quarta-feira, 6 de abril de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #10

Seleção brasileira na Copa do Mundo de 1930, disputada no Uruguai

O racismo no futebol continua sendo o tema do papo no bar “Além da Imaginação” e a bola está com o comentarista que o Brasil consagrou.

João Sem Medo: - Esse racismo entranhado em muitos clubes brasileiros é que acabou levando o futebol ao profissionalismo na década de 30. Os jogadores passaram a ser empregados dos clubes, tratados como tal, e isso foi uma forma de os dirigentes evitarem a mistura deles com a parte social na sede. Amadorismo, propriamente, já não existia há muito tempo. Com pouquíssimas exceções de jogadores ricos, o resto já era profissional de alguma forma. E, na verdade, foi o jeitinho brasileiro pra contornar a questão, pois os clubes que rejeitavam o profissionalismo, no fundo não queriam mesmo era abrir as portas ao negro. E aí caíram num dilema: ou fechavam o departamento de futebol ou aceitavam o profissionalismo. Isso causou uma cisão violenta.

Sobrenatural de Almeida: Foi por isso que a seleção brasileira disputou a primeira Copa do Mundo com um time enfraquecido...

João Sem Medo: - Foi. Eu assisti àquela Copa, morava ali perto da fronteira com o Uruguai. Aliás, assisti a todas as Copas do Mundo.

Todos os outros três (desconfiados): - Sim, claro...

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Garçom: - Senhoras e senhores, como a conversa está nos tempos do amadorismo no futebol brasileiro, temos música no palco para ilustrar o tema.

José (Giuseppe) Rielli (no palco, com seu acordeão): É “vero”! “La canzone” se chama “Amadores da pelota”, de Antônio Teixeira Borges.

Garçom: - O bar Além da Imaginação tem a honra, então de apresentar José... Giuseppe... Como devo apresentá-lo: José ou Giuseppe Rielli?

José (Giuseppe) Rielli: - Giuseppe, como “io” assinava em 1914.

Garçom: - Então, com vocês, Giuseppe Rielli!

Todos aplaudem o italiano que veio para o Brasil ainda criança no fim do século XIX. Ele agradece e se despede. João Sem Medo continua. 

João Sem Medo: - Por causa dessa rixa entre amadoristas e profissionalistas, pro Uruguai, em 30, a seleção brasileira só levou um paulista, Araken Patusca, que estava brigado com o Santos, onde foi grande ídolo e artilheiro.

Idiota da Objetividade: - Araken já estaria sendo contratado...

Ceguinho Torcedor: - Estaria sendo, Idiota???

Idiota da Objetividade: - Peço desculpas. Tentando ser mais objetivo: Araken já estaria apalavrado com o América do Rio na época. Ele é primo de Arnaldo Patusca da Silveira, autor do primeiro gol da História do Santos Futebol Clube, e filho do primeiro presidente do clube santista: Sizino Patusca. O gol de Arnaldo foi feito na vitória de 2 a 1 sobre o Santos Athletic Club, em amistoso realizado em 1912.

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João Sem Medo: - O Santos tem uma grande história antes mesmo de Pelé. Mas voltando ao que falávamos... a CBD, que deu origem à CBF, com sede no Rio, era amadorista, enquanto que uma tal de Federação Brasileira de Futebol e a Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea), um dos muitos nomes que a Federação Paulista de Futebol teve, eram profissionalistas. Acabou que só foram jogar a primeira Copa jogadores do Rio e o Araken, que aproveitou que o navio da seleção passou pelo porto de Santos e se juntou à delegação.

Sobrenatural de Almeida: - Mas fomos eliminados logo na primeira fase!

João Sem Medo: - Sim. Com uma derrota na estreia pra Iugoslávia, por 2 a 1, e uma vitória de 4 a 0 sobre a fraca Bolívia.

Idiota da Objetividade: - Araken Patusca fez parte de uma fabulosa equipe do Santos, que no Campeonato Paulista de 1927 marcou 100 gols em 16 partidas, média recorde mundial de 6,25 por jogo. Só Araken fez 31 gols, mas o time santista terminou em segundo lugar. O campeão foi o Palestra Itália, que deu origem ao Palmeiras e que conquistava ali o bicampeonato paulista. Ele só conseguiu ser campeão no Santos, em 1935, mas em grande estilo: marcou um dos gols dos 2 a 0 sobre o Corinthians, na última partida da competição.

Garçom: - Esse Araken era bom mesmo, né?

Idiota da Objetividade: - Araken estreou no Santos, no início da década de 20, saindo da arquibancada direto pro campo, fazendo 4 gols no empate em 5 a 5 com o Jundiaí. Ele tinha apenas 15 anos, senhores. Araken ainda jogou no Paulistano, no São Paulo e no Flamengo. E escreveu um livro sobre a excursão que o Paulistano fez à Europa em 1925, quando atuou ao lado do grande Friedenreich, o maior artilheiro de todos os tempos, com 1.329 gols, reconhecidos pela Fifa.

João Sem Medo: - Os jornais franceses, encantados com a série de shows de bola em gramados europeus, chamaram os brasileiros de “Os reis do futebol”. E este é o título do livro do Araken Patuska.

Ceguinho Torcedor: - Ainda bem que depois da divisão toda, entre amadoristas e profissionalistas, o futebol brasileiro pôde ter um pouco de paz.

João Sem Medo: - A partir daí nosso futebol deu saltos gigantescos, projetou-se internacionalmente pela qualidade extraordinária de nossos craques, apesar do núcleo dirigente tentar sempre atrapalhar. Mas de 1930 até 35 foi o pior momento da História do futebol brasileiro. Eu não presenciei muito, mas eu sei também que o incêndio de Roma aconteceu, né?

Ceguinho Torcedor: - Verdade, meu amigo, é o óbvio ululante!

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João Sem Medo: - Foi uma fase de grande crise política e econômico-financeira, depois da crise mundial dos anos 30, no começo dos anos 30.

Ceguinho Torcedor: - A crise mundial de 29 com a quebra da Bolsa de Nova York.

João Sem Medo: - Isso mesmo. Toda a seleção brasileira... toda! Do goleiro ao ponta-esquerda, foi pra Itália, Argentina e Uruguai. E os jogos aqui, eu fazia jogo de infantil, juvenil... Foi terrível, não tinha dinheiro pra comprar material, chuteira, não tinha nada. Os campos vazios, o que era um reflexo da crise mundial. Essa crise foi ferocíssima até 35, por aí. De 30 a 35. Em 34, na Itália, ainda no meio da cisão e dessa crise toda, fomos mal de novo, eliminados logo no primeiro jogo, pela Espanha.

João Sem Medo é interrompido por aplausos direcionados ao palco. Ele mesmo só se dá conta depois e revela ao Ceguinho Torcedor o que está acontecendo.

João Sem Medo: - Meu amigo, estão no palco simplesmente Carmen Miranda e Lamartine Babo.

Ceguinho Torcedor: - Extraordinário, épico, monumental!

João Sem Medo: - O povo aqui os reconheceu logo e já começou a aplaudir antes mesmo de serem anunciados.

Garçom: - Nem preciso mais anunciar a próxima atração, né, Seu João? Vou deixar a bola com eles.

Carmen Miranda: - Muito obrigada.

Lamartine Babo: - Agradeço muito. Agradecemos muito. Bom, futebol e música sempre foram a minha cachaça, vocês sabem muito bem. Pro carnaval de 34, ano da segunda Copa do Mundo, lançamos esta marchinha chamada “2 x 2”.

Carmen Miranda: - Vocês vão gostar. Quem já conhece, de ouvir novamente. E quem nunca ouviu, de conhecer.

São aplaudidíssimos. Com Lamartine dando a mão a Carmen, os dois deixam o palco ovacionados e se dirigem a uma mesa para ouvirem o recomeço do papo e aguardar a vez de retornarem.

Fim do Capítulo #10

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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Modificado e republicado em 3 de setembro de 2024

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terça-feira, 5 de abril de 2022

SOMOS ESPIONADOS 24 HORAS POR DIA

Muito do que se imagina - ou se imaginava - que vá - fosse - acontecer com o vertiginoso avanço da tecnologia, especialmente com o 5G, 6G, em diante, e muito do que já foi antecipado em séries ficcionais como "Black mirror", ou indo mais atrás, em "Além da imaginação" ("The twilight zone"), posso dizer por experiência própria que já é uma realidade. Assustadora realidade. O que relato aqui abaixo é algo que aconteceu comigo ontem, dia 4 de abril de 2022, ninguém me contou.

Não foi propriamente uma novidade, mas um gigantesco passo além nos mais variados e estranhos episódios que eu já havia vivenciado, e lido e ouvido de parentes e amigos. Devido ao tempo chuvoso, não saía de casa desde a última sexta-feira (dia 1º), e após o banho do início da noite de ontem, como esfriara um pouco, resolvi colocar uma camisa de manga comprida que não usava desde o ano passado. Esta camisa tem duas estampas (uma menor no lado esquerdo do peito e outra grande nas costas) de uma marca de cerveja estrangeira que só consumi duas ou três vezes quando ainda morava no Rio de Janeiro (portanto há pelo menos uns 3 anos) e me foi presenteada por meu irmão, que a trouxe de uma viagem internacional feita já há uns 7, 8 anos, calculo. Pois bem, sem que eu tivesse feito qualquer menção verbal ou escrita à marca e muito menos feito foto ou vídeo dela, assim que liguei o celular e abri o Instagram apareceu para mim, pela primeira vez, uma propaganda desta cerveja, algo que - repito, ressalto, reforço, grifo - jamais ocorrera antes. 

Um fato espantoso em todos sentidos, ainda mais que pela repetição de casos vai se banalizando, sendo aceito como algo natural. O que definitivamente não é, nem deve ser em tempo algum. Aliás, creio mesmo que intencionalmente já não esteja se dando muita atenção a esta clara invasão de privacidade (feita provavelmente pelo próprio celular, mesmo desligado) apesar de algumas poucas notícias e filmes documentais (além de ficcionais, como os supracitados) sobre este importantíssimo tema. 

A ganância comercial espúria, nefasta, criminosa fala mais alto, o que também não é novidade na História. Porém, olhando mais à frente, numa (con)seqüência lógica, o perigo maior nem é este. Pois, se para a venda de produtos (e provavelmente serviços também) faz-se esta verdadeira espionagem dentro da sua casa, do seu bolso, das suas próprias mãos, o que já não foi feito e se fará em eleições no mundo inteiro? E, ainda pior, para se cometer roubos, atentados e outros crimes hediondos? 

Deixo estas perguntas no ar, sabendo que há e haverá ainda muitas outras a serem respondidas. E resolvidas com firmeza.

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domingo, 3 de abril de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #88: SOL DE OUTONO


 



Fotos de Eduardo Lamas, feitas nos dias 24, 26 e 29 de março de 2022, no bairro de Itaguaçu, em Florianópolis, de Kobrasol, em São José (SC) e na praia do Bom Abrigo, Florianópolis.

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sexta-feira, 1 de abril de 2022

MÚSICA PRA VIAGEM: CAVALEIRO DO SOL

Sobre Antulio Madureira já publiquei aqui, há 12 anos, um texto de 2000 e jamais me cansarei de dizer que é um mestre de obras-primas pelo seu gigantesco talento para criar instrumentos e sons que me tocam profundamente a alma. Sons que vêm das profundezas do Nordeste brasileiro, das cordas de aço, dedilhadas, percutidas ou deslizadas, vindas ao longo do tempo de longínquas origens ibéricas, indígenas e africanas.

Fruto, de uma forma ou de outra, do importantíssimo Movimento Armorial, criado no início dos anos 70 pelo gigantesco artista que foi - e é, sempre será - Ariano Suassuna, Antulio Madureira não podia ficar fora desta série e voltará com outras belezas. Para iniciar sua presença por aqui escolhi a mais conhecida dele, "Cavaleiro do Sol", composição que fez parte do seu monumental álbum "Teatro Instrumental" e que serviu de abertura para a série televisiva e posteriormente filme "Auto da Compadecida", baseado na obra de Suassuna.

No vídeo abaixo, Antulio toca a cabala, acompanhado pela Orquestra Jovem do Conservatório de Pernambuco, sob a regência do maestro José Renato Accioly, num trecho do seu DVD gravado no Teatro dos Guararapes, de Olinda (PE), em 2009. Arrepie-se! 

 

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