UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #29

Uma coisa jogada com música - Capítulo #29

Foto aprimorada pela AI Ease

Zé Ary pega a deixa do apelido de Heleno de Freitas e lança outro tema à mesa dos nossos amigos João Sem Medo, Ceguinho Torcedor, Sobrenatural de Almeida e Idiota da Objetividade.

Garçom: - Outro que ganhou apelido de mulher no futebol foi o goleiro Raul, nos tempos do Cruzeiro, né?

João Sem Medo: - Essa é outra história, foi por causa da camisa amarela.

Sobrenatural de Almeida: - Armei aquele salseiro, foi engraçado.

João Sem Medo: - Até nesta história?

Ceguinho Torcedor: - O que você aprontou, Almeida?

Sobrenatural de Almeida: - Isso, todos sabem, ou quase todos. Foi já na década de 60. Goleiro naquela época só usava camisa preta ou cinza. E era sempre a mesma camisa, lavava e voltava. Mas aí, o goleiro titular do Cruzeiro se machucou às vésperas do clássico com o Atlético, então Raul foi escalado. Mas ele era muito maior que o outro e a camisa não deu. Aí, resolvi fazer uma luz acender na cabeça do Raul, quando o lateral-esquerdo Neco passou com um moleton amarelo em frente a ele. Raul pediu a camisa do companheiro emprestada, colou um esparadrapo atrás pra fazer o número um e foi pro campo. A torcida do Galo não perdoou vendo aquele goleiro altão, com cabeleira loura, vestindo amarelo, e começou a chamá-lo de Wanderléa.

Garçom: - Lembraram da cantora da Jovem Guarda, né?

Sobrenatural de Almeida: - Isso mesmo!

Idiota da Objetividade: - Aquele jogo terminou empatado sem gols e o Atlético ainda perdeu um pênalti, mas Raul não defendeu, a bola foi chutada para fora.

Sobrenatural de Almeida: - Mais uma peripécia minha.

João Sem Medo: - O presidente do Cruzeiro na época, Felicio Brandi, achava que a camisa dava sorte e obrigou o Raul a só jogar de amarelo depois daquilo.

Sobrenatural de Almeida: - Pois é. O Raul foi se meter a besta, porque não estava acertando a renovação do contrato, e foi jogar de preto uma vez. Aí ajudei o Cruzeiro a perder. Ele, então, renovou o contrato e voltou a jogar de amarelo de novo.

João Sem Medo: - O Cruzeiro tinha um grande time naquela época, com Dirceu Lopes, Piazza, Tostão, Natal... Foi campeão em cima do Santos de Pelé, com uma goleada de 6 a 2.

Garçom: - Em homenagem àqueles grandes campeões, vamos exibir no telão imagens daquele timaço ao som da música “Academia”, de João Saraiva, Mauro Saraiva e Plínio Saraiva.

Os aplausos são efusivos. Idiota da Objetividade dá então mais detalhes daquela épica conquista cruzeirense.

Idiota da Objetividade: - A final da oitava Taça Brasil, em 1966, reuniu o Santos de Pelé, que lutava pelo hexacampeonato, e o Cruzeiro de Tostão, que fazia uma campanha excepcional, com nove vitórias e três empates. Por ser o campeão, na verdade com cinco títulos seguidos, o Santos entrou na competição para lutar pelo hexa já na semifinal, como rezava o regulamento. Eliminou o Palmeiras, enquanto o Cruzeiro desclassificava o Fluminense. O primeiro jogo das finais, no Mineirão, terminou com uma goleada histórica e surpreendente do time mineiro, por 6 a 2, diante de quase 80 mil pessoas.

Ceguinho Torcedor: - O primeiro tempo terminou 5 a 0 e a torcida cruzeirense parecia não acreditar no que estava vendo.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso!

João Sem Medo: - Dirceu Lopes comeu a bola naquele dia. Fez três gols.

Idiota da Objetividade: - Os outros foram de Zé Carlos, contra, Tostão e Natal. Para o Santos, Toninho Guerreiro fez os dois.  Apesar da goleada, no segundo jogo, no Pacaembu, bastaria ao Santos vencer por qualquer diferença para forçar o terceiro jogo. Pelé e Procópio foram expulsos no primeiro jogo, mas puderam atuar na segunda partida.

João Sem Medo: - O primeiro tempo terminou 2 a 0 pro Santos, com o Pelé em grande noite. Todos começaram a achar que o Santos devolveria a goleada. Dirigentes do Santos e da Federação Paulista chegaram a ir ao vestiário do Cruzeiro para acertarem o terceiro jogo pro Maracanã. Foram expulsos e aquilo deu mais motivação ainda pros mineiros. Tanto que no segundo tempo, o Cruzeiro virou pra 3 a 2.

Ceguinho Torcedor: - E o Tostão ainda perdeu um pênalti!

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso.

Idiota da Objetividade: - O jogo foi disputado no dia 7 de dezembro de 1966, debaixo de muita chuva, diante de 30 mil pessoas aproximadamente. Pelé abriu o marcador, aos 23 minutos, e dois minutos depois, Toninho Guerreiro fez o segundo do Santos. Tostão perdeu o pênalti aos 13 do segundo tempo, mas fez o seu em cobrança de falta, com pouco ângulo, aos 18. Dirceu Lopes empatou aos 28 e Natal, após bela jogada de Tostão pela esquerda, fez o terceiro, aos 44.

Garçom: - Vamos ver os lances daquele jogo no telão? Com narração do grande Fiori Gigliotti, que ali está e merece muito todos os nossos aplausos.

Fiori se levanta, agradece a homenagem e se senta para assistir o telão.

Os cruzeirenses presentes vibram como se a partida tivesse acontecido naquele momento. Ceguinho Torcedor retoma a bola para contar mais sobre aquela conquista do Cruzeiro.

Ceguinho Torcedor: - Foi uma festa inesquecível em Belo Horizonte. Depois da vergonha e da frustração da Copa de 66, nenhum acontecimento teve a importância e a transcendência da vitória do Cruzeiro. Não foi só a beleza da partida, ou seu dramatismo incomparável. É preciso destacar o nobre feito épico que torna inesquecível o título do Cruzeiro. Sem medo de fazer uma sóbria justiça estava ali, naquele momento, o maior time do mundo.

Garçom: - Sem dúvida alguma, seu Ceguinho! Afinal, superou o Santos de Pelé, com autoridade. Vamos então ver e ouvir no telão, Tadeu Franco cantando uma composição sua em homenagem ao Cruzeiro, com destaque praquele grande time de 1966.

Fim do Capítulo #29

Episódio originalmente publicado em 17 de agosto de 2022 e republicado totalmente modificado em 13 de março de 2025.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #28

Uma coisa jogada com música - Capítulo #28
Heleno de Freitas no antigo estádio da Rua General Severiano. Foto com colorização da AI Ease

Após a festa santista no bar Além da Imaginação, com Francisco Egydio sendo ovacionado e muito elogiado por seu vozeirão, Idiota da Objetividade não quis deixar a conversa sobre Almir Pernambuquinho sair da pauta.

Idiota da Objetividade: - Almir Morais de Albuquerque, o Almir Pernambuquinho, chegou a ser chamado de Pelé Branco, mas acabou sendo conhecido mais pelas confusões em campo do que pelo seu grande futebol.

Garçom: - Tinha era muita raça, viu! Lembro de um gol dele no Flamengo contra o Bangu também na década de 60, em que ele meteu a cara na lama pra empurrar a bola com a cabeça. A bola passou só isso aqui da linha. Tinha muita raça.

Almir: - Foi em 66 mesmo. O Ubirajara defendeu a primeira cabeçada, mas no rebote meti a cabeça na bola no chão mesmo.

Todos riem e aplaudem, inclusive Ubirajara.

Garçom: - Olha o lance aí no telão!

Todos vibram e aplaudem como se estivessem no Maracanã naquele momento do jogo.

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Idiota da Objetividade: - Almir ganhou muitos títulos importantes nos vários clubes em que jogou. No Vasco foi campeão em 58 do Rio-São Paulo e do Carioca; no Santos, a Libertadores e o Mundial de 63, além das Taças Brasil e o Rio-São Paulo de 63 e 64, mais o Paulista de 64, e no Flamengo foi campeão carioca de 65.

João Sem Medo: - No dia da sua morte eu estava longe, na Bahia, e até esqueci do jogo do Flamengo contra o Bahia que ia comentar. Levei um susto com a notícia. Não sabia dos detalhes, mas uma coisa logo garanti: o Pernambuquinho estava defendendo o lado mais fraco. E da mesma maneira como sempre fez, de peito aberto, sem medir consequências, porque estava certo de ter razão. Catimbeiro, valentão, corajoso, boa gente e bom amigo. Enfim, não sei, mas parece que era assim mesmo que ele queria morrer.

Almir: - Melhor assim do que covardemente, né, seu João?

João Sem Medo: - Muito melhor!

O estilo de Almir fez Sobrenatural de Almeida se recordar de outro polêmico e guerreiro atacante, este mais antigo que Almir.

Sobrenatural de Almeida: - Outro grande jogador, também muito temperamental, foi o Heleno de Freitas.

João Sem Medo: - Meu grande amigo. Jogamos juntos na praia e no juvenil do Botafogo.

Sobrenatural de Almeida: - Heleno é até hoje um dos grandes ídolos do Botafogo, mas só foi campeão no Vasco, em 49.

Ceguinho Torcedor: - O ataque daquele time era fantástico: Nestor, Ademir Menezes, Heleno, Maneca e Chico.

Idiota da Objetividade: - O Expresso da Vitória, como era chamado um dos maiores times da História do Vasco.

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Garçom: - Heleno ficou de aparecer aqui no bar, vamos ver se aparece. Então, pra lembrarmos aquela fase gloriosa do Vasco, vamos convidar aqui no palco no Além da Imaginação, Aracy de Almeida.

Os aplausos logo se sucedem e Aracy, que nem de longe lembrava aquela mal-humorada jurada dos programas de Silvio Santos, sobe ao palco.

Aracy de Almeida: - Muito obrigada, gente. Com muita honra homenageio meu clube do coração, o grande Vasco da Gama, que Heleno defendeu tão bem, em 1949. “Entra Vasco” gravei três anos antes. Não confundir esta marchinha com outra música de mesmo nome que a Aurora Miranda, irmã da Carmen, que ali está, gravou ainda na década de 30, que foi composta por Alberto Ribeiro e AntonioAlmeida. Vamos lá, então, com “Entra Vasco”, de Ari Monteiro e Arnaldo Paes.

Aplaudida, Aracy deixa o palco e vai pra sua mesa.

Idiota da Objetividade: - O Expresso da Vitória foi campeão carioca em 1945, 47, 49, 50 e 52, e conquistou o Campeonato Sul-Americano de Clubes, no Chile, em 48. Com oito jogadores convocados por Flávio Costa, o Vasco foi a base da seleção brasileira vice-campeã mundial em 50.

Garçom: - Ih, a torcida do Vasco não gosta muito desta história de vice, não.

Sobrenatural de Almeida (voltando do banheiro, meio distraído): - Olha, alguns daqueles jogos tiveram a minha participação efetiva.

Garçom: - Nos vices do Vasco?

Sobrenatural de Almeida: - Também, também. Mas falava do Heleno. Eu gostava de provocá-lo também pra ele animar um pouco mais alguns joguinhos. Era só chamá-lo de Gilda que ele ficava louco da vida. (ri tenebrosamente)

Veja também:

Idiota da Objetividade: - O polêmico Heleno de Freitas fez parte da equipe vascaína campeã carioca de 49. É o único título que conquistou na carreira. Mas Heleno ficou consagrado como ídolo botafoguense. Ele fez um total de 204 gols em 233 jogos com a camisa do Botafogo. Ainda atuou pelo BocaJuniors, da Argentina; América do Rio; Atlético Júnior Barranquilla, da Colômbia, e Santos, onde ficou pouquíssimo tempo. Sempre criou muita confusão em campo, adorava a vida boêmia e, principalmente, as mulheres.

Ceguinho Torcedor: - Dizem que por causa de uma sífilis mal curada ficou louco e acabou internado num sanatório, em Barbacena, cidade do seu estado natal, Minas, já que ele era de São João de Nepomuceno.

João Sem Medo: - Esta história prefiro esquecer. Guardo comigo as boas recordações do meu amigo Heleno.

Sobrenatural de Almeida: - Heleno de Freitas era um galã e ganhou o apelido de Gilda, o que o deixava revoltado.hahaha

Ceguinho Torcedor: - Gilda era a personagem encarnada pela belíssima atriz Rita Hayworth no cinema.

Heleno aparece repentinamente no Bar Além da Imaginação e todos ficam em suspense. Mas ele, com trajes elegantes da década de 40, amacia a pelota e faz a criança rolar no gramado.

Heleno: - Este apelido não quer dizer mais nada pra mim. Ou melhor, até ajuda em alguns casos. O importante é que o lendário Heleno de Freitas ficou guardado na memória dos amantes do bom e valente futebol. Tanto que recebo ainda hoje muitas homenagens.

João Sem Medo se levanta e vai abraçar, emocionado, Heleno de Freitas, que também muito comovido, retribui o carinho do amigo. Todos aplaudem de pé.

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Garçom: - Diante desta cena maravilhosa, só há uma coisa a fazer: homenageá-lo, grande Heleno de Freitas. Vamos ver no telão imagens e músicas do espetáculo “Heleno, um homem chamado Gilda”, de Miguel Paiva e Zé Rodrix, que se encontra ali ao fundo, podem aplaudi-lo também. Com direção de Marcelo Saback, o espetáculo foi apresentado em 1996 pela Orquestra Brasileira de Sapateado. O ator Raul Gazolla interpretou Heleno. Vamos ver e ouvir.

Todos fazem silêncio e assistem com atenção.

O público aplaude muito e Heleno, João e Ceguinho comentam sobre o depoimento de Armando Nogueira e perguntam a Zé Ary pelo grande jornalista botafoguense.

Garçom: - “Seu” Armando ficou de vir. Uma hora aparece por aí com muita história boa pra contar também.

Fim do Capítulo #28

 Episódio originalmente publicado em 10 de agosto de 2022 e republicado totalmente modificado em 05 de março de 2025.

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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #27

Uma coisa jogada com música - Capítulo #27

Almir recebe abraço de Pelé após a vitória sobre o Milan, em 63. Foto: Nelson Almeida/AFP 

Em meio à festa dos bangüenses, Almir aparece de surpresa no bar Além da Imaginação, mas desta vez em vez de socos e pontapés só houve sorrisos e abraços, especialmente em Zé Ary, velho conhecido, João Sem Medo, Ceguinho Torcedor, Sobrenatural de Almeida, que brincou com ele sobre o sopro no ouvido na final de 66, e Idiota da Objetividade. Ele cumprimentou seus adversários daquela final também e foi levado ao palco.

Garçom: - Almir, enquanto a gente vai vendo as imagens no telão, conta pra gente como foi aquela confusão toda que você armou na final de 66.

Almir: - Olha, pra jogar aquela partida eu tomei dois Dexamil.

Idiota da Objetividade: - Pra quem não sabe, Dexamil é anfetamina, uma droga sintética estimulante que age diretamente no sistema nervoso central.

Almir: - Pois então, outros jogadores tomaram também, porque naquelas horas a bolinha aparecia não se sabe como. Havia sempre alguém oferecendo: quem quisesse tomar, tomava mesmo. Silva não tomou, não gostava. Também não tomaram nada nossos homens do meio-campo: Carlinhos e Nelsinho.

João Sem Medo: - Do doping ninguém soube.

Almir: - Não, só depois que contei a história toda no meu livro e pra revista Placar já nos anos 70.

Idiota da Objetividade: - Toda aquela confusão deixou você fora dos campos por quase seis meses de suspensão.

Almir: - Verdade.

Veja também:


Ceguinho Torcedor:
- Mas o que lhe deu na cabeça, rapaz? Era pra ser uma partida genial, um dos maiores espetáculos da Terra. A cidade estava possuída pelo jogo. Nos botecos, nas retretas e nos velórios não se falava, não se pensava, não se sentia outra coisa, a decisão era assunto obrigatório. Mas onde entra a paixão humana, tudo é possível. Antes do jogo, as brigas pipocavam por todo estádio Mario Filho. Eram cento e oitenta mil ventas incandescentes e tudo era pretexto para o palavrão, para o insulto e para o tapa. E assim, quando os vinte e dois jogadores entraram em campo, a paixão ardia no estádio!

Almir: - O clima era bem esse, Seu Ceguinho! Nós ainda estávamos fazendo aquecimento muscular no campo, batendo fotografias, dando entrevistas, quando o Sansão se aproximou de mim e já foi advertindo: “Olha aí, Almir, eu estou de olho em você. Muito cuidado que eu vou te expulsar”. O primeiro gol foi feito por Ocimar, num chute mais ou menos da intermediária. Valdomiro pulou atrasado, chegou a tocar na bola com um soco, mandando-a as redes. Estava explicado porque ele cantava tanto dias antes...

João Sem Medo: - Ele estava na gaveta também, Almir?

Almir: - Seu João, havia um ambiente de revolta no vestiário. O diretor de futebol do Flamengo, Flávio Soares de Moura, estava indignado, percebera que o Bangu armara um esquema para ganhar o título de qualquer maneira. Ele me fez uma pergunta não como dirigente, mas como torcedor: “Almir, eles vão dar volta olímpica?” Não vai ter volta olímpica não, seu Flávio. Só se for do Flamengo [...]

Garçom: - Seria bom que o Valdomiro viesse aqui pra dar a sua versão.

Almir: - Ele vai negar, claro. Mas também não posso provar nada, só foi muito estranho. Hoje não tem mais briga, estamos aqui nos confraternizando, mas lá na hora, além de nos golear, o Bangu queria ensaiar um baile. Eu já estava com raiva, e o sangue subiu à cabeça por volta dos 25 minutos quando o Ladeira, do Bangu, discutiu com Paulo Henrique e deu um soco na cara dele. A confusão começou ali. Depois que o Itamar acertou o Ladeira e dei uns chutes nele, olhei os bolos de jogadores e disse comigo mesmo: “Tudo o que estiver com camisa de listras brancas e vermelhas é inimigo”.

Ubirajara: - Quando você voltou pro campo eu te desafiei, Almir.

Almir: - É, você veio com uma de valente: “Lá fora vamos resolver isso”. (risos)

Ubirajara: - Você me deu um soco no estômago e quando me levantava pra revidar...

Almir: - O AriClemente me deu um soco.

Sobrenatural de Almeida: - Que bafafá! Hahahaha

Almir: Foi mesmo. Cem mil torcedores gritando “porrada, porrada, porrada...” Mas aí a polícia veio e acabou com a festa e o juiz Airton Vieira de Moraes acabou cumprindo bem o seu papel: expulsou cinco do Flamengo, eu, Silva, Itamar, Valdomiro e até o Paulo Henrique, e quatro do Bangu: Ari Clemente, o Ubirajara, Luis Alberto e Ladeira. O Flamengo ficou com menos de sete em campo e o Bangu foi declarado vencedor.

Ubirajara: - Merecidamente.

João Sem Medo: - Concordo. O Bangu foi o melhor time daquele campeonato.

Músico: - Toca o hino do Bangu!

Lamartine Babo: - Marcha do Bangu, que tive o prazer de compor e o clube depois oficializou como hino, o que muito me honra.

Com todos os jogadores banguenses daquela final de 66 cantando em alto e bom som, Almir ficou só observando, desta vez respeitosamente. E aplaudiu no fim da cantoria.

Almir (rindo): - Hoje não vai ter confusão.

Todos riem e aplaudem.

Ceguinho Torcedor: - O Almir merece ser lembrado também por suas épicas atuações.

Almir: - Obrigado, seu Ceguinho. Mas deixo pros senhores contarem o resto da história. Vou me sentar ali pra ouvir os senhores contarem as minhas histórias. (rindo)

É aplaudido, agradece, deixa o palco.

Veja também:

João Sem Medo: - Você foi um jogador completo depois de Pelé. Possuía técnica e habilidade apurada e tinha velocidade.

Almir: - Muito obrigado, seu João.

João Sem Medo: - Por nada, você merece. Almir substituiu Pelé na final do Mundial Interclubes contra o Milan, em 63, quando o Santos conquistou o bicampeonato. Ele fez um gol na vitória de 4 a 2, no segundo jogo da final, no Maracanã, mesmo placar em favor do time italiano, em Milão, e sofreu o pênalti que originou o gol do título santista no Maracanã, marcado pelo Dalmo.

Almir: - Deixa eu contar outra história aqui, seu João. O Amarildo desrespeitou o Pelé depois do primeiro jogo. Disse que o Pelé estava acabado e eu não admitia que falassem mal do Pelé. Jurei o Amarildo, dei umas pancadas nele no Maracanã e ganhamos duas vezes deles no Rio e nos sagramos campeões.

Garçom: - Vamos aproveitar chamar aqui ao palco Francisco Egydio pra cantar duas músicas em homenagem ao Santos.

Francisco Egydio vai ao palco muito aplaudido.

Francisco Egydio: - Muito obrigado, minha gente. Vamos cantar “O Santos ganhou”, de Nilo Silva, Mazinho e Nandinho, e depois “Glória ao Santos Futebol Clube”, de CarlosHenrique Roma e é o hino oficial do clube, menos conhecido que o  popular que começa com o verso “Agora quem dá a bola é o Santos”. Vamos lá, sem pausa pra respirar!

Clique aqui para ouvir as músicas.

Fim do Capítulo #27

Episódio originalmente publicado em 3 de agosto de 2022 e republicado totalmente modificado em 27 de fevereiro de 2025.

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"SUTILEZAS" COM CAPA NOVA

"Sutilezas" com capa nova

"Sutilezas", segundo livro de poesias de Eduardo Lamas Neiva, quarto de sua autoria, lançado em 2019, está de capa nova. Com uma belíssima foto de Heloísa Medeiros e a caprichosa edição de Mauricio Capellari, na capa, o ebook foi revisto e revisado. 

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Veja também:

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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #26

Uma coisa jogada com música - Capítulo #26

Almir Pernambuquinho, transtornado, na confusão que armou na final do Campeonato Carioca de 1966

Após cantar a Marcha do São Cristóvão, Silvio Caldas sai aplaudido do palco, abraça João Sem Medo, Ceguinho Torcedor, Sobrenatural de Almeida e Idiota da Objetividade e volta à sua mesa. João reinicia o papo.

João Sem Medo: - Quarenta anos depois da conquista do São Cristóvão, o Bangu, que já havia sido campeão em 33, na época da divisão entre amadoristas e profissionalistas, derrotou o Flamengo e seus 150 mil torcedores no Maracanã...

Sobrenatural de Almeida: - A final do Campeonato Carioca de 1966 não chegou ao fim...hahaha

Garçom: - Foi aquele fuzuê que o Almir Pernambuquinho armou no Maracanã, né?

João Sem Medo: - Isso mesmo, Zé Ary.

Veja também:

Músico: - Aquela confusão toda no Maracanã me lembra uma música antiga, o Futebol da Bicharada, de Raul Torres.

Garçom: - Raul Torres se encontra aqui, vamos chamá-lo ao palco pra cantar essa pra gente, então.

Raul Torres, aplaudido por todos, sobe ao palco.

Raul Torres: - Obrigado, gente. Nesse jogo aqui também teve confusão, mas pra cantar vou chamar meu parceiro Florêncio.

Florêncio vai ao palco também aplaudido.

O público ri muito e aplaude a dupla, que agradece e deixa o palco. Ceguinho volta a falar de Almir.

Ceguinho Torcedor: - Almir foi um grande jogador, chegou a ser convocado para os primeiros treinos da seleção em 58, mas acabou cortado. Tinha o pavio curtíssimo. Apesar dos seus defeitos, ou por isso mesmo, eu o via como um exato símbolo pessoal e humano do futebol brasileiro.

Idiota da Objetividade: - Antes daquela decisão entre Flamengo e Bangu, ele já tinha se metido em muitas outras confusões.

João Sem Medo: - Almir, que passou pelo Vasco, BocaJuniors, Santos, Fiorentina, Flamengo, todos grandes clubes e ganhando muito dinheiro, foi sempre um mão-aberta naquela timidez do boêmio que acha que tendo dinheiro no bolso é ofensa permitir que outros paguem a despesa. Teve uma morte trágica, foi assassinado num bar em Copacabana, no início da década de 70.

Veja também:

Idiota da Objetividade: - Almir começou no Sport Recife, em 1956, e foi para o Vasco, onde se juntou a Vavá e outros pernambucanos como ele que já estavam no time de São Januário. Ele recusou uma convocação para a seleção brasileira certa vez para excursionar com o Vasco e isso o deixou marcado. Por isso fez poucos jogos na seleção.

João Sem Medo: - Num desses jogos pela seleção provocou uma batalha campal contra o Uruguai, em 59.

Ceguinho Torcedor: - A mais famosa, porém, foi aquela de 66, quando o Bangu foi campeão em cima do Flamengo. Eu estava lá no Maracanã e vi, ou melhor, percebi o burburinho todo com a confusão que o Almir Pernambuquinho armou dentro de campo.

João Sem Medo: - Os nervos estavam à flor da pele desde o meio da semana. Houve uma verdadeira guerra de nervos. No jogo, também muito tenso, o Flamengo precisava ganhar, mas acabou perdendo Carlos Alberto, depois Nelsinho, machucados, e ficou sem pai, nem mãe. Aí saiu a encrenca toda e o árbitro Airton Vieira de Moraes, que teve uma das mais perfeitas arbitragens que já apareceram no Maracanã, foi muito feliz ao acabar com o jogo. Já estava 3 a 0 pro Bangu e poderia sair um conflito imprevisível naquela multidão. O Bangu foi o melhor time do campeonato e mereceu o título.

Idiota da Objetividade: - A partida entre Flamengo e Bangu foi disputada no dia 18 de dezembro de 1966. Era a última rodada do turno final, e o Bangu tinha a vantagem do empate para ser o campeão, mas fez dois gols no primeiro tempo e um logo no início do segundo. A briga começou aos 25 minutos do segundo tempo. Começou com uma discussão entre o atacante Ladeira, do Bangu, e o lateral-esquerdo Paulo Henrique, do Flamengo. Mesmo vencendo o jogo, Ladeira deu um tapa no adversário e Almir Pernambuquinho tomou as dores do companheiro e foi pra cima do lateral bangüense. Uma confusão generalizada que acabou com nove jogadores expulsos.

Sobrenatural de Almeida: - Eu armei aquele sururu. Fiquei soprando no ouvido do Pernambuquinho que o Flamengo não podia ser humilhado daquele jeito, que era preciso ele tomar uma atitude de macho.

Idiota da Objetividade: - O árbitro Airton Vieira de Moraes, conhecido como Sansão, deu cartão vermelho para cinco jogadores rubro-negros, Valdomiro, Itamar, Paulo Henrique, Silva e, lógico, Almir, e quatro alvirrubros: Ubirajara, Luis Alberto, Ari Clemente e Ladeira. O jogo teve de ser encerrado porque o Flamengo ficara com apenas quatro jogadores, o que não é permitido pela regra. O mínimo é sete. Assim, com os 3 a 0 no placar, o Bangu foi declarado vencedor e se tornou campeão carioca pela segunda vez. O público presente ao Maracanã naquela tarde foi de 143.978 pagantes, 90% de rubro-negros, que saíram frustrados do estádio.

Sobrenatural de Almeida: - Que nada! Sairiam frustrados se não tivesse tido aquela pancadaria toda. O Almir saiu como herói.

João Sem Medo: - Aquele jogo tem muita história estranha. Muita gente disse que o Sansão estava na gaveta do Bangu e que cada goleiro se vendeu ao outro time, mas o Castor teria descoberto e ameaçado de morte o time inteiro se houvesse algum gol contra o Bangu, sem citar o nome do Ubirajara. Logo no início do jogo, o Flamengo dominava, já tinha posto uma bola na trave, e o ponta-direita Carlos Alberto se machucou num choque acidental com Ari Clemente e não pôde mais jogar. Naquela época não havia substituição, o Nelsinho ainda se machucou e ficou em campo mancando com uma atadura no joelho fazendo número.

Idiota da Objetividade: - Valdomiro ficou no Flamengo até o início de 1968. Será que o clube ficaria com ele se a suspeita fosse ao menos factível? 

Garçom: - Ele podia aparecer por aqui pra dar a sua versão.

Ceguinho Torcedor: - Se o Valdomiro estava vendido ou não eu não sei, mas que o primeiro gol do Bangu, marcado pelo Ocimar, foi um frangaço, ninguém tem dúvida. Nem eu! Nos outros dois, de Aladim e PauloBorges, ele não teve culpa.

Sobrenatural de Almeida: - Mas, Ceguinho, o que marcou mesmo foi a multidão gritando e aquele som abafado altíssimo ecoando em meus ouvidos: “Por-ra-da! Por-ra-da! Por-ra-da! Por-ra-da!...”hahaha

O público do bar faz coro com o Sobrenatural: - "Por-ra-da! Por-ra-da! Por-ra-da!...”

Veja também:

Sobrenatural de Almeida: - A torcida do Flamengo foi ao delírio. Perdeu o título, mas ganhou a briga de presente.

Garçom: - Certo. Mas hoje os homenageados serão aqueles campeões do Bangu, alguns aqui presentes, outros ainda vivendo no Mundo Material. Por isso, trouxemos aqui uma turma da banda do Bangu para alegrar o ambiente com a Marchinha do time campeão carioca de 1966.

Os integrantes são aplaudidos enquanto sobem ao palco e a festa começa, com todo mundo se divertindo a valer, especialmente Ubirajara, Fidélis, Mario Tito, Luís Alberto e Paulo Borges.

Fim do Capítulo #26

Episódio originalmente publicado em 27 de julho de 2022 e republicado totalmente modificado em 16 de fevereiro de 2025.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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