TRECHO DO LIVRO "O NEGRO CREPÚSCULO"

O Negro Crepúsculo

 PRELÚDIO

Não costumo ser chamado pelo nome de batismo, então me apresento pelo artístico, c.j.marques - assim mesmo com minúsculas, igual ao poeta e.e. cummings. Entre meus colegas sou conhecido como Marques. E assim digo, no dia-a-dia, que é este o meu nome para as pessoas com as quais vou esbarrando por força do meu trabalho.

Completei 39 anos no mês passado, sou formado em Publicidade e Propaganda já há 14, mas nunca exerci a profissão. Fiz apenas um rápido estágio numa agência, mas me senti deslocado demais naquele mundo. Ou seja, percebi tarde demais que havia feito a escolha errada. Ainda morava com meus pais, mas queria ter minha vida independente e fui trabalhar com vendas, primeiramente no mercado formal, posteriormente no informal, para ter como me sustentar.

Acabei conseguindo juntar um dinheiro e comprei um carro, apesar do financiamento extorsivo de um banco, e virei taxista, minha profissão até hoje. Mas desde sempre escrevi e guardei aquelas folhas - antes reais, batidas à máquina de escrever, e agora virtuais - com a esperança de um dia publicá-las. Procurei várias editoras, recebi elogios, e foi só: ninguém se interessou pelo taxista, publicitário só por formação universitária, e um voraz leitor metido a poeta.

Tive um casamento frustrado, que durou pouco mais de quatro anos, sem filhos. Estou há cinco vagando por esta cidade que um dia deve ter sido mesmo toda maravilhosa (eu a reconheço em seus escombros e sombras sombrias de seus prédios, morros, vales e praias), levando pessoas daqui pra lá, de lá pra cá. Algumas vezes nem isso, prefiro ficar rodando sozinho, observando a paisagem noturna, recusando os sinais de algumas criaturas perdidas na noite. Erro por madrugadas e manhãzinhas nessas ruas esburacadas e imundas, não só no meu táxi, mas também a bordo de minha solidão. Quando achei que poderia encostá-la numa calçada da vida qualquer, numa festa na casa de um amigo conheci Alice.


“... (não sei dizer o que há em ti que fecha

e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas”

(e. e. cummings, em tradução de Augusto de Campos )


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"O negro crepúsculo", um livro muito bem recomendado
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FLAMENGO, BILIONÁRIO SOBERBO E PREGUIÇOSO

Flamengo, um bilionário soberbo e preguiçoso
Foto: Marcelo Cortes/CRF / Jogada10

Como ocorrera logo após o gol do inexpressivo Ñublense, na quinta-feira passada desisti de continuar assistindo a mais um vexame do meu time assim que o árbitro encerrou o primeiro tempo. Pelo whatsapp escrevi pros meus filhos: "Se o tal de Vitinho (Bragantino) fosse um pouquinho melhor, o Flamengo já estaria perdendo de 4". E foi de 4 que o bilionário elenco rubro-negro caiu em Bragança Paulista. Mais uma vergonhosa derrota para a já enorme coleção deste ano, que seguiria o anterior, não fosse Dorival Júnior e os dois títulos conquistados no segundo semestre de 2022, a Copa do Brasil e a Libertadores. Está certo, depois de várias ótimas apresentações, teve mais sorte do que juízo nas finais, principalmente contra o Corinthians, mas conquistou as taças. E a competição sul-americana de forma invicta, com 12 vitórias e apenas um empate em 13 jogos.

Então, por motivos até hoje não esclarecidos, o comando do futebol do clube passou a querer o treinador que havia sido superado duas vezes por Dorival, em 2022, e assim começamos o ano, acumulando derrotas, algumas escabrosas, não vou citá-las. A verdade é que o Flamengo se tornou um bilionário arrogante e modorrento que vendeu sua alma. O que se viu na quinta-feira (e estou falando apenas do primeiro tempo!) foi um bando de jogadores caminhando e olhando o adversário inferior técnica (pelo menos no papel) e financeiramente correr muito e jogar, com exceção do goleiro Matheus Cunha e mais um ou dois. 

O treinador, à beira do campo, de cabeça baixa, só andava de um lado para o outro, como aliás costuma fazer, sem qualquer reação. No fim, li apenas no dia seguinte, quando soube o resultado final, ele ficou surpreso. O cara teve 10 dias, tempo suficiente para arrumar a equipe, depois da vitória pra lá de enganosa sobre o Grêmio. Mas o time piorou. Aliás, é uma constante também no Flamengo, voltar ainda pior depois de paradas como esta última para treinar. Será que treinam mesmo ou só enrolam? A dúvida me é permitida, pois os treinamentos são fechados para a imprensa, portanto para o público. 

Bom, gastei meu precioso tempo vendo a primeira etapa daquela enganação de quinta, mais ainda para batucar este texto aborrecido e vou dar um bom tempo de Flamengo, vou ver Palmeiras x Botafogo apenas. Acho que a torcida rubro-negra deveria fazer uma greve para ver se espanta a preguiça dos preguiçosos, mas o torcedor apaixonado vai em qualquer circunstância ao estádio, nem que seja apenas para resmungar, xingar, protestar. Eu prefiro ser mais criterioso na escolha do gasto de minhas energias e dos meus programas. Ler um bom livro é o melhor deles. 

Amanhã, contra o combalido e desesperado Santos, estarei longe da partida e só devo saber o placar na segunda-feira, quando for ao noticiário, o que faço todas as manhãs. O time sem alma não terá minha audiência por um bom tempo. Sei bem que não fará qualquer diferença para eles, pois dinheiro não lhes falta, talvez vergonha na cara. Pelo menos me aborreço menos.

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TRECHO DO EBOOK "VELHOS CONHECIDOS"

"Velhos conhecidos" é a peça de minha autoria mais recente, ainda inédita como todas as outras, com exceção da de estreia, "Sentença de vida". Abaixo, você poderá ler o trecho inicial da obra e clicando aqui poderá saber mais sobre o ebook que está à venda na Amazon do Brasil e de mais 13 países, além de estar disponível no sistema Kindle Unlimited.


Personagens:

Pedro de Albuquerque
Carlos Alberto Fanzini

Dois idosos numa casa ampla. De móveis antigos, mas muito bem cuidados. Sala em penumbra.

Pedro: - Eu...

Carlos: - Ahn. (pausa) O que foi?

Pedro: - Eu...

Carlos: - Sim, o que tem você?

Pedro: - Um momento.

Pedro vai vagarosamente à janela e a escancara. Uma luz forte invade violentamente a sala.

Carlos (tapando os olhos): - Meu Deus, Pedro, assim você me deixa cego.

Pedro: - Gosto de claridade.

Carlos: - Essa luz toda me agride.

Pedro: - Vou fechar um pouco a janela... Não, essa cortina vai amenizar um pouco essa luminosidade que te violenta tanto.

Carlos (entre aborrecido e sarcástico): - Ah, muito obrigado.

Pedro: - Eu...

Carlos: - Porra, Pedro, desembucha. Eu, o quê?

Pedro: - Você sempre ansioso... Bom, eu não sei como consegui chegar até aqui, aos 70 anos. Sinceramente não sei.

Carlos: - Eu também não. Sinceramente.

Pedro: - Creio que isso deva surpreender mais a você do que a mim.

Carlos: - Ah, é? Por quê?

Pedro: - Porque você não fez metade do que eu fiz e era previsível que chegasse aos 80.

Carlos: - Tenho 72. E não meço tua vida pela minha. Aliás, se fosse comparar...

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Trecho do ebook "Atrasado"
"O negro crepúsculo", um trabalho de 11 anos

Pedro: - Eu achava que nem passaria dos 18.

Carlos: - Ah, não exagera!

Pedro: - Verdade. Mas era mais por uma intuição besta, um medo. Naquela época ainda não tinha mergulhado fundo...

Carlos: - Nas drogas, nas orgias, na gastança...

Pedro: - É... aquela grana do meu avô...

Carlos: - Uma belíssima grana que você poderia ter investido na sua formação, num apartamento.

Pedro: - Porra, Carlos, olha bem pra mim, vê se eu tenho... Ou melhor, se eu tinha... Se eu tinha cara de empresário.

Carlos: - Não, mas você desperdiçou tudo.

Pedro: - Depois recuperei. E vivi, ah, como vivi...

Carlos: - Como bon vivant... Pra mim foi “mau” vivant.

Pedro: - Ah, vai ter ataques de ciúmes, inveja, novamente?

Carlos (dá uma sonora risada): - Eu!? Inveja, ciúmes de você? Tenha a santa paciência, né? Tá querendo tirar um sarro da minha cara a esta altura do campeonato?

Pedro: - Parece.

Carlos: - Parece o quê?

Pedro: - Que você está com inveja do que eu vivi.

Ficou com curiosidade pra saber até onde essa conversa vai?
Clique aqui e saiba como ler o texto inteiro desta peça de teatro ainda inédita.

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SELEÇÃO BRASILEIRA, A BAGUNÇA COMO MÉTODO

Por melhor que seja, e é o caso de Carlo Ancelotti, é um absurdo esperar tanto tempo por um treinador para assumir o comando da seleção brasileira. Pelo exposto, além de seis jogos das eliminatórias para a Copa do Mundo de 2026, a Copa América inteira de 24 (competição cada vez mais desvalorizada, agora - ao que parece - até pela própria CBF), fora os amistosos, muitos de utilidade próxima a zero, com um interino que, com todo respeito que o Ramon merece, em condições normais de temperatura e pressão precisaria de muitos e muitos anos e muitos e muitos importantes títulos para alcançar tão alto cargo.

Carlo Ancelotti, ainda técnico do Real Madrid
Como bem disse Zico em entrevista a José Carlos Araújo, a CBF já deveria ter começado a se movimentar em busca de um novo técnico assim que Tite anunciou que com qualquer resultado sairia após a Copa do Mundo do Catar. E, assim que a competição se encerrasse, já anunciaria o novo contratado. 

Entretanto, prevaleceu mais uma vez o improviso, o jeitinho, marca registrada - para o bem e para o mal - da nossa cultura, fruto muitas e muitas vezes da nossa eterna desorganização ("a incompetência da América católica" já denunciada musicalmente por Caetano Veloso em "Podres poderes"). Vi e li muitos respeitados comentaristas elogiando a atitude da CBF, argumentando que a entidade está pensando grande ao contratar tão prestigiado e vencedor treinador, que seleção não trabalha com tanta constância e que se pode esperar sem problemas, afinal o Brasil não ganhou Copa do Mundo com o mesmo técnico em todo ciclo após a edição anterior. Discordo veementemente. 

Afinal, é tornar método o que tanto se critica em nosso futebol, desde o início do século passado. Do meu modo de ver é transformar em regra o que circunstancialmente deu resultado (graças principalmente ao imenso talento de nossos jogadores), seja por maus resultados e ou pressão dos mais variados setores. A bagunça como norma parece ser a diretriz de nossos dias nas mais diversas áreas, começando pela politica, claro, sempre ela. Pior, alguns dos muito críticos a tudo isso estão se habituando a ela.

Porém, pensando bem, paradoxalmente a seleção ano após ano tem sido cada vez menos brasileira, com apenas um craque de cabeça fraca desde a década passada. Além de tudo, muito pouco joga por aqui. Então, que se mude de mala e cuia para a Europa de uma vez por todas. Talvez assim aprenda a se organizar um pouco.
  


TRECHO DO EBOOK "ATRASADO"

Cláudio acordara além do horário naquela manhã de segunda-feira. Assim que abriu os olhos pulou da cama com tanta rapidez que é bem possível que tenha saltado ainda de olhos fechados. Não conseguira dormir direito durante a noite, preocupado que estava com as várias dívidas que havia contraído para pagar a prestação da casa - já atrasada em três meses - e as contas do mês. Além desta, agregava agora, em sua louca correria para se arrumar, a preocupação de não chegar atrasado ao trabalho.

Como não tinha crédito suficiente no banco, Cláudio resolveu recorrer a um agiota, que como todos – inclusive, e principalmente, os próprios bancos - cobravam juros exorbitantes. O salário de repórter de um jornal tradicional do Rio de Janeiro, mas de poucos leitores e recursos, mal dava para sustentar os dois filhos e a mulher, também desempregada já há dois anos. Ela vendia bijuterias de casa em casa e só conseguia pouco mais da metade do que ele ganhava por mês. A renda familiar era insuficiente para cobrir todas as necessidades. Eles apertavam daqui, empurravam com a barriga dali, e iam tentando se manter. Que não vazasse um cano do banheiro; que uma criança não ficasse doente – até porque plano de saúde nem pensar, e ficar em fila de hospital público era perder um dia inteiro de trabalho e ganhar um desconto na folha de pagamento –; que nada fora do previsto ocorresse. Esta era a reza diária desse casal com nome de dupla sertaneja: Cláudio e Cláudia.

Naquela segunda-feira, Cláudio saíra de casa especialmente preocupado também porque não conseguira dar conta do pagamento ao agiota naquele mês. Pagara somente o principal da dívida, deixando os juros acumularem em cima dos juros, acrescidos de uma multa estratosférica. Somado a tudo isso, o atraso causado pela noite em claro, em consequência da febre de seu filho menor. O atraso por causa da noite mal dormida, a noite insone por causa da febre do filho e dos problemas...

Cláudio chegava a tremer de tão nervoso. E suava. Seus poros pareciam bicas abertas, jorrando em torrentes. Tinha de estar às nove horas no Centro do Rio para uma entrevista, recomendada pelo dono do jornal, com um conhecido empresário candidato a vereador que poderia vir a ser um patrocinador de grande peso para a salvação do periódico. O patrão havia lhe explicado tudinho no dia anterior e pedira, ordenando – e até ameaçando –, que não deixasse o ocupadíssimo futuro político esperando, até porque ele tinha um compromisso inadiável às nove e trinta e quatro.

Já eram oito e meia e ele ainda estava em seu bairro, Campo Grande - ou seja, a cerca de sessenta quilômetros do centro da cidade. Teria de passar ainda no jornal para ir com o fotógrafo. “Se perder essa entrevista estou frito, estou frito!”, pensava em voz cada vez mais alta. Ele nem tomou café, saiu correndo e pegou o primeiro ônibus que apareceu. Dentro do coletivo, Cláudio estava agoniado com a hora, porém se sentiu um pouco aliviado porque, por incrível que pareça, ele não estava lotado. O motorista, no entanto, não parecia estar com tanta pressa assim, o que deixava o repórter ainda mais angustiado, nervoso, irritado, furibundo...

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