto.html
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Estilhaços 11
Penso, logo sinto 14
Gasolina no incêndio 11
Esquizofrenia

terça-feira, 9 de maio de 2017

PENSO, LOGO SINTO 29

A saída para a Humanidade não está à direita, nem à esquerda, tampouco ao centro. Todas estas portas foram trancafiadas, emperradas pela ação do tempo. A única solução para o ser humano é elevar-se, despindo-se completamente de seus ódios, suas mágoas, seus ressentimentos, suas mesquinharias e as certezas absolutas.


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