terça-feira, 4 de junho de 2013

PELAS RUAS DO MEU BAIRRO


Há certas coisas que são tão intensamente boas que parecem não existir - e as ruins também, mas não é delas que desejaria falar. Quando passeio pelas ruas do meu bairro há momentos em que nem sinto caminhar, perco-me nos pensamentos, nos sonhos de episódios acontecidos e imaginados, fico vendo e revendo a arquitetura única de sua natureza e de suas casas e prédios antigos.

Quantas vezes percorri as ruas desse vale perdido na escuridão de noites que quase me apagaram, esbarrando com fantasmas que me perseguiam sem tréguas. Quantas vezes vi a luz de seu céu aberto colorir as folhas das amendoeiras. Folhas verdes, folhas vermelhas, folhas amarelas, folhas marrons. Quantas pisei como se andasse num tapete mágico por essas hoje maltratadas calçadas, cheias de sulcos cada vez maiores, saliências inconvenientes, interferências malfeitas nos irregulares asfaltos.

Tendo à vista a onipresença fundamental da pedra imensa como uma guardiã divina, oro uma poesia que invento na minha caminhada para implorar que esta gigantesca santa preserve estas belezas da ganância imobiliária, dos sujismundos que insistem imaginar que é poesia ou pintura escrever garranchos ininteligíveis em seus muros, que é instalação artística grandes sacos pretos e azuis de lixo ou o cocô de seus cães nas calçadas. Preserve quem te preserva, não intacto, mas renovado, com o ar e o aroma frescos de tuas matas e o cantar de teus pássaros a cada fim de madrugada. 

Que esta oração imperfeita ajude a manter a poesia das ruas do meu bairro e meu olhar atento e carinhoso para elas. Por mais tempo que seja possível.


Foto: Eduardo Lamas (1) e Daniel Neiva (2)
Veja também: tudo o que foi publicado em junho de 2012

quinta-feira, 16 de maio de 2013

FUTEBOL, UMA METÁFORA DA VIDA

Um dos motivos que fazem o futebol ser fascinante é que, mais do que qualquer outro esporte, ele é uma metáfora da vida. As frases mais usadas por comentaristas, narradores, repórteres, dirigentes, jogadores, técnicos e torcedores para definirem uma situação de jogo, uma partida ou o próprio esporte servem para o cotidiano de todos nós. Se o futebol é uma caixinha de surpresa, a vida é algo diferente?

Qual torcedor nunca lamentou que seu time - ou algum amigo, por exemplo - tenha perdido tantas oportunidades que acabou sendo derrotado? É, quem não faz, leva. Quem não bobeou por ficar esperando a bola no pé (ou uma chance com uma menina ou um cara), em vez de ir em sua direção, e ver um rival  mais rápido e esperto ficar com ela? Quantas vezes um jogador ou time - pessoa ou família - foi desprezado e deu a volta por cima

Que partidas épicas - ou momentos grandiosos na vida de alguém - ocorreram quando um time (ou a própria vida) parecia acabado(a), mas conseguiu arrancar forças para uma virada espetacular? Quem nunca se enfureceu com sua equipe - amigo ou colega de trabalho - por ficar morcegando, sem se esforçar para ao menos cumprir seu papel? Ou mesmo por jogar - ou agir - burocraticamente?

Veja também: 


Quantas injustiças não vimos nos gramados e na vida? Quantas carreiras - e vidas - desperdiçadas por quem teve todas as chances do mundo? E quantos venceram mais pela persistência do que pelo talento? Quantas derrotas dolorosas nos trouxeram grandes aprendizados e quantas vitórias fáceis não nos estragaram? E que lição nos traz a frase "Quem tem medo de perder perde a vontade de vencer"!

No entanto, o grande problema é que a imensa maioria dos torcedores - especialmente os ditos "profissionais" - não usam em suas vidas o que exigem de jogadores, técnicos e dirigentes de seus times.
Vídeo: os gols de Brasil 2 x 3 Itália, pelas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1982, na Espanha. Imagens da TV Globo, narração de Luciano do Valle.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

JUSTÍSSIMA HOMENAGEM A CRISTINE CID

Daqui a uma semana, a Associação dos Amigos da Mama (Adama) prestará uma bela e mais que justa homenagem a uma mulher que dedicou seus precoces últimos anos de vida a esta ONG de Niterói, sua cidade natal. No ano em que se completam dez de sua despedida deste mundo, Cristine da Costa Cid (foto ao lado, de Sóter França Júnior) é lembrada para que aqueles que não tiveram a mesma sorte que nós, parentes e amigos, possam conhecer  quem ela foi e o que representou. No dia 24, às 10h, a Adama vai inaugurar seu reformado auditório, no Centro de Niterói, dando-lhe o nome de Espaço Cristine Cid.

Tive não só o privilégio de conviver com Cristine por 16 anos - iniciados há exatos 25, na tarde de 17 de abril de 1988 - como ter com ela meus três amados filhos, Lucas, Luísa e Daniel. Atriz, arterapeuta, professora, ela me ensinou tanto, tanto, que passaria minha vida inteira lembrando de passagens nossas e dela com outras pessoas que amava.

Difícil selecionar, mas faço questão de recordar algumas imagens que minha memória me devolve neste momento. Eu, "Stanley Kowalski", passando em casa com ela, "Blanche Dubois", o texto de "Dois perdidos numa noite suja" (Tennessee Williams) para a faculdade; grávida de Lucas no palco do Teatro da UFF, interpretando a Juíza na peça "Coquetel Molotv" (Alvaro Ramos); carregando nas ruas de terra de Rio do Ouro Lucas e Luísa no canguru de bebê para a UNI-RIO; dando o peito que perderia anos depois para amamentar a sobrinha Manuela; nervosa na primeira noite de agosto de 1994 por sentir pela primeira vez as contrações de um parto, no terceiro filho, Daniel; sorrindo muito, mesmo com tanta porrada que a vida lhe dava; dançando comigo, os irmãos, filhos, sobrinhos e cunhados numa animada festa de Ano Novo; orientando as senhoras da Adama nas peças que montava com elas ou na quadrilha das festas juninas; dirigindo Denize Nichols na peça que escrevi para ela, "Sentença de vida", até oito meses antes de partir...


Veja também:
Homenagem ao teatro
O quanto devo ao Centro de Artes UFF


Uma grande mulher igual a Cristine jamais deveria morrer, muito menos aos 33 anos de idade. Porém, ela teve de ir para cumprir sua missão no Mundo Espiritual e, assim, abriu-se a permissão aqui neste plano físico para que eu conhecesse quatro anos depois, namorasse e me casasse com Denise de Oliveira, também arteterapeuta e muito amada por mim. 

Creio que foi pensando na breve passagem de Cristine por este mundo que a Adama decidiu retribuir novamente todo o amor e a garra que ela lhe dedicou em tão pouco tempo: que seu nome fique como um imenso exemplo por muito mais tempo que todos nós que a conhecemos poderemos permanecer por aqui.

Veja também:
Música pra viagem: Réquiem
Trecho do ebook "Velhos conhecidos"


PS.: a poucos dias de se completar 20 anos da partida de Cristine, volto aqui (em 14/11/2023) para, além de reforçar minha eterna gratidão a ela, prestar também uma homenagem aos seus irmãos  Fernando, que chegou a publicar na época seu comentário aqui abaixo, e Marcos, ambos também já no Mundo Espiritual. Foram meus cunhados e amigos que também jamais esquecerei.

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #43

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