Aqui você encontra, em essência, trabalhos do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva sobre os mais variados temas. Obrigado pela visita, volte sempre.
Recentemente comentei numa rede social sobre um dia ganho por ter lido uma pequena obra-prima, o conto "O Evangelho segundo Marcos", do livro "O informe de Brodie", do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), e a conexão mental e sensorial que fiz com o filme "Viridiana" (1961), do diretor espanhol Luis Buñuel (1900-1983). Em suma, as imprevisíveis e cruéis conseqüências da caridade cristã. Espero que quem conheça as duas obras venha me dizer se há insanidade, idiotice ou algo perfeitamente pertinente de minha parte. Pois bem, chego hoje em casa, já madrugada, após um ótimo encontro com velhos amigos, incluindo o meu irmão, Léo Neiva, e tenho a surpresa de ver que a locadora havia me enviado durante o dia o documentário sobre o excepcional LP "Who's next", de 1971, da mesma série (Classic Albuns) de "The dark side of the moon", do Pink Floyd, "Kind of blue", de Miles Davis, e outros que não me lembro e ainda não tive o prazer de assistir.
Este sempre foi o álbum que mais gostei do Who, especialmente pela balada-porrada "Behind blue eyes". Porém, só uns poucos anos atrás me detive mais à letra e um verso sempre me intrigou muito: "my love is vengeance that's never free" (meu amor é vingança que nunca é livre, corrija-me algum tradutor se eu estiver errado). Afinal, por mais questionador que seja, minha formação cristã ocidental tem uma força grande em meu sangue e minha mente, algo que por mais que se lute é difícil se desvencilhar. Tradição, cultura, inconsciente coletivo, nada disso se extirpa com facilidade, se é que é possível. Somos todos aqui filhos da pieguice do amor romântico, somos latinos e americanos, brasileiros, frutos da miscigenação do banzo e do fado, do lamento, do choro, da saudade.
Talvez seja, por isso, tão complexo, tão profundo, tão instigante e tão intenso este verso para mim. Como é o título do filme de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), "O amor é mais frio que a morte" (Liebe ist Kälter als der Tod, 1969), que já usei em forma de indagação em alguma poesia ou texto meu que já não me recordo agora. E vejo que tanto o verso da música, como o nome do filme me levam de volta a Borges e Buñuel, mas de forma invertida: nas obras do argentino e do espanhol haveria uma espécie de vingança pelo amor recebido. "O amor é mais frio que a morte" ainda não assisti, está na fila me esperando há anos, como alguns outros desse diretor alemão que tanto admiro e que conta, em apenas 37 anos de vida, com a impressionante marca de 43 filmes (sendo que "Berlin Alexanderplatz", de 1980, tem 15 horas e meia de duração). Porém, essa rede de conexões, tendo Towshend e Fassbinder como fios condutores, foi inevitável nesta alegre e produtiva noite.
Graças à IA, 13 anos após a publicação deste texto posso publicar aqui um "encontro" de Buñuel, Fassbinder, Townshend e Borges. Veja abaixo e diga o que achou.
Fotos: Rainer Werner Fassbinder, Jorge Luis Borges e a capa do filme "Viridiana". Vídeo: "Behind blue eyes", The Who.
Com "Gasolina no Incêndio" pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis. A décima-primeira questão-provocação é a seguinte:
O Brasil é um país de adolescentes. Grande parte tem mais de 30 anos de idade.
"Nilze Carvalho, a volta da menina prodígio" é uma entrevista que fiz com a bandolinista, cavaquinista, violonista, cantora e compositora no campus da UNI-Rio, na Urca, zona sul do Rio de Janeiro, em 2001. Naquele local e naquela época, eu só fiquei sabendo agora, ela já estava arquitetando o grupo Sururu na Roda, do qual ainda faz parte, atualmente com a companhia de seu irmão Silvio Carvalho (voz, percussão e cavaquinho), Fabiano Salek (voz e percussão) e Juliana Zanardi (voz e violão). Este texto abaixo (com mínimas alterações) foi publicado originalmente no extinto site "Papo Carioca".
Ela surgiu como fenômeno musical no início da década de 80, quando com 11 anos gravou o seu primeiro disco (“Choro de menina”), tocando seu bandolim com a habilidade de um adulto, embora já se apresentasse em televisão e rádio desde os seis anos de idade. Gravou clássicos do chorinho, muitos ao lado do conjunto “Época de Ouro”, e se tornou a menina prodígio do gênero em mais cinco LPs e depois sumiu para os fãs brasileiros.
Por onde andava, Nilze Carvalho era uma pergunta que me acompanhava desde que conheci quase que por acaso o seu primeiro disco há apenas dois anos. A resposta veio primeiro com a sua belíssima apresentação na Praça XV, em frente ao Paço Imperial, num sábado de abril. Ela estava por perto e continuava tocando muito bem, já ficara sabendo, e, melhor, estava cantando igualmente.
No entanto, continuava sem saber porque estava tanto tempo sem aparecer, tanto tempo sem dar notícias. E resolvi marcar uma entrevista para esclarecer o assunto e conhecer um pouco mais dessa mulher de sorriso infantil e mãos virtuosas, hoje com pouco mais de 30 anos de idade.
Nilze começou a viajar em 1984, quando com apenas 15 anos apresentou-se na Itália, na França e na Espanha. E, depois de gravar os volumes dois, três e quatro do “Choro de Menina” e os discos em que fez suas primeiras incursões cantando, o “Deixa-me Cantar” (antes do seu lançamento, em 1989, passou 11 meses nos Estados Unidos) e “Apresentação”, passou a ficar mais tempo no exterior do que no Brasil.
De família humilde e tocando músicas pouco valorizadas pelo mercado fonográfico brasileiro – o chorinho e o samba – Nilze não teve como recusar seguidas viagens para se apresentar em casa de shows e restaurantes do Japão, onde acabou gravando um disco. De 1991 a 1997 passou praticamente seis meses por ano no país do sol nascente, sendo que em 1998 esteve na China e no ano passado passou quatro meses e meio na Austrália e um mês na Argentina.
Em 1998, no tempo em que esteve no Brasil, conseguiu gravar o seu primeiro CD, pela mesma gravadora CID dos LPs, o volume quatro da série Chorinhos de Ouro. Nos outros volumes a CID aproveitou gravações dela feitas para os seus primeiros LPs.
Dessas viagens todas, as coisas que mais a impressionaram foram a adoração que os japoneses têm pela música do Brasil e a obstinação deles para aprender a tocar os ritmos brasileiros: “Eles brigam para ficar junto ao palco. Gravam tudo com filmadoras. Alguns japoneses tocam tão bem chorinho, que se você não vir quem está tocando, vai pensar que é um brasileiro”, afirma quem é mestra no assunto.
Embora tenha toda essa experiência, isso não a impediu de voltar a estudar para se aprimorar naquilo que está em seu sangue: a música. Nilze está estudando na UNI-Rio: “A gente precisa estudar sempre e, como sou autodidata, não leio muito bem partituras”.
Nilze reclama um pouco da distância que tem de percorrer de Campo Grande (zona Oeste do Rio), onde mora, à Urca, onde fica a universidade, mas diz que está sendo muito interessante poder se aprofundar no assunto que ela mais entende desde os cinco anos, quando para surpresa de seu pai, o compositor, pistonista e violonista Cristino Ricardo, e de toda família, começou a tocar de ouvido “Acorda, Maria Bonita” e nunca mais parou.
“Na universidade é bom também porque a gente vai tocar em festas e posso mostrar algumas músicas novas e ir, dessa forma, vendo a repercussão, fazendo a divulgação do trabalho”. Trabalho que ela pretende fazer cada vez mais de forma elaborada, meticulosa. Já com um estilo de repertório definido (“quero tocar e cantar sambas antigos, de Ary Barroso, Ataulfo Alves, além de um choro com letra de Klecius Caldas”), Nilze quer trabalhar com um produtor e um arranjador na gravação de seu próximo disco.
Ela tem visto com muito bons olhos o movimento de gente nova no choro, o que pode facilitar a sua permanência por mais tempo no Brasil. Para ela, a música comercial, tipo axé e pagode, está saturando as pessoas, que estão procurando ouvir outras músicas, o que tem feito o choro voltar a crescer.
Nilze, inclusive, esteve em Brasília há quatro anos, num curto período em que esteve no Brasil, juntamente com mais 49 cavaquinistas para a homenagem que a Escola de Choro da capital federal fez a Waldir Azevedo. “Toco mais o bandolim, mas fui de cavaquinho mesmo”. Modéstia de quem é autodidata, canta e toca também violão e, de quebra, percussão.
O fato de ter ficado tanto tempo fora do Brasil também dificultou um pouco a formação do grupo que toca com ela atualmente – “Chamei o pessoal da minha área, como se diz”. Mas, pela exibição e o assédio do público após o espetáculo de abril, já deu para perceber que o time está entrosado e a capitã continua inspiradíssima. Não foi à toa que as pessoas ficaram encantadas com a simpatia e o talento de Nilze – muitas que jamais haviam falar nela, como as crianças de um colégio que passavam com suas professoras para uma visita ao Centro Cultural Banco do Brasil e pararam para sambar a valer ao som da bandolinista.
Tocam com Nilze os seus irmãos Sérgio e Sílvio, na percussão; Pedrinho, que toca violão de sete cordas também com o mestre da flauta Altamiro Carrilho; além de Mequinho, filho de Pedrinho, no teclado e violão; Nilson, na percussão e voz, e Toninho, no cavaquinho. Neste mês, ela e sua turma se apresentaram na Lona Cultural de Campo Grande, com repertório novo, inclusive com composições dela e de seu pai e os maravilhosos chorinhos de Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth, Waldir Azevedo e muitos outros mestres valorizados pelo toque pessoal de Nilze Carvalho.
Fotos: Nilze Carvalho (do site oficial do Sururu na Roda) e reprodução da capa do LP "Choro de Menina".
Vídeo: "Carioquinha" (Waldir Azevedo), com Nilze Carvalho em participação mais que especial em show de Julião Boêmio, no Teatro da Caixa, de Curitiba, em 2010.
Uma das mais cansativas e inócuas discussões de futebol são acerca do jogar bonito e perder x jogar feio e ganhar. Lógico que a vitória é o objetivo de qualquer time decente, mas os que marcam mesmo são aqueles que praticam a arte de jogar bola. Alguns nem precisaram sair com a taça para gravarem seus nomes na história. Exemplos não faltam.
O que mais me incomoda é a descaracterização do futebol jogado no Brasil. Conversava numa rede social com um amigo da boa e velha infância sobre o aniversário da vitória da seleção brasileira na Copa de 94, completada no último dia 17. Dizia a ele que aquela equipe não me trazia qualquer boa lembrança, nem má. Acrescentava: um time acuado, medroso, que optou por jogar no erro do adversário, que sempre era muito bem aproveitado por dois craques: Bebeto e Romário.
Porém, venceu com méritos, embora pelas circunstâncias (calor de mais 40 graus e as condições físicas precárias de dois dos principais jogadores italianos, Baresi e Baggio) levasse uma grande vantagem na final e poderia ter conquistado o caneco com mais tranquilidade, no tempo normal. Ali a seleção não jogou o futebol brasileiro, mas como ganhou veio o enfadonho debate de sempre.
Pelé dribla o goleiro uruguaio Mazurkievski, sem tocar na bola, na semifinal da Copa de 1970
Para mim é simples, quero ver sempre nos times brasileiros o nosso jeito de jogar, aquele que me fez querer ver e jogar futebol todos os dias na minha infância e adolescência. No entanto, a conclusão que cheguei no meio do papo é que se descaracterizamos no dia-a-dia nosso jeito de cantar, tocar, dançar, andar, falar, pensar (?) o futebol não tem como escapar disso. Faz parte da nossa cultura.
Nada a ver com xenofobia, mas sim com a miscigenação antropofágica (se quiserem os modernistas) que sempre nos fez diferentes e um dos mais criativos povos do mundo. Mas o mundo anda cada vez mais pasteurizado e não temos feito muito para fugirmos disso. Em nenhuma área.
Ultimamente, a seleção espanhola tem sido exaltada no mundo todo, e com razão, afinal tem conseguido resultados fantásticos com jogadores excelentes em seu elenco. Mas, por favor, não comparem com o futebol brasileiro.
A Fúria é como uma excelente orquestra sem um solista improvisador. Muito bons músicos, capazes de alguns virtuosismos, mas sempre numa toada (me permitam o termo) mais próxima do Bolero de Ravel – e aqui pego emprestada uma analogia do saudoso João Saldanha. Sempre a mesma melodia, num ritmo crescente da defesa para o ataque que vai se aproximando, se aproximando, se aproximando da meta adversária, com toques e mais toques, até conseguir o gol. Tudo muito correto, limpo, reto, muito bem ensaiado, mas sem a quebra (ou requebro) de ritmo, a inventividade, a surpresa, a magia.
O Barcelona se diferencia da seleção espanhola porque tem um solista genial, Lionel Messi. E o futebol brasileiro, quando jogado de acordo com suas características históricas, tem pelo menos três, mesmo que haja um que se sobressaia. E joga ora em toques rápidos ou lançamentos, ora com cadência e dribles para segurar o jogo ou surpreender a marcação adversária.
O drible é o solo, a improvisação, a fantasia em meio à harmonia e à melodia. A Fúria tem ótimo arranjo, bela harmonia, excelentes instrumentistas, mas lhe falta o toque do gênio, do craque, daquele que inventa o que ninguém espera, que sola improvisadamente num determinado momento, de surpresa, mesmo que não seja gol - vide várias jogadas de Pelé em 1970 reprisadas milhões de vezes na TV sem que a bola tivesse ganho a rede adversária.
Não me ufano como qualquer Dom e Ravel cantando “Eu te amo, meu Brasil” apenas porque a seleção do meu país ganhou. Eu quero ver um time com a nossa marca, o nosso jeito. Porém, admito, talvez isso seja saudosismo, afinal já não somos mais os mesmos faz muito tempo.
Vídeo: "Bolero", de Maurice Ravel, com a orquestra dirigida pelo maestro alemão Andre Rieu.
Se algum dia me vir muito eufórico, embriagadamente espargindo felicidades, desconfie. Desconfie seriamente. Por trás de tanta alegria certamente haverá uma melancolia, uma angústia latente me agulhando. Sou bem comedido nos momentos felizes. Isso só se vê no olhar e num breve e sincero sorriso.
No início dos anos 80, estava eu e amigos conversando na rua Grajaú sobre o que mais gostávamos de falar: futebol. Uns sentados no murinho da casa de um deles, outros no chão, mais alguns de pé ou agachados, contavam sobre jogos do passado que tinham visto ou se lembravam de terem ouvido no rádio ou lido em jornais, revistas ou livros. Naquele quase atropelo de vozes empolgadas e nostálgicas consegui contar a minha história.
"Lembro de um Fla-Flu de 76 ou 77 em que o Flamengo ganhou de 3 a 0, no Maracanã, com três gols de um cara chamado Kalu. Ele era formado no Flamengo mesmo, saiu de campo como herói, e eu fiquei achando que seria o parceiro de ataque ideal pro Zico. Mas pouco tempo depois, não sei por quê, venderam o cara pro Santos e acho que depois ele foi pro México e sumiu. Esse jogo foi num sábado à noite e ouvi no rádio na casa dos meus avós (maternos) em Olaria."
Ninguém se recordava do jogo. De todos presentes, achava que só um grande e eterno amigo tricolor poderia se lembrar, mas nem ele.
Meados dos anos 90, já jornalista e trabalhando na área esportiva, conversava com colegas na redação sobre jogos antigos e contei a mesma história. Ninguém sabia absolutamente nada sobre aquele Fla-Flu.
"Mas não tenho certeza de que essa partida aconteceu. Acho que sonhei com ela e com esse cara, o Kalu. Tem coisas na minha memória que não sei se aconteceram mesmo ou se foram sonhos."
Nas vezes em que trabalhei no Jornal dos Sports, principalmente na primeira (entre janeiro de 1990 e agosto de 1991), em que pude várias vezes passar muito tempo no arquivo pesquisando edições antigas por conta própria ou para alguma matéria ou ficar conversando e aprendendo com o grande Geraldo Romualdo da Silva, infelizmente já falecido, perdi a chance de verificar se essa partida havia mesmo existido.
No entanto, primeiramente num livro de Roberto Assaf e depois, com a internet, já nos anos 2000, pude constatar que, apesar de algumas imprecisões da minha memória, aquele Fla-Flu não foi sonhado. Ela me voltou no fim do ano passado ou início deste quando Arthur Muhlenberg publicou no seu blog no Globoesporte.com, uma foto do time de juvenis rubro-negro na época de Andrade.
Kalu havia sido companheiro do Tromba e foi aí que vi seu rosto pela primeira vez. Achei essa foto de novo no site "O Historiador", de Marcelo de Paula Dieguez, mas não é ela que publico abaixo, pois consegui outra com o próprio Kalu, em que ele está com três jogadores que se sagrariam campeões mundiais em 1981.
Pesquisei muito até encontrá-lo, e fiquei sabendo por ele que antes daquele Fla-Flu tinha acabado de voltar de empréstimo de seis meses para o Fluminense de Feira de Santana (BA) e que acabou sendo escalado por Claudio Coutinho porque Luizinho Tombo se recusou a jogar sem contrato no dia do jogo e Marciano, reserva imediato, estava machucado.
Em pé: Ronaldo, Júnior, Amaro, Gaúcho, Brochado e César. Agachados: TITA, ANDRADE, Renato, ADÍLIO e KALU.
A partida foi realizada no dia 5 de fevereiro de 1977, um sábado à noite, marcava a estreia de Carlos Alberto Torres com a camisa rubro-negra no Maracanã, e acabou sendo também a de Tita no time profissional, e terminou 3 a 1 para o Flamengo, com dois gols de Kalu (e não três como imaginara) e outro de Luiz Paulo. Para o Flu marcou o meu primeiro ídolo no futebol: o argentino Narciso Doval, ex-Fla.
No entanto, isso só soube agora, buscando mais informações sobre aquele jogo. E sobre Kalu, que tinha apenas 19 anos na época (eu tinha 10), achei-o agora, aos 55, em Cancún, no México. Falei com ele por telefone na última sexta-feira, e ele me confirma que o site Flaestatística está certo em um ponto: ele estreou justamente neste Fla-Flu. Porém erra em outro: ele não nasceu em Barra Mansa (RJ), mas em Volta Redonda (RJ), onde sempre vai, quando vem ao Brasil.
Kalu pouco ficou no clube do coração fanático de seu falecido pai, sendo que a sua última partida pelo clube da Gávea foi apenas um mês e dez dias depois (no dia 15/3/1977). Foram somente sete jogos com a camisa rubro-negra e dois gols, justamente aqueles do dia em que foi o grande nome do Clássico das Multidões. Depois ele foi para o Santos, na negociação que trouxe Claudio Adão para o clube da Gávea.
"O Coutinho era apaixonado pelo Cláudio Adão", disse, sem qualquer amargura.
Kalu disputou o Campeonato Paulista daquele mesmo ano, e posteriormente foi para o León, do México. Jogou em outros times mexicanos e acabou encerrando a carreira aos 28, 29 anos, desiludido com os dirigentes do país onde vive que o impediram de se transferir para o Málaga, da Espanha.
Hoje ele vive em Cancún, mais precisamente em Playa del Carmen, na Riviera Maia, onde é dono de um restaurante e sócio de um hotel. A entrevista que fiz com ele contando detalhes daquela partida, com uma deliciosa história ocorrida um dia antes, quando ele nem sabia que jogaria, será publicada durante esta semana no Globoesporte.com. Veja aqui!
No próximo dia 8, quando Fla e Flu se enfrentarão pelo Campeonato Brasileiro, haverá uma grande celebração pelo centenário do clássico que começou 40 minutos antes do nada, segundo definição de Nelson Rodrigues. Poderia lembrar aqui dos vários que presenciei ou me recordo...
... como o primeiro que ouvi, o da final do Carioca de 73, quando o Tricolor venceu por 4 a 2 e quis jogar minha camisa do Flamengo pela janela; ou o da Zicovardia de 76, quando o Galinho fez quatro na Máquina de Rivelino, Paulo César, Doval e companhia, que também ouvi pelo rádio; ou os que vi no Maraca, como os que o Flu ganhou, em 1978 por 2 a 0 e em 88 por 1 a 0, quando o Fla já era campeão da Taça Guanabara; ou o que levei uma baquetada de um tricolor menor do que eu na arquibancada do Mario Filho e nada pude fazer por estar com a camisa do meu time no meio da tricolada, no jogo em que Zezé Gomes "venceu" Zico, por 2 a 1, em 81, ano em que o Fla deu o troco, por 3 a 1, com um gol antológico de Lico; o olé rubro-negro de 82, com 3 a 0 no primeiro tempo e um torcedor tricolor invadindo o campo implorando para que Zico, Júnior, Andrade, Leandro, Tita e companhia parassem com a humilhação (deu certo, não houve mais gols); ou os decisivos gols de Assis em 83 e 84 (estava no estádio neste segundo); podia falar do empate com o chutaço de Leandro em 85 ou da despedida oficial de Zico no Fla, naqueles 5 a 0 em Juiz de Fora que assisti pela TV; a final de 91 que para mim serviu de vingança por 73; o gol de barriga de Renato em 95, que ouvi entre muitas interrupções dramáticas por causa da chuva, do local distante em que me encontrava e do rádio de má qualidade que tinha na época...
Porém, fico com o Fla-Flu quase esquecido de um herói quase esquecido, que tive o imenso prazer de reencontrar.
FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 3 X 1 FLUMINENSE
Amistoso
Data: 5/2/1977
Local: Maracanã
Público: 20.162 pagantes
Árbitro: Arnaldo César Coelho
Gols: Luiz Paulo, aos 14 minutos do primeiro tempo; Kalu, aos 43 do primeiro e 44 do segundo tempo para o Flamengo, e Doval, aos 43 do segundo tempo, para o Fluminense.
Flamengo: Roberto; Júnior (Dequinha), Rondineli (Paulo Roberto), Carlos Alberto Torres e Vanderlei; Merica, Dendê e Adilio; Tita (Júlio Cesar), Kalu e Luiz Paulo. Técnico: Claudio Coutinho
Fluminense: Félix; Rubens Galaxie, Edval, Jorge Luís e Carlinhos; Cléber (Arturzinho), Wílson Guerreiro (Zé Maria) e Erivelto (Geraldão); Paulinho, Doval e Dirceu. Técnico: Mário Travaglini.
Fotos: Kalu concedendo entrevista antes de um jogo no Maracanã (o repórter provavelmente é Luiz Orlando - ex-empresário de Túlio Maravilha - da Rádio Mauá), o time juvenil (hoje corresponde ao júnior) de 1976 do Flamengo e reprodução do jornal O Globo com a matéria sobre o Fla-Flu em que brilhou (arquivo pessoal).
Nada melhor do que ter uma tese reforçada por um mestre. Mesmo sem saber que eu existo, ou mesmo o que escrevi aqui no blog dias atrás (A Música é Interdisciplinar), um dos maiores compositores da história da música brasileira, João Bosco, disse que é preciso se dar mais atenção à questão educacional da música em bela e didática entrevista a Roberto D'Ávilla que foi exibida em sua primeira parte neste domingo na TV Brasil - prossegue no próximo domingo e eu mais que recomendo. Ele mencionou este pensamento logo após dar uma pequena aula sobre o samba sincopado, afirmando que a "sílaba forte" do batuque não é uma batida, mas o silêncio. E completou: "Isso é Matemática e Filosofia".
Obviamente que esta conexão (tudo a ver com o nome do programa!) me fez ficar com olhos, ouvidos, todos os sentidos vidrados na entrevista que peguei já iniciada e bem nesta parte que citei. Entre tantas outras pequenas lições que deu em menos de uma hora, destaco aqui mais uma: a de como João Gilberto - a quem muito respeito, mas de quem não sou grande fã - revolucionou o violão. Bosco mostrou no seu violão como seu xará baiano transpôs para as cordas o que anteriormente apenas instrumentos de percussão faziam. Para ele, João Gilberto reinventou esse instrumento tão identificado com a riquíssima música brasileira. E lembrei de um show que assisti em Salvador, no iniciozinho de 2006, no qual um violonista que infelizmente não me recordo o nome deu uma aula-espetáculo parecida, explicando como João Gilberto mudara o andamento do samba e chamando a atenção para o quase sussurrar de seu canto. Esqueci o nome do professor, mas não da aula.
Mas voltando ao outro João, Bosco também falou de Dorival Caymmi, que tinha a capacidade de transformar seu violão de acordo com o cenário que criava para suas músicas: praieiro, urbano ou de terreiro. E relatou também como, sendo um anônimo rapaz de Ponte Nova (MG), estudante de Engenharia em Ouro Preto (MG) no fim dos anos 60, reuniu coragem para ir até Vinicius de Moraes, que estava hospedado num hotel na cidade histórica mineira, para mostrar suas músicas, logo fazer uma parceria com o poeta na mesma madrugada e as conseqüências daquele dia.
Algum tempo depois, no início dos anos 70, Vinicius o chamou em sua casa no Rio para que João Bosco e seu grande parceiro, o estudante carioca de Medicina Aldir Blanc, apresentassem seus trabalhos a um grupo que tinha, entre outros, Tom Jobim, Chico Buarque e Toquinho. A pedido de Roberto D'Ávilla, João tocou inteira uma das músicas que tocou naquele dia: Agnus Sei. Gostaram tanto, que ele a gravou no Lado B de um compacto distribuído pelo jornal O Pasquim, tendo no Lado A a então inédita "Águas de Março", de e com Tom Jobim.
Sempre que ouço Agnus Sei, prestando muita atenção à poesia de Aldir, fico imaginando por quantos lugares e tempos na História música e letra percorreram até desaguarem na maravilhosa composição dessa dupla. E vou aprendendo assim mais algumas das lições de João. Foto: Capa do compacto lançado pelo jornal O Pasquim no início dos anos 70, com Tom Jobim num lado e "o tal" de João Bosco no outro. Vídeo: "Agnus Sei" (João Bosco/Aldir Blanc), com João Bosco. Veja também: Reencontro com Lobão Para Milton e nossos amigos