sábado, 25 de janeiro de 2014

EM DEFESA DE DJAVAN

Há muitos anos me desinteressei pela obra de Djavan. Passei a não curtir mais as músicas que lançava e a achar que suas letras haviam caído no ramerrão do amor romântico e da sedução. Não me tocavam mais. Porém, sempre guardei respeito pelo compositor das primeiras obras, dos primeiros discos, que para mim apresentaram sempre um frescor de novidade surpreendentte.

Nos últimos tempos, nesta “Era do Já Era”, como classificou Aderbal Freire Filho, Djavan tem sido motivo de chacotas, sendo tachado de hermético, incompreensível. Incompreensível é como o brasileiro de um modo geral conseguiu se deixar embrutecer tanto - e cair no humor barato -, manter o olhar reto, desviar ou esconder o olhar torto do artista (todo poeta é caolho!), que historicamente é quem elevou e ainda eleva este país. É certo que fica muito difícil compreender poesia para quem vive a cultura do prato feito ou do “fast-food” e “self-service” de historinhas banais e pegajosas com começo, meio e fim (necessariamente nesta ordem) e ainda assim muitas vezes com imensas dificuldades para entender.

As figuras de linguagem, alma da poesia e da grande literatura universal, estão definhando por falta de bons leitores. Pelo menos cá, por essas bandas. Há exceções, claro – e ainda bem! -, mas cada vez menos pessoas prestam-lhe a devida atenção. A poesia está sumindo da Música Popular Brasileira não é de hoje. E é por causa dos ouvintes, da maioria de seus ouvintes, de viciados ouvidos. Por isso, “açaí, guardiã, zum de besouro, um imã, branca é a tez da manhã” é ridicularizada, escorraçada, por quem não consegue mais enxergar, sentir, ouvir as cores, os cheiros, os sabores, os sons pulsantes da natureza a cada linda manhã de sol.


Foto do site oficial de Djavan: www.djavan.com.br
Vìdeo: "Açaí", com e de Djavan

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

ANIMA, A MÚSICA DESPERTA

A matéria jornalística abaixo foi feita em meados de 2001 para o extinto site Papo Carioca, mas nem chegou a ser publicada. Pela primeira vez ela vai ao ar, já com o Anima em formação muito distinta daquela época, com mais três CDs lançados (Amares, de 2003, Espelho, de 2006/2007, e Donzela Guerreira, de 2010) e ainda mais premiado. Estive pessoalmente com o grupo logo após a apresentação que fizeram no iniciozinho do primeiro dia do Rock in Rio daquele ano. Por acaso, eu os vi saindo detrás do Palco "Raízes", me aproximei, me apresentei e peguei os contatos de Valeria Bittar e Luiz Fiaminghi, que são os únicos remanescentes. Meses depois, após alguns contatos por telefone, em meio à agenda cheia de shows deles, obtive os depoimentos do casal por intermédio do e-mail. 
Aos que são fãs do grupo - e os que se tornarão - finalmente aqui está um trabalho que adorei fazer e que - creio - não poderia se perder ou ficar guardado em meus arquivos:
 
     Em linhas gerais, o ANIMA se apresenta nos cuidadosos livretos que acompanham, ou melhor, envolvem os seus dois CDs (as produções independentes "Espiral do Tempo", de 1997, e "Especiarias", de 2000) como um conjunto de músicos que surgiu com a intenção de interpretar música renascentista e barroca européia, mas que com o tempo foi incorporando um cheiro popular próximo e distante. Unindo instrumentos aparentemente incompatíveis, como o imponente cravo à popularíssima e brasileiríssima - mas não menos bela - viola caipira, a alma híbrida desses músicos se mostra formada por seus sons ao mesmo tempo espantosos e belos, sofisticados e simples.
     De todos os textos encontrados nos livretos, o que melhor define a música do ANIMA talvez seja o mais subjetivo, o assinado por Rubem Alves no primeiro CD: "A música do ANIMA faz despertar uma beleza adormecida que morava no meu corpo sem que eu soubesse".
     Na estrada (em todas as possíveis e imagináveis) desde 1988, o grupo que tem sede em Campinas, mas olhos, ouvidos, coração e alma em locais e tempos tão distantes e tão próximos, passou no início deste ano pela experiência inédita de encarar um festival de rock: o Rock in Rio, em janeiro. E, mesmo com todas as dificuldades que encontraram, agradaram em cheio a um público carente de coisas novas, diferentes. Ou, como bem diz Rubem Alves, ávido por descobrir sua própria beleza adormecida por décadas de pasteurização industrial da música em rádios e TVs.
     Com atividades profissionais paralelas e apresentações do ANIMA passando por Campinas (SP), João Pessoa (PB) e Paraty (RJ) nos últimos meses, os seis componentes atuais do grupo não puderam se reunir para responder em conjunto as perguntas da entrevista feita por intermédio do correio eletrônico. Mas o casal formado pela flautista Valeria Bittar e pelo rabequeiro Luiz Henrique Fiaminghi atendeu simpaticamente ao nosso pedido para que ela fosse publicada antes que viajassem para os Estados Unidos, onde participarão de um festival na Califórnia (ver no fim da entrevista).

Ivan Vilela, José Gramani, Luiz Fiaminghi, Dalga Larrondo,
Patricia Gatti, Valeria Bittar e Isa Taube. (animamusica.art.br)

Dá para fazer uma comparação do trabalho de vocês com o idealizado e promovido por Ariano Suassuna com o Quinteto Armorial. Porém, nota-se que vocês foram além nas pesquisas musicais. Gostaria que vocês fizessem uma avaliação sobre essa afirmação (inclusive se procede!) e citassem outras referências pelo mundo afora para a música de vocês.
Com certeza, o trabalho desenvolvido pelo Armorial e Suassuna na década de 70 é uma grande referência para todos que trabalham com cultura brasileira agora, e será por muito tempo. A valorização de instrumentos típicos brasileiros, como a rabeca e a viola caipira, além da utilização da linguagem modal como um dos meios de ligação entre a Idade Média ibérica e as raízes brasileiras, que é uma das bases para a criação da sonoridade do ANIMA, já eram também utilizados conscientemente pelo Movimento Armorial. Também nos anos 60/70 estava ocorrendo na Europa um dos mais importantes movimentos de revitalização da “performance musical” no Ocidente. A música antiga tocada com os chamados “instrumentos
originais” ou “instrumentos de época”, movimento que está muito bem estudado por um de seus principais integrantes, Nikolaus Harnouncourt, em seu livro “O Discurso dos Sons”.
O ANIMA foi um grupo que se propunha, em suas origens há quinze anos enfocar a prática da música antiga por este viés. Depois de alguns anos, a partir de 1992, o grupo caminhou para outras direções, incorporando outras práticas musicais, principalmente a da música brasileira não direcionada para o grande mercado fonográfico, sempre passível de uma grande pasteurização para enquadrar-se nas regras do mercado.
Outra vertente importante do trabalho do grupo é a pesquisa da música de tradição oral e o elo  destas tradições, notadamente a brasileira e a medieval ibérica,  como fator de criação de arranjos coletivos onde a experiência musical de cada integrante do grupo é fundamental para um trabalho que se propõe realizar sem uma direção musical centralizadora.
Acreditamos que cada instrumento que é incorporado ao nosso instrumental, carrega em si mesmo um emblema da cultura de onde provém, mesclando-se com outros diferentes, muitas vezes até aparentemente antagônicos, como é o caso do cravo e da viola caipira (cultura erudita/corte versus cultura popular/praça), mas que dentro da linguagem do grupo se completam, criando um novo patamar de conexões sonoras. Se examinarmos como se foi desenvolvendo a linguagem do grupo, verificaremos que acreditar neste valor intrínseco de cada instrumento (e é claro no músico que o faz falar), foi fundamental para o estabelecimento de elos que intuitivamente os músicos estavam procurando: quando o nosso querido  Zé Gramani, integrante do grupo, falecido em 1998, trouxe a sua primeira rabeca ao grupo, imediatamente abriu-se vários pontos de conexão com diversas tradições musicais que até hoje servem de guia para nosso trabalho. Muitos destes encontros acontecem por acaso ou talvez nem tanto assim, a sincronicidade existe.

Como e onde vocês buscam essas músicas que muitas vezes ficaram esquecidas e perdidas no tempo (algumas delas passadas oralmente de geração para geração)? Vocês pretendem ampliar o espaço de composição própria nos próximos CDs?
As fontes são várias. As pesquisas de Mario de Andrade são sempre uma grande referência para nós, um exemplo. Do lado da música européia, existe muito material publicado por medievalistas nos últimos 30 anos. Cada um do grupo contribui muito também. Não somos muito de buscar tudo nos livros, mesmo porque o que nos interessa é levantar material para criar outras coisas a partir daquilo. O Ivan Vilela e agora o Paulo Freire, trouxeram, como violeiros, toda a vivência que nos aproxima da tradição popular, e esta transmissão direta foi muito importante para o grupo.


    De "Espiral do Tempo" para "Especiarias", além da perda de José Gramani - a quem o grupo dedica o segundo CD - o ANIMA trocou de violeiro, com a saída de Ivan Vilela e a entrada de Paulo Freire. A importância de Gramani para o ANIMA, como o introdutor das rabecas no lugar dos violinos, está no texto que Valeria assina em "Especiarias" em homenagem ao companheiro:
     "... O Zé Gramani era um grande violinista. Dizia que aprendeu música nas pescarias com seu pai, procurando minhocas para isca, e com sua mãe, colhendo flores para fazer arranjos.
     "Quando o Gramani começou a tocar as rabecas brasileiras no ANIMA e a compor música para cada uma delas, fomos percebendo que estava tudo lá: nas minhocas, nas flores, no riacho, nas rabecas, no zarb, nos seus contrutores (de instrumentos), no Zé, no ANIMA, em cada um de nós..."

Como vocês  superaram as mudanças ocorridas no grupo do primeiro para o segundo CD?
Cada mudança é um desafio. Considerando somente a parte musical da questão, elas contribuem para que o grupo cresça em busca de uma identidade não rigidamente associada aos músicos que participam deste ou daquele trabalho, mas que se desenvolva para uma linguagem de grupo, sem desconsiderar a individualidade de cada um, que é tão marcante ao ponto de que, cada mudança, transforme o grupo em um novo grupo. Dá pra entender? Talvez cada espetáculo seja um passo de superação, mas é preferível pensar em mutação.

Vocês foram muito prejudicados pelo som na apresentação do Rock in Rio, mas a receptividade do público foi muito boa. Que avaliação vocês fazem da participação no festival?
Num evento desta natureza, com proporções fora do comum, é previsível que alguns problemas ocorram. O que não esperávamos, no entanto, é que tantos problemas com o som ocorressem ao mesmo tempo. Retorno, PA, sem falar na qualidade do som. Por outro lado, sabemos que o som acústico do ANIMA não é fácil de ser trabalhado, especialmente em lugares abertos como foi o caso da Tenda Raízes. Pensando nisto, levamos conosco o nosso técnico de som, Murillo Correa, de Belo Horizonte, que tem vários anos de experiência em sonorização de grupos acústicos,  como  o Uakti. Como as bruxas estavam soltas naquele dia, um vento danado (que atrapalha a leitura dos microfones), muita microfonia etc tivemos que manter uma tremenda concentração, tocando praticamente sem escutar os outros companheiros, para estabelecer uma comunicação com o público, que foi extremamente receptivo, apesar dos problemas. Isto foi muito positivo para nós, já que a carreira do ANIMA se fez principalmente em teatros fechados e salas de concerto, o que é uma realidade muito diferente da que se encontra em um espaço como as Tendas do Rock in Rio.
Para nós isto é a constatação de que o público - não importa qual classificação se queira dar a ele: erudito, popular, roqueiro etc - só quer mesmo é estabelecer um canal de comunicação com o artista, e isto depende principalmente deste último, que tem que superar todas as adversidades que por ventura se imponham entre ele e seu público, desde pessoais até exclusivamente técnicas. Também foi uma grande experiência para nós, e servirá, sem dúvida, de referência para uma próxima que o grupo se apresente nesta situação.


Deu para notar na apresentação de vocês um trabalho cênico  muito integrado com as músicas (e até uma brincadeira com os roqueiros feita por Isa e Paulo na embolada "Solta o Sapo"). Isso é elaborado ou surge no momento? Algum de vocês fez teatro? Já trabalharam para alguma peça, apresentação de dança, cinema ou programa de TV? O que acham da conjunção de diversas formas de expressão artísticas?
Não, o trabalho cênico é uma forma importante para estabelecer a comunicação com o público. Para a apresentação do Rock in Rio, contamos com a ajuda da atriz e diretora de teatro Raquel Araújo, da EAD (Escola de Artes Dramáticas), da USP, São Paulo. O bom da Rachel é que ela nos faz enxergar a dramaticidade de nossos arranjos musicais e trabalha, cenicamente, o puro material sonoro se baseando na comunicação do momento de interpretação entre os músicos e entre os músicos e o público. Um dos projetos do grupo é de incorporar este trabalho e desenvolver toda a criação dos arranjos musicais também voltados para a parte cênica. É um projeto complexo, mas a pequena experiência do Rock in Rio nos mostrou que pode ser muito gratificante artisticamente falando.
Um dos trabalhos do Dalga (João Carlos Dalgalarrondo, percussionista do grupo) é com Teatro Musical e espetáculos de percussão tipo “one show men”, onde a cena serve de motivação para os quadros musicais. Ele é um gigante nisto, além de ser um grande “zarbista”.

     Os instrumentos utilizados pelos integrantes do ANIMA e a voz de Isa Taube são um capítulo a mais nessa rica história musical. Vários deles são contruídos sob encomenda especialmente para os músicos do grupo nos mais variados lugares do Brasil e do mundo. Alguns exemplos: o bendir utilizado por Dalga Larrondo é uma cópia de um modelo turco feito por António Gamez, de Madri (Espanha), em 1994; uma rabeca usada por Fiaminghi foi construída por Mestre Davino, de Cananéia (SP) e outras duas por Nelson da Rabeca, de Marechal Deodoro (AL); o cravo de Patricia Gatti foi construído por Abel Vargas, de São Paulo, em 1994, segundo Christian Zell, Hamburgo, 1741; duas violas de 10 cordas de Paulo Freire foram construídas por Vergílio Lima, de Sabará (MG); uma das flautas doce de Valeria foi construída por Helge Stiegler, da Áustria, em 1999, segundo modelo de Jacob van Eyck, no século XVI. Isso sem falar no mejuez, tradicional instrumento de sopro sírio de autor anônimo e uma kuluta tradicional da tribo Kalapalo e outra da tribo Mehinaco, ambas do Alto Xingu (MT).

O que cada um de vocês costuma ouvir em casa, quais músicos?
Eu (Fia) sempre ouvia muita música, de todo o tipo, mas principalmente a música antiga, que é a minha formação (estudei violino barroco). Atualmente, quem comanda o toca-disco é meu filho de seis anos, eu não tenho muito espaço aqui em casa. Ouvir música tem isso: ocupa espaço, e é um espaço que você necessariamente divide com as pessoas que moram com você. Eu adoro que meu filho escolha a música que ele quer ouvir e ouço junto com ele, com o maior prazer.
Eu, Valeria, mulher do Fia, ouço muito música medieval (talvez pela minha formação), Romantismo alemão em pequenos grupos de câmera - tenho dificuldade com orquestras grandes, música folclórica e popular (jazz, rock, MPB) de todas as partes do mundo (Acho que o Fia também), isto talvez com mais freqüência, antes de termos o João.

Para terminar, gostaria que vocês definissem em uma palavra o que significa a música para cada um?
Não podemos falar por seis pessoas, que no momento se encontram cada um num canto com seus trabalhos individuais a partir de quinta-feira que vem (três dias antes da apresentação no dia 24 de junho, em Paraty, como fechamento do evento que comemorou os 30 anos do grupo de teatro de bonecos “Contadores de Estórias”), mas se valer a minha opinião  (Valeria), aqui está ela: desde que escolhi ser música, me encontro com esta pergunta a todo momento. Há algum tempo atrás isto era um problema pra mim, não tinha resposta, como não tinha respostas internas para milhares de perguntas. Mas, há menos tempo ainda, muito pelo trabalho com o ANIMA começar a ter pernas próprias e dele ter nascido da relação de amizade entre nós, e principalmente porque estou mais velha - ainda bem - fazer música para mim é um caminho para me comunicar com as pessoas, e de receber esta vontade de comunicação das pessoas que nos ouvem. Mas um dia, ouvi de uma bailarina de dança Odissi (uma antiga forma de dança da Índia), que no teatro antigo da Índia, que era em forma arena, entre o público e os intérpretes havia uma roda de fogo como símbolo de transformação entre o caminho daquilo que era encenado e o público.  Existe mais coisa além disso no teatro hindu, é claro, mas essa pequena informação, ampliou minha relação com o fazer música, com o estar no palco e ser, juntamente com o público, um dos agentes de transformação e que, aquele momento, pode conter um pouco da intenção do Mistério, no sentido espiritual da palavra. E acho que essa resposta, hoje, me tranqüiliza.

     O ANIMA parte agora para uma temporada no exterior que se estenderá até o fim do ano. Neste mês de julho eles serão os representantes do Brasil no Festival de Verão da cidade de Mendoncino (Califórnia - EUA); em agosto estarão em Buenos Aires, Montevidéu e Assunção; em outubro farão uma turnê pelos Estados Unidos, passando por Washington e Carolina do Sul; e, em novembro, se apresentarão na Womex, a maior feira de produtores da chamada "world music", em Roterdã, Holanda.

O ANIMA:
Dalga Larrondo - percussão (zarb, moringa, bendir, dulcimer, triângulo, pandeiro, tambor de mina, caixa de folia, casco de búfalo, caxixi, maracá, kalimba e berimbau).
Isa Taube - voz
Luiz Fiaminghi - rabecas brasileiras
Patricia Gatti - cravo
Paulo Freire - violas brasileiras (de 10 cordas, de cocho e violaúde)
Valeria Bittar - instrumentos de sopro (flautas doce, kulutas e mejuez)
Endereço eletrônico: www.animamusica.art.br.


Atualmente, o Anima está preparando o seu sexto CD, Encantaria, e tem a seguinte formação:
Gisela Nogueira - viola de arame e violão
Luiz Fiaminghi - rabecas brasileiras e violino barroco
Marlui Miranda - voz, percussão e flautas indígenas brasileiras
Paulo Dias - percussão, organeto e cravo
Silvia Ricardino - harpa trovadoresca
Valeria Bittar - flautas-doce medieval, renascentista e barroca e flautas indígenas brasileiras.

Atual formação: Luiz Fiaminghi, Gisela Nogueira, Marlui Miranda,
Valeria Bittar, Silvia Ricardino e Paulo Dias (animamusica.art.br)

Vídeos: Je Vivroie Liement (Guillaume de Machaut) e Beira-Mar (tradição oral brasileira)
Veja também:
Espantalhos
A música é interdisciplinar
Lições de João (A música é interdisciplinar)
Dois garotos 

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

O ADEUS DE EUSÉBIO, O PRÍNCIPE NEGRO DO FUTEBOL

Vi na TV na noite desta segunda-feira a emocionante despedida que os torcedores portugueses prepararam para Eusébio, que faleceu ontem, dia 5, e lembrei logo de um texto que escrevi em 2002, poucos dias antes daquela Copa do Mundo na Ásia vencida pela seleção brasileira. Foi um frila que fiz pra um site esportivo sobre alguns dos maiores craques das Copas do Mundo e reproduzo abaixo as linhas que tracei imaginando o craque com a bola nos pés partindo de sua defesa em direção ao ataque com toda a sua força, agilidade e imaginação.

Eusébio, o Príncipe Negro do Futebol

A seleção portuguesa de futebol tem uma história curta em Copas do Mundo. Antes desta que se inicia no próximo dia 31, os portugueses só tiveram duas participações em Mundiais, em 1966 e 1986, esta quando não passou da primeira fase (também não passaria desta etapa em 2002, ficaria em quarto lugar em 2006 e quatro anos atrás, quando reencontraria o Brasil na primeira fase, caiu nas oitavas-de-final diante da Espanha. Este ano irá para a sua sexta Copa). Na primeira vez que foi a um Mundial, porém, deixou uma marca que para sempre será lembrada. E o maior responsável por isso foi um centroavante que conseguia aliar força, agilidade, rapidez e um faro de gol incomum: Eusébio.

Com os nove gols que marcou na surpreendente campanha dos portugueses em 1966, esse moçambicano levou Portugal ao terceiro lugar (melhor posição até hoje), tendo passado entre outras potências pelo Brasil de Pelé, o Rei do Futebol. Depois da Copa da Inglaterra passou a ser chamado de Príncipe, exatamente em alusão ao posto ocupado pelo brasileiro na hierarquia futebolística mundial da época. Ambos, inclusive, foram homenageados antes do início do recente amistoso entre Brasil e Portugal, em Lisboa, que terminou empatado em 1 a 1, entrando em campo abraçados.

Na vitória de 3 a 1 sobre o Brasil, em Liverpool, enquanto Pelé era caçado sem piedade pelos zagueiros Morais e Vicente, que contavam com a complacência do árbitro inglês McCabe, Eusébio decidia a partida com dois gols. Ele ainda comandaria a incrível reação de Portugal na partida contra a Coréia do Norte, que havia despachado a Itália na primeira fase. Naquele jogo, válido pelas quartas-de-final, também disputado na terra dos Beatles, os portugueses chegaram a estar perdendo por 3 a 0, mas o Pantera fez quatro gols, sendo dois de pênalti, e Portugal virou para 5 a 3, classificando-se assim para a semifinal contra os ingleses, que acabariam vencendo por 2 a 1 (gol de Eusébio). Na disputa do terceiro lugar, contra a União Soviética, ele fez mais um de pênalti, e Portugal conquistou a terceira colocação com a vitória de 2 a 1.

O Pantera, como também era chamado, foi descoberto por um brasileiro: Bauer, que atuou no São Paulo e que disputou a Copa do Mundo de 1950 pela seleção brasileira. Foi por indicação do brasileiro que Eusébio foi para o Benfica, após jogar contra ele em um amistoso em Moçambique. Sábio Bauer. Hoje Eusébio, que conquistou nada menos do que dez títulos nacionais pelo time encarnado de Portugal, no qual chegou em 1961, tem uma estátua em sua homenagem em frente ao Estádio da Luz, em Lisboa.

Com a mesma velocidade que imprimia em campo, Eusébio conseguiu escrever seu nome na história das Copas. Pois mesmo com apenas uma participação, conseguiu ser o artilheiro daquele Mundial, e foi eleito pela Fifa um dos dez melhores jogadores de todos os tempos. Ele ganhou a Bola de Ouro de melhor jogador da Europa e foi vice em duas ocasiões.

Eusébio, que começou a jogar aos 15 anos na filial do Sporting de Lisboa, o Sporting de Lourenço Marques, em Moçambique, ainda foi campeão mexicano pelo Monterrey, em 1976, e no fim da carreira atuou em times canadenses e americanos, mas um problema de joelho encerrou sua carreira em 1980 no Beira-Mar, de Portugal.

FICHA DO JOGADOR
Nome: Eusébio da Silva Ferreira
Nascimento: 5/1/1943 em Manfala, Moçambique
Clubes: Sporting de Lourenço Marques (de 1957 a 1961), Benfica (de 1961 a 1975), Toronto Stars (1975), Monterrey (1976), Minuteman (1977), Americans  (1978), Las Vegas Quicksilvers (1979) e Beira Mar (1980).
Títulos: campeão da Copa de Portugal em 1962, 1964, 1968 e 1970, campeão da Copa dos Campeões da Europa em 1962, e campeão português em 1963, 1964, 1965, 1967, 1968, 1969, 1971, 1972, 1973 e 1975, todos pelo Benfica; e campeão mexicano pelo Monterrey em 1976.
Jogos pela seleção:  64
Gols pela seleção:  41 (nove na Copa do Mundo de 1966)

"Eusébio tinha a força de 20 toneladas. Foi o jogador mais forte que eu já vi jogar", Bobby Robson, ex-jogador e técnico inglês falecido em 2009.



Foto da Federação Portuguesa de Futebol
Vídeo publicado no Youtube por Leonardo David Iriarte.
Veja também:
Futebol-arte: os maiores jogos de todos os tempos 2
O teatro e o futebol
Das peladas de rua às arenas
Beckenbauer, a elegância do Kaiser
Reinaldo, o rei do Galo mineiro
Pelé, somente ele

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A MEMÓRIA VIVA DE MANDELA

Na África do Sul sob o cruel apartheid, Mandela ficou preso 27 anos lutando pela liberdade dos oprimidos, o povo negro de seu país, e também pela libertação dos opressores. Entendo o pensamento e as ações do grande líder que se foi ontem como uma verdadeira ode à paz, ao entendimento, à mudança de postura ofensiva e defensiva contra alguém, ao amor. Creio que Mandela defendia a libertação do ódio para ambos os lados: o injustificável do opressor, e o da vingança, do oprimido.

Nós, brasileiros miscigenados, que temos correndo em nossas veias tanto o sangue do senhor, quanto do escravo, como bem escreveu Darcy Ribeiro, precisamos muito aprender mais essa lição. Manter viva a memória deste e de outros tantos grandes homens que lutaram pela união (e não a padronização) de todas as etnias, culturas, religiões e nações é o dever nosso de cada dia. Mandela está e continuará vivo!
Vejam como são as invisíveis conexões neste mundo. Ontem à tarde, horas antes de saber da morte de Mandela, entrei num desses sites de streaming para ouvir o grupo chileno Illapu, que gosto muito e há anos não ouvia. Pois a primeira música a tocar foi exatamente esta acima, "Mande Mandela".
Veja também:
Los fragiles y los fuertes
Adiós, La Negra
Esmola oficial

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

UMA TARDE INESQUECÍVEL NA CIDADE DE DEUS

Retratada de forma ao mesmo tempo histórica e ficcional em livro de Paulo Lins que depois foi para as telas de cinema, a Cidade de Deus sempre teve a fama justificada de um dos lugares mais violentos do lado mais cruel do Rio de Janeiro. A coisa se acalmou um pouco nos últimos anos com a "pacificação" implementada pelo Governo do Estado, que por outro lado jamais se preocupou em dar sustentação ao projeto das UPPs com os mais fortes alicerces que crianças e jovens devem ter: a Saúde e a Educação. Como o Governo se  ausenta destes e de outros vários setores prioritários, a sociedade se movimenta para fazer a sua parte e a de quem deveria estar à frente de tudo. Assim, já há três anos, a Agência do Bem atua na Cidade de Deus com um pólo da Escola de Música e Cidadania, atendendo a 200 meninas e meninos.
Levado por um grande amigo (mais que amigo, irmão), tive a honra de conhecer o trabalho dessa organização da sociedade civil em 7 de agosto deste ano em seminário realizado num hotel da Barra da Tijuca. Lá pude assistir comovido a uma apresentação de um sexteto selecionado da Orquestra Nova Sinfonia, que abrange jovens e crianças de outras duas comunidades atendidas pela Agência do Bem: Beira Rio, em Vargem Grande, e Novo Palmares, em Vargem Pequena. E no debate realizado naquele dia, após a apresentação de Alan Maia, diretor da Agência do Bem, dos seus parceiros e da sensacional palestra do economista Sérgio Besserman, vi claramente que muito mais do que formar músicos profissionais, o objetivo é sensibilizar e formar público para músicas de qualidade. E isso também vale para os adultos.
Esse trabalho fantástico me motivou a levar a ajudá-lo de alguma forma. E depois de cedermos alguns DVDs e CDs para o acervo da Escola de Música e Cidadania, tivemos a chance de levar ontem, 15 de outubro, dia do Professor, o ator-palestrante internacional Raul de Orofino para uma apresentação especial e gratuita na Cidade de Deus. E como pus no título, foi uma tarde inesquecível, por tudo. Pela apresentação inspirada e inspiradora deste grande ator, a interação com o público jovem presente, a participação de todos na conversa que houve após a peça "O Homem do Fecicebuque e outras histórias", o brilho no olhar de cada um, o carinho e o amor dado e recebido, todo o aprendizado que se colheu em mais ou menos três horas naquela sala de aula.
Saí da Cidade de Deus, pouco depois das 16h, uma pessoa muito melhor do que a que chegou lá, por volta de 13h. E vi reforçado em mim que não serão grandes reformas políticas, legislativas ou judiciárias, revoluções, protestos - ainda mais os violentos -, projetos mirabolantes e milionários, que farão mudar para melhor nosso dia a dia, nossa casa, nosso prédio, nossa rua, nosso bairro, nossa cidade, nosso estado (e o Estado), nossa região, nosso país, nosso continente, o mundo. É somente exercendo por inteiro o amor, uma palavra que anda sendo desgastada por tão mal usada, que poderemos "sacudir o mundo" (viva também o outro Raul!). Tenho agora isso definitivamente dentro de mim.
Foto: Vanderson Rodrigues
Veja também:
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Villa-Lobos, o pai da MPB 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

LUIZ MELODIA, O NEGRO GATO E SUAS PÉROLAS

Luiz Melodia no Sesc Tijuca, com Renato Piau
ao violão. Foto: Cristina Velloso.
Corrigi ontem, no Sesc Tijuca, uma falha no meu currículo de apreciador de música: assisti pela primeira vez a um show de Luiz Melodia. Um espetáculo para guardar na memória. Casa cheia, com ingressos esgotados, e o cantor e compositor demonstrando estar ainda no auge, muito bem acompanhado de um trio de cordas de primeira linha, formado por Renato Piau (violão de seis cordas), Alessandro Cardoso (cavaquinho) e Leandro Saramago (violão de sete cordas).

Melodia brincou com a platéia, deu espaço para os seus músicos brilharem, dançou, e cantou como sempre, passeando pelos seus grandes sucessos, como "Pérola negra", "Juventude transviada", "Magrelinha", "Fadas", "Estácio, holly Estácio" e "Negro gato", que encerra o show em altíssimo astral.

Ele deixou "Codinome beija-flor" de fora, para decepção de algumas fãs. Até gosto muito da música do Cazuza (com Ezequiel Neves e Reinaldo Arias), mas sinceramente não fez falta para mim. Luiz Melodia preferiu apresentar uma música nova, "A cura", e mostrar uma de seu pai, Oswaldo Melodia, que agora não me recordo o nome. Ambas muito boas.

Neste domingo, dia 13 de outubro, houve quem escolhesse o Maracanã para ver o meu Flamengo perder para o Botafogo, outros foram à Apoteose encarar o peso pesado do Black Sabbath, mas preferi o Luiz Melodia. E posso dizer sem medo de errar: foi a melhor escolha para mim. Em todos os sentidos!


Vídeo: show gravado pelo programa "Talentos", da TV Câmara
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Clarice Niskier, de corpo e alma
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Antúlio Madureira, mestre de obras-primas

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

GASOLINA NO INCÊNDIO 14

Com "Gasolina no Incêndio" pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis. A décima-quarta questão-provocação é a seguinte:

Comprar drogas no morro é financiar o tráfico, e pagar os escorchantes impostos que nos cobram os governos municipal, estadual e federal sem nos dar retorno em Saúde, Educação e Transporte Público é financiar a corrupção oficial.

Veja também:
Gasolina no Incêndio 1
Fábrica de ídolos
Brasil, um edifício que cresce sobre frágeis alicerces

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

ROGER WATERS SETENTÃO

Roger Waters jovem
Falar de Roger Waters, que hoje completa 70 anos de idade, é falar de Pink Floyd, para mim o mais importante grupo de rock de todos os tempos. É tão importante pessoalmente que repito aqui o que já escrevi anteriormente: se fosse condenado a ouvir apenas um artista da música para o resto da minha vida não hesitaria em escolher a banda que Mr. Waters liderou do fim dos anos 60 até 1983. Escrever sobre ele e o Floyd me faz voltar a meados dos anos 70, quando eu ouvi pela primeira vez o antológico "The Dark Side of the Moon", na casa de um vizinho. Todas as sextas-feiras, como esta, eu e meu irmão subíamos ao 404 do prédio onde morávamos no Grajaú, para juntamente com esse colega, sua irmã e uma amiga dela ouvirmos esse disco, um do Elton John que não me recordo agora, jogar War e ver As Panteras. Não necessariamente nesta ordem, muito menos separadamente.

Demorei muitos anos para me tocar qual disco misterioso, com sons amedrontadores e fantásticos, de capa preta com um "triângulo" desenhado, ouvia lá pelos meus 8, 9 ou 10 anos. E percebi que foi ali que toda minha admiração por Waters, David Gilmour, o saudoso Richard Wright e Nick Mason começara. Nunca os vi juntos ao vivo, mas tive a feliz oportunidade de me emocionar muito com duas apresentações do aniversariante deste dia 6, que trouxe ao Rio versões completas de dois álbuns históricos: o próprio "Dark Side of the Moon", em 2007, na Apoteose, com músicas de outros excelentes discos, como o "Animals", e da sua carreira solo, e um show dilacerante em março do ano passado de "The Wall", que, pelo que dizem hoje as autoridades cariocas, poderia ter posto o Engenhão abaixo.

Roger Waters, com seu baixo, em ação num show

Veja também:

Vida longa, muito longa, a este gênio da música!

Vídeo: show completo de "Dark Side of the Moon Live Tour", na Argentina, em 2007.

Para quem não sabe, Roger Waters é criador das músicas da ópera "Ça Ira", sobre a Revolução Francesa, já apresentada no Brasil (quem quiser assistir é só clicar aqui). Já ouvi, mas só verei em breve.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

FILIPE CATTO ENTRE CABELOS, OLHOS, FURACÕES

Pode a máfia internacional do jabá estender seus tentáculos de polvo faminto e impor nas rádios e TVs seus ídolos fabricados para durar pouco mais de algumas quinzenas. Pode os tecnocratas da indústria do entretenimento, em parceria com essa máfia, continuarem a pôr o lucro à frente da criatividade, como bem conta André Midani em seu livro "Música, ídolos e poder. Do vinil ao download". Pode o mercado ser hostil e estrebuchar furioso, pois nem assim vai conseguir impedir que o verdadeiro artista chegue ao seu público e dure na sua memória e em seu coração, passando de geração em geração. Mas para isso, ensina o mesmo Midani na autobiografia, o ser criativo terá de pôr as mãos na criatura ao mesmo tempo fascinante e amedrontadora aos seus olhos: a grana. E, assim, reverter a ordem das prioridades: criatividade primeiro, lucro depois.

Creio plenamente que Filipe Catto esteja fazendo seu dever de casa direitinho. Um imenso talento para cantar e compor ele tem de sobra e tem tudo para eternizar seu nome na História da música brasileira. E, mesmo sem ser tão badalado como alguns apadrinhados (ou, principalmente, algumas apadrinhadas) dos velhos coronéis da nossa música, está conquistando o seu merecido espaço, que - queiram ou não - será ilimitado.



A primeira vez que soube dele foi por intermédio de um grande amigo, e quando ouvi "Roupa do Corpo" achei que se tratasse de um samba antigo, embora a letra fale na primeira pessoa de uma mulher que foge de casa. Fiquei extremamente surpreso e feliz quando pesquisei e soube que Filipe Catto era o autor. Agora, no meu aniversário, ganhei o DVD "Entre Cabelos, Olhos & Furacões" de uma pessoa muitíssimo especial para mim e pude atestar o que já vinha pescando em alguns vídeos no youtube: interpretações inteligentíssimas, com uma sensibilidade diferenciada para tornar sua uma música de outro brilhante compositor, como é o caso de "Ave de Prata", de Zé Ramalho, e que deu nome ao primeiro disco de Elba Ramalho (1979). Para completar, uma banda muito bem entrosada e arranjos muito inspirados e inspiradores.

Vida longa a este grande artista!



Foto de Ricky Scaff.
Vídeos: "Roupa do corpo", de e com Felipe Catto; e "Ave de prata" (Zé Ramalho), com Felipe Catto no programa Ensaio, da TV Cultura.
Veja também: A fronteira
O resgate de memórias e de um LP perdido ao som do Supertramp
Panacéia cura os males musicais
Um encontro com Martinho da Vila
Um índio ao piano no Municipal
Agradecimento a Altamiro
Entrevista: Nilze Carvalho
Dois garotos

sábado, 13 de julho de 2013

TORCEDORES DO RIO, UNI-VOS!

No próximo dia 21, torcedores de Fluminense e Vasco, e no dia 28, de Flamengo e Botafogo, terão uma grande oportunidade de dar uma imensa demonstração do quanto anda insatisfeita (muito mais do que isso, indignada) a população do estado do Rio de Janeiro com o despótico governo de Sergio Cabral Filho. Dentro da "arena MacanaX" os novos donos poderão proibir cartazes, faixas, bandeirões, instrumentos de percussão, peitos nus, que se torça em pé, xingamentos e palavrões, poderão vigiar tudo por um trilhão de câmeras, mas não conseguirão impedir o grito em uníssono contra a privatização do estádio a preço de banana , os passeios de helicóptero do (des)governador e de seus secretários, a truculência de seus policiais, as mansões construídas com misteriosa fortuna, o sucateamento da Educação e da Saúde públicas e tantas outros abusos que ocupariam um espaço gigantesco se fossem enumerados.
As próprias declarações infelizes do presidente do Consórcio que adquiriu de mão beijada a arena, João Borba, com relação às novas condutas que os torcedores deverão ter a partir de agora podem - e devem - ser condenadas e desobedecidas pelos torcedores dos quatro grandes times do Rio de Janeiro. A imprensa estará lá para mostrar tudo para o Brasil inteiro. E ai daquela que tentar camuflar algo, pois também será alvo dos protestos posteriormente, como já ocorreu nas recentes manifestações nas ruas.
Quando a bola rolar, cada um grite o nome de seu time, vibre com as jogadas de seus atletas, mas antes dos jogos flamenguistas, tricolores, vascaínos e botafoguenses terão uma grande chance que não pode ser desperdiçada. É hora de torcer por um time só: o Rio de Janeiro. Sem Cabral!
Veja também:
Adeus, Maracanã
Das peladas de rua às arenas
Futebol, uma metáfora da vida
O dom de jogar bola e o Bolero de Ravel

segunda-feira, 1 de julho de 2013

NÓS DA DANÇA DESATADOS EM "AUTORRETRATO"

A dança, mais do que qualquer outra arte, padece de um problema quanto ao seu o público, por ser quase que majoritariamente formado por pessoas que trabalham (ou que pretendem trabalhar) na própria área. Também por isso, convido a todos, principalmente os que nunca foram a um espetáculo de dança, a assistir o espetáculo "Autorretrato" (que eu escreveria com a grafia antiga, "auto-retrato", mas não posso modificar o título de uma obra), da Cia Nós da Dança. Depois de muito sucesso no CCBB-RJ, o grupo faz uma mini-temporada no Teatro Angel Vianna que se encerra no próximo fim de semana. Para quem ainda não sabe o teatro fica no Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro, na Rua José Higino, Tijuca.
Não ia a um espetáculo de dança há mais de dez anos e posso dizer que voltei por cima, agora não só como espectador, mas com o prazer de ser assessor de imprensa do evento. É nítido que o trabalho da coreógrafa Regina Sauer e de todos os bailarinos envolveu muita emoção e criatividade. Estão lá no palco todas as alegrias e dores, inspirações, transpirações e aspirações dos artistas da dança tratadas com muita delicadeza. Cenário, figurinos, luz e a excelente trilha sonora só valorizam ainda mais o espetáculo. As imagens criadas no palco, com o corpo dos próprios bailarinos e elementos como fitas, espelho (virtual e real), tapetes, molduras e a iluminação, creio que vão além do que foi imaginado por Regina Sauer. Esse é o grande poder que a Arte tem: de fazer o público recriar a obra que nasce com o artista.
A galera de Niterói também terá a chance de ver o "Autorretrato" do Nós da Dança (www.cianosdadanca.com.br), entre 30 de agosto e 1º de setembro, em seu belíssimo Teatro Municipal. Imperdível!
Fotos de Ricardo Adami
Veja também:
Panacéia cura os males musicais
A nova dinâmica da viola de Hugo Linns
Lições de João (A música é interdisciplinar 2)
Dois garotos

terça-feira, 25 de junho de 2013

O BRASIL EM CHAMAS

A reboque das últimas - ao mesmo tempo importantes e tumultuadas - manifestações populares nas ruas do Brasil, veio um medo do retrocesso, de um novo golpe militar em virtude da infiltração de extremistas (de direita ou esquerda?) confundidos e ou misturados com bandidos. Isso tanto no asfalto, como nas redes sociais. Porém, já há muitos anos vejo como o maior risco que o país vem correndo não é a volta dos militares ao poder na base da força bruta. O enorme perigo que corremos é a eleição "democrática" de um pastor evangélico para a Presidência da República com maioria no Congresso.
Com a condescendência do PT em sua da sêde de poder, a representatividade dos políticos-pastores cresceu num ritmo ainda maior do que vinha acontecendo anteriormente, com seu projeto de uma portinha, uma igreja que vem corroendo culturalmente o país nos seus mais remotos recantos desde o início da década de 90 - embora a semente tenha sido plantada muito antes, é só recordar os programas de Jimmy Swaggart nos anos 70.
Adquirindo jornais, emissoras de TV e rádio e comprando horários nas que (ainda) não os pertenciam, os pastores foram se aproveitando da continuidade da política de investimento maciço em ignorância popular que vem norteando os governos civis e militares desde 1964 para conduzir e aumentar em progressão geométrica seu rebanho de fiéis financiadores e eleitores. Estamos muito próximos de nos depararmos com essa realidade. E se isso se confirmar, aí sim o Brasil arderá nas chamas do inferno.



Vídeo: "Tomara" (Alceu Valença/Rubem Valença Filho), com Alceu Valença.
Veja também: O outro ovo da serpente
Profecia
Mais uma sobre Educação

segunda-feira, 24 de junho de 2013

PENSO, LOGO SINTO 17

Saúde pública não se resume a mais e melhores hospitais, clínicas e postos de saúde, é preciso antes de tudo Saneamento Básico e Educação.

Veja mais: Penso, logo sinto 9
Questão em questão 2
Estilhaços 4
Gasolina no incêndio 11

quinta-feira, 20 de junho de 2013

PENSO, LOGO SINTO 16

De nada adiantará revolucionar o sistema, os regimes político e econômico, a forma de governar e as leis se o ser humano não mudar.

Veja também: Penso, logo sinto
Penso, logo sinto 2
Penso, logo sinto 3
Penso, logo sinto 4

terça-feira, 4 de junho de 2013

PELAS RUAS DO MEU BAIRRO


Há certas coisas que são tão intensamente boas que parecem não existir - e as ruins também, mas não é delas que desejaria falar. Quando passeio pelas ruas do meu bairro há momentos em que nem sinto caminhar, perco-me nos pensamentos, nos sonhos de episódios acontecidos e imaginados, fico vendo e revendo a arquitetura única de sua natureza e de suas casas e prédios antigos.

Quantas vezes percorri as ruas desse vale perdido na escuridão de noites que quase me apagaram, esbarrando com fantasmas que me perseguiam sem tréguas. Quantas vezes vi a luz de seu céu aberto colorir as folhas das amendoeiras. Folhas verdes, folhas vermelhas, folhas amarelas, folhas marrons. Quantas pisei como se andasse num tapete mágico por essas hoje maltratadas calçadas, cheias de sulcos cada vez maiores, saliências inconvenientes, interferências malfeitas nos irregulares asfaltos.

Tendo à vista a onipresença fundamental da pedra imensa como uma guardiã divina, oro uma poesia que invento na minha caminhada para implorar que esta gigantesca santa preserve estas belezas da ganância imobiliária, dos sujismundos que insistem imaginar que é poesia ou pintura escrever garranchos ininteligíveis em seus muros, que é instalação artística grandes sacos pretos e azuis de lixo ou o cocô de seus cães nas calçadas. Preserve quem te preserva, não intacto, mas renovado, com o ar e o aroma frescos de tuas matas e o cantar de teus pássaros a cada fim de madrugada. 

Que esta oração imperfeita ajude a manter a poesia das ruas do meu bairro e meu olhar atento e carinhoso para elas. Por mais tempo que seja possível.


Foto: Eduardo Lamas (1) e Daniel Neiva (2)
Veja também: tudo o que foi publicado em junho de 2012

quinta-feira, 16 de maio de 2013

FUTEBOL, UMA METÁFORA DA VIDA

Um dos motivos que fazem o futebol ser fascinante é que, mais do que qualquer outro esporte, ele é uma metáfora da vida. As frases mais usadas por comentaristas, narradores, repórteres, dirigentes, jogadores, técnicos e torcedores para definirem uma situação de jogo, uma partida ou o próprio esporte servem para o cotidiano de todos nós. Se o futebol é uma caixinha de surpresa, a vida é algo diferente?

Qual torcedor nunca lamentou que seu time - ou algum amigo, por exemplo - tenha perdido tantas oportunidades que acabou sendo derrotado? É, quem não faz, leva. Quem não bobeou por ficar esperando a bola no pé (ou uma chance com uma menina ou um cara), em vez de ir em sua direção, e ver um rival  mais rápido e esperto ficar com ela? Quantas vezes um jogador ou time - pessoa ou família - foi desprezado e deu a volta por cima

Que partidas épicas - ou momentos grandiosos na vida de alguém - ocorreram quando um time (ou a própria vida) parecia acabado(a), mas conseguiu arrancar forças para uma virada espetacular? Quem nunca se enfureceu com sua equipe - amigo ou colega de trabalho - por ficar morcegando, sem se esforçar para ao menos cumprir seu papel? Ou mesmo por jogar - ou agir - burocraticamente?

Veja também: 


Quantas injustiças não vimos nos gramados e na vida? Quantas carreiras - e vidas - desperdiçadas por quem teve todas as chances do mundo? E quantos venceram mais pela persistência do que pelo talento? Quantas derrotas dolorosas nos trouxeram grandes aprendizados e quantas vitórias fáceis não nos estragaram? E que lição nos traz a frase "Quem tem medo de perder perde a vontade de vencer"!

No entanto, o grande problema é que a imensa maioria dos torcedores - especialmente os ditos "profissionais" - não usam em suas vidas o que exigem de jogadores, técnicos e dirigentes de seus times.
Vídeo: os gols de Brasil 2 x 3 Itália, pelas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1982, na Espanha. Imagens da TV Globo, narração de Luciano do Valle.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

JUSTÍSSIMA HOMENAGEM A CRISTINE CID

Daqui a uma semana, a Associação dos Amigos da Mama (Adama) prestará uma bela e mais que justa homenagem a uma mulher que dedicou seus precoces últimos anos de vida a esta ONG de Niterói, sua cidade natal. No ano em que se completam dez de sua despedida deste mundo, Cristine da Costa Cid (foto ao lado, de Sóter França Júnior) é lembrada para que aqueles que não tiveram a mesma sorte que nós, parentes e amigos, possam conhecer  quem ela foi e o que representou. No dia 24, às 10h, a Adama vai inaugurar seu reformado auditório, no Centro de Niterói, dando-lhe o nome de Espaço Cristine Cid.

Tive não só o privilégio de conviver com Cristine por 16 anos - iniciados há exatos 25, na tarde de 17 de abril de 1988 - como ter com ela meus três amados filhos, Lucas, Luísa e Daniel. Atriz, arterapeuta, professora, ela me ensinou tanto, tanto, que passaria minha vida inteira lembrando de passagens nossas e dela com outras pessoas que amava.

Difícil selecionar, mas faço questão de recordar algumas imagens que minha memória me devolve neste momento. Eu, "Stanley Kowalski", passando em casa com ela, "Blanche Dubois", o texto de "Dois perdidos numa noite suja" (Tennessee Williams) para a faculdade; grávida de Lucas no palco do Teatro da UFF, interpretando a Juíza na peça "Coquetel Molotv" (Alvaro Ramos); carregando nas ruas de terra de Rio do Ouro Lucas e Luísa no canguru de bebê para a UNI-RIO; dando o peito que perderia anos depois para amamentar a sobrinha Manuela; nervosa na primeira noite de agosto de 1994 por sentir pela primeira vez as contrações de um parto, no terceiro filho, Daniel; sorrindo muito, mesmo com tanta porrada que a vida lhe dava; dançando comigo, os irmãos, filhos, sobrinhos e cunhados numa animada festa de Ano Novo; orientando as senhoras da Adama nas peças que montava com elas ou na quadrilha das festas juninas; dirigindo Denize Nichols na peça que escrevi para ela, "Sentença de vida", até oito meses antes de partir...


Veja também:
Homenagem ao teatro
O quanto devo ao Centro de Artes UFF


Uma grande mulher igual a Cristine jamais deveria morrer, muito menos aos 33 anos de idade. Porém, ela teve de ir para cumprir sua missão no Mundo Espiritual e, assim, abriu-se a permissão aqui neste plano físico para que eu conhecesse quatro anos depois, namorasse e me casasse com Denise de Oliveira, também arteterapeuta e muito amada por mim. 

Creio que foi pensando na breve passagem de Cristine por este mundo que a Adama decidiu retribuir novamente todo o amor e a garra que ela lhe dedicou em tão pouco tempo: que seu nome fique como um imenso exemplo por muito mais tempo que todos nós que a conhecemos poderemos permanecer por aqui.

Veja também:
Música pra viagem: Réquiem
Trecho do ebook "Velhos conhecidos"


PS.: a poucos dias de se completar 20 anos da partida de Cristine, volto aqui (em 14/11/2023) para, além de reforçar minha eterna gratidão a ela, prestar também uma homenagem aos seus irmãos  Fernando, que chegou a publicar na época seu comentário aqui abaixo, e Marcos, ambos também já no Mundo Espiritual. Foram meus cunhados e amigos que também jamais esquecerei.

terça-feira, 2 de abril de 2013

GASOLINA NO INCÊNDIO 13

Com "Gasolina no Incêndio" pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis. A décima-terceira questão-provocação é a seguinte:

Deus tem religião? Afinal, qual é a religião de Deus?

Veja também:
Estilhaços 4
Gasolina no incêndio 7
Penso, logo sinto 3

sábado, 30 de março de 2013

domingo, 17 de março de 2013

ANNA KARENINA: CINEMA, TEATRO, MÚSICA, DANÇA, LITERATURA...

"Anna Karenina", filme baseado no clássico do escritor russo Leon Tolstói, me deixou surpreso e muito satisfeito. Uma produção hollywoodiana que foge aos padrões, com as cenas se deslocando de dentro de um teatro (não só palco, mas todas as áreas internas) para locações numa agilidade precisa. A decisão do diretor Joe Wright de usar a linguagem expressionista em muitas cenas pode causar estranheza, mas considero bastante acertada esta opção, pois além de destacar as sensações dos personagens, permite ao espectador uma visão distanciada da obra, sem a catarse emocional que a imensa maioria das produções americanas traz.
Se não chega a haver brilhantismo nas atuações, figurinos, cenários, músicas e danças são de uma beleza literalmente estonteante. Recomendo o filme especialmente ao público viciado na xaropada sentimental de Hollywood, que terá a chance de conhecer algo diferente e abrir a cabeça e a visão para outras possibilidades. Estimulado pelo filme, vou agora - quase 15 anos depois de comprado o livro - mergulhar novamente na literatura de Tolstói, autor também de "Guerra e Paz" e "A morte de Ivan Ilitch", que já tive muito prazer de ler.
Veja também: Clarice Niskier, de corpo e alma
A brutal delicadeza de Kieslowski
Homenagem ao teatro

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A NOVA DINÂMICA DA VIOLA DE HUGO LINNS

Tive a felicidade de assistir nesta terça-feira ao show do meio-dia do multi-instrumentista Hugo Linns dentro do projeto Pernambuco Contemporâneo, no Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio de Janeiro. Mais, tive a oportunidade de conversar com ele, alguns membros de sua banda e equipe, e ainda acompanhar a entrevista que concedeu ao programa Estúdio Móvel, da TV Brasil. Apesar de tocar outros instrumentos (piano, baixo, violão, guitarra), Linns é apaixonado mesmo por sua viola dinâmica.

Ele conta que, como sempre acontece com os violeiros, foi procurado por ela, entregue a suas mãos - para sua surpresa - por um professor de violão quando tinha uns 17 anos de idade.  Tem tantos ciúmes dela que diz não emprestar a ninguém. Quando lembrei de brincadeira que durante o espetáculo ele troca de viola com Eduardo Buarque, que toca a tradicional, de 10 cordas, Hugo Linns respondeu rindo que é porque o companheiro está por perto.

Com a viola dinâmica, Linns foi o primeiro a registrar em disco (o CD "Fita branca", de 2009, gravado em seu próprio estúdio) esse instrumento característico dos cantadores em solo, só com músicas instrumentais. Explica que, apesar de alguns outros artistas de Pernambuco estejam seguindo o mesmo caminho, normalmente a viola dinâmica apenas faz acompanhamento para os cantadores.

Ele tem experiência de acompanhar muitos artistas pelo exterior tocando outros instrumentos e tenta desbravar o mercado de música no Brasil com sua música original. Está prestes a lançar o segundo CD, "Vermelhas nuvens", previsto para sair no segundo semestre deste ano. Neste próximo Linns inclui elementos muito comuns num gênero que adora e que poderia soar como ruído para os puristas: o roquenrol.

- Escuto muito rock. Ouço Doors, Led Zeppelin, Yes, dos mais antigos. Dos atuais, Beck e Radiohead são os meus preferidos – revela o violeiro.

Com pedais diversos e até slide, que passou a usar também nas músicas do primeiro CD em suas apresentações, Linns cria uma sonoridade nova para a característica música pernambucana, passeando por cocos, maracatus, xaxados, emboladas, baiões, cavalos marinhos e cirandas com uma pegada roqueira muito interessante. Segundo ele, o importante é expandir as possibilidades sonoras de sua viola dinâmica. E realmente consegue dar ainda mais dinamismo ao instrumento que ajudou a recriar.

Foto (Carol de Hollanda): Hugo Linns usando o slide em sua viola dinâmica, ao lado de Rogério Victor (baixo acústico), no CCBB-RJ.
Vídeo: "Vermelhas nuvens" (Hugo Linns), com Hugo Linns e banda (Eduardo Buarque, no violão tenor; Rogério Victor, no baixo acústico, e Carlos Amarelo, na percussão, em 2011.
Veja também: A força nordestina
Antulio Madureira, mestre de obras-primas
Samba líquido

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

OS MISERÁVEIS, VERSÃO 2012: NEM TANTO AO MAR, NEM TANTO À TERRA

O filme-musical "Os miseráveis", dirigido por Tom Hooper, foi claramente feito para emocionar o público, o que se tratando da obra monumental de Victor Hugo não é lá algo tão difícil de se conseguir. É só não fazer muita besteira. Hooper arriscou ao levar o sucesso da Broadway para a telona, deixou furos, mas a direção musical deu conta do recado, teve muito mais acertos que erros. O diretor se equivocou ao optar por um início corrido, meio videoclipado. A virada na trágica história de Jean Valjean começa ali e a dramaticidade desta mudança radical foi um pouco perdida, embora a cena do conflito pessoal  tenha sido muito bem feita. Ponto para Hugh Jackman, que cumpre bem o papel principal.


A montagem do filme também tem uns vacilos, com cortes estranhos. Um dos momentos mais importantes da história apresenta um grave problema a meu ver: o espectador só sabe que Marius desconhecia que Valjean o havia salvado no levante de 1832 no momento em que o personagem vivido por Eddie Redmayne descobre quem tinha o levado desacordado nas costas pelos esgotos de Paris. Mas o que mais chama a atenção negativamente é a atuação de Russel Crowe, logo no importantíssimo papel de Javert. Claro, interpretar cantando não deve ser moleza, mas acho que ele se saiu bem melhor usando sua voz, o que não significa muito.

Por outro lado, as músicas são belíssimas, assim como figurinos, maquiagem e cenários, e a atuação de Anne Hathaway merece tanto destaque quanto a estatueta que arrebatou na noite de domingo passado (melhor atriz coadjuvante). Excelente a Fantine composta por ela. Como excelentes também são as crianças, em especial o que interpreta um personagem que já havia me cativado no livro: Gavroche, que o lourinho Daniel Huttlestone fez com maestria.

Não tive a oportunidade ainda de ver o musical no teatro, lacuna que pretendo preencher nem que seja pelo vídeo, mas para o filme, se tivesse a oportunidade de opinar, diria que o melhor seria intercalar falas com cantos. Creio que funcionaria melhor.


Foto: Hugh Jackamn (Jean Valjean) e Anne Hathaway (Fantine), no filme "Os miseráveis".
Vídeo: "Do You Hear The People Sing" e "Look Down (The Beggars)", músicas do mesmo filme.
Veja também: A grandiosidade de Victor Hugo
A Cruzada das Crianças
A conversa continua

domingo, 24 de fevereiro de 2013

PENSO, LOGO SINTO 14

Os opostos se atraem é uma lei da Física, mas também pode ser uma lei do físico, do orgânico, emocional, sexual. Mas como amar alguém que não ama o que você ama?


Vídeo: "Eu queria ter uma bomba" (Cazuza/Roberto Frejat), com Barão Vermelho.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #47

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46 Garrincha e Pelé, durante a Copa do Mu...

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