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sexta-feira, 8 de julho de 2022
MÚSICA PRA VIAGEM: SAMSARA
quarta-feira, 6 de julho de 2022
UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #23
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| Garrincha em ação num jogo contra o Tupynambás, em Juiz de Fora (MG). Foto: Roberto Dornellas |
Todos se divertem e aplaudem a bela música e o botafoguense Vinicius de Moraes, que estava passeando e resolveu entrar no bar Além da Imaginação para dar um abraço no pessoal. João Sem Medo aproveita e toca a bola queimando a grama pra Ceguinho Torcedor.
João Sem Medo: - Quem sabe muito sobre deste assunto de adultério é o nosso dramaturgo, não é Ceguinho?
São muito aplaudidos.
Veja também:
Sobrenatural de Almeida: - A letra desta
música só vai dar mais corda ao Ceguinho! Hahahahaha
Ceguinho Torcedor: - Nem você,
Sobrenatural de Almeida, está a salvo! Não se apresse em perdoar, a
misericórdia também se corrompe. Por isso, a fidelidade devia ser facultativa.
Ora, como já disse, o amor bem-sucedido não interessa a ninguém, minha gente.
Garçom: - Não é tanto
assim...
Idiota da Objetividade: - Eu acredito no
cidadão de bem!
Ceguinho Torcedor: - Idiota, convém
não facilitar com os bons, convém não provocar os puros. Há, no ser humano, e
ainda nos melhores, como muitos que aqui estão, acredito, uma série de
ferocidades adormecidas. O importante é não acordá-las.
Há um repentino silêncio reflexivo em todo o
bar. E o povo dá uma dispersada, enquanto o grupo da mesa dá uma pausa pra
fazer uns pedidos ao garçom e ir ao banheiro. Nossos quatro personagens voltam à
mesa e Zé Ary toca a bola para eles.
Garçom: - Bom, senhores, vamos voltar ao futebol...
João Sem Medo: - Naquela excursão do Botafogo ao
México que estava falando antes, tive o privilégio de presenciar o nascimento
do “olé” no futebol. Quem inventou foi o Garrincha em parceria com cem mil
mexicanos que lotaram o Estádio Universitário pra assistir ao que os jornais de
lá chamaram de “O Jogo do Século”: o Botafogo, que eu dirigia na época e tinha
sido campeão carioca no finzinho de 57, contra o River Plate, que era o
tricampeão argentino e tinha 10 dos 11 titulares da seleção que disputou a Copa
de 58, poucos meses depois.
Ceguinho Torcedor: - Um jogo como esse tinha de ter sido filmado e passar na
sessão da tarde todos os dias!
Todos concordam.
Veja também:
João Sem Medo: - Foi ali, naquele dia, às vésperas do carnaval de 58, que
surgiu a gíria do “olé”. Não porque o Botafogo tivesse dado olé no River, não.
O jogo foi bem equilibrado, terminou empatado em 1 a 1, até jogamos bem
fechadinhos. Foi um olé pessoal, de Garrincha em Vairo, lateral do River e da
seleção argentina. Nunca assisti a coisa igual, meus amigos.
Silêncio absoluto na plateia e atenção total ao relato de
João Sem Medo.
João Sem Medo: - Só a torcida mexicana com seu traquejo de touradas
poderia, de forma tão sincronizada e perfeita, dar um “olé” daquele tamanho.
Toda vez que o Mané parava na frente do Vairo, os espectadores mantinham-se no
mais profundo silêncio. Quando Mané dava aquele seu famoso drible e deixava o
Vairo no chão, um coro de cem mil pessoas exclamava: “Ôôôôôô-lê”!
A plateia vibra como se assistisse ao que João narra.
João Sem Medo: - Uma festa completa.
Ceguinho Torcedor: - Garrincha tinha sempre nos pés uma bola encantada! Ou
melhor, uma bola amestrada.
Todos concordam.
João Sem Medo: - Tem mais, meus amigos! Num dos momentos em que o Vairo
estava parado em frente ao Garrincha, um dos clarins dos “mariachis” atacou
aquele trecho da “Carmen” que é tocada na abertura das touradas. Como é mesmo,
maestro?
O grupo no palco executa, então, o trecho inicial da abertura da ópera “Carmen”, de Bizet, citado por João.
Fim do Capítulo #23
Modificado e republicado em 24 de janeiro de 2025
Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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domingo, 3 de julho de 2022
OLHARES ALHURES - FOTOS #101: DE VOLTA À INFÂNCIA
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quarta-feira, 29 de junho de 2022
UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #22
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| Didi e Garrincha em treino do Botafogo. Foto: Ag. O Globo |
João Sem Medo: - Ô, Almeida, você conta é muita história, viu. Quer saber, se
macumba ganhasse jogo, Campeonato Baiano terminava empatado.
Sobrenatural de Almeida: - Tá tirando sarro comigo, João?
Não tenho nada com macumba, nem religião nenhuma, não. Meu papo é futebol, mas
também não visto a camisa de nenhum time, sou democrático. Tem gente que acha
que causo tragédias, mas não tem nada disso.
Influencio apenas nos resultados de campo. De vez em quando, de vez em
quando... desvio uma bola, sopro algo no ouvido do árbitro, desloco traves,
coisas deste tipo. Se chamam de tragédia, é culpa da imprensa.
Idiota da Objetividade: - Sempre a imprensa é a culpada.
Veja também:
João Sem Medo: - Às vezes é mesmo, inventa muita
coisa pra vender jornal.
Garçom: - Enquanto há jornal. Hoje, “seu”
João, a imprensa luta por audiência e cliques, na internet.
João Sem Medo: - No meu tempo, já existia isso, não
isso de cliques, mas a busca dos jornais por leitores e de audiência das rádios
e TVs. E nisso se inventava muita coisa.
Ceguinho Torcedor: - Sou da imprensa anterior ao copy desk. Quando Pompeu deSousa trouxe pro Brasil o que se fazia nos Estados Unidos, o copy desk, os
nossos jornais foram atacados de uma doença grave: a objetividade. Daí para o
Idiota da Objetividade seria um passo.
Idiota da Objetividade: - Sou cria do Pompeu com muito orgulho, Ceguinho. A
objetividade é fundamental no jornalismo.
Ceguinho Torcedor: - Gostei! “Sou do tempo em que até os canalhas choravam”.
Sobrenatural de Almeida dá mais uma gargalhada satânica.
Garçom: - Esta música do Zeca Baleiro se chama “Meu nome é Nelson Rodrigues”.
Após a homenagem a Nelson Rodrigues, João Sem Medo retoma a
pelota.
Veja também:
João Sem Medo: - Meus amigos, vou contar uma história que ilustra bem esse
debate do Ceguinho com o Idiota. É sobre o jornalismo no rádio... Foi em 1958,
quando o Botafogo voltou de uma excursão ao México e à América Central.
Guiomar, mulher do Didi, estava fula da vida com ele, por causa da visita que
os jogadores do Botafogo fizeram a uma vedete famosa no México. A foto foi
publicada nos jornais daqui e ela não queria saber se Didi tinha culpa no
cartório ou não e partiu pro Aeroporto do Galeão pra matar o marido de pancada.
O crioulo voltou branco na viagem. Peguei o Didi e fomos pro clube, onde já
estavam Amauri e Quarentinha, que tinham ido buscar a bagagem deles. Logo veio
o rádio-repórter Vitorino Vieira com um gravador. Ele disse que não teve tempo
de ir ao aeroporto, então pediu pra fazer as entrevistas ali mesmo. Até aí tudo
bem, mas ele viu um empregado do Botafogo e pediu um ventilador. O empregado
trouxe, ele começou a falar: “Caríssimos ouvintes, bom dia! Aqui fala Vitorino
Vieira, desde o Aeroporto do Galeão, para cobrir a chegada do Botafogo de
Futebol e Regatas. Madrugamos aqui para satisfazer nossos ouvintes”.
O povo do bar não se aguenta de rir. João Sem Medo prossegue.
João Sem Medo: - Ele ligou o ventilador bem perto do microfone e continuou:
“Estão ouvindo o ronco dos motores do avião? Já estão descendo os jogadores.
Saltaram Didi, Quarentinha, Amauri e o treinador João Saldanha, que vêm ao
nosso microfone”. Fizemos a entrevista “desde o Aeroporto do Galeão”, mas
Vitorino queria mais: “Didi agora está abraçando e beijando dona Guiomar, sua
esposa”. E estalou um beijo junto do microfone.
Todos caem na gargalhada.
João Sem Medo: - Depois o repórter ainda se gabou que era bárbaro em
sonoplastia e lascou outro favor, pedindo pra bancarmos os jogadores do Vasco,
que estavam chegando ao Santos Dumont, de Belo Horizonte, onde tinham
enfrentado o Atlético. E ligou de novo o microfone: “Senhores e senhoras, a
vida do repórter de rádio é dura, viu. De madrugada estávamos falando do
Aeroporto do Galeão com a chegada do Botafogo. Agora, estamos falando desde o
Aeroporto Santos Dumont, com a chegada do Vasco da Gama”. E aí entrevistou o
Amauri como sendo Almir, que tinha feito o gol do Vasco no empate em Belo Horizonte,
eu fingi que era o Pinga; o Quarentinha bancou o Sabará, e o Didi, que já
estava assustado, sumiu.
Garçom (rindo
mais que todo mundo): - Sensacional!
Veja também:
Ceguinho Torcedor: - Quem diria, Didi, o Príncipe Etíope de Rancho, numa
situação dessa.
João Sem Medo: -
Jogava uma barbaridade. Meu amigo Neném Prancha tem uma boa definição sobre
como Didi jogava. Como é, mesmo, Neném?
Numa mesa próxima, Neném Prancha
levanta a voz.
Neném Prancha: - Didi jogava
bola como quem chupa laranja, com muito carinho.
Didi: – Obrigado,
minha gente. Mas essa história que o João contou já resolvi há muito tempo com
a Guiomar. Não é, meu bem?
Didi dá um beijo em Guiomar e todos sorriem e
aplaudem o casal.
Músico: - Com todo o
respeito ao ilustre casal, até porque ficou tudo bem, mas a dona Guiomar ficou
achando que o seu Didi tinha abusado da regra 3?
Risada geral e a banda toca um trecho de “Regra Três”, de Toquinho e Vinícius de Moraes.
Fim do Capítulo #22
Modificado e republicado em 15 de janeiro de 2025
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