quarta-feira, 20 de abril de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #12

Leônidas com sua marca registrada, a bicicleta, em jogo do São Paulo, no Pacaembu, nos anos 40

Enquanto Jorge Goulart deixa o palco, depois de cantar o Hino do Bonsucesso, o papo retorna, com o Diamante Negro na berlinda.

Sobrenatural de Almeida: - A bicicleta, lance que ajudou a consagrar o Leônidas, teve a minha contribuição, claro.

Coro: - Claro!

Sobrenatural de Almeida: - Na primeira rodada do Campeonato Carioca de 1932, mais precisamente no dia 24 de abril, resolvi ir ao antigo Campo da Estrada do Norte, hoje Estádio Leônidas da Silva, ex-Teixeira de Castro, que é o nome da rua onde fica o Bonsucesso Futebol Clube.

Ceguinho Torcedor: - Naquele dia eu estava nas Laranjeiras e vi o Fluminense empatar com o Bangu, em 2 a 2.

Sobrenatural de Almeida: - Pois então, naquele mesmo dia, o Bonsuça recebia o Carioca, time que fez muito sucesso no futebol de salão muitos anos depois, mas que no campo era saco de pancadas. Já tinham me falado desse Leônidas e fui lá pra ver se ele era aquilo tudo mesmo. Numa bola alta na área, o craque estava de costas pro gol e de repente deu aquele salto inesperado e chutou, com o corpo paralelo ao chão no ar. Uma coisa estranha daquela merecia o gol e dei aquela ajudinha pra bola ganhar as redes. Foi o primeiro gol de bicicleta da História.

João Sem Medo (rindo muito): - Ainda bem que você achou estranho e não bonito. Se achasse bonito, era capaz de desviar a bola pra fora.

Todos riem muito.

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Idiota da Objetividade: - O paulista Petronilho de Brito reivindicava pra ele a invenção da bicicleta no futebol. Chilenos, argentinos e italianos também diziam que compatriotas seus é que teriam inventado a jogada.

Ceguinho Torcedor: - Bobagem, Idiota. Leônidas da Silva mesmo nunca quis se vangloriar como inventor, mas como aquele que difundiu a jogada. Ele, um craque brasileiro, é que mostrou a jogada pro mundo. Eu vi! Ou melhor, eu senti e sei. O mundo todo sabe.

De repente, eis que de repente, entra no Além da Imgainação, ele, o Diamante Negro.

Todos: - Leônidas!

É ovacionado e levado ao palco, com a imagem de um gol de bicicleta seu, feito especialmente para o filme “Suzana e o presidente”, de 1951, no telão.

Todos vibram com o gol como se tivesse ocorrido naquele momento, num jogo de verdade.

Leônidas da Silva: - Obrigado. Esse aí não foi de verdade, foi pra um filme. Mas ficou bonito. O Ceguinho está certo, ouvi o que ele disse. Eu posso me considerar talvez o homem que difundiu a bicicleta, porque fazia com mais constância esses lances e talvez tivesse sido mais feliz, mas não tenho a veleidade de ser o criador, o autor, do lance de bicicleta, não.

Ceguinho Torcedor: - Leônidas, você pode nos contar como foi aquele gol de meião na Copa de 38?

Leônidas da Silva: - No segundo tempo do jogo com a Polônia, o campo pesado, com a chuva que caiu, barro, acabou a chuteira ficando uma boca de jacaré. Descolou a sola da parte superior e eu não podia ficar com aquilo. Então, tirei e joguei fora a chuteira e comuniquei ao técnico pra arrumar outra. Mas eu tenho um pezinho delicado, tamanho 36, então não foi fácil encontrar na Europa um tamanho desse, nem mesmo na minha equipe. Pediram a um dos garotos, gandulas, que apanham a bola fora do campo, uma botina daquelas até que encontrei uma 38. Acabei jogando com ela.

Garçom: - Marcelinho Carioca podia estar lá naquela época.

Leônidas da Silva (rindo): - Verdade, ele calça a mesma coisa, né?

Alguém na plateia: - Marcelinho calça até menos, 35.

Leônidas da Silva: - Ih, então ia ficar apertado. (ri). Ou melhor, mais largo ainda, com a botina que arrumaram pra mim. Mas antes que eu conseguisse uma chuteira, ia ser cobrada uma falta contra a Polônia e eu fiquei “desuniformizado”. Chovia, o juiz não se apercebeu. Nós não tínhamos meia branca, na época jogávamos com meias pretas. Então, com a lama também, o juiz não tenha observado. As chuteiras também tinham a cor escura, e eu fiquei na jogada, a bola bateu na barreira e eu aproveitei o lance e fiz o gol.

Ceguinho Torcedor: - Que maravilha!

Todos aplaudem.

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João Sem Medo: - E por que você não pôde jogar contra a Itália, Leônidas?

Leônidas da Silva: - João, houve muita conversa de bastidores e que o Pimenta queria me poupar pro jogo contra a Itália, não sei o quê.

Idiota da Objetividade: - Só pra esclarecer pra quem não sabe: Ademar Pimenta era o técnico da seleção brasileira na Copa de 38.

Leônidas da Silva: - Isso mesmo, “seu” Idiota. Então ele me lançou no jogo contra a Tchecoslováquia, quando me contundi e não pude jogar contra a Itália. Mas não foi nada disso, não. O sistema do campeonato do mundo naquela época era eliminatório desde o início, jogou, perdeu, cai fora. Jogamos contra a Polônia, decidimos na prorrogação, ganhamos de 6 a 5. Jogamos contra a Tchecoslováquia e tivemos que realizar dois jogos, porque nem na prorrogação decidiu. Aí, duas horas de futebol e terminou empatado. Então houve praticamente um terceiro jogo, que foi quarenta e oito horas depois. O Pimenta não tinha centroavante porque o meu reserva não tinha condição de jogo, era o Niginho. Ele estava inscrito pela Federação Italiana, considerado jogador italiano e, equivocadamente, o Brasil levou o Niginho pra Copa do Mundo.

João Sem Medo: - Como sempre a cartolada fazendo bobagens, sem conhecer o mínimo, que é o regulamento da competição.

Leônidas da Silva: - Mas acreditando que eu pudesse jogar todas as partidas. Houve um princípio de lesão na partida em que jogamos duas horas. Aí o Pimenta disse: “Não adianta poupar você, porque se for poupar você pro jogo contra a Itália, na quinta-feira, se nós perdermos na terça-feira, não vamos jogar contra a Itália. Então vamos correr o risco”. Então eu joguei na terça-feira, contra a Tchecoslováquia, e não tive condição de jogar na quinta-feira.

João Sem Medo: - O Pimenta agiu certo, até porque naquela época não havia substituição.

Leônidas da Silva: - É isso. Muito obrigado a todos, foi só uma passada rápida a convite do Zé Ary. Abraços.

Garçom: - Muito obrigado, “seu” Leônidas. Mas antes que o senhor vá embora. Queria chamar ao palco novamente Carmen Miranda para cantar uma música da Copa de 38.

Leônidas recebe Carmen Miranda no palco, a cumprimenta, deixa o palco e se senta ao lado para assistir à apresentação. A plateia aplaude Leônidas e Carmen, de pé.

Carmen Miranda: - Esta música que vou cantar acompanhada deste maravilhoso conjunto, foi composta por Alcyr Pires Vermelho e Alberto Ribeiro. Apesar de não falar no futebol se tornou o tema da seleção brasileira na Copa do Mundo de 1938. Chama-se “Paris”. Em 98, quando foi disputada outra Copa do Mundo na França, a queridíssima Elba Ramalho regravou esta música, com minha “participação”.


É aplaudidíssima novamente.

Modificado e republicado em 9 de setembro de 2024

Fim do capítulo #12

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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domingo, 17 de abril de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #90: MIRANTE DO MORRO DA CRUZ

 






Fotos de Eduardo Lamas, feitas em 30 de dezembro de 2018, no Morro da Cruz, em Florianópolis (SC)

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sexta-feira, 15 de abril de 2022

MÚSICA PRA VIAGEM: FEELING GOOD

Desde que resolvi criar esta série pensava em Nina Simone. Mas qual música escolher, entre tantas composições dela e gravações de obras de Beatles, Bob Dylan, Leonard Cohen e tantos outros em que ela pôs (impôs) com personalidade única a sua marca de grande musicista, cantora e compositora? 

Eis que, ouvindo a rádio ABC, da Austrália, como tenho feito diariamente para estudar inglês, num dos programas da BBC que entram durante a madrugada de lá, tocou a parte inicial desta joia. Aí, a dúvida foi-se embora e a primeira de Nina a aparecer por aqui foi escolhida: "Feeling good", dos ingleses Anthony Newley e Leslie Bricusse.

A música foi feita para um musical, "The roar of the greasepaint - the smell of the crowd", de 1964. No ano seguinte, Nina a incluiu no álbum "I put spell on you" e a transformou na versão mais conhecida até hoje. Tanto que foi com base nela que o astro inglês George Michael, a banda inglesa Muse, entre outros, a gravaram.

Ao procurá-la no Google, veio de primeira este vídeo oficial que achei perfeito, embora sempre prefira colocar o artista executando a sua música. Mas a dança de Raianna Brown me conquistou à primeira vista. Portanto, convido você a curtir a música, a dança, as interpretações, ou seja, o vídeo inteiro. Não percamos tempo!


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quarta-feira, 13 de abril de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #11

Seleção brasileira na Copa do Mundo de 1934, disputada na Itália

Após a ovação a Carmen Miranda e Lamartine Babo, João Sem Medo reinicia o papo.

João Sem Medo: - Meus amigos, em 34, a delegação brasileira viajou 15 dias de navio para a Itália e, em 90 minutos, a vaca foi pro brejo. Isso, apesar de os quase 30 mil presentes no estádio Luigi Ferraris, em Gênova, fora os que subiram morros e telhados próximos, terem torcido pro Brasil.

Idiota da Objetividade: - O Brasil saiu perdendo de 3 a 0 pra Espanha no primeiro tempo e quando tentou reagir na etapa final ficou difícil. Houve um gol anulado, marcado pelo Luizinho, depois Waldemar de Brito perdeu um pênalti, defendido pelo grande goleiro Zamora, e a seleção brasileira foi derrotada pela espanhola por 3 a 1 e foi eliminada da Copa do Mundo logo na estreia.

João Sem Medo: - O gol do Brasil foi de um tal de Leônidas. Conhecem, né?

Ceguinho Torcedor: - Evidentemente. Ele foi a nossa grande figura em 38. Saímos daqui muito otimistas, houve uma longa preparação, a delegação chegou à França quase um mês antes do início da Copa e lá fizemos nossa primeira boa apresentação num Mundial. Ficamos em terceiro lugar, e Leônidas da Silva, o Diamante Negro, pôde assombrar o mundo com seu futebol de outro mundo.

Sobrenatural de Almeida: - Futebol assombroso!

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consequentes boas lembranças de meu avô Thomé
Adeus, Maracanã

Garçom: - E pra abrilhantar ainda mais este grande encontro e homenagear Leônidas da Silva, os Vocalistas Tropicais estão aqui pra cantar “Diamante Negro”, de David Nasser e Marino Pinto.

Todos aplaudem.

Nilo Xavier da Mota: - Obrigado, obrigado. É uma honra pros Vocalistas Tropicais estarmos aqui neste palco pra participar desta tabelinha entre futebol, muito bem representados por estes craques aqui na mesa principal, e música, a música brasileira. Vamos então a essa homenagem musical ao grande Leônidas da Silva.

São, mais uma vez, muito aplaudidos.

Garçom: - Muito obrigado, Nilo Xavier da Mota, Raimundo Evandro Jataí de Sousa, Artur Oliveira, Danúbio Barbosa Lima e Arlindo Borges.

Após a apresentação dos Vocalistas Tropicais, Leônidas da Silva passa a ser o centro da conversa no Além da Imaginação. Pairou até uma expectativa no ar se o Diamante Negro apareceria de surpresa...

Idiota da Objetividade: - Leônidas foi o primeiro brasileiro a ser artilheiro de uma Copa do Mundo, com 7 gols. A campeã, ou melhor, bicampeã, foi a Itália, que venceu o Brasil na semifinal por 2 a 1. Leônidas não jogou contra os italianos, porque, segundo o técnico Ademar Pimenta, estava machucado. Aquela Copa foi disputada em sistema eliminatório.

Sobrenatural de Almeida: - É o sistema que eu mais gosto: o mata-mata. hahahaha

Idiota da Objetividade: - O Brasil estreou na França com uma vitória de 6 a 5 sobre a Polônia, na prorrogação. Leônidas fez três gols.

Ceguinho Torcedor: - Espetacular Leônidas! Sensacional também Domingos da Guia. Nosso guardião da zaga começou o jogo com 38 graus de febre, que só piorou com a chuva que começou a cair pouco antes do jogo.

Sobrenatural de Almeida: - Com a minha intervenção ele salvou milagrosamente um gol na prorrogação, quando o Brasil vencia por 5 a 4. Batatais já estava fora do gol. No rebote, Willimonski ia fazer o gol, mas dei uma desviadinha e a bola acertou a trave

Ceguinho Torcedor: - Domingos da Guia foi outro grande herói do nosso scratch.

João Sem Medo: - No fim da partida, ele e Leônidas, que andavam meio brigados, se abraçaram emocionados.

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Idiota da Objetividade: - Este foi o primeiro jogo de uma Copa do Mundo transmitido por uma rádio brasileira, a Rádio Clube do Brasil, do Rio de Janeiro. A narração foi de Gagliano Neto.

Ceguinho Torcedor: - O povo pôde ouvir o jogo na voz do grande “speaker”, como se falava na época.

Sobrenatural de Almeida: - O presidente Getúlio Vargas mandou instalar alto-falantes nas praças e outros locais públicos pra que todo mundo pudesse ouvir.

Idiota da Objetividade: - O pernambucano Leonardo Gagliano Neto já havia sido o pioneiro na narração de um jogo da seleção brasileira, um ano antes, durante o Campeonato Sul-Americano disputado na Argentina, pela Rádio Cruzeiro do Sul.

João Sem Medo: - O Getúlio, simpatizante do regime fascista de Mussolini, mandou três telegramas pro Gagliano pedindo que ele maneirasse nas emoções durante a semifinal contra a Itália. Getúlio depois elogiou o locutor, mas muita gente disse na época que Gagliano criticou muito o árbitro pelo pênalti, no mínimo duvidoso, de Domingos da Guia em Piola.

Ceguinho Torcedor: - O rádio é meu veículo predileto, por motivos óbvios. E aquele jogo contra a Polônia foi de matar um do coração. Saímos com 3 a 1 do primeiro tempo, mas os poloneses cresceram na segunda etapa e empataram. Fizemos o quarto, mas faltando um minuto pro fim, eles igualaram o marcador novamente: 4 a 4. Na prorrogação, Leônidas meteu dois, um com a chuteira rasgada, gol de meião e, quando a Polônia fez o quinto, já era tarde. Chorei lágrimas de esguicho, mas de alegria.

Idiota da Objetividade: - Nas quartas-de-final, contra a Tchecoslováquia, foram necessários dois jogos, pois o primeiro terminara empatado em 1 a 1, e não havia disputa de pênaltis naquela época. Dois dias depois, os times voltaram a se enfrentar muito desfalcados, mas o Brasil tinha Leônidas e ganhou por 2 a 1, com um gol do Diamante Negro, que já havia marcado no primeiro embate contra os tchecoslovacos. Mais dois dias, o time brasileiro estava extenuado, com Leônidas fora, e a Itália venceu a semifinal por 2 a 1. Na disputa do terceiro lugar, Leônidas marcou dois e o Brasil derrotou a Suécia por 4 a 2.

Ceguinho Torcedor: - Dizem que na Copa de 38 ele teria feito um gol de bicicleta que espantou o público e foi anulado pelo árbitro por não conhecer a jogada. Eu não vi, não posso falar. Você viu, João? (João finge que não escutou)

João Sem Medo: - Música, maestro!

Jorge Goulart (já no palco): - Às suas ordens, mestre João Sem Medo! Vamos com a Marcha do Bonsucesso, que destaca Leônidas como o maioral.

Jorge Goulart (muito aplaudido): - Esta marcha, do Lamartine Babo, que aqui nos dá a honra de sua presença, acabou sendo oficializada posteriormente como hino do Bonsucesso. Obrigado, minha gente.

Modificado e republicado no dia 5 de setembro de 2024

Fim do capítulo #11

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