NAU POESIA: TEXTURA

Foto: Julia Khalimova
As mãos ásperas,
rudes, espessas
da brutalidade,
da ignorância,
da insensibilidade
podem tocar
a tez mais lisa,
suave, macia
que nada terão
além de
aspereza,
rudeza,
espessura.

Pode ser
a pele de um belo rosto,
a casca de uma suculenta fruta,
a pétala de uma colorida flor,
que esses dedos grosseiros
jamais acariciarão
a sublimação do belo rosto,
o sumo da suculenta fruta,
a fragrância da colorida flor.
Nem a fragrância do belo
a sublimação do suco,
o sumo da cor.

Só a mãos encantadas
será permitido acariciar
o sumo do belo,
a fragrância do suco,
a sublimação da cor,
a beleza da cor,
a fragrância do sumo,
a cor do suco,
a sublimação da fragrância,
a cor da beleza,
o suco da cor,
o suco da beleza,
o sumo, a fragrância, a sublimação.

Veja também:
Nau Poesia: Tecelã Natureza
Poesia cantada: Que me diz você?



Esta poesia foi publicada originalmente neste blog no dia 9 de abril de 2014, mas, posteriormente, arquivada. Ela faz parte do ebook "Cor própria (1984-1999)", lançado de forma independente em 2022. O livro digital pode ser adquirido na
Amazon do Brasil e de mais 12 países (EUA, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália, Espanha, França, Holanda, México, Canadá, Índia, Japão e Austrália).
Lembre-se: Poesia não serve pra nada, Poesia serve pra tudo!



Veja também:
Nau Poesia: Amores
Nau Poesia: Espiral do tempo
"Cor própria", o primeiro que veio a ser o quinto

NAU POESIA: AVE DE RAPINA

 Atire-se à vida
como ave de rapina
em busca de alimento
Salte no vão do abismo
resoluto, destemido, indomável
com as colossais asas
se alargando e contraindo
em movimento ritmado
Lançando no ar
a melodia do encanto
e do espanto
Criando novos vendavais
que uivarão feito lobos
em noites de lua cheia
Novas brisas
que gemerão como lobas
em dias de cio.


Veja também:
Sábado mágico com o Mutante Sérgio Dias
A Cruzada das Crianças no Lamascast


Esta poesia foi publicada originalmente neste blog em 29 de julho de 2008. Ela fará parte de um livro ainda a ser editado, chamado "Evangelho Século XXI". 
Lembre-se: Poesia não serve pra nada, Poesia serve pra tudo.

Veja também:
Nau Poesia: Pássaro de asas longas
Nau Poesia: A ignorância instruída



NAU POESIA: NOVOS RUMOS, NOVOS TEMPOS

Foto: Eduardo Lamas Neiva

É tua arrogância
que joga tua
autoestima ao chão
E é do chão que renascerás
Dos dissabores
provarás novos sabores
Teu mau humor
te tornarás muito amor
Tua saudade
trará a proximidade
que apagará o passado
e esquecerá do futuro
para lhe dar dia após dia,
de lembrança, o presente
Tua solidão
te ensinará a caminhar
Tua humilhação
te dará humildade
Do teu sofrimento
surgirá a fortaleza
E em meio às lágrimas
esboçarás o sorriso,
pois que da partida
anteverá o retorno
ou a chegada de algo novo
em tempo algum experimentado
Já a meio caminho andado
farás das perdas
grandes conquistas
e pinçarás de
cada dificuldade
vislumbre, oportunidade
de pegar com a mão
o que lhe arremessaram
e fundar a pedra fundamental
da tua morada
de luz e (teu) silêncio
do teu reinado sem tirania
Pois é no teu horizonte
que despontarão
os novos rumos
os novos tempos
de reconciliação e paz.

Veja também:
O fim da evolução
Um sonho chamado Kurosawa

Esta poesia, ainda não registrada em qualquer livro meu disponível no mercado, foi publicada originalmente em novembro de 2022 na coluna que assinei no portal Mais PB, de janeiro do ano passado a fevereiro deste ano.
Poesia não serve pra nada, poesia serve pra tudo.

Veja também:
Um tanto de grandeza e muito de coragem
"Sutilezas", amor, paixão e surpresas
Nau poesia: Amores

OLHARES ALHURES - FOTOS #120: PRAIA DA PONTA DO LEAL

 







Fotos de Eduardo Lamas Neiva, feitas no dia 5 de agosto de 2023, do bar Siri na Lata, na Praia da Ponta do Leal, no bairro de Balneário, Florianópolis (SC).

Veja também:
Olhares Alhures - Fotos #33: Praia do Abraão 
Olhares Alhures - Fotos #22: Ibitipoca
Esquizofrenia
É preciso respeitar a dor do Universo

AS VELHAS SENHORAS DO CAMPO DE SANT'ANNA

Foto: Marcus Cinelli
Há certas imagens, passagens, que ficariam mais bem representadas em um quadro. Mas, como não possuo a mínima aptidão para artes plásticas, desafio-me a descrevê-las com palavras. Sim, palavras, este instrumento fascinante e ao mesmo tempo amedrontador que ouso manipular para expressar meus sentimentos-pensamentos.

É muito difícil, mas também - repito - instigador refletir, não como um espelho cristalino e sim como a superfície de um lago turvo, o fascínio que as velhas árvores do Campo de Sant'Anna me exercem. Curioso é que, mesmo tendo passado várias vezes por dentro desse verdadeiro oásis incrustado no centro de um inferno de buzinas, motores e canos de descarga, jamais as havia percebido.

Somente ontem, na hora em que o céu começava lentamente a cerrar seu imenso olho azul, é que reparei. Os portões do Campo de Sant'Anna já estavam fechados e, passando por fora, circundando o grande parque, estava eu a admirar a elegância de seus gatos e a simpática deselegância das cutias nos hiatos entre um balaústre de ferro e outro do gradeado que o cerca. 

Tal qual "una película" - efeito produzido pelo ligeiro passar dos balaústres - vi aquelas velhas senhoras conversando. Recordei-me logo de uma gravura de Dali em que o corpo de uma jovem e bela mulher se funde ao de uma árvore igualmente jovem e bela.

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As velhas árvores do Campo de Sant'Anna são como camponesas perdidas no meio da metrópole: estranhas, magras, descalças, de tez flácida e enrugada e com longas madeixas desgrenhadas. Nada assustador, embora possa parecer se assim descrevo. Elas possuem um porte altivo, trejeitos de damas. Parece que ao longo do tempo foram ficando mais belas, com seus troncos pelancudos, seus cipós a adorná-las, suas folhagens esteticamente desarrumadas.

As solitárias árvores do Campo de Sant'Anna estão lá como "las madres de la Plaza de Mayo": circundando a praça, solitárias, solidárias e belas. Só que ninguém percebe - ou finge não perceber - pois do lado de fora se respira fumaça para se chegar mais rapidamente a lugar algum. No entanto, as velhas árvores não se importam: há belos gramados, lago e bancos para sombrear, e elegantes gatos e desengonçadas cutias para proteger.

Este texto foi o vencedor na categoria Destaque especial (crônica) do Prêmio Palavra do Séc. XXI de 2001, de Cruz do Sul (RS), e havia sido publicado neste blog originalmente no dia 24 de março de 2008.


Obs.: a expressão "sentimentos-pensamentos" usada no fim do primeiro parágrafo já há muitos anos substituí por "pensentimentos".

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