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domingo, 1 de maio de 2022
OLHARES ALHURES - FOTOS #92: ON THE ROAD
quarta-feira, 27 de abril de 2022
UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #13
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| Leônidas da Silva é carregado por uma multidão ao chegar a São Paulo, em 1942 |
Carmen Miranda deixou o palco mais uma vez muito aplaudida, Leônidas se despediu do Além da Imaginação à francesa e os 4 amigos retornaram à resenha, mantendo o Diamante Negro no comando do ataque.
João Sem Medo: - Meus amigos, mesmo campeão em 35
pelo Botafogo, depois de ter jogado no Vasco, Leônidas deixou o clube por causa
do racismo. E foi parar no Flamengo, onde foi campeão carioca em 39.
Garçom: - É verdade que o Flamengo começou
a ganhar mais torcida por causa dele? É o que ouvi falar.
João Sem Medo: - Depois da Copa de 38,
principalmente, Leônidas virou até garoto-propaganda de chocolate, cigarro...
Idiota da Objetividade: - Leônidas foi um dos homens mais
populares do Brasil na década de 40, dividindo as honras com Orlando Silva, o
Cantor das Multidões, e o presidente Getúlio Vargas, conhecido como o Pai dos
Pobres.
Veja também:
Sobrenatural de Almeida: - É, Leônidas ajudou o Flamengo a
se tornar popular, mas quando o São Paulo veio ao Rio com um caminhão de
dinheiro para contratá-lo, nenhuma viva alma rubro-negra foi se despedir do
ídolo na Central do Brasil. Isso foi assombroso.
Ceguinho Torcedor: - Mas na capital paulista foi
recebido por uma multidão de filme épico. Até o prefeito o carregou nos ombros.
Foi uma festa que parou a cidade.
Idiota da Objetividade: - Leônidas fez o São Paulo
conquistar cinco títulos paulistas na década de 40 e começar a rivalizar com
Palmeiras e Corinthians, formando o grande Trio de Ferro da Terra da Garoa. O
Homem-Borracha, como Leônidas era conhecido também, levou o São Paulo aos títulos
paulistas de 43, 45, 46, 48 e 49.
Garçom: - Tem uma música aqui que é perfeita pra ilustrar isso aí.
Zé Ary vai ao notebook do bar, ajeita as caixinhas e seleciona a faixa 5 do álbum "Coração de Cinco Pontas", de Hélio Ziskind.
Todos ouvem com atenção, muitos até aplaudem ao fim da
execução da música, apesar de o artista não estar presente ao local.
Ceguinho Torcedor: - Leônidas da Silva foi um gigante
do nosso futebol!
Garçom: - Fico curioso pra saber por que ele não defendeu a seleção brasileira
na Copa de 50?
João Sem Medo: - O técnico Flavio Costa tinha uns
problemas com ele, Zé Ary.
Idiota da Objetividade: - Leônidas da Silva acabou não sendo
convocado para a Copa do Mundo de 1950 pelo técnico Flavio Costa, porque
ambos tinham desavenças desde os tempos
de Flamengo. Muitos anos mais tarde, Flavio Costa admitiu ao jornalista Andre
Ribeiro, que escreveu uma biografia de Leônidas, ter errado ao não convocar o
Diamante Negro para o primeiro Mundial de Futebol realizado no Brasil. No ano
seguinte, em 1951, encerrou a carreira e foi treinador do São Paulo em 73
jogos.
Sobrenatural de Almeida: - É, mas ele mesmo disse que não se
deu bem como treinador, porque tinha um temperamento muito difícil.
Ceguinho Torcedor: - Isso é típico dos gigantes, daqueles que se entregam de
alma. E o que me importa são os atos, os sentimentos. É a alma que está em
questão.
Veja também:
Reinaldo, o Rei do Galo mineiro
Setenta anos do Canhotinha de Ouro
Idiota da Objetividade: - Posteriormente foi o primeiro
jogador a se tornar comentarista de futebol. O Diamante Negro foi um
comentarista de rádio dos mais laureados.
Os outros três: - Laureados, Idiota?
João Sem Medo: - Ele quis dizer premiados, um dos
comentaristas mais premiados.
Idiota da Objetividade: - Exatamente. E o hino do São Paulo,
embora composto por Porfírio da Paz em 1935, só foi oficializado em 42. Justo
quando Leônidas estava chegando por lá.
Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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domingo, 24 de abril de 2022
OLHARES ALHURES - FOTOS #91: O SOL SE VAI, A LUA VEM
quarta-feira, 20 de abril de 2022
UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #12
![]() |
| Leônidas com sua marca registrada, a bicicleta, em jogo do São Paulo, no Pacaembu, nos anos 40 |
Enquanto Jorge Goulart deixa o palco, depois de cantar o Hino
do Bonsucesso, o papo retorna, com o Diamante Negro na berlinda.
Sobrenatural de Almeida: - A bicicleta, lance que ajudou a
consagrar o Leônidas, teve a minha contribuição, claro.
Coro: - Claro!
Sobrenatural de Almeida: - Na primeira rodada do Campeonato Carioca de 1932,
mais precisamente no dia 24 de abril, resolvi ir ao antigo Campo da Estrada do
Norte, hoje Estádio Leônidas da Silva, ex-Teixeira de Castro, que é o nome da
rua onde fica o Bonsucesso Futebol Clube.
Ceguinho Torcedor: - Naquele dia eu estava nas
Laranjeiras e vi o Fluminense empatar com o Bangu, em 2 a 2.
Sobrenatural de Almeida: - Pois então, naquele mesmo dia, o Bonsuça recebia o
Carioca, time que fez muito sucesso no futebol de salão muitos anos depois, mas
que no campo era saco de pancadas. Já tinham me falado desse Leônidas e fui lá
pra ver se ele era aquilo tudo mesmo. Numa bola alta na área, o craque estava
de costas pro gol e de repente deu aquele salto inesperado e chutou, com o
corpo paralelo ao chão no ar. Uma coisa estranha daquela merecia o gol e dei
aquela ajudinha pra bola ganhar as redes. Foi o primeiro gol de bicicleta da
História.
João Sem Medo (rindo muito):
- Ainda bem que você achou estranho e não bonito. Se achasse bonito, era capaz
de desviar a bola pra fora.
Todos riem muito.
Veja também:
Idiota da Objetividade: - O paulista Petronilho de Brito
reivindicava pra ele a invenção da bicicleta no futebol. Chilenos, argentinos e
italianos também diziam que compatriotas seus é que teriam inventado a jogada.
Ceguinho Torcedor: - Bobagem, Idiota. Leônidas da
Silva mesmo nunca quis se vangloriar como inventor, mas como aquele que
difundiu a jogada. Ele, um craque brasileiro, é que mostrou a jogada pro mundo.
Eu vi! Ou melhor, eu senti e sei. O mundo todo sabe.
De repente, eis que de repente, entra no Além da Imgainação,
ele, o Diamante Negro.
Todos: - Leônidas!
É ovacionado e levado ao palco, com a imagem de um gol de bicicleta seu, feito especialmente para o filme “Suzana e o presidente”, de 1951, no telão.
Todos vibram com o gol como se tivesse
ocorrido naquele momento, num jogo de verdade.
Leônidas da Silva: - Obrigado. Esse aí não foi de verdade, foi pra um filme.
Mas ficou bonito. O Ceguinho está certo, ouvi o que ele disse. Eu posso me
considerar talvez o homem que difundiu a bicicleta, porque fazia com mais
constância esses lances e talvez tivesse sido mais feliz, mas não tenho a
veleidade de ser o criador, o autor, do lance de bicicleta, não.
Ceguinho Torcedor: - Leônidas, você pode nos contar como foi aquele gol de
meião na Copa de 38?
Leônidas da Silva: - No segundo tempo do jogo com a Polônia, o campo pesado,
com a chuva que caiu, barro, acabou a chuteira ficando uma boca de jacaré.
Descolou a sola da parte superior e eu não podia ficar com aquilo. Então, tirei
e joguei fora a chuteira e comuniquei ao técnico pra arrumar outra. Mas eu
tenho um pezinho delicado, tamanho 36, então não foi fácil encontrar na Europa
um tamanho desse, nem mesmo na minha equipe. Pediram a um dos garotos,
gandulas, que apanham a bola fora do campo, uma botina daquelas até que
encontrei uma 38. Acabei jogando com ela.
Garçom: - Marcelinho Carioca podia estar lá naquela época.
Leônidas da Silva (rindo): - Verdade, ele calça a mesma coisa, né?
Alguém na plateia: - Marcelinho calça até menos, 35.
Leônidas da Silva: - Ih, então ia ficar apertado. (ri). Ou melhor, mais
largo ainda, com a botina que arrumaram pra mim. Mas antes que eu conseguisse
uma chuteira, ia ser cobrada uma falta contra a Polônia e eu fiquei “desuniformizado”.
Chovia, o juiz não se apercebeu. Nós não tínhamos meia branca, na época jogávamos
com meias pretas. Então, com a lama também, o juiz não tenha observado. As
chuteiras também tinham a cor escura, e eu fiquei na jogada, a bola bateu na
barreira e eu aproveitei o lance e fiz o gol.
Ceguinho Torcedor: - Que maravilha!
Todos aplaudem.
Veja também:
João Sem Medo: - E por que você não pôde jogar contra a Itália, Leônidas?
Leônidas da Silva: - João, houve muita conversa de bastidores e que o Pimenta
queria me poupar pro jogo contra a Itália, não sei o quê.
Idiota da Objetividade: - Só pra esclarecer pra quem não sabe: Ademar Pimenta
era o técnico da seleção brasileira na Copa de 38.
Leônidas da Silva: - Isso mesmo, “seu” Idiota. Então ele me lançou no jogo
contra a Tchecoslováquia, quando me contundi e não pude jogar contra a Itália.
Mas não foi nada disso, não. O sistema do campeonato do mundo naquela época era
eliminatório desde o início, jogou, perdeu, cai fora. Jogamos contra a Polônia,
decidimos na prorrogação, ganhamos de 6 a 5. Jogamos contra a Tchecoslováquia e
tivemos que realizar dois jogos, porque nem na prorrogação decidiu. Aí, duas
horas de futebol e terminou empatado. Então houve praticamente um terceiro
jogo, que foi quarenta e oito horas depois. O Pimenta não tinha centroavante
porque o meu reserva não tinha condição de jogo, era o Niginho. Ele estava
inscrito pela Federação Italiana, considerado jogador italiano e,
equivocadamente, o Brasil levou o Niginho pra Copa do Mundo.
João Sem Medo: - Como sempre a cartolada fazendo bobagens, sem conhecer o
mínimo, que é o regulamento da competição.
Leônidas da Silva: - Mas acreditando que eu pudesse jogar todas as partidas. Houve
um princípio de lesão na partida em que jogamos duas horas. Aí o Pimenta disse:
“Não adianta poupar você, porque se for poupar você pro jogo contra a Itália,
na quinta-feira, se nós perdermos na terça-feira, não vamos jogar contra a
Itália. Então vamos correr o risco”. Então eu joguei na terça-feira, contra a
Tchecoslováquia, e não tive condição de jogar na quinta-feira.
João Sem Medo: - O Pimenta agiu certo, até porque naquela época não havia
substituição.
Leônidas da Silva: - É
isso. Muito obrigado a todos, foi só uma passada rápida a convite do Zé Ary.
Abraços.
Garçom: - Muito
obrigado, “seu” Leônidas. Mas antes que o senhor vá embora. Queria chamar ao
palco novamente Carmen Miranda para cantar uma música da Copa de 38.
Leônidas
recebe Carmen Miranda no palco, a cumprimenta, deixa o palco e se senta ao lado
para assistir à apresentação. A plateia aplaude Leônidas e Carmen, de pé.
Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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