quarta-feira, 25 de maio de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #17

Iniesta arremata para fazer o gol do título mundial da Espanha, em 2010, na final contra a Holanda

João Sem Medo, ainda indignado com os 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil em 2014, prossegue o seu raciocínio sobre os problemas do futebol brasileiro.

João Sem Medo: - Nos anos 90, quando eu já não podia mais estar fisicamente para denunciar os crimes que estavam cometendo com o nosso futebol, passamos a imitar o antigo estilo europeu, mais pragmático, frio, sem jogo de cintura. E os alemães e os espanhóis passaram na década seguinte a nos imitar desde as divisões de base. Pegaram nossas melhores características e começaram a ensinar nas escolinhas de futebol de lá aos seus garotos. Com o tempo, com a organização que eles têm e nós não temos, mudaram sua forma de jogar. Principalmente a Alemanha, que sempre teve grandes jogadores, mas era mais dura de cintura.

Garçom: - Prefiro o jogo da Alemanha do que o da Espanha.

João Sem Medo: - Essa Espanha que ganhou em 2010 parecia o Bolero de Ravel, sempre a mesma coisa. Mas tinha um cracaço de bola, o Iniesta.

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Sobrenatural de Almeida: - Em 2010 estive na África do Sul.

Ceguinho Torcedor: - Aquele gol da Holanda sobre nós, com Júlio César e Felipe Melo, que jogaram juntos no Flamengo, batendo cabeça, só pode ter sido obra do Além.

Sobrenatural de Almeida: - Mas me redimi, e os holandeses tiveram de amargar o terceiro vice mundial.

Ceguinho Torcedor: - Aquele futebol da Espanha era igual ao tico-tico no fubá do América dos anos 50.

João Sem Medo: - Concordo com você, Ceguinho. Curioso que o Zagallo disse o mesmo da Holanda, em 74. E não tinha nada disso. Era um time de jogadores muito inteligentes e Cruyff foi um dos maiores que vi jogar.

Sobrenatural de Almeida: - Em 74, não gostei daquele futebol em que ninguém tinha posição fixa. Então, achei melhor a festa ficar em casa, com os alemães.

João Sem Medo: - Aquela seleção espanhola de 2010 era mesmo o tico-tico no fubá, cheio de toques pros lados. Não fosse o Iniesta...

O grupo que fica no palco aproveita a deixa da conversa e toca o choro “Tico-tico no fubá”, de Zequinha de Abreu.

Músico: - Tico-Tico no Fubá, de Zequinha de Abreu, não tem nada a ver com o América, nem com futebol, mas como vocês citaram...

João Sem Medo: - Ah, e essa música é a cara do futebol brasileiro. O nosso jeito moleque, alegre, criativo de jogar.

Músico: - Peço perdão aos senhores, pois sabem muito mais de futebol do que eu, mas o chorinho ilustra muito bem o nosso estilo de jogo.

João Sem Medo: - Sem dúvida. O estilo que nos consagrou no mundo todo e que temos abandonado.

Ceguinho Torcedor: - Isso a gente não vê mais.

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João Saldanha: - Quais jogadores brasileiros hoje sabem driblar?

Os outros: - Ah, poucos, quase nenhum.

João Sem Medo: - O Neymar, mais uns dois ou três e olhe lá.

Ceguinho Torcedor: - Mesmo assim ainda acredito que é no Brasil que se produzem os melhores jogadores do mundo. Ainda somos os maiores do mundo! Quem não pensa assim é porque tem complexo de vira-lata.

Garçom: - Já que estão falando sobre o drible, lembrei de uma música  muito boa, do Chico César. Vou botar aqui pra todos ouvirem.

Zé Ary vai ao notebook e põe nas caixas de som “Drible”, de Chico César e Zezo Ribeiro (clique aqui pra ouvi-la).

Modificado e republicado em 18 de setembro de 2024

Fim do Capítulo #17

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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terça-feira, 24 de maio de 2022

MÚSICA PRA VIAGEM: NOTURNO

Quando foi lançada, quase todo mundo que eu conhecia achava que o nome desta música era "Coração alado", até por causa da novela que era aberta com versos avassaladores na voz marcante de Fagner, lá no fim dos anos 70. Mas fui descobrir um tempinho depois, quando na casa de um amigo ouvi muitas e muitas vezes o disco "Beleza", de 1979, que o nome verdadeiro é Noturno. E só agora, quando fui escrever este texto é que soube que ela foi composta pelos irmãos Graco e Caio Silvio. Num país que dá pouco valor aos compositores, a não ser que sejam também cantores, ainda assim nem sempre, embarquei na ignorância por cerca de 43 anos.

"Beleza", que eu nem sabia também que tinha este nome (eu me recordava apenas da capa), é já o quinto álbum da carreira repleta de sucessos de Fagner. O cearense de Orós, pertencente ao Pessoal do Ceará, do qual o grande Belchior fez parte, gravou muitas músicas antes que caíram no meu gosto de criança noveleira e apaixonada por rádio que eu era. E "Noturno" foi uma das principais. Vamos ouvi-la novamente? 

"Aaaaaaaaaah, coração alaaaaado..."   


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domingo, 22 de maio de 2022

quarta-feira, 18 de maio de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #16

Com a bola na rede, Gighia começa a comemorar o gol da vitória uruguaia contra o Brasil em 1950
O papo sobre a Copa de 50 com toda comoção é revivida por aqueles que puderam presenciar e participar dos dias de festa até o silêncio final. Jorge Goulart, então, volta ao palco e toma a palavra.

Jorge Goulart: - Aquela Copa de 50 foi realmente uma grande festa antes da final. O Lamartine, que ali está (todos aplaudem), fez outra marcha que poderia ter sido o hino do primeiro título mundial do Brasil, se não perdêssemos pro Uruguai. Vou cantar aqui a "Marcha do Scratch Brasileiro" que homenageia também o estádio Municipal, como era chamado a princípio o Maracanã.


Jorge Goulart é aplaudido, assim como Lamartine Babo, que numa das mesas próximas ao palco se levanta para cumprimentar o público.

Jorge Goulart: - Viva Lalá!

Todos: - Viva!

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Jorge Goulart continua no palco, enquanto o público o aplaudia e também Lamartine Babo.

Jorge Goulart  - Agora vou chamar ao palco a Linda Batista pra cantar outra música feita pra Copa de 50.

Linda se encaminha pro palco aplaudidíssima.

Linda Batista (no palco) – Obrigada, gente. Uma pena não termos ganhado daquela vez, né? Mas tive a felicidade de gravar este samba do Ary Barroso, que ali está e também merece muito os nossos aplausos.

Todos aplaudem Ary Barroso.

Linda Batista: - Vamos lá!


Mais aplausos.

Sobrenatural de Almeida: - É, a festa foi boa, mas a euforia foi demais também. O clima de já-ganhou não me agradou.

Ceguinho Torcedor: - Então, foi você?

Sobrenatural de Almeida: - Não, foi o Obdulio Varela, o Gighia, o time uruguaio. Eu só dei um empurrãozinho, sem querer. Aquele discurso do general Angelo Mendes de Morais, pouco antes de a bola rolar, me deixou revoltado.

Idiota da Objetividade: - O general Angelo Mendes de Morais era o prefeito do Distrito Federal, ou seja, o Rio de Janeiro, então capital do Brasil.

Ceguinho Torcedor: - Com uma euforia desmedida, o general disse pouco antes do jogo que os brasileiros eram os futuros campeões mundiais...

Zé Ary imediatamente põe nas caixas de som o trecho citado por Ceguinho Torcedor do discurso de Ângelo Mendes de Morais, da tribuna de honra do Maracanã.


Vaias e protestos da plateia são ouvidos.

Sobrenatural de Almeida: - Futuros mesmo, só oito anos depois...

João Sem Medo: - Nesse discurso ele também disse que tinha dado o estádio para a realização da Copa do Mundo, então que era a vez de os jogadores darem o título mundial para o Brasil. O general pressionou ainda mais os jogadores brasileiros, ao mesmo tempo em que já cantava a vitória.

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Ceguinho Torcedor: - Amigos, em 50, na véspera de Brasil x Uruguai, encontrei-me com o famoso “speaker” Gagliano Netto e perguntei: “Quem ganha?” Eis uma resposta triunfal: “Brasil 8 a 0” Vocês entendem? Ele não fazia por menos – tinha de ser 8 a 0. Pode parecer que era um caso de delirante otimismo individual. Absolutamente, milhões de pessoas achavam assim. E o Brasil perdeu! Dirá o Idiota da Objetividade que foi o Uruguai que nos venceu...

Idiota da Objetividade: - ... E não foi?

Ceguinho Torcedor: - Não. O que nos venceu foi o favoritismo total. Contra a Espanha, temíamos. E porque havia medo, um mínimo de medo, goleamos. Seis a um, foi o resultado final. Veio de Brasil x Uruguai o meu horror ao favoritismo.

Sobrenatural de Almeida: - Foi muita falta de respeito com os uruguaios. Aí, quando o Gighia penetrou pela direita e chutou, acabei fazendo a bola ir um pouco mais rápido e quicar na frente do Barbosa.

João Sem Medo: - Quando os políticos se metem no futebol acontece isso...

Garçom: – E o Sobrenatural...

Sobrenatural de Almeida: - ... de Almeida. Hahaha

Ceguinho Torcedor: - Você bem sabe o quanto a política prejudica o futebol, né, João? Não escalou o Dario, como queria o Médici...

João Sem Medo: - Dario era um bom jogador, mas eu tinha Tostão, Jairzinho, Roberto Miranda, Coutinho, Toninho Guerreiro. Se eu quisesse trombador, aí eu poderia buscar o Dario, ou o Flávio, do Corinthians, o Alcindo, do Grêmio. O presidente escalava o Ministério dele e eu escalava o meu time.

Ceguinho Torcedor: - Esta frase te derrubou, João.

João Sem Medo: - É, estavam transmitindo pro Brasil todo a entrevista... Mas voltando a 50, o que fizeram com o Barbosa foi uma grande injustiça. Teve racismo ali.

Ceguinho Torcedor: - Foi um dia muito triste pro futebol brasileiro. Muito triste.

Idiota da Objetividade: - Foi uma tragédia aquela derrota de 2 a 1 para o Uruguai. Os uruguaios chamam aquela vitória em 1950 de Maracanazzo até hoje.

João Sem Medo: - E a imprensa daqui exagera. Chamaram a derrota de 3 a 2 para a Itália em 82 de Tragédia do Sarriá.

Garçom: - Mal sabíamos o que estava por vir...

Sobrenatural de Almeida: - O Mineiraço, em 2014.

João Sem Medo: - Isso sim foi uma tragédia. Levar de 7 a 1 em casa, numa semifinal de Copa do Mundo, é o fim do mundo. Mas parece que tudo foi só um apagão.

Quase em coro, muitos presentes pensaram alto: "Pois é..."

Modificado e republicado em 17 de setembro de 2024 

Fim do Capítulo #16

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