Aqui você encontra, em essência, trabalhos do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva sobre os mais variados temas. Obrigado pela visita, volte sempre.
Nada pior para um escritor do que o período de seca. Ainda mais quando se alonga. Mesmo que idéias não faltem, elas teimam em não se transformar em palavras, frases, versos, ficam flutuando como nuvens brancas escondendo o sol sem ser sinal de chuva, se remexem dentro da cabeça, do corpo, ainda em gestação, sem estar no tempo de ganhar vida plena, esperando o momento certo de descer, fluir, nascer.
Há muitos anos parei de me sentar em frente a uma folha em branco com vontade de escrever e lançando no papel (naquela época escrevia com caneta ou à máquina) o que me viesse à cabeça. Quase sempre saía sem verdade, superficial, sem verve. Por isso, passei a respeitar meu tempo. Mesmo assim é uma enorme agonia passar por essa entressafra.
Vídeo: "Amor de índio" (Beto Guedes/Ronaldo Bastos), com Beto Guedes
SUÉCIA 2 X 5 BRASIL - FINAL DA COPA DO MUNDO DE 1958
Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar;
Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagallo e Mário Américo (massagista)
Este ano aproveitei o que de melhor a internet pode oferecer para rever alguns jogos de futebol memoráveis no Youtube. Por conta própria, revi na íntegra duas partidas emblemáticas dos meus tempos de torcedor de arquibancada: Flamengo 0 x 1 Peñarol, fase semifinal da Libertadores de 1982, uma derrota até então inexplicável pra mim, e a vitória que mais me emocionou no Maracanã: Flamengo 6 x 0 Botafogo, em 1981. A trabalho, voltei ao doloroso dia 5/7/1982 para rever Brasil 2 x 3 Itália para escrever um texto sobre aquela partida para a Revista História Viva. Corrigi falhas da minha memória e confirmei algumas impressões que haviam ficado desde então. Porém, hoje resolvi assistir a um jogo que jamais havia visto e na época em que foi realizado seria impossível, pois só nasci 8 anos depois: a final da Copa do Mundo de 1958.
Na TV já tinha visto incontáveis vezes os gols de Brasil 5 x 2 Suécia e uma ou outra jogada além e só. Todos sempre pela mesma câmera. A noção que tinha do quinto gol, marcado por Pelé, de cabeça, no finzinho da partida, era muito limitada e isso me foi confirmado hoje. Além disso, aquela jogada em que Garrincha dá uma bronca (ou finge dar) em alguém, toca de calcanhar para Djalma Santos, que levanta a bola e devolve para o ponta com extrema categoria, sempre esteve em minha memória como um lance do ataque brasileiro, mas foi realizada na saída de bola da defesa, soube hoje.
Vavá completa jogada de Garrincha para fazer o 1º gol do Brasil
Exaltar o que vem sendo decantado há 56 anos não faz o menor sentido. O que fez sentido para mim foi me surpreender com um chute espetacular de Pelé de fora da área, logo após o Brasil ter empatado o jogo, e a bola explodir na trave direita de Svensson; conhecer a qualidade de alguns jogadores da Suécia, como o ponta Hamrin e o meia Gren; me arrepiar com a obra-prima do jovem iniciante Pelé no terceiro gol, e ainda saber que houve dois pênaltis para o Brasil - um em Garrincha e outro em Vavá - na segunda etapa e ambos não terem sido assinalados pelo árbitro (que no lance de Garrincha marcou falta fora da área).
A seleção brasileira começou mal a partida, mas pôs os nervos no lugar e melhorou após levar o primeiro gol. Foi subindo de produção após empatar, fez por merecer a virada no marcador com dois gols muito semelhantes e na etapa final dominou inteiramente o adversário, vencendo com certa facilidade, com jogadas e gols espetaculares que a torcida da casa soube reconhecer e enaltecer.
Vavá, Orlando, Pelé, Gilmar e Didi comemoram o título
Num ano em que o futebol brasileiro atingiu o seu mais baixo nível, não só pelos vergonhosos 7 a 1 da Alemanha, mas pela indigência técnica e tática que seus jogadores vêm apresentando nos mais diversos gramados do país - já de muito tempo, aliás, com raríssimas exceções -, foi muito bom ter me recordado que já tivemos o melhor e mais bonito futebol do planeta.
SUÉCIA 2 X 5 BRASIL
Data: 29/06/1958 Competição: Copa do Mundo - final Local: Estádio Rassunda (Solna) - Estocolmo Árbitro: Maurice Alexandre Guigue (França) Times
SUÉCIA: Svensson; Bergmark, Axbom, Börjesson e Parling; Gustavsson, Gren e Simonsson; Hamrin, Liedholm e Skoglund. Técnico: Georges Raynor.
BRASIL: Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito, Didi, Pelé e Zagallo; Garrincha e Vavá. Técnico: Vicente Feola. Gols: Liedholm, aos 4, Vavá, aos 9 e 32 minutos do primeiro tempo; Pelé, aos 10 e aos 45, Zagallo, aos 23, Simonsson, aos 35 do segundo tempo.
Não perca a chance de ver a partida com narração do grande Jorge Cury e Oswaldo Moreira (cada um narrando o ataque de um time), comentários de Guilherme Sibemberg e comando nos estúdios do Rio de Janeiro de Antonio Cordeiro. O áudio é sueco no início do vídeo e entre os 25 e os 42 minutos da primeira etapa, devido a um problema técnico na transmissão da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Assista abaixo:
Já ouvi o CD mais de dez vezes e pensei outras tantas se deveria
publicar aqui um texto para exaltar um trabalho no qual tenho envolvimento
direto, por ser sócio da empresa que agencia, produz e assessora o autor. No entanto, não costumo fugir daquilo que
creio profundamente, então, taí, não me furtarei de escrever sobre “Além do
princípio do prazer”, álbum recém-lançado pelo cantor, guitarrista, violonista e compositor Pedro Sá Moraes, pela Delira Música. Não é trabalho para ouvidos
viciados, mas para os que buscam sempre algo novo e raro e para despertar aqueles que andam meio acomodados resmungando pelos cantos, revoltados com a
mediocridade – mais que isso, com o baixíssimo nível – que TVs e rádios vêm
apresentando dia-a-dia ao público.
Nas nove músicas do intenso e instigante trabalho de Pedro há uma infinidade de sons e ruídos que nos trazem imagens
variadas (algumas de humor, inclusive), belas melodias e quebras súbitas de ritmos que causarão
estranheza. E é isso mesmo, é para tirar o ouvinte do conforto de ligar o som e
deixar rolar enquanto vai se ocupando de outros afazeres. Pare tudo e o ouça com atenção. Com uma pegada roqueira, Pedro passeia por pop eletrônico, sob a
batuta de Ivo Senra, mas não abandona suas raízes, que nasceram no samba da multifacetada Lapa. Estão lá marcha ("Não quer que o mundo mude"), bossa (na única com letra em inglês, "Salmo 23") e vários
ritmos nordestinos, oriundos da Península Ibérica, via mouros, da África, e amalgamados
aqui mesmo nesta terra tão rica e ultimamente tão maltratada musicalmente.
Ele reprocessa tudo isso em seu caldeirão e, qual um bruxo, lança no ar poesias
e poesias de primeira grandeza por intermédio de seu vozeirão de grande cantor
que é.
Aqui vale ressaltar a qualidade das letras (verdadeiras poesias) e, nesse caso, além do próprio Pedro, é preciso citar seus parceiros Thiago Amud (nas excelentes “Alarido” e “O olho da pedra”) e Thiago Thiago de Melo (autor da brasileiríssima “Não é Água”), seus companheiros de Coletivo Chama, e João Cavalcanti (“A hora da estrela”) e Thomas Saboga (“Ela vertigem”, outra belíssima). O melhor é que ao vivo (pude constatar no Solar de Botafogo, no dia 4/12)as músicas ficam ainda melhores, especialmente pela ótima presença de palco de Pedro e também - é preciso louvar - o já citado Ivo Senra, pilotando seus teclados de mil sons, inclusive o baixo, e o grande baterista Lúcio Vieira.
Quem se interessar em ouvir as músicas de “Além do princípio do prazer”, antes de se decidir a comprar o CD (capa acima), é só clicar aqui.
Como diz a letra de “Alarido”: “você vai escutar apesar e através, com maior
lucidez pra separar bom, de dor; banal, de bom; tom, de cor, de som...”
Fui ao quarto da minha filha
desligar a televisão quando vi a imagem de um palco escuro e logo em seguida o
conhecido rosto sorridente do ator Juca de Oliveira, já num cenário bem claro.
Resolvi escutá-lo, e ao comentar sobre a peça Rei Lear, que encena como monólogo no Rio, ele disse
algo que é de uma obviedade rodrigueana (aquela que quase ninguém enxerga): “Até o
mais miserável dos mendigos tem o desejo de algo supérfluo para se reconhecer
como humano. Se ele apenas supre suas necessidades básicas, não sai da condição
de animal”. Lançou esta e completou com uma clara intenção política que quero
eliminar daqui para me ater apenas à questão filosófica: “Marx não deve ter
lido Shakespeare”.
Certo que o desejo para o ser
humano (“a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”) tendo
essa magnitude que Juca expressou por intermédio do bardo inglês passa a ser
também uma necessidade. E passando a ser mais importante que tudo, repetidamente, significa
vício. Certo também que o ser humano tendo somente
as suas necessidades básicas satisfeitas, passa a abanar o rabo e a seguir seu
dono. Não é difícil imaginar como os tiranos de todas as correntes ideológicas
dominaram - e dominam - seus povos, direcionando seus desejos (o supérfluo citado pelo ator) aos seus objetivos mais funestos.
É uma equação até fácil de se
resolver, me parece, se assemelha mesmo a uma lógica matemática. O líder supre o básico de
seus comandados e, como sabe que eles depois de algum tempo não se contentarão
só com o que lhes é oferecido, pois se entediarão, inventa um inimigo, um medo
a ser vencido, uma guerra. E assim rastejaria a Humanidade não fossem os
rebeldes, os pensadores, os sonhadores, os contestadores corajosos para pensar,
sentir e agir com independência. Aqueles que pensam por si próprios, sem se
deixar levar por ondas.
São eles que tiram a Humanidade da letargia, são
eles que fazem o outro se levantar da cadeira com os olhos brilhando a enxergar
um novo e amplo mundo à sua frente, com milhões de possibilidades. É ele, o
poeta de todas as artes e ofícios (o artista no sentido mais amplo da palavra,
abarcando todas as áreas do conhecimento), a verdadeira antena da raça, se
assim Ezra Pound me permite citá-lo.
Ilustração: "Rei Lear e o bobo na tempestade", de William Dyce (1806-1864) Vídeo: "Comida" (Arnaldo Antunes/ Sérgio Brito/ Marcelo Fromer), com Titãs
Veja também: Fábrica de ídolos A midiotização A mídia bizarra
Começo esta nova série aqui no blog com "Selva Amazônica", música de Egberto Gismonti que me paralisou desde a primeira audição, em meados dos anos 90. Esta longa música instrumental, tocada pelo mestre num violão de 8 cordas (e mais voz, surdo e cooking bells), abre o CD "Solo", gravado em 1978, e tem me feito ao longo desses quase 20 anos, todas as vezes que a ouço, viajar não só pra selva - ou pra selvas - mas ao Norte e Nordeste do país que posso dizer praticamente desconheço (só estive em Salvador e Jauá, na Bahia, por duas semanas entre o fim de 2005 e o início de 2006). No CD, "Selva Amazônica" é tocada junto com Pau Rolou, cantada por Egberto, mas em outra versão que aqui apresento, é "só" ela mesmo, em apresentação ao vivo em Berlim com outro mestre, Naná Vasconcelos, que certamente estará aqui em breve.
O CD Solo achei numa loja de discos que não existe mais há muitos anos, na Avenida Amaral Peixoto, em Niterói. Estava na época à procura de um CD do Egberto há muito tempo, e foi este que inaugurou a pequena coleção do multi-instrumentista brasileiro que juntei a partir de então (mais 4 ou 5). Nem preciso dizer que gosto muito deste disco, que todo ele é espetacular, mas "Selva Amazônica/Pau Rolou" é que me capturou de vez. Prepare-se, siga as setas abaixo. Ótima viagem.
Vídeos: o primeiro é a gravação original do CD Solo com belas fotos de Luciano Daini e o segundo é uma gravação de uma apresentação ao vivo de Egberto Gismonti com Naná Vasconcelos, em Berlim, postado no YouTube por Mateus Talles.
Com o amor ao próximo tão fora de moda é realmente uma felicidade ler um livro que o eleva ao patamar do qual jamais deveria deixar: o da máxima grandeza. Em seu "O filho de mil homens" (Cosac & Naify), o escritor Valter Hugo Mãe, nascido em Angola, mas que vive em Portugal desde a infância, proporciona aos anacrônicos, sonhadores, utópicos ou ingênuos voltarem a acreditar que o sentimento que nos torna além-humanos ainda está vivo, mesmo que numa ficção. Porém, como já escrevi algumas vezes há mais verdades nas ficções do que no noticiário do dia-a-dia, é mais que uma esperança, bate uma certeza de que os tempos, eles mudarão.
Com notória influência de José Saramago e Gabriel García Márquez, Mãe tece seus personagens individualmente, com ternura, para ir entrelaçando-os ao longo da trama, numa narrativa envolvente, acolhedora, embora a dor, a discriminação, a ignorância, a intolerância, a ganância estejam bem presentes para nos mostrar em contraponto a beleza dos opostos - ou do oposto - disso tudo. Com o pescador Crisóstomo à frente de todos, como um condutor do mais nobre sentimento, Mãe faz jus ao sobrenome e exalta o amor maior, o verdadeiro e gigantesco e puro amor em tempos de egoísmos extremos, em plena Era do Cinismo.
Desesperançar-se e esperançar-se,
eis a mola-mestra da vida. Terminei de ler o contundente livro-reportagem “Holocausto
Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex, e vi mais uma vez como a raça humana
é capaz das mais abjetas ações – e omissões – e das mais sublimes também. Mesmo
tendo a plena consciência de que convive em mim (e em todos os seres humanos) o
que há de pior e de melhor, não me vejo capaz de fazer nem de perto o que foi
feito com as pessoas que foram internadas no antigo Colônia, manicômio da cidade mineira de Barbacena.
Nem sendo
um dos muitos responsáveis diretamente pelas 60 mil mortes ocorridas naquele
verdadeiro campo de concentração utilizado das mais diversas formas para
degradar e reduzir a zero a condição humana (mesmo após a morte, com o lucro da venda de
corpos para universidades das mais diversas partes do país). Nem enfrentando aquilo tudo com tamanha coragem, abnegação e amor para salvar alguém
daquele inferno.
Daniela Arbex
Espero estar errado quanto a isto, sei que muitas vezes nos superamos, e é a partir da autocrítica, do autoconhecimento, que crescemos nas horas certas. Porém, de sã consciência, neste momento, não consigo me ver nem mesmo no lado que defenderei sempre com tanta coragem, abnegação e amor ao próximo. Não é culpa (cristã ou não) que jogo sobre meus ombros, apenas uma reflexão para tentar me entender. E crescer.
Nem como jornalista, minha profissão por 25 anos
(de 1988 a 2013), creio que teria sido capaz de produzir uma reportagem tão
completa e corajosa. Daniela passou a ser para mim uma referência tardia da
profissão que deixei para trás. Antes dela muitos outros denunciaram o que
ocorria no Colônia, localizado numa cidade com a qual tenho uma ligação
familiar e por onde passei quando criança com meu falecido pai, que lá viveu quando garoto antes de vir para o Rio. Estão todos no livro, grandes homens e grandiosas mulheres.
O livro não
recomendo a qualquer um ler, nem sequer observar o vasto material fotográfico
de Luiz Alfredo, produzido em 1961, quando trabalhava na revista "O Cruzeiro". Somente àqueles dispostos a se defrontar e
encarar de frente o quanto de desumano – e também de divino – a nossa raça
encarna.