sexta-feira, 17 de julho de 2020

BNDES DEIXA EDITAL CADUCAR E DESRESPEITA PRODUTOR DE CINEMA

Que o atual desgoverno tem como uma de suas marcas registradas o desrespeito fica até cansativo dizer, diante da gigantesca lista de absurdos cometidos desde (ou até mesmo antes) da posse em janeiro de 2019. Ontem soube de mais um que me atinge diretamente: o edital do BNDES para financiamento de 22 produções cinematográficas, cujo resultado deveria ter saído em dezembro de 2018, caducou. Quem investiu seu tempo e dinheiro para trabalhar na montagem e na inscrição de seus projetos que se dane, claro.


Não que isso tenha me surpreendido, pois vinha acompanhando o processo, principalmente durante o ano passado, e já era evidente o seu final, tanto que fiquei um bom tempo sem voltar ao site do BNDES e só ontem soube que o aviso foi publicado em 29 de abril. Sem qualquer justificativa, embora saibamos bem os motivos. O fato de saber qual seria a conclusão deste episódio não reduz a minha indignação. Pelo contrário. Falo por mim e por todos os produtores culturais e artistas que vêm sendo achincalhados, pisoteados e chamados de vagabundos pelas mentes doentias e perversas desta aberração que está no poder. 

Está mais do que evidente que a diretoria do banco deixou intencionalmente o prazo de 18 meses se expirar para que o edital perdesse a sua validade. Um completo descaso com profissionais da área cinematográfica, especificamente, e do setor cultural, de uma forma geral. E uma ignorância tremenda quanto à importância da indústria cultural para a Economia do país. 

Tinha inscrito neste edital um documentário, em parceria com uma produtora do Rio de Janeiro e mais uma equipe de técnicos, músicos, roteirista etc. Isso não derruba o nosso sonho e creio que o de nenhum dos demais inscritos, pelo contrário, fortalece até. 

Por mais que tente, este desgoverno não conseguirá destruir o país e sua Arte e Cultura. O futuro de muitos dos que estão hoje no podre poder será tão tenebroso quanto as suas palavras e ações. É só uma questão de curto tempo. Isto não é praga rogada, mas uma das mais antigas leis do Universo: colhe-se o que se planta.

quinta-feira, 16 de julho de 2020

FLADEMIA

Com um pouco mais de dificuldade do que se supunha, o Flamengo cumpriu a sua obrigação de conquistar o campeonato carioca deste ano, infelizmente num momento em que o futebol não deveria se colocar indiferente à tragédia sanitária e humanitária que abate o país. Mas se o próprio desgoverno federal, comandado por seu chefete, dá de ombros, vê-se claramente que o mau exemplo vem de cima (na verdade vem de baixo, dado o patamar em que se coloca um presidente que sai infectando populares, ministros, secretários e assessores com a sua doença). Não é coincidência, portanto, que o irresponsável do Planalto tenha completo apoio da diretoria rubro-negra.

O poderia financeiro e técnico do Flamengo se impõe no Rio de Janeiro e não há adversários à altura. Na lógica dos fanáticos (e dos devotos do dinheiro) é isto mesmo, não basta suplantar os rivais, é preciso acabar com eles. Seguindo este rumo, o seu próprio fim fica bem mais próximo também, mas fanatizados não enxergam, não ouvem, só falam, gritam. Muito.

Nunca escondi que torço para o Flamengo e não vou ser hipócrita de dizer que não desejava vê-lo novamente campeão. Porém, dadas as circunstâncias (mais de 75 mil mortos pela Covid-19 até ontem, fora as evidentes subnotificações), não tenho como ficar feliz. Desde que o Campeonato Carioca retornou em meio à pandemia, devido à fortíssima pressão dos devotos do dinheiro que comandam o clube da Gávea, não assisti a um jogo sequer, nem à final de ontem à noite, algo que não perderia de jeito algum em outro momento.

Não se iludam, o próximo objetivo rubro-negro será a hegemonia nacional, o que é uma tarefa muito mais difícil, claro. Porém, com apoio de podres poderes público e privado, o clube se tornará ainda mais forte. E o futebol brasileiro continuará seguindo para o ralo. Sem adversários fortes, o Flamengo pode conquistar tudo no país, mas pouco a pouco verá seu império ruir. A não ser que se mude para a Europa. Mas lá o patamar é bem outro, assim como as regras do jogo econômico.

Supremacia muda de lado

Isto posto, recordei-me ontem que quando comecei a acompanhar futebol, o Fluminense era o time com mais títulos cariocas, bem à frente do Flamengo. Em 1973, com 7 anos de idade, ouvi pelo rádio com tristeza a final do Carioca, vencida pelo Tricolor após vitória sobre o meu time, por 4 a 2. Fui às contas e constatei que aquela foi a 21ª conquista do clube das Laranjeiras, contra então 15 do seu maior rival (o Botafogo tinha 12 na época, porque o título de 1907 ainda não havia sido reconhecido, mesmo número do Vasco). Agora, a diferença de 5 taças está a favor do Flamengo (36 a 31), lembrando que quando o time rubro-negro começou a disputar a competição, em 1912, o Tricolor já contava quatro títulos cariocas.

Foto de André Casado
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quarta-feira, 15 de julho de 2020

MÚSICA PRA VIAGEM: CAIS

Esta é uma daquelas que sempre me arrepiam dos pés à cabeça. A voz de Milton Nascimento é algo realmente de outro mundo e renasce em mim a cada audição. Ele é, para mim, o Pelé da nossa música, com essa voz magistral, celestial.

Uma das coisas que mais gosto de contar sobre mim é que tenho sangue mineiro em minhas veias. E se este sentimento tem a ver principalmente com o meu saudoso pai e o pai dele, meu avô clarinetista que não pude conhecer, e tios e irmãos dele, também me toca por causa de Milton e a turma do Clube da Esquina.

Originalmente, "Cais" integra o histórico disco "Clube da Esquina" (1972), mas foi também gravada lindamente por Elis Regina, Nana Caymmi e outras(os) tantas(os), mas Milton, peço desculpas e licença, é Milton. Além do fato de ser o compositor, juntamente com Ronaldo Bastos, desta canção arrebatadora. Vida longa ao Anjo das Minas Gerais!



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segunda-feira, 13 de julho de 2020

DEVOTOS DO DINHEIRO

Tive o grande prazer de participar no último sábado (11/07) de um debate online promovido pelo jornalista e escritor Fábio Mendes, juntamente com os também jornalistas Allan Simon e Gabriel Gontijo, sobre o futuro das transmissões de jogos de futebol, partindo do embate recente entre o Flamengo e a TV Globo (se quiser assistir é só clicar aqui). Durante a conversa pude expressar que a imagem do Tio Patinhas com cifrões nos olhos é o que dirigentes de futebol e políticos, em especial, e a sociedade de uma forma geral (afinal o futebol não é um mundo à parte) têm me passado de forma muito clara nesses tempos de pandemia. 

Não que isso seja alguma novidade nesta terra tão explorada e mal-tratada, mas certamente a tornou mais evidente neste momento de tão grave situação. Primeiramente, não deveria estar havendo jogo de futebol algum no Brasil, e nisso nós quatro concordamos firmemente (enquanto debatíamos, o Governo catarinense suspendia uma partida das quartas de final do Campeonato Estadual e a Federação local decidia adiar as outras três, depois de ter retornado na última quarta-feira).

A forte pressão de empresários-políticos, políticos-empresários e políticos do mais baixo nível nos mais altos cargos da Nação para a abertura do comércio e do funcionamento de serviços não essenciais (pseudo-religiosos, inclusive, em muitos casos, principalmente), é a grande responsável pela balbúrdia e a inconsequência perversa que se instaurou no país sem ministro da Saúde.

O dinheiro é uma grande invenção humana, mas assim como a internet e o avião, para ficarmos apenas nestes grandes exemplos, podem se tornar altamente maléficos dependendo da forma como se usa. Usa-se ou se é usado, eis a grande questão. Um dos motivos do suicídio de Alberto Santos Dumont seria o fato de ter visto (literalmente) seu invento ser utilizado como uma potente arma de guerra. 

Com o egoísmo e a ganância superando de lavada o altruísmo e a solidariedade, as mãos que manuseiam a maior parte do dinheiro (e o poder) neste país vão ficando cada vez mais imundas. De sangue, inclusive, e em muitos casos, principalmente.

Os devotos do dinheiro demonstram a quem quiser ver e seguir (a manada é submissa) que o mais importante na vida são as finanças (deles, claro). Gostaria de lembrá-los que sem Saúde não há Economia, não há nada para ninguém. Logicamente não se deve esquecer o fator econômico-financeiro, ele é importantíssimo, mas a prioridade máxima tem de ser sempre a Saúde. Entretanto, priorizar não é, definitivamente, um verbo que o brasileiro saiba utilizar bem, e isso não é de hoje.

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Nesta sociedade "aborrescente", em que vencer um adversário não basta, é preciso eliminá-lo, acabar com ele, e em que a democracia só serve quando o outro concorda comigo, vamos rastejando, sem a mínima organização, competência e muito longe da possibilidade de se ter união, solidariedade, a não ser esporadicamente, por determinados grupos. 

O conjunto, no geral, é uma bagunça, ou seja, não existe, pois é cada um por si. O mau exemplo vem de cima (ou debaixo, dependendo do ângulo que se olhe, pois o nível é baixíssimo).

E a bola vai rolando nas finais do Rio de Janeiro, enquanto os contágios e as mortes prosseguem a todo vapor. Em meio a tudo isso, a morte do caráter de um povo que vê o barco afundar, mas não pára de dançar. Vai ser difícil ressuscitá-lo depois desta tragédia potencializada pela irresponsabilidade diária.

PS: Enquanto finalizava este texto, soube que 83 milionários de Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, Nova Zelândia, Alemanha, Dinamarca e Holanda publicaram uma carta aberta pedindo aos seus governos aumento de impostos justamente sobre os mais ricos. Por aqui, bem, por aqui os devotos do dinheiro só pensam em manter e até aumentar os seus privilégios e arrancar os olhos de quem pouco ganha, taxando inclusive desempregados. "Pobre tem que morrer", já dizia o inesquecível personagem Justo Veríssimo, genial criação do grande artista Chico Anysio.


   

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sexta-feira, 10 de julho de 2020

MÚSICA PRA VIAGEM: RÉQUIEM

Transcendental, arrepiante a quarta música desta série. O Réquiem composto por Wolfgang Amadeus Mozart teve na verdade boa parte criada por seus discípulos, já que faleceu sem completá-lo. De qualquer forma, é como se esta obra-prima tivesse sido feita apenas pelo genial compositor austríaco.

Trechos dela foram usadas na montagem da peça "Sentença de Vida", de minha autoria e dirigida pela saudosa Cristine Cid, minha primeira mulher e mãe dos meus 3 filhos, com ótimas atuações de Denize Nichols e cenário de Cátia Vianna.

Eu ouvia em minha cabeça várias partes do coro maravilhoso desta missa fúnebre enquanto escrevia a peça, feita numa noite do início dos anos 2000, em Rio do Ouro (São Gonçalo-RJ), onde morava na época, num fluxo de consciência e escrita que ainda me impressiona quando me recordo. Ouço esta obra em casa há décadas, com freqüência. Sublime!


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quarta-feira, 8 de julho de 2020

MÚSICA PRA VIAGEM: MIRRORBALL

Demorei alguns anos para retornar com força a esta série, motivado por estas listas que um amigo ou outro vem me desafiando a fazer nas redes sociais neste período de quarentena, que já passou da centena. Pelo menos para mim, que nunca morei no Leblon, nem jamais simpatizei com o esnobe bairro da zona sul carioca, embora reconheça a sua beleza exterior. Comecei no Facebook chamando de "Música que me toca", mas manterei o nome original ao migrá-la para cá até para dar sequência a algo que já havia iniciado.

A primeira música desta retomada é uma versão belíssima do grupo inglês Elbow para "Mirrorball", inspirada composição do grande Peter Gabriel, que certamente vai trazer outra em sua voz para esta série a qualquer momento, pois sou muito fã do cantor original do Genesis. O Elbow conheci há uns oito anos, na radiovitrola.net, e gostei de cara. Eles têm várias músicas autorais excelentes, mas este arranjo especial que eles gravaram com a Orquestra da BBC de Londres foi a que mais me tocou. Aliás, esta apresentação de 2009, que um dia esteve inteira no YouTube, mas agora só se acha em partes, é soberba. 

Curtaê! E siga o blog, pois vem muito, muito mais.


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Músicas que nos fazem viajar
Músicas que nos fazem viajar 2

segunda-feira, 6 de julho de 2020

E 38 ANOS SE PASSARAM...

Cinco de julho de 1982, a tarde pouco avançara no Rio de Janeiro, e o árbitro israelense Abraham Klein apita o fim do jogo e de uma era no estádio Sarriá, no início da noite ainda com sol em Barcelona: o placar de 3 a 2 a favor da Itália decreta a precoce e surpreendente eliminação da seleção brasileira da Copa do Mundo da Espanha. Numa ampla casa na zona norte do Rio, incrédulos diante da TV, cinco garotos com idades entre 12 e 17 anos se entreolham meio encabulados, sem saber o que fazer ou dizer. Uma sensação de vazio se instaura. Dos três adultos presentes na sala, a senhora idosa se encaminha cabisbaixa para a cozinha; a filha dela, mãe do mais velho dos jovens, solta um palavrão, e o seu irmão resmunga algo que ninguém ouve, talvez nem ele mesmo.

Era inacreditável, mas era a verdade: o time comandado por Telê Santana, que escreveu poesia com a bola nos pés de Leandro, Júnior, Falcão, Cerezo, Sócrates, Zico e Éder não tinha mais chances de conquistar a Copa com o mesmo brilhantismo e a magia de Carlos Alberto Torres, Clodoaldo, Gérson, Rivelino, Jairzinho, Tostão e Pelé, 12 anos antes, no México. Após o longo silêncio, um dos meninos, de 16 anos, pega a bola e decide: “Vamos jogar”. Foram para a rua verde-amarela, que fora toda enfeitada e pintada por eles mesmos com a ajuda de colegas e alguns pais, para jogar a pelada mais triste de suas vidas. Para aqueles torcedores de Flamengo, dois irmãos, Vasco, outros dois, e Fluminense, o que morava na casa onde todos se reuniam desde 1978, o jogo na rua era a única chance de os redimir com imaginários gols de “Zico”, “Sócrates”, “Falcão”. Mas não havia mais como ganhar aquela partida.

Como ocorreu após o apito final de Klein com os jogadores brasileiros no pequeno Sarriá - que já não existe mais desde os anos 90 -, não houve choro, desespero, só uma melancolia incrédula. Para aqueles jovens torcedores, nem o empate servia, embora classificasse o Brasil para as semifinais contra a Polônia. O sonho deles era uma conquista igual à de 70, só com vitórias espetaculares, para ratificar seus ídolos como os heróis do tetra. Principalmente dos rubro-negros, que haviam festejado uma sequência avassaladora de taças em apenas seis meses, de novembro de 1981 a abril de 82: Libertadores, Carioca, Mundial Interclubes e Brasileiro. Mas a Copa, para eles e tantos outros meninos, era a hora de estar do mesmo lado do amigo que torcia para um rival. A foto do garoto com a camisa da seleção chorando no Sarriá, flagrada pelo fotógrafo Reginaldo Manente, do Jornal da Tarde, vista no dia seguinte nas bancas de São Paulo - e depois no país inteiro - era a síntese do sentimento nacional. Especialmente da garotada.

Paolo Rossi (20) sai para comemorar o terceiro gol dele e da Itália. Graziani (19), Valdir Perez,
encoberto por Falcão (15) e Júnior e a bola na rede brasileira. Foto da Folha de S.Paulo/UOL
A caminhada do time de Telê começara em 1980, mas só daria provas definitivas de que encantaria o mundo quando já havia obtido a vaga para a Copa, com um time ainda melhor do que o que foi para a Espanha, por uma simples razão: Reinaldo, ídolo do Atlético-MG que foi um dos principais responsáveis pela classificação. Ele brilhou na partida mais dura, contra a Bolívia, na altitude de La Paz, e com um belo gol deu a vitória ao Brasil por 2 a 1 (o outro foi de Sócrates). Na volta, a vaga foi sacramentada com show de Zico, que fez os 3 no triunfo por 3 a 1 sobre osbolivianos, com a presença na lotadíssima arquibancada do Maracanã daqueles cinco meninos da zona norte do Rio.

Porém, como era descrito, a seleção de Telê começou a despertar a atenção do mundo da bola na turnê à Europa em maio de 81. Venceu a Inglaterra, em Wembley, por 1 a 0, gol de Zico, na primeira vez que o Brasil conseguiu tal feito em solo britânico. Depois deu espetáculo para o público francês superando o time da casa por 3 a 1, gols de Reinaldo,Zico e Sócrates. E encerrou a turnê, com 2 a 1 de virada sobre a Alemanha, em jogo que garantiu Valdir Peres como titular do gol brasileiro. Em Stuttgart, o goleiro do São Paulo defendeu duas cobranças de pênalti de Breitner (a primeira, invalidada pelo árbitro). Cerezo e Júnior marcaram os gols da vitória.

Poucos meses antes da Copa, Reinaldo ficou sem condições de seguir, e o desfalque custou caro. Telê testou o habilidoso Careca, seu preferido, e Serginho, de estilo trombador. Careca se mostrou tímido nos amistosos, Chulapa fez seus gols e acabou ficando com a 9 que seria de um mineiro de pernas curtas e joelhos maltratados desde os 16 anos por zagueiros violentos. Careca se machucou poucos dias antes da estreia e Telê chamou Roberto Dinamite, que sequer ficou no banco, algo nunca explicado.

O jogo de estreia, contra a UniãoSoviética, começou com um frango de Valdir Peres que o estigmatizou como um dos responsáveis pela eliminação brasileira, mas ele não comprometeu mais após o gol de Bal. No jogo tenso, dois petardos espetaculares de fora da área, um de Sócrates e outro de Éder, venceram o ótimo Dasaev e fizeram o samba começar nas arquibancadas do estádio Sanchez Pizjuan, em Sevilha, e nas ruas do Brasil. “Voa, canarinho, voa”, cantavam os brasileiros a música gravada por Júnior. No segundo jogo, mais uma vez os brasileiros saíram atrás no marcador, mas tiveram poder de reação e muito talento para virar e golear a Escócia, por 4 a 1, combelos gols de Zico, Oscar, Éder e Falcão. Para encerrar a primeira fase, um baile na fraca Nova Zelândia: 4 a 0, gols de Zico (dois), Falcão e Serginho.

Rua Antônio Basílio, na Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro,
em 1982. Foto: Agência O Globo
“Voa, canarinho, voa”... Pipas e balões brasileiros iam aos céus da Espanha levando junto a confiança dos torcedores. As peladas comiam soltas nas ruas e campinhos de terra do Brasil, com garotos imitando seus ídolos no jeito de jogar e tornando o jogo de bola ainda mais lúdico, bonito e animado. Os cinco meninos faziam isso todos os dias na rua enfeitada.

A Copa da Espanha foi a primeira com 24 seleções (antes eram 16) e a segunda fase foi o equivalente às quartas de final, com quatro grupos de três equipes. O Brasil caiu na chave da então campeã mundial, a Argentina abalada pela desastrosa aventura de seus generais na Guerra das Malvinas, e a sempre perigosa Itália, então bicampeã mundial (nos longínquos 1934 e 38) que havia passado da primeira fase sem vencer (empates com Polônia, Peru e Camarões). Os dois times de campanhas irregulares se enfrentaram logo, com vitória de 2 a 1 para a Itália. Nossos cinco personagens comemoraram, não só pela rivalidade com os argentinos, mas porque o time de Maradona, Passarella, Ardiles e Kempes era considerado mais forte. Na melhor atuação brasileira naquele Mundial, Zico, Serginho e Júnior fizeram os gols dos 3 a 1 sobre a Argentina. O jovem Maradona ficou tão desnorteado que foi expulso após agredir Batista.

Aqui uma pausa para um retorno a março, três meses e meio antes. Brasil e Alemanha Ocidental se enfrentaram no Maracanã com a presença de 150 mil pagantes, e Telê montou uma base com cinco jogadores do Flamengo: Leandro, Júnior, Vitor (reserva de Andrade), Adílio e Zico. Adílio deu o passe magistral para o golaço de Júnior no fim do jogo, o Brasil venceu por 1 a 0, e o meia rubro-negro achou que havia garantido sua vaga na Copa. O técnico da seleção, porém, após assistir às finais do Brasileiro, vencido pelo Flamengo contra o Grêmio, preferiu levar o cabeça de área gremista, que já havia ido à Argentina em 78, e tinha estilo defensivo. Telê só pensava em atacar?



Após a vitória sobre a Argentina, a confiança brasileira era imensa, mas Paolo Rossi, que ficou dois anos suspenso até pouco antes da Copa por envolvimento em manipulação de resultados, esteve em tarde iluminada e abateu o canarinho em pleno vôo, marcando os gols italianos. O time que ganhasse do Brasil naquela Copa estava mesmo fadado a ser o campeão, pois somente se admitia que os brasileiros saíssem da Espanha com a taça. Então, Rossi, que se tornaria o artilheiro do Mundial, Bruno Conti, Antognoni, que faria o quarto gol se não tivesse sido invalidado pelo árbitro, Scirea e Zoff, que fez defesas milagrosas, inclusive a que impediu o gol de Oscar na última chance brasileira, cumpririam o destino vencendo a Alemanha Ocidental na final, por 3a 1, após superarem a Polônia, por 2 a 0, com dois gols do carrasco.

Rua Miguel Lemos, Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro,
em 1982. Foto: Agência O Globo
Os cinco garotos ainda torceram na semifinal para a França de Platini, Trésor, Tigana e Giresse, mas o talento dotime francês, que chegou a estar vencendo por 3 a 1 na prorrogação, sucumbiu àforça física alemã nos pênaltis, em outro jogo inesquecível. E como o Brasil só teve um representante na final, aquele por quem quase ninguém torce, o árbitro (Arnaldo Cezar Coelho), cada um viu a decisão em sua casa.

Hoje, passados quase 32 anos daquele doloroso dia, a sensação para o menino que pegou a bola para tentar “vencer” o jogo em seus sonhos é que 5 de julho de 1982 marca o fim do futebol-arte, de uma era em que o talento e a improvisação valiam mais que a força física e a obediência tática. Embora a arte de jogar futebol tenha sido traduzida por alguns indivíduos, como Maradona por exemplo, nunca mais um time encantou tanto numa Copa quanto a Seleção de 82. Nem sequer chegou perto.

Valdir Perez, Leandro, Oscar, Falcão, Luizinho e Júnior, de pé;
Nocaute Jack (massagista), Sócrates, Cerezo, Serginho, Zico e Éder, agachados 
Este texto acima é a íntegra do que enviei ao meu amigo Dirley Fernandes, então editor da revista "História Viva", para ser publicado na edição de maio de 2014. E foi a inspiração para "5 de julho de 1982", um dos 19 "Contos da Bola", à venda nas melhores lojas online do Brasil e do mundo, nas versões em papel e digital (ebook).
Revi o jogo inteiro entre Brasil e Itália para escrever este texto acima e fiz muitas pesquisas, mas passados mais 6 anos, algumas coisas eu poderia corrigir (não tenho certeza de que Reinaldo estava sem condições físicas, por exemplo), e outras tantas acrescentar. Esta é uma história que continuará no imaginário da minha geração e de nossos filhos, netos, bisnetos por muitos e muitos e muitos anos ainda.
Aquele envolvimento com a seleção brasileira não existe mais, há muitos anos de minha parte, porém, quando revivemos aqueles dias de 1982, é como se aquela relação nunca tivesse mudado um milímetro sequer. Passou, mas permanece na memória e no coração.

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quinta-feira, 2 de julho de 2020

"O CASARÃO" NO LAMASCAST

Era uma casa enorme, muito bonita e mal cuidada. É o LamasCast no reino da fantasia e na nuvem, com os pés a um passo do chão. Clique na imagem abaixo e ouça o podcast.


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