quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

MÚSICA PRA VIAGEM: FOLHAS SECAS

"Quando piso em folhas secas, caídas de uma mangueira, penso na minha escola e nos poetas da minha Estação Primeira...". Sem dúvida alguma estes são dos versos e das melodias mais lindas que o samba carioca já produziu, criadas pela mente e o coração de Nelson Cavaquinho e de Guilherme de Brito. Foi gravada por inúmeros cantores e cantoras, duas em especial: Beth Carvalho e Elis Regina. Como Elis já pintou por aqui na vez passada, agora chegou o momento da Madrinha do Samba, a quem tive a honra e o privilégio de entrevistar no salão nobre do Botafogo, seu clube do coração, na eleição que levou Bebeto de Freitas à presidência do Alvinegro, no fim de 2002.

As gravações de Beth e Elis são muito diferentes e adoro as duas versões. A da Pimentinha é mais intimista, num ritmo mais cadenciado, em clima bem bossanovista, enquanto que com a Madrinha é o sambão comendo solto.

Na busca pelo vídeo que apresentasse "Folhas Secas" com Beth Carvalho, achei um que já conhecia, de seu DVD "A Madrinha do Samba ao vivo convida", de 2004, em que o violinista francês radicado no Rio de Janeiro Nicolas Krassik faz participação especial, e outro do programa "Samba na Gamboa", com os auxílios luxuosos de Diogo Nogueira, o apresentador da atração da TV Brasil, e do "Jimmy Hendrix do Bandolim", Hamilton de Holanda (um dia conto sobre a primeira, única e espantosa vez que o vi tocar, na Cobal do Humaitá, quando era praticamente desconhecido no Rio, vindo de Brasília). "Samba na Gamboa", aliás, gravado no Trapiche Gamboa, local em que estive inúmeras vezes na década passada para curtir um ótimo samba comandado pelo cavaquinista Eduardo Gallotti, um velho conhecido dos tempos de Sobrenatural do Samba, em Santa Teresa.


Falar de Beth é também falar de Mangueira, escola com a qual primeiro me simpatizei, ainda criança, pela relação que muitos fazem (ou faziam com o Flamengo). Percebi mais tarde que estas relações de escola de samba com clubes de futebol nunca fizeram sentido no Rio de Janeiro, esta é a realidade, que em São Paulo é bem diferente. Beth era botafoguense apaixonada; Chico Buarque é tricolor apaixonado, e Sérgio Cabral pai é vascaíno e todos são mangueirenses.

Apesar dessa minha simpatia que depois fixei na União da Ilha, por causa de seus belíssimos sambas e desfiles do fim dos anos 70 e início dos 80, como já escrevi quando apresentei "É hoje!" nesta série, nunca fui à quadra da Mangueira, nem a ensaios da Verde e Rosa. Porém, convidado pelo saudoso Andre Filho, radialista, ator e o melhor dublador de TV ao menos em sua época (fez as vozes do Homem de Seis Milhões de Dólares, dos personagens de Sylvester Stallone, incluindo Rambo e Rocky Balboa; do personagem Jonathan Hart, do Casal 20, entre muitos outros), pude jogar uma ótima pelada no campo de terra batida que havia lá no fim dos anos 80 e depois tomar uma cervejinha num boteco. 

Mas vamos curtir a beleza de "Folhas Secas", com a inesquecível Beth Carvalho. Pode escolher a sua versão favorita aí abaixo entre as duas opções. 



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quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

OS 20 ANOS DO MELHOR ROCK IN RIO DE TODOS OS TEMPOS

Visão aérea da Cidade do Rock, em 2001
O início daquele que considero o melhor Rock in Rio de todos os tempos completou ontem 20 anos. Em 12 de janeiro de 2001, a Cidade do Rock original voltava a receber uma edição (a terceira) do festival, 26 anos após a histórica versão de estreia. Embora o de 1985 seja emblemático por todos os motivos do mundo, o melhor de todos para mim foi o de 2001. E por diversas razões, além das puramente musicais (nem tão puras assim, aliás). A idéia de se fazer um palco chamado Brasil, com feras brasileiras de primeira linha, muitas imensamente maiores que alguns dos artistas que estiveram no palco principal, e outro Raízes, foi muito boa.

Pena que o terreno não permitia que houvesse shows simultâneos com o chamado Palco Mundo. O grupo mineiro Uakti, por exemplo, teve de parar a sua esplêndida apresentação, porque um grupo no chamado Palco Mundo começara a tocar e o som mais potente inviabilizava a continuação, apesar dos apelos do público embevecido. Foi a única das 3 edições que pude estar presente todos os dias, pois trabalhava no 2º Caderno do jornal O Fluminense, de Niterói (RJ), e fui designado a escrever um resumão após cada fim de semana, além de enviar algum texto ou informações pontuais durante shows específicos. 

A quantidade de espetaculares, ótimos e bons shows é muito grande. Tive a oportunidade de conhecer alguns grupos e artistas estrangeiros que desconhecia completamente e me fizeram buscar CDs e posteriormente vídeos no YouTube deles ou sobre eles. Foi a primeira (e infelizmente acabou sendo a única) vez que vi o grupo Anima em ação. Na verdade, eles que abriram o festival no palco Raízes, e aproveitei que a galera ainda não tinha chegado em massa para abordá-los após o show e pegar contatos para uma entrevista para o então site Papo Carioca, que fiz pouco tempo depois e reproduzi aqui neste blog.

Neil Young em ação.  Foto: Ivan Gonzalez/Ag. Oglobo
Há tantas histórias incríveis - uma inacreditável - para contar daqueles sete dias (três no primeiro fim de semana e quatro no segundo) que deixarei para outra ocasião, senão isso aqui vira um livro. No Palco Mundo, os showzaços, aços, aços a que assisti foram os seguintes, por ordem cronológica: Barão Vermelho e REM, no dia 13 (sábado); Elba Ramalho e Zé Ramalho, e Neil Young, no dia 20 (sábado). Neil Young é um capítulo à parte, pois com seu grupo Crazy Horse invadiu a madrugada do dia 21 com uma sonzeira inesquecível. Saí de lá querendo ainda mais e, sem dúvida, foi um dos melhores shows que vi na vida.

O Iron Maiden, que se apresentou no dia 19 (sexta), entraria facilmente nesta lista, mas infelizmente tive de deixar a Cidade do Rock pouco antes do show do grupo inglês começar, por causa de uma alucinante dor de ouvido. Acabei assistindo todo o espetáculo pela TV na casa do amigo em que estava hospedado lá pertinho. Eles gravaram um DVD desta apresentação que fez muito sucesso.

Iron Maiden no Rock in Rio 2001: Bruce Dickinson entre os guitarristas Dave Murray e
Adrian Smith. O baixista Steve Harris está ao fundo, de costas. Foto: divulgação

Os ótimos shows foram os de Gilberto Gil, que antes se apresentou com um ainda debilitado Milton Nascimento, que esteve doente na época e foi ajudado também por Lô Borges e a Orquestra Sinfônica Brasileira, e Sting, no dia 12; Cássia Eller, que também tem um DVD daquele dia, no dia 13, e Dave Matthews Band, no dia 20. Kid Abelha e Sheryl Crow, no dia 20, e Capital Inicial, no 21, fizeram bons shows.

Cássia Eller. Foto: Divulgação
Os Palcos Brasil e Raízes muitas vezes tinham shows ocorrendo no mesmo momento, fosse antes da abertura do Palco Mundo ou durante os intervalos, por isso não dava para ver tudo. Porém, revendo a lista dos shows do Palco Brasil, eu me recordo muito bem da apresentação estupenda de Pepeu Gomes e Armandinho, no dia 19, com a galera do heavy metal delirando. No entanto, vejo que perdi ou vi sem me recordar os grandes Luiz Melodia, Sá, Rodrix e Guarabyra e Márcio Montarroyos, que vi extasiado pela primeira vez no Parque da Catacumba nos anos 80.

No Palco Raízes, os melhores foram o já citado Anima, embora prejudicado pelo som muito baixo; Thierry Robin (violonista cigano da Bretanha, França), o iraniano Trio Chemirani (pai e seus dois filhos percussionistas), o grupo irlandês Dervish e o também já mencionado Uakti. Logicamente houve outros excelentes, especialmente os africanos, como acredito que tenha sido o de Carlos Malta e Pife Muderno, mas citei os que me recordo vivamente ainda. 

Fique abaixo com o show completo do Neil Young, até para você achar que exagerei, embora sem o clima do local e da hora que vivi junto a outras milhares de privilegiadas pessoas. Público selecionado, como disse naquele mesmo dia para mim um colega jornalista.
 

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