Aqui você encontra, em essência, trabalhos do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva sobre os mais variados temas. Obrigado pela visita, volte sempre.
Esta série, iniciada em 2011, apresenta frases, reflexões, pensamentos que me surgem na observação do mundo e da sociedade de uma forma geral. Podem estar inseridos já em alguma obra literária de minha autoria, virem a estar ou simplesmente se limitarem a uma presença única por aqui ou qualquer outro tipo de publicação isoladamente.
Acompanhe abaixo algumas das outras postagens desta série:
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Zé Ary pega a deixa do apelido de Heleno de Freitas e lança
outro tema à mesa dos nossos amigos João Sem Medo, Ceguinho Torcedor,
Sobrenatural de Almeida e Idiota da Objetividade.
Garçom: - Outro que ganhou apelido de mulher
no futebol foi o goleiro Raul, nos tempos do Cruzeiro, né?
João Sem Medo: - Essa é outra história, foi por
causa da camisa amarela.
Sobrenatural de
Almeida: - Armei
aquele salseiro, foi engraçado.
João Sem Medo: - Até nesta história?
Ceguinho Torcedor: - O que você aprontou, Almeida?
Sobrenatural de
Almeida: - Isso,
todos sabem, ou quase todos. Foi já na década de 60. Goleiro naquela época só
usava camisa preta ou cinza. E era sempre a mesma camisa, lavava e voltava. Mas
aí, o goleiro titular do Cruzeiro se machucou às vésperas do clássico com o
Atlético, então Raul foi escalado. Mas ele era muito maior que o outro e a
camisa não deu. Aí, resolvi fazer uma luz acender na cabeça do Raul, quando o
lateral-esquerdo Neco passou com um moleton amarelo em frente a ele. Raul pediu
a camisa do companheiro emprestada, colou um esparadrapo atrás pra fazer o
número um e foi pro campo. A torcida do Galo não perdoou vendo aquele goleiro
altão, com cabeleira loura, vestindo amarelo, e começou a chamá-lo de
Wanderléa.
Garçom: - Lembraram da cantora da Jovem Guarda, né?
Sobrenatural de Almeida: - Isso mesmo!
Idiota da Objetividade: - Aquele jogo terminou empatado sem
gols e o Atlético ainda perdeu um pênalti, mas Raul não defendeu, a bola foi
chutada para fora.
Sobrenatural de
Almeida: - Mais uma
peripécia minha.
João Sem Medo: - O presidente do Cruzeiro na época,
Felicio Brandi, achava que a camisa dava sorte e obrigou o Raul a só jogar de
amarelo depois daquilo.
Sobrenatural de
Almeida: - Pois é. O
Raul foi se meter a besta, porque não estava acertando a renovação do contrato,
e foi jogar de preto uma vez. Aí ajudei o Cruzeiro a perder. Ele, então,
renovou o contrato e voltou a jogar de amarelo de novo.
João Sem Medo: - O Cruzeiro tinha um grande time
naquela época, com Dirceu Lopes, Piazza, Tostão, Natal... Foi campeão em cima
do Santos de Pelé, com uma goleada de 6 a 2.
Garçom: - Em homenagem àqueles grandes campeões, vamos
exibir no telão imagens daquele timaço ao som da música “Academia”, de João Saraiva, Mauro
Saraiva e Plínio Saraiva.
Os aplausos são efusivos. Idiota
da Objetividade dá então mais detalhes daquela épica conquista cruzeirense.
Idiota da Objetividade: - A final da oitava Taça
Brasil, em 1966, reuniu
o Santos de Pelé, que lutava pelo hexacampeonato, e o Cruzeiro de Tostão, que
fazia uma campanha excepcional, com nove vitórias e três empates. Por ser o
campeão, na verdade com cinco títulos seguidos, o Santos entrou na competição para
lutar pelo hexa já na semifinal, como rezava o regulamento. Eliminou o
Palmeiras, enquanto o Cruzeiro desclassificava o Fluminense. O primeiro jogo das
finais, no Mineirão, terminou com uma goleada histórica e surpreendente do time
mineiro, por 6 a 2, diante de quase 80 mil pessoas.
Ceguinho Torcedor: - O primeiro tempo terminou 5 a 0 e
a torcida cruzeirense parecia não acreditar no que estava vendo.
Sobrenatural de
Almeida: -
Assombroso!
João Sem Medo: - Dirceu Lopes comeu a bola naquele
dia. Fez três gols.
Idiota da Objetividade: - Os outros foram de Zé Carlos,
contra, Tostão e Natal. Para o Santos, Toninho Guerreiro fez os dois. Apesar da goleada, no segundo jogo, no
Pacaembu, bastaria ao Santos vencer por qualquer diferença para forçar o
terceiro jogo. Pelé e Procópio foram expulsos no primeiro jogo, mas puderam
atuar na segunda partida.
João Sem Medo: - O primeiro tempo terminou 2 a 0
pro Santos, com o Pelé em grande noite. Todos começaram a achar que o Santos
devolveria a goleada. Dirigentes do Santos e da Federação Paulista chegaram a
ir ao vestiário do Cruzeiro para acertarem o terceiro jogo pro Maracanã. Foram
expulsos e aquilo deu mais motivação ainda pros mineiros. Tanto que no segundo
tempo, o Cruzeiro virou pra 3 a 2.
Ceguinho Torcedor: - E o Tostão ainda perdeu um pênalti!
Sobrenatural de
Almeida: -
Assombroso.
Idiota da Objetividade: - O jogo foi disputado no dia 7 de
dezembro de 1966, debaixo de muita chuva, diante de 30 mil pessoas
aproximadamente. Pelé abriu o marcador, aos 23 minutos, e dois minutos depois,
Toninho Guerreiro fez o segundo do Santos. Tostão perdeu o pênalti aos 13 do
segundo tempo, mas fez o seu em cobrança de falta, com pouco ângulo, aos 18.
Dirceu Lopes empatou aos 28 e Natal, após bela jogada de Tostão pela esquerda,
fez o terceiro, aos 44.
Garçom: - Vamos ver os lances daquele jogo no telão? Com narração do grande
Fiori Gigliotti, que ali está e merece muito todos os nossos aplausos.
Fiori
se levanta, agradece a homenagem e se senta para assistir o telão.
Os cruzeirenses presentes vibram como se a partida tivesse
acontecido naquele momento. Ceguinho Torcedor retoma a bola para contar mais
sobre aquela conquista do Cruzeiro.
Ceguinho Torcedor: - Foi uma festa inesquecível em Belo
Horizonte. Depois da vergonha
e da frustração da Copa de 66, nenhum acontecimento teve a importância e a
transcendência da vitória do Cruzeiro. Não foi só a beleza da partida, ou seu
dramatismo incomparável. É preciso destacar o nobre feito épico que torna
inesquecível o título do Cruzeiro. Sem medo de fazer uma sóbria justiça estava
ali, naquele momento, o maior time do mundo.
Garçom: - Sem dúvida alguma, seu Ceguinho! Afinal, superou o Santos de Pelé,
com autoridade. Vamos então ver e ouvir no telão, Tadeu Franco cantando uma
composição sua em homenagem ao Cruzeiro, com destaque praquele grande time de
1966.
Fim do Capítulo #29
Episódio originalmente publicado em 17 de agosto de 2022 e republicado totalmente modificado em 13 de março de 2025.
Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país. Saiba mais clicando aqui.
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Heleno de Freitas no antigo estádio da Rua General Severiano. Foto com colorização da AI Ease
Após a festa santista no bar Além da Imaginação, com
Francisco Egydio sendo ovacionado e muito elogiado por seu vozeirão, Idiota da
Objetividade não quis deixar a conversa sobre Almir Pernambuquinho sair da
pauta.
Idiota da Objetividade: - Almir Morais de Albuquerque, o
Almir Pernambuquinho, chegou a ser chamado de Pelé Branco, mas acabou sendo
conhecido mais pelas confusões em campo do que pelo seu grande futebol.
Garçom: - Tinha era muita raça, viu! Lembro
de um gol dele no Flamengo contra o Bangu também na década de 60, em que ele
meteu a cara na lama pra empurrar a bola com a cabeça. A bola passou só isso
aqui da linha. Tinha muita raça.
Almir: - Foi em 66 mesmo. O Ubirajara defendeu a primeira cabeçada, mas no
rebote meti a cabeça na bola no chão mesmo.
Todos riem e aplaudem, inclusive Ubirajara.
Garçom: -
Olha o lance aí no telão!
Todos vibram e aplaudem como se estivessem no Maracanã
naquele momento do jogo.
Idiota da Objetividade: - Almir ganhou muitos títulos
importantes nos vários clubes em que jogou. No Vasco foi campeão em 58 do
Rio-São Paulo e do Carioca; no Santos, a Libertadores e o Mundial de 63, além
das Taças Brasil e o Rio-São Paulo de 63 e 64, mais o Paulista de 64, e no
Flamengo foi campeão carioca de 65.
João Sem Medo: - No dia da sua morte eu estava longe, na Bahia, e até
esqueci do jogo do Flamengo contra o Bahia que ia comentar. Levei um susto com
a notícia. Não sabia dos detalhes, mas uma coisa logo garanti: o Pernambuquinho
estava defendendo o lado mais fraco. E da mesma maneira como sempre fez, de
peito aberto, sem medir consequências, porque estava certo de ter razão. Catimbeiro,
valentão, corajoso, boa gente e bom amigo. Enfim, não sei, mas parece que era
assim mesmo que ele queria morrer.
Almir: - Melhor assim do que covardemente, né, seu João?
João Sem Medo: - Muito melhor!
O estilo de Almir fez Sobrenatural de Almeida se recordar de
outro polêmico e guerreiro atacante, este mais antigo que Almir.
Sobrenatural de Almeida: - Outro grande jogador, também muito
temperamental, foi o Heleno de Freitas.
João Sem Medo: - Meu grande amigo. Jogamos juntos
na praia e no juvenil do Botafogo.
Sobrenatural de
Almeida: - Heleno é
até hoje um dos grandes ídolos do Botafogo, mas só foi campeão no Vasco, em 49.
Garçom: - Heleno ficou de aparecer aqui no bar, vamos ver se aparece. Então, pra
lembrarmos aquela fase gloriosa do Vasco, vamos convidar aqui no palco no Além
da Imaginação, Aracy de Almeida.
Os aplausos logo se sucedem e Aracy, que nem de longe
lembrava aquela mal-humorada jurada dos programas de Silvio Santos, sobe ao
palco.
Aracy
de Almeida: - Muito obrigada, gente. Com muita honra homenageio
meu clube do coração, o grande Vasco da Gama, que Heleno defendeu tão bem, em
1949. “Entra Vasco” gravei três anos antes. Não confundir esta marchinha com
outra música de mesmo nome que a Aurora Miranda, irmã da Carmen, que ali está,
gravou ainda na década de 30, que foi composta por Alberto Ribeiro e AntonioAlmeida. Vamos lá, então, com “Entra Vasco”, de Ari Monteiro e Arnaldo Paes.
Aplaudida, Aracy deixa o palco e vai pra sua mesa.
Garçom: - Ih, a torcida do Vasco não gosta
muito desta história de vice, não.
Sobrenatural de Almeida (voltando
do banheiro, meio distraído): - Olha, alguns daqueles jogos tiveram a minha
participação efetiva.
Garçom: - Nos vices do Vasco?
Sobrenatural de
Almeida: - Também,
também. Mas falava do Heleno. Eu gostava de provocá-lo também pra ele animar um
pouco mais alguns joguinhos. Era só chamá-lo de Gilda que ele ficava louco da
vida. (ri tenebrosamente)
Idiota da Objetividade: - O polêmico Heleno de Freitas fez
parte da equipe vascaína campeã carioca de 49. É o único título que conquistou
na carreira. Mas Heleno ficou consagrado como ídolo botafoguense. Ele fez um
total de 204 gols em 233 jogos com a camisa do Botafogo. Ainda atuou pelo BocaJuniors, da Argentina; América do Rio; Atlético Júnior Barranquilla, da Colômbia, e
Santos, onde ficou pouquíssimo tempo. Sempre criou muita confusão em campo, adorava
a vida boêmia e, principalmente, as mulheres.
Ceguinho Torcedor: - Dizem que por causa de uma sífilis
mal curada ficou louco e acabou internado num sanatório, em Barbacena, cidade
do seu estado natal, Minas, já que ele era de São João de Nepomuceno.
João Sem Medo: - Esta história prefiro esquecer.
Guardo comigo as boas recordações do meu amigo Heleno.
Sobrenatural de
Almeida: - Heleno de
Freitas era um galã e ganhou o apelido de Gilda, o que o deixava revoltado.hahaha
Ceguinho Torcedor: - Gilda era a personagem encarnada
pela belíssima atriz Rita Hayworth no cinema.
Heleno aparece repentinamente no Bar Além da Imaginação e
todos ficam em suspense. Mas ele, com trajes elegantes da década de 40, amacia
a pelota e faz a criança rolar no gramado.
Heleno: - Este apelido não quer dizer mais nada pra mim. Ou melhor, até ajuda em
alguns casos. O importante é que o lendário Heleno de Freitas ficou guardado na
memória dos amantes do bom e valente futebol. Tanto que recebo ainda hoje
muitas homenagens.
João Sem Medo se levanta e vai abraçar, emocionado, Heleno de
Freitas, que também muito comovido, retribui o carinho do amigo. Todos aplaudem
de pé.
Garçom: - Diante desta cena maravilhosa, só há uma coisa a fazer: homenageá-lo,
grande Heleno de Freitas. Vamos ver no telão imagens e músicas do espetáculo
“Heleno, um homem chamado Gilda”, de Miguel Paiva e Zé Rodrix, que se encontra
ali ao fundo, podem aplaudi-lo também. Com direção de Marcelo Saback, o
espetáculo foi apresentado em 1996 pela Orquestra Brasileira de Sapateado. O
ator Raul Gazolla interpretou Heleno. Vamos ver e ouvir.
Todos fazem silêncio e assistem com atenção.
O público aplaude muito e Heleno, João e Ceguinho comentam
sobre o depoimento de Armando Nogueira e perguntam a Zé Ary pelo grande
jornalista botafoguense.
Garçom: - “Seu” Armando ficou de vir. Uma hora aparece por aí com muita história
boa pra contar também.
Fim do Capítulo #28
Episódio originalmente publicado em 10 de agosto de 2022 e republicado totalmente modificado em 05 de março de 2025.
Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país. Saiba mais clicando aqui.
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Almir recebe abraço de Pelé após a vitória sobre o Milan, em 63. Foto: Nelson Almeida/AFP
Em meio à festa dos bangüenses, Almir aparece de surpresa no
bar Além da Imaginação, mas desta vez em vez de socos e pontapés só houve sorrisos
e abraços, especialmente em Zé Ary, velho conhecido, João Sem Medo, Ceguinho
Torcedor, Sobrenatural de Almeida, que brincou com ele sobre o sopro no ouvido
na final de 66, e Idiota da Objetividade. Ele cumprimentou seus adversários
daquela final também e foi levado ao palco.
Garçom:
-
Almir, enquanto a gente vai vendo as imagens no telão, conta pra gente como foi
aquela confusão toda que você armou na final de 66.
Almir: - Olha,
pra jogar aquela partida eu tomei dois Dexamil.
Idiota da Objetividade: - Pra
quem não sabe, Dexamil é anfetamina, uma droga sintética estimulante que age
diretamente no sistema nervoso central.
Almir: - Pois
então, outros jogadores tomaram também, porque naquelas horas a bolinha aparecia
não se sabe como. Havia sempre alguém oferecendo: quem quisesse tomar, tomava
mesmo. Silva não tomou, não gostava. Também não tomaram nada nossos homens do
meio-campo: Carlinhos e Nelsinho.
João Sem Medo: - Do
doping ninguém soube.
Almir: - Não,
só depois que contei a história toda no meu livro e pra revista Placar já nos
anos 70.
Idiota da Objetividade: - Toda
aquela confusão deixou você fora dos campos por quase seis meses de suspensão.
Ceguinho Torcedor: - Mas o
que lhe deu na cabeça, rapaz? Era pra ser uma partida genial, um dos maiores
espetáculos da Terra. A cidade estava possuída pelo jogo. Nos botecos, nas
retretas e nos velórios não se falava, não se pensava, não se sentia outra
coisa, a decisão era assunto obrigatório. Mas onde entra a paixão humana, tudo
é possível. Antes do jogo, as brigas pipocavam por todo estádio Mario Filho.
Eram cento e oitenta mil ventas incandescentes e tudo era pretexto para o
palavrão, para o insulto e para o tapa. E assim, quando os vinte e dois jogadores
entraram em campo, a paixão ardia no estádio!
Almir: - O
clima era bem esse, Seu Ceguinho! Nós ainda estávamos fazendo aquecimento
muscular no campo, batendo fotografias, dando entrevistas, quando o Sansão se
aproximou de mim e já foi advertindo: “Olha aí, Almir, eu estou de olho em
você. Muito cuidado que eu vou te expulsar”. O primeiro gol foi feito por
Ocimar, num chute mais ou menos da intermediária. Valdomiro pulou atrasado,
chegou a tocar na bola com um soco, mandando-a as redes. Estava explicado
porque ele cantava tanto dias antes...
João Sem Medo: - Ele
estava na gaveta também, Almir?
Almir: - Seu
João, havia um ambiente de revolta no vestiário. O diretor de futebol do
Flamengo, Flávio Soares de Moura, estava indignado, percebera que o Bangu
armara um esquema para ganhar o título de qualquer maneira. Ele me fez uma
pergunta não como dirigente, mas como torcedor: “Almir, eles vão dar volta
olímpica?” Não vai ter volta olímpica não, seu Flávio. Só se for do Flamengo
[...]
Garçom: - Seria
bom que o Valdomiro viesse aqui pra dar a sua versão.
Almir: - Ele
vai negar, claro. Mas também não posso provar nada, só foi muito estranho. Hoje
não tem mais briga, estamos aqui nos confraternizando, mas lá na hora, além de
nos golear, o Bangu queria ensaiar um baile. Eu já estava com raiva, e o sangue
subiu à cabeça por volta dos 25 minutos quando o Ladeira, do Bangu, discutiu
com Paulo Henrique e deu um soco na cara dele. A confusão começou ali. Depois
que o Itamar acertou o Ladeira e dei uns chutes nele, olhei os bolos de
jogadores e disse comigo mesmo: “Tudo o que estiver com camisa de listras
brancas e vermelhas é inimigo”.
Ubirajara: -
Quando você voltou pro campo eu te desafiei, Almir.
Almir: - É,
você veio com uma de valente: “Lá fora vamos resolver isso”. (risos)
Ubirajara: - Você
me deu um soco no estômago e quando me levantava pra revidar...
Almir: Foi
mesmo. Cem mil torcedores gritando “porrada, porrada, porrada...” Mas aí a
polícia veio e acabou com a festa e o juiz Airton Vieira de Moraes acabou
cumprindo bem o seu papel: expulsou cinco do Flamengo, eu, Silva, Itamar,
Valdomiro e até o Paulo Henrique, e quatro do Bangu: Ari Clemente, o Ubirajara,
Luis Alberto e Ladeira. O Flamengo ficou com menos de sete em campo e o Bangu
foi declarado vencedor.
Ubirajara: -
Merecidamente.
João Sem Medo: -
Concordo. O Bangu foi o melhor time daquele campeonato.
Músico: - Toca
o hino do Bangu!
Lamartine Babo: - Marcha do Bangu, que
tive o prazer de compor e o clube depois oficializou como hino, o que muito me
honra.
Com todos os jogadores banguenses
daquela final de 66 cantando em alto e bom som, Almir ficou só observando,
desta vez respeitosamente. E aplaudiu no fim da cantoria.
Almir
(rindo): - Hoje não vai ter confusão.
Todos riem e aplaudem.
Ceguinho Torcedor: - O Almir merece ser lembrado também
por suas épicas atuações.
Almir: - Obrigado, seu Ceguinho. Mas deixo pros senhores contarem o resto da
história. Vou me sentar ali pra ouvir os senhores contarem as minhas histórias.
(rindo)
João Sem Medo: - Você foi um jogador completo
depois de Pelé. Possuía técnica e habilidade apurada e tinha velocidade.
Almir: - Muito obrigado, seu João.
João Sem Medo: - Por nada, você merece. Almir substituiu Pelé na final do
Mundial Interclubes contra o Milan, em 63, quando o Santos conquistou o
bicampeonato. Ele fez um gol na vitória de 4 a 2, no segundo jogo da final, no
Maracanã, mesmo placar em favor do time italiano, em Milão, e sofreu o pênalti
que originou o gol do título santista no Maracanã, marcado pelo Dalmo.
Almir: - Deixa eu contar outra história aqui, seu João. O Amarildo desrespeitou
o Pelé depois do primeiro jogo. Disse que o Pelé estava acabado e eu não
admitia que falassem mal do Pelé. Jurei o Amarildo, dei umas pancadas nele no
Maracanã e ganhamos duas vezes deles no Rio e nos sagramos campeões.
Garçom: - Vamos aproveitar chamar aqui ao palco Francisco Egydio pra cantar duas
músicas em homenagem ao Santos.
Francisco Egydio vai ao palco muito aplaudido.
Francisco
Egydio: -
Muito obrigado, minha gente. Vamos cantar “O Santos ganhou”, de Nilo Silva,
Mazinho e Nandinho, e depois “Glória ao Santos Futebol Clube”, de CarlosHenrique Roma e é o hino oficial do clube, menos conhecido que o popular que começa com o verso “Agora quem dá
a bola é o Santos”. Vamos lá, sem pausa pra respirar!
Episódio originalmente publicado em 3 de agosto de 2022 e republicado totalmente modificado em 27 de fevereiro de 2025.
Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país. Saiba mais clicando aqui.
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