sábado, 6 de janeiro de 2024

E LÁ SE FOI ZAGALLO


A notícia do falecimento de Mário Jorge Lobo Zagallo é o assunto deste sábado. E, apesar de gigantesca concorrência na mídia e nas redes sociais, não posso deixar de fazer um texto em homenagem ao maior vencedor de Copas do Mundo da História do futebol e publicá-lo aqui. Embora tenha diversas divergências com a forma como ele conduziu a seleção em 1974, principalmente, e 1998, é preciso ressaltar sempre o trabalho de 1970, iniciado sim por João Saldanha, mas aperfeiçoado com maestria pelo já bicampeão mundial como jogador, em 1958 e 1962.

Zagallo, que comandava o grande Botafogo do fim dos anos 60, teve sensibilidade e sabedoria para colocar em campo aquela seleção que sacramentou o símbolo do futebol-arte e que é e será lembrado eternamente como um dos maiores de todos os tempos. Para mim, o de 1958 é ainda melhor, simplesmente por ter reunido Didi, Garrincha e Pelé, mas lá estava ele na ponta-esquerda, auxiliando o meio e marcando um dos gols na final contra a Suécia. É impossível não enaltecê-lo.

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Os méritos de escalar juntos Jairzinho, Pelé, Tostão e Rivellino são dele, pois com João quem atuava na ponta-esquerda era o meu xará, Edu, um craque, sem dúvida, mas com Riva a composição tática e técnica da equipe ficou ainda melhor. E não ficou nisso, Zagallo ainda recuou o volante Piazza para a zaga e escalou o jovem Clodoaldo para atuar ao lado de Gerson na armação e na marcação no meio-campo.

Quase chovo no molhado, mas é sempre bom destacar momentos gloriosos não só do nosso futebol, mas do esporte como um todo. Como bem escreveu o historiador egípcio naturalizado inglês Eric Hobsbawm em seu excelente livro "A era dos extremos - o breve século XX" sobre aquele timaço de 70: "Quem, tendo visto a seleção brasileira jogar em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?”.

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Tive a oportunidade de conhecer pessoalmente Zagallo, em 1990. Foi por um breve período, quando eu iniciava a cobertura diária do Vasco da Gama pelo Jornal dos Sports. Ele era o treinador da equipe e foi demitido após a eliminação da Taça Libertadores da América para o Atlético Nacional, da Colômbia. No pouco tempo, porém, ficou na memória o tratamento cordial.

O gol do Pet

Porém, a maior alegria que tive com Zagallo como torcedor (embora estivesse trabalhando na redação da Agência Lancepress naquele jogo) foi a conquista do tri estadual do Flamengo em 2001. Isso porque  quando a seleção conquistou o tri no México eu ainda tinha 3 anos de idade (faria 4 29 dias após a final). 

Aquele golaço de falta de Petkovic, aos 43 minutos do segundo tempo da final contra o Vasco, a comemoração alucinada do craque sérvio e o choro de Zagallo ao fim da partida ficarão guardados nos corações e nas mentes dos rubro-negros que viveram aquele dia. "Foi uma verdadeira Copa do Mundo", definiu o Velho Lobo em entrevista ao repórter Janir Júnior, do ge.com, 10 anos depois.

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Setenta anos do Canhotinha de Ouro

Zagallo no comando do Flamengo na final do Carioca de 2001 (Foto: Hipólito Pereira/Ag. O Globo)

A Zagallo, o futebol e quem ama este esporte que quase sempre resume nossas vidas em campos de grandes estádios ou mesmo em reles peladas em terrenos baldios desde que foi inventado só podem dizer uma palavra: obrigado!

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quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

PENSO, LOGO SINTO #37

 A geração mimimi foi criada pela geração que a mimou.

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Esta série, iniciada em 2011, apresenta frases, reflexões, pensamentos curtos que me surgem na observação do mundo e da sociedade de uma forma geral. Podem estar inseridos já em alguma obra literária de minha autoria, virem a estar ou simplesmente se limitarem a uma presença única por aqui ou qualquer outro tipo de publicação isoladamente. 

Acompanhe abaixo algumas das outras postagens desta série:

Penso, logo, sinto #15 
Penso, logo sinto #12 
Penso, logo sinto #8
Penso, logo sinto 28

Deixe abaixo o seu comentário, opinião, sugestão, crítica. Se gostar, siga o blog e compartilhe o que mais agradar. E não deixe de prestigiar os anunciantes do blog para que eu possa continuar publicando. Agradeço desde já.

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quinta-feira, 23 de novembro de 2023

GERMÁN CANO, O OSCAR SCHIMDT DO FUTEBOL

Germán Cano. Foto: AFP
Oscar Schmidt. Foto: Fiba
Germán Cano é o Oscar Schmidt do futebol. Peço desculpas por logo no início deste texto praticamente repetir o que está no título da postagem. É só uma questão de ênfase, pois é de intensidade, continuidade, persistência, obstinação que se trata o que publico aqui e agora.

Cano, hoje, e Oscar, no seu tempo de grande jogador de basquete, são e serão reconhecidos pela obsessão por bola na rede. Para eles nunca houve distância da meta que os impedisse de tentar colocá-la no alvo. Não há medida, nem mesmo equilíbrio preciso para a necessária obstinação de alcançar a plena felicidade de se comemorar um tento. 

Saem e saíam por vezes arremates tortos, risíveis, irritáveis até. Porém, não se envergonhar de ter sempre os olhos, a alma, todo o corpo e o espírito entregues inteiramente ao jogo, todo o ser na partida voltado unicamente para a busca incessante pelo objetivo maior, o claro objeto do desejo de todo artilheiro ou cestinha, é o que os distinguem dos demais.

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Setenta vezes Maracanã
Um Fla-Flu e um herói quase esquecidos no tempo

Sim, ambos também doam e doaram a sua cota de sacrifício tático ao time, participando da marcação e permitindo, vez por outra que um companheiro também possa (pudesse) brilhar. Mas isso é um acréscimo quase supérfluo, diante do que representam na memória do torcedor. Como também é mero detalhe o fato de o número 14 estar ligado a ambos.  

Tanto pra um, quanto pro outro, o impossível inexiste. E o infinito é alcançável, pois até a linha que normalmente delimita a idade para a prática do esporte pro qual nasceram é elástica e jamais arrebenta. No máximo é guardada para outras lutas da vida quando o momento, o tal infindável, chegar.

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Três histórias com Romário
Contos da Bola: Tino
Uma coisa jogada com música - Capítulo 1

quarta-feira, 22 de novembro de 2023

DINIZ, SERVIDOR DE DOIS AMOS

Fernando Diniz, técnico da seleção brasileira e do Fluminense. Foto: Getty
Desde que soube que Fernando Diniz havia aceitado a proposta da CBF para ser técnico da seleção brasileira (interinamente ou não, sabe-se lá se Carlo Ancelotti vem mesmo) sem deixar o comando técnico do Fluminense, logo me recordei da comédia de Carlo Goldoni, "Arlequim, servidor de dois amos" ("servo de dois mestres", ou "de dois patrões", dependendo da tradução. Prefiro a que citei primeiro).

Não que este fato seja novidade por aqui, ocorreu seguidas vezes até o fim da década de 70, mas surpreende pelo total anacronismo e também pelas sérias questões éticas que abrangem este acúmulo de cargos no futebol atual, ressaltando que quase sempre convocar um jogador de clube brasileiro é desfalcá-lo em jogos importantes. Ponha-se como atual o das últimas 3 décadas.   

Peço licença a você para resumir a primorosa comédia do italiano Goldoni que estreou em 1746. Com o objetivo de comer e viver melhor, Arlequim trabalha ao mesmo tempo para os apaixonados Florindo e Beatriz, que separados pelo destino desejam se reencontrar. Embora achasse que não teria grandes problemas ao aceitar os dois empregos, não são poucas as confusões em que se mete Arlequim, até porque o casal não sabe que ele trabalha para ambos simultaneamente.

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O teatro e o futebol
Futebol, uma metáfora da vida

No caso de Diniz todos, inclusive os dois patrões, sabem muito bem a quem ele serve. Porém, o técnico também achou que não teria tão grandes problemas acumular o cargo em dois lugares de tão grande importância, porém as trapalhadas num dos empregos, o da seleção, não são poucas. 

Claro, não direi jamais que fosse fácil recusar o convite da CBF, que a meu ver nunca deveria ter feito tal proposta (até por ainda crer que Diniz não seja o mais indicado para dirigir a equipe brasileira e por achar que nunca se deveria esperar tanto tempo por outro treinador, por melhor que seja). No entanto, no meu modo de ver, Diniz não resistiu à tentação de ceder a uma ambição. 

Meu amigo tricolor Ecio, que já foi personagem em antigo texto que publiquei aqui, discorda frontalmente de mim com relação ao que chamo de ambição do treinador. Que ótimo que amigos possam discordar com argumentos plausíveis. Duro é quando são risíveis (ou, pior, choráveis). Mas isso é outro papo.

Voltando ao Diniz, que foi o tema central de dois programas do canal Comendo a Bola dos quais participei recentemente (veja nos vídeos abaixo). Com mais sorte do que juízo nas semifinais contra o Inter, o treinador acabou levando o Fluminense, com merecimento, ao primeiro título continental de sua História e obteve sua primeira conquista de grande expressão na carreira, ao derrotar na prorrogação o Boca Juniors na final da Libertadores. Mas mesmo entre torcedores de seu clube, seu cartaz ainda oscila entre o amor e o ódio.



Na Copa do Brasil, o Flu caiu nas oitavas de final para o Flamengo, um time que acumulou vexames ao longo do ano, inclusive na final do Carioca, quando foi goleado pelo próprio Tricolor, por 4 a 1. E no Brasileiro faz uma campanha medíocre. Sem mais nada a fazer, a não ser cumprir tabela na principal competição nacional (embora a CBF ache que é a Copa do Brasil), agora é ver o que o time de Diniz fará no Mundial Interclubes. 

Seu padrão (o que é preocupante, a padronização) de jogo é muito arriscado, mas até bonito de se ver. E, quando tudo dá certo, é de uma eficiência que ninguém põe dúvida. Já quando algo dá errado, ele escala um meio-campo despovoado de atletas e ideias, seu sistema defensivo bate cabeça e do outro lado há um treinador menos medroso que Eduardo Coudet e atacantes mais inspirados que Enner Valencia...

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Ode ao Futebol-Arte
E 38 anos se passaram

Na seleção brasileira, onde não tem - e não terá - tempo suficiente pra treinar seus jogadores convocados (muitos dos quais apenas medianos, o que acrescenta mais um dado - ou dedo - de crítica ao seu trabalho) a coisa pesa bem mais. E, provando a lógica de que servir a dois amos no mínimo pode trazer muitos problemas, já quebrou dois recordes negativos em tão pouco tempo de trabalho: pela primeira vez a seleção perdeu 2 jogos seguidos nas eliminatórias (com o 1 a 0 para a Argentina aumentou a marca para 3) e também foi pela primeira vez derrotada em casa na etapa de qualificação da América do Sul para uma Copa do Mundo. 

Se a peça de Goldoni tinha um estilo teatral renascentista chamado Commedia dell'Arte, Diniz, contratado para fazer, com seu pretenso futebol-arte, a seleção renascer, após tantos fracassos, pode estar simplesmente dando prosseguimento à Tragédia sem Arte inaugurada nos 1 a 7 para a Alemanha, no Mineirão, em 2014.

Sangue e porrada no Maracanã

Entretanto, tragédia mesmo foram as ações e as omissões de CBF e Polícia Militar no Maracanã antes do jogo entre Brasil e Argentina começar. Um show de incompetência e violência que ganhou mundo e envergonharia qualquer sociedade. Porém, a nossa, no atual estágio em que se encontra, parece achar até divertido ou mais motivo para babar seus ódios nas redes sociais e nas ruas contra si e o inferno, ou seja, os outros.

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