Aqui você encontra, em essência, trabalhos do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva sobre os mais variados temas. Obrigado pela visita, volte sempre.
Flagra do fotógrafo José Santos da agressão de Nilton Santos a Armando Marques, em 1971, no Maracanã. Foto: Agência O Globo (aprimorada por IA)
Dos títulos brasileiros de Inter
e Guarani, nossos amigos vão ao princípio das competições nacionais de clubes.
Idiota da Objetividade retém a bola.
Idiota da Objetividade: - Durante muitos anos foi
considerado como o primeiro campeão brasileiro o Atlético Mineiro, que venceu o
Botafogo, na última rodada do quadrangular final do Campeonato Nacional de 1971,
por 1 a 0, no Maracanã, com gol de cabeça marcado por Dario.
João Sem Medo: - E só
voltou a ganhar em 2021, uma longa espera
de 50 anos.
Músico: - O
Galo mineiro merece uma homenagem musical aqui, não é, Zé Ary?
Garçom: - Sem
dúvida alguma. Uma não, vamos de duas, não é, Tony Damito? Venha ao palco, por
favor.
Tony Damito: - Minha
gente, muito obrigado. Se me permitem, então, vamos tocar aqui duas em
homenagem ao grande Clube Atlético Mineiro, “Esse Galo é um espeto” e “Galinho
tu és o maior”, que gravei com o conjunto Brasa 5 nos tempos em que vivia em
Belo Horizonte. Depois fui pra Santa Catarina, em Camboriú, mas aí é outra
história.
Todos aplaudem Tony Damito, que
agradece, desce do palco e vai pra sua mesa.
João Sem Medo: -
Naquele dia lembro que dei carona pra três garotos, nunca conseguia atravessar
o Túnel Rebouças sem levar gente. O mais velho devia ter uns 14 anos e o
pequenino, uns 10 ou 11. Um deles tinha uma bandeirinha do Botafogo. Eles
entraram no carro e foram dizendo o mesmo que dona Celeste, uma antiga
empregada baiana lá de casa: “Olha, seu João, nós não queremos que o Botafogo
perca o jogo, mas preferimos que o Atlético seja campeão”.
Idiota da Objetividade: - No
triangular final, em turno único, o Atlético derrotou o São Paulo por 1 a 0 no
Mineirão, na primeira rodada, e o Tricolor paulista goleou o Botafogo, em
seguida, por 4 a 1, no Morumbi. Então, para ser campeão, o time carioca tinha
de golear o mineiro por seis gols de diferença.
Sobrenatural de Almeida: - E a
rivalidade dos cariocas com os paulistas sempre foi maior que a com os
mineiros.
João Sem Medo: - Pois
então aquela situação me fez pensar naquele caboclo esperto, quando se metia
numa enrascada de votar no “coronel” que lhe dera emprego ou no médico que
tinha feito um parto de graça na sua mulher. Então, o sabidão dizia no boteco
da cidadezinha: “Bem, eu não quero que o veado morra, nem que a onça passe
fome...”
Risada geral.
João Sem Medo: - E aí
ele saía de fininho sem dizer em quem ia votar. Essa era a posição da torcida
do Botafogo. E a minha também, ante o merecimento esportivo indiscutível do
Atlético. Os torcedores dos outros clubes cariocas todos estavam abertamente a
favor do Atlético. Os do Botafogo obviamente não poderiam torcer contra o seu
clube. Nenhum torcedor digno pode fazer isso.
Garçom: - Ih,
seu João, vimos em alguns campeonatos brasileiros, nesta Era dos Pontos
Corridos, muita gente torcendo contra o próprio time pra que o rival não fosse
campeão.
Todos concordam e começam a se
lembrar e comentar uns com os outros vários casos recentes deste tipo.
João Sem Medo: - Bom,
nenhum torcedor digno pode fazer isso, repito. Mas, em 71, os do Botafogo não
queriam absolutamente o São Paulo. Veio o jogo e o árbitro foi o ArmandoMarques. Houve um pênalti do goleiro do Atlético sobre o Zequinha. A torcida
deu uma vaia, fez um coro e deixou pra lá. Mas ficou muito feroz quando uma
faltazinha foi invertida no fim do jogo. Era a tal gota d’água. O árbitro
catava na fogueira e achou que tinha de mostrar autoridade. Inexplicavelmente e
com total abuso de autoridade, o juiz marcou falta técnica contra o Botafogo.
Foi clamoroso e contra as leis do jogo. Demonstrava apenas que o árbitro estava
perturbado e coagido por ter sido obrigado pela Comissão de Arbitragem a apitar
três jogos decisivos, por três clubes de três diferentes estados. Veio o
xingamento e a primeira expulsão.
Idiota da Objetividade: - O
lateral-direito Mura, do Botafogo, foi expulso.
João Sem Medo: - O Jair
perseguiu o árbitro pra chutar a bola em cima dele e nada sofreu. Veio o NiltonSantos e perdeu a paciência.
Idiota da Objetividade: -
Nilton Santos era dirigente do Botafogo naquela época.
João Sem Medo: - O
Armando foi o bode expiatório de uma política falida no setor de arbitragem.
Sobrenatural de Almeida: -
Assombroso! Nilton Santos agrediu Armando Marques na descida pro vestiário.
Idiota da Objetividade: - A
foto do momento da agressão deu Prêmio Esso no ano seguinte ao fotógrafo JoséSantos, do jornal O Globo.
Garçom: - Não
sabia dessa história! O Nilton Santos agrediu o Armando Marques? Nunca tinha
ouvido falar sobre isso. Tem a foto aqui? Achei. Vamos ver no telão.
Idiota da Objetividade: - E não
foi a primeira vez. Em 1964, o Enciclopédia do Futebol levou Armando Marques a nocaute ao lhe dar um violento soco
no Pacaembu, num jogo entre Corinthians e Botafogo, que terminou 3 a 3.
Garçom: - Olha,
estou surpreso. Gostaríamos de ouvi-lo, seu Nilton!
Idiota da Objetividade: - Ainda
bem que Armando Marques não se encontra por aqui. Não é, Zé Ary?
Garçom: - Ele
não pôde vir.
Nilton Santos: - Ainda
bem que nem ele, nem o Eunápio de Queirós vieram.
Alguns risos são ouvidos.
Ceguinho Torcedor: - Mas isso
em nada apaga o brilhantismo da carreira de Nilton Santos, que merece os nossos
aplausos por tudo o que fez pelo Botafogo e,
principalmente, pela participação destacada no bicampeonato mundial
da seleção brasileira, em 1958, na Suécia, e em 1962, no Chile. Todos aplaudem a Enciclopédia do
Futebol, que agradece.
Nilton Santos: -
Obrigado a todos, em especial ao Ceguinho Torcedor.
Sobrenatural de Almeida: - O mais
assombroso é que Everaldo, o lateral-esquerdo titular da seleção no
tricampeonato mundial, em 1970, no México, também foi autor de um soco
monumental num árbitro.
Idiota da Objetividade: - Foi em 1972, num jogo entre Grêmio e
Cruzeiro, no antigo estádio Olímpico. Everaldo deu um soco em José Faville Neto, quando, com o placar empatado em 1 a 1, o árbitro marcou um pênalti para
o Cruzeiro.
Sobrenatural de Almeida: -
Assombroso!!
Idiota da
Objetividade: - O árbitro deu queixa na polícia e Everaldo abriu mão do troféu Belfort Duarte que havia recebido três meses antes e ficou mais de um ano
suspenso por causa da agressão.
João Sem
Medo: - A coisa
poderia ter ficado apenas no terreno esportivo. A briga em futebol é uma coisa
totalmente impessoal. E o juiz, pelo visto, não teve a esportiva que os
jogadores têm. Everaldo não tinha nada contra o Faville Neto.
Idiota da
Objetividade: - Há controvérsias.
Garçom: -
Bom, vamos amenizar o clima? Sabemos todos que juiz não é Deus, então vamos
ouvir “Mané Juiz”, de Alfredo da Dedé, com o grupo Sotaque Brasileiro aqui no
som.
Fim do Capítulo #32
Episódio originalmente publicado em 7 de setembro de 2022 e republicado totalmente modificado em 7 de abril de 2025.
Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país. Saiba mais clicando aqui.
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Caro Edu, fico imaginando como você conseguiu "recuperar" esses personagens folclóricos do futebol brasileiro. Certamente, um serviço árduo de pesquisa.
Como disse a você, meu amigo, no whatsapp, este trabalho, principalmente entre 2016 e 17, ajudou muito a me salvar de uma depressão. Sou muito grato a ele, e não só por isso, mas também por ter me permitido criar as outras vertentes do projeto Jogada de Música e conhecer muita gente bacana e estabelecer relações de parcerias com algumas delas. Se ainda não aconteceu como eu acho que merece, ou é por eu superestimá-lo - e, neste caso, também todos os que acreditaram e ainda acreditam nele - ou porque o tempo não chegou ainda. Mesmo que seja quando eu não estiver mais por este mundo, ele estará de prontidão para ser apresentado em todos os seus formatos e temas ao público que ama a Música e o Futebol deste vilipendiado país. Abração, volte sempre.
Caro Edu, fico imaginando como você conseguiu "recuperar" esses personagens folclóricos do futebol brasileiro. Certamente, um serviço árduo de pesquisa.
ResponderExcluirComo disse a você, meu amigo, no whatsapp, este trabalho, principalmente entre 2016 e 17, ajudou muito a me salvar de uma depressão. Sou muito grato a ele, e não só por isso, mas também por ter me permitido criar as outras vertentes do projeto Jogada de Música e conhecer muita gente bacana e estabelecer relações de parcerias com algumas delas. Se ainda não aconteceu como eu acho que merece, ou é por eu superestimá-lo - e, neste caso, também todos os que acreditaram e ainda acreditam nele - ou porque o tempo não chegou ainda. Mesmo que seja quando eu não estiver mais por este mundo, ele estará de prontidão para ser apresentado em todos os seus formatos e temas ao público que ama a Música e o Futebol deste vilipendiado país. Abração, volte sempre.
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