Aqui você encontra, em essência, trabalhos do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva sobre os mais variados temas. Obrigado pela visita, volte sempre.
Esta poesia foi escrita há cerca de 20 anos e, infelizmente, parece ainda mais atual hoje do que naquela época. Eu vivia ainda no estado do Rio de Janeiro, onde já não moro mais desde junho de 2019, mas onde vou com alguma frequência, agora espero que bem mais por estar bem menos distante. "Crônica da cidade" faz parte de uma série de poesias que escrevi nos primeiros anos deste século, retratando as contradições cariocas, como já bem descrita pela Fernanda Abreu como o "purgatório da beleza e do caos".
Ilustração gerada pela plataforma de inteligência artificial One Image
Esta poesia trouxe-me um elogio, que guardo desde aqueles tempos, do saudoso escritor e jornalista Fausto Wolff. Poucos meses após a minha segunda (e menos) curta passagem pelo Jornal do Brasil, no segundo semestre de 2006, resolvi enviá-la por email ao Fausto, então colunista do JB, por entender que ela ilustrava bem o que ele havia escrito num dos seus textos publicados no jornal (em papel ainda naquele tempo). Creio que ele tenha entendido que minha pretensão era de que ele a publicasse em sua coluna e não foi por isso que lhe escrevi. No entanto, o mais importante é que ele gostou e me respondeu (em 23 de abril de 2007):
"Parabéns, Eduardo, teu poema é muito bom mas minha coluna não é o local para publicá-lo. Faço isso apenas extemporaneamente quando o assunto é jornalístico e atual. De qualquer forma quando publicar sua carta mencionarei o poema. Um abraço do amigo Fausto Wolff".
Aqui abaixo vai a poesia inteira, ainda inédita em livros:
CRÔNICA DA CIDADE
(Eduardo Lamas Neiva)
Cinturões
carregados e
cinturas despidas são
o prenúncio do
rito e ritmo do baile tomando
conta da cidade que
brilha nas trevas de
baixo acima de
cima abaixo
Explode
o repique interminável de
canos metálicos e
caixas de som O
hino marcial da
cidade sitiada retumba
ensurdecedor e
inicia sua peregrinação ecoando
por valas e vielas cheias
de corpos roliços, esquálidos,
esguios e estirados numa
dança libidinosa e cruel
Dedos
repetem movimentos para
atirar ou seduzir Corpos
suados e surrados encharcam
fardas, bermudas, sainhas,
shortinhos, coxas e quadris E
o cheiro de pólvora e sexo dobra
as esquinas, chega
aos becos sem saída
Os
gritos são de guerra em
quadras e quarteirões emoções
pulverizadas, esfumaçadas tornam
olhos cintilantes em
olhares enevoados
A
noite será longa com
preces e rezas para
todo tipo de santo e
satanás afinal
o inferno aqui fica
a dois passos do paraíso
Euforia
e depressão alimentadas
pelos cristais em
barracos, “apês”, coberturas, flats
e mansões Brilho
e breu Ferocidade
e languidez se
alternam e se mesclam na
noite de fúria e som.
"Dona IAIÁ" continua sendo minha única parceira musical e não tenho do que reclamar. Dela. Paciência. Até porque os resultados de uma forma geral têm me agradado. "Crônica da cidade", então, também foi enviada ao Suno para que os algoritmos musicassem seus versos, e pedi uma mistura de funk carioca, rap paulista e repente nordestino. Não foi bem isso que veio de volta, mas eu gostei e aqui vai abaixo, com um vídeo que editei a partir de imagens que pedi para a One Image produzir para mim, baseados nas estrofes da poesia.
E aí, o que você achou, qual é a sua opinião? Eu gostaria muito de saber, agradecendo desde já a sua visita ao blog. Volte sempre e, se puder, traga mais gente.
Didi na Copa do Mundo de 58. Foto sem crédito encontrada na internet e melhorada com auxílio da IA
Após “Camisa Molhada” ser bastante apreciada pelo público, a
camisa amarela, novo uniforme da seleção brasileira, voltou ser o assunto no
bar “Além da Imaginação”.
Idiota da Objetividade: - Em 1953 houve um concurso
promovido pelo jornal carioca “Correio da Manhã” para se escolher o novo
uniforme da seleção brasileira. O gaúcho Aldyr Garcia Schlee, então com 19
anos, derrotou mais de 200 candidatos, com sua criação: a camisa canarinho.
Garçom: - Com sorte ou não, foi com a camisa
canarinho que conquistamos o penta.
Idiota da Objetividade: - Um ano antes do concurso, a
seleção brasileira havia conquistado, já sob o comando do técnico Zezé Moreira,
o seu primeiro título fora do nosso território: o Campeonato Pan-Americano de1952, no Chile. O título foi conquistado de forma invicta, com vitórias sobre o
México, por 2 a 0; Panamá, por 5 a 0; Uruguai, por 4 a 2, e Chile, por 3 a 0; e
apenas um empate, sem gols, no segundo jogo, contra o Peru. Na vitória sobre o
time da casa, Ademir Menezes fez dois gols, e Pinga, o outro.
Ceguinho Torcedor: - Mas o primeiro título mundial, que
nos arrancou das entranhas o complexo de vira-latas, veio em 58, na Suécia.
Músico: - Seu Ceguinho e demais senhores desta mesa tão qualificada, aproveitando
o tema iniciado, peço permissão para interrompê-los, por favor. Tem música muito
mais famosa sobre aquela conquista de 58, mas gostaria de tocar aqui no piano
pra vocês uma composição do grande Altamiro Carrilho, que foi gravada naquele
mesmo ano pelo pianista José Luciano. Chama-se “Os canarinhos venceram”.
Gostariam de ouvir?
Ceguinho Torcedor: - O escrete naquele jogo contra o
Peru não exprimiu, nem de longe, nem por aproximação, o futebol brasileiro. O
que houve foram alguns lampejos individuais fulgurantíssimos, como o gol do Didi, as arrancadas de Garrincha e a compacta bravura de Bellini. Mas o futebol
não vive de iluminações pessoais e tivemos de melhorar muito até conquistar a
taça na Suécia.
Garçom: - Didi deu a classificação para a
Copa e foi importantíssimo em 58.
Didi: - Obrigado!
Ceguinho Torcedor: - Sim, mas há poucos meses do
Mundial, Didi viveu um dilema: a Suécia ou Guiomar.
Garçom: - Sua esposa?
Didi: - Verdade. O Ceguinho pode contar a história.
Ceguinho Torcedor: - Obrigado. A CBD tomou uma
providência patética: baixou uma ordem impedindo que qualquer jogador levasse a
mulher à Suécia. Só um cego de nascença não via que se tratava de separar Didi
de Guiomar.
Didi: - É, cheguei inclusive a enviar uma
carta à CBD solicitando a dispensa da Copa, por causa da decisão da entidade.
João Sem Medo: - Didi fez questão de dizer o tempo
todo que ele pagaria as despesas da mulher. E ela não ficaria na concentração,
ora bolas!
Ceguinho Torcedor: - Ficaria fora da concentração,
apenas como torcedora de Didi e do Brasil.
Idiota da Objetividade: - Acabou que a dona Guiomar não foi
à Suécia.
Didi: - Uma pena,
não é meu amor?
D. Guiomar concorda com a cabeça.
Didi: - Até hoje não entendi aquela
perseguição a Guiomar?
Ceguinho Torcedor: - Existia contra ela um preconceito
militante, agressivo e eu quase diria internacional. Ela sempre tratou a todos
com uma cordialidade quase doce. Mas bastava que Didi fracassasse numa
folha-seca, ou desperdiçasse um pênalti, ou desse um passe errado, para que a
torcida a responsabilizasse.
Garçom: - Que isso!?
Ceguinho Torcedor: - Vejam vocês a ironia do futebol:
ela devia ser a responsável, por igual, pelos defeitos e os méritos de Didi.
Mas não. Se Didi falhava era Guiomar, se não falhava, era Didi. Ninguém admitia
que ela pudesse representar, no futebol do craque, um poderoso estímulo, um
incentivo total.
João Sem Medo: - Ele tantas vezes declarou à
imprensa o seu amor à mulher e sempre afirmou que era por ela que jogava. E o
mais importante é que ele foi à Copa e ajudou muito o Brasil a conquistar o
título.
Ceguinho Torcedor: - E como! O nosso Mister Football!
João Sem Medo: - Sim, foi como a imprensa internacional o apelidou na Copa
da Suécia.
Ceguinho Torcedor: - Com Moacir por trás de cada um dos
seus erros, como uma constante, ininterrupta ameaça, Didi, com seu nobre tipo
racial, como um príncipe etíope de rancho, enxergava longe e percebeu que não
podia se permitir o luxo de um cochilo.
Didi: - Não mesmo. Moacir foi um excelente jogador de meio de campo.
Idiota da Objetividade: - Moacir, meia do Flamengo, foi
titular da seleção nos dois últimos amistosos realizados no Brasil antes da
Copa de 58, nas vitórias de 4 a 0 e 3 a 1 sobre a Bulgária. No primeiro jogo,
realizado no Maracanã, Moacir fez dois gols. Depois Didi ganhou a vaga de
titular e foi eleito o melhor jogador do Mundial da Suécia, eleito pela Fifa.
Ceguinho Torcedor: - É, mas quase todo mundo gritou
contra Didi. Nos treinos da seleção foi vaiado quantas vezes? Conclusão:
amarrou a cara e seu comportamento, em todo o Mundial, foi esmagador. Não se
podia desejar mais de um homem, ou por outra, de um brasileiro. Ninguém que
jogasse com mais gana, mais garra e, sobretudo, mais seriedade. Nem sempre
marcava gols, mas era ele quem amaciava o caminho, quem desmontava as defesas
adversárias com seus lançamentos em profundidade. Com uma simples ginga de
corpo, liquidava o marcador. E nas horas em que os companheiros pareciam
aflitos, ele, com sua calma lúcida, prendia a bola e tratava de evitar o caos
possível. Nenhum escrete levanta um Campeonato do Mundo sem extraordinárias
qualidades morais. De nada adiantará o futebol se o homem não presta. O belo, o
comovente, o sensacional no triunfo de 58 está no seguinte: foi, antes de tudo,
o triunfo do homem.
Didi se levanta com Guiomar para abraçar Ceguinho Torcedor e
João Sem Medo e todos são aplaudidos pela plateia. Zé Ary aproveita para tomar
a palavra.
João Sem Medo: - Meu amigo Neném Prancha já dizia: “O Didi jogava bola com
quem chupa laranja, com muito carinho”.
Todos concordam e Didi, já de volta à sua mesa, se levanta novamente
para ser aplaudidíssimo por todo o público de pé. Parecia um estádio de
futebol, tamanha a ovação.
Didi: - Agradeço muito, de coração, a todos. Em especial pela defesa do
Ceguinho Torcedor e do João Sem Medo a mim e, claro, a minha amada Guiomar. Muito
obrigado.
Garçom:
-
Nós que agradecemos, seu Didi! Nós que agradecemos. Vamos ouvir aqui a narração
do gol de Didi contra a França na semifinal, quando o Brasil desempatou a
partida quando estava 1 a 1, na narração de Geraldo José de Almeida, na época
na Rádio Pan Americana, de São Paulo. E ver o golaço no telão!
A vibração é tão grande que parecia estar acontecendo naquele
momento. Zé Ary pede a palavra novamente.
Garçom:
- E
pra completar vamos ouvir “O nosso dia chegou”, de Alfredo Borba e OsvaldoRodrigues, que gravou a música. Quem quiser pode dançar à vontade. Vamos lá,
seu Didi, e dona Guiomar!