Você pode passar um dia inteiro falando mal do ex-presidente eleito que vou escutar e provavelmente concordar com 90%, 99%, talvez até 100%, dependendo dos seus argumentos. Mas a qualquer menção de elogio ao atual, viro-lhe as costas e vou me embora. Assim, sereno; assim espero. Aliás, por onde anda o comandante do desgoverno que vai até o fim de dezembro? Trabalhando? Duvido, não há mais chances de reeleição. Além disso, os histéricos urros e orações nas portas dos quartéis, alguns que estiveram na mira do então tenente para serem explodidos décadas atrás, devem se esvair no vento. Um mau militar, já dizia o ditador mais moderado dos Anos de Chumbo.
O bode muito fedorento vai sendo retirado da sala, mas a sensação de alívio já vai pouco a pouco passando, antes mesmo de o eleito tomar posse novamente. Pelo menos aqui comigo. Depois de quatro absurdos anos, lá foi o herói voando na capa que o protege ser ovacionado pela comunidade internacional. Em certos aspectos - em muitos até - com bons motivos. Afinal, o que fizeram por aqui e no exterior com o nome, a bandeira, o hino, a camisa deste país foi bem coerente com quem confunde amar com armar e bate continência para a bandeira do colonizador e se veste com ela.
Entretanto, a viagem no jatinho de um empresário suspeitoso, para se dizer o mínimo em todos os aspectos, me faz ter reforçada a sensação, já antecipada durante o primeiro turno das recentes eleições, de retorno ao princípio da tragédia. Anunciada, repito e ressalto. Espero estar muito errado, porém, para quem passou as últimas 3 décadas escrevendo e falando do perigo de termos um Estado religioso por aqui e sendo tachado de exagerado, creio que seja difícil crer no erro. Sim, ainda não temos um E. E., mas já fomos à beira deste abismo e de lá não nos afastamos muito. Na verdade, quase nada. É preciso, portanto, estar atento, muito atento.
A anestesia da vitória da "democracia" e pela Copa que começa no próximo domingo, embora sem a mesma força de outros tempos, nubla olhos, tapa ouvidos, amortece sensações. E o oba-oba de um lado e o desespero tragicômico, do outro, mostram claramente onde chegamos e prenunciam para onde iremos. Por isso, é dever do verdadeiro amigo, aquele que corre sempre o risco de desafinar o coro dos contentes e também dos descontentes, avisar: o perigo está na ordem do dia a dia.
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