quarta-feira, 18 de maio de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #16

Com a bola na rede, Gighia começa a comemorar o gol da vitória uruguaia contra o Brasil em 1950
O papo sobre a Copa de 50 com toda comoção é revivida por aqueles que puderam presenciar e participar dos dias de festa até o silêncio final. Jorge Goulart, então, volta ao palco e toma a palavra.

Jorge Goulart: - Aquela Copa de 50 foi realmente uma grande festa antes da final. O Lamartine, que ali está (todos aplaudem), fez outra marcha que poderia ter sido o hino do primeiro título mundial do Brasil, se não perdêssemos pro Uruguai. Vou cantar aqui a "Marcha do Scratch Brasileiro" que homenageia também o estádio Municipal, como era chamado a princípio o Maracanã.


Jorge Goulart é aplaudido, assim como Lamartine Babo, que numa das mesas próximas ao palco se levanta para cumprimentar o público.

Jorge Goulart: - Viva Lalá!

Todos: - Viva!

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Jorge Goulart continua no palco, enquanto o público o aplaudia e também Lamartine Babo.

Jorge Goulart  - Agora vou chamar ao palco a Linda Batista pra cantar outra música feita pra Copa de 50.

Linda se encaminha pro palco aplaudidíssima.

Linda Batista (no palco) – Obrigada, gente. Uma pena não termos ganhado daquela vez, né? Mas tive a felicidade de gravar este samba do Ary Barroso, que ali está e também merece muito os nossos aplausos.

Todos aplaudem Ary Barroso.

Linda Batista: - Vamos lá!


Mais aplausos.

Sobrenatural de Almeida: - É, a festa foi boa, mas a euforia foi demais também. O clima de já-ganhou não me agradou.

Ceguinho Torcedor: - Então, foi você?

Sobrenatural de Almeida: - Não, foi o Obdulio Varela, o Gighia, o time uruguaio. Eu só dei um empurrãozinho, sem querer. Aquele discurso do general Angelo Mendes de Morais, pouco antes de a bola rolar, me deixou revoltado.

Idiota da Objetividade: - O general Angelo Mendes de Morais era o prefeito do Distrito Federal, ou seja, o Rio de Janeiro, então capital do Brasil.

Ceguinho Torcedor: - Com uma euforia desmedida, o general disse pouco antes do jogo que os brasileiros eram os futuros campeões mundiais...

Zé Ary imediatamente põe nas caixas de som o trecho citado por Ceguinho Torcedor do discurso de Ângelo Mendes de Morais, da tribuna de honra do Maracanã.


Vaias e protestos da plateia são ouvidos.

Sobrenatural de Almeida: - Futuros mesmo, só oito anos depois...

João Sem Medo: - Nesse discurso ele também disse que tinha dado o estádio para a realização da Copa do Mundo, então que era a vez de os jogadores darem o título mundial para o Brasil. O general pressionou ainda mais os jogadores brasileiros, ao mesmo tempo em que já cantava a vitória.

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Ceguinho Torcedor: - Amigos, em 50, na véspera de Brasil x Uruguai, encontrei-me com o famoso “speaker” Gagliano Netto e perguntei: “Quem ganha?” Eis uma resposta triunfal: “Brasil 8 a 0” Vocês entendem? Ele não fazia por menos – tinha de ser 8 a 0. Pode parecer que era um caso de delirante otimismo individual. Absolutamente, milhões de pessoas achavam assim. E o Brasil perdeu! Dirá o Idiota da Objetividade que foi o Uruguai que nos venceu...

Idiota da Objetividade: - ... E não foi?

Ceguinho Torcedor: - Não. O que nos venceu foi o favoritismo total. Contra a Espanha, temíamos. E porque havia medo, um mínimo de medo, goleamos. Seis a um, foi o resultado final. Veio de Brasil x Uruguai o meu horror ao favoritismo.

Sobrenatural de Almeida: - Foi muita falta de respeito com os uruguaios. Aí, quando o Gighia penetrou pela direita e chutou, acabei fazendo a bola ir um pouco mais rápido e quicar na frente do Barbosa.

João Sem Medo: - Quando os políticos se metem no futebol acontece isso...

Garçom: – E o Sobrenatural...

Sobrenatural de Almeida: - ... de Almeida. Hahaha

Ceguinho Torcedor: - Você bem sabe o quanto a política prejudica o futebol, né, João? Não escalou o Dario, como queria o Médici...

João Sem Medo: - Dario era um bom jogador, mas eu tinha Tostão, Jairzinho, Roberto Miranda, Coutinho, Toninho Guerreiro. Se eu quisesse trombador, aí eu poderia buscar o Dario, ou o Flávio, do Corinthians, o Alcindo, do Grêmio. O presidente escalava o Ministério dele e eu escalava o meu time.

Ceguinho Torcedor: - Esta frase te derrubou, João.

João Sem Medo: - É, estavam transmitindo pro Brasil todo a entrevista... Mas voltando a 50, o que fizeram com o Barbosa foi uma grande injustiça. Teve racismo ali.

Ceguinho Torcedor: - Foi um dia muito triste pro futebol brasileiro. Muito triste.

Idiota da Objetividade: - Foi uma tragédia aquela derrota de 2 a 1 para o Uruguai. Os uruguaios chamam aquela vitória em 1950 de Maracanazzo até hoje.

João Sem Medo: - E a imprensa daqui exagera. Chamaram a derrota de 3 a 2 para a Itália em 82 de Tragédia do Sarriá.

Garçom: - Mal sabíamos o que estava por vir...

Sobrenatural de Almeida: - O Mineiraço, em 2014.

João Sem Medo: - Isso sim foi uma tragédia. Levar de 7 a 1 em casa, numa semifinal de Copa do Mundo, é o fim do mundo. Mas parece que tudo foi só um apagão.

Quase em coro, muitos presentes pensaram alto: "Pois é..."

Modificado e republicado em 17 de setembro de 2024 

Fim do Capítulo #16

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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domingo, 15 de maio de 2022

sexta-feira, 13 de maio de 2022

MÚSICA PRA VIAGEM: FEITO MISTÉRIO

Esta é daquelas que canto sempre em casa, embora a letra completa eu nunca consiga decorar. "Então, senti que o resumo é de cada um, que todo mundo deságua em lugar comum..." e depois vem um laialálálá até "quando desespero vejo muito mais. Esta canção me rói feito um mistério, essa tristeza dóóóóiiii, meu fingimento é sério...". Aqui, nesta série não tão frequente quanto eu gostaria, o Boca Livre certamente também vai aparecer muitas e muitas vezes, tantas são suas obras-primas, de própria autoria ou cantoria. 

É uma experiência fascinante ouvi-los, desde os tempos em que Claudio Nucci fazia parte do grupo, posteriormente substituído à altura por Lourenço Baeta. O lamentável foi o grupo ter chegado praticamente ao fim com as saídas de Zé Renato, Lourenço Baeta e David Tygel por divergências políticas com Maurício Maestro, detentor do nome do grupo. 

Mas o papo aqui é "Feito mistério", de Lourenço Baeta, que não fazia parte do grupo ainda quando a música foi gravada, e o poeta Cacaso. Desta feita também resolvi apresentar duas versões: uma ao vivo, com a participação de Rodrigo Maranhão, e outra na gravação original do LP de estreia do grupo, lançado em 1979, e que tinha em minha coleção quando morava no Rio de Janeiro. 

Pode curtir à vontade!

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quarta-feira, 11 de maio de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #15

O goleiro Ramallets olha a bola no fundo das redes num dos dois gols de Ademir Menezes na vitória
de 6 a 1 do Brasil sobre a Espanha, na Copa de 50. Bigode (6) e Friaça (7) também aparecem na foto

Com o fim da música “Pacaembu” nas caixinhas de som, muitos aplausos. Antes que cessassem, Idiota da Objetividade é ligeiro e retoma a pelota.

Idiota da Objetividade: - Além do Pacaembu, também houve partidas no Estádio dos Eucaliptos, em Porto Alegre; no Durival de Brito, em Curitiba; na Ilha do Retiro, no Recife; no Independência, de Belo Horizonte, e, claro, no Maracanã, construído especialmente para aquela Copa, a primeira depois da Segunda Guerra Mundial.

Sobrenatural de Almeida: - Ah, lá no Independência eu aprontei a maior zebra da História: Estados Unidos um, Inglaterra zero.

Idiota da Objetividade: - Mas nenhum dos dois times se classificou para a fase final. A classificada no Grupo 2 foi a Espanha.

Todos (de pé, alegremente, brindando): - “Eeeeeeeeu fui às touradas de Madri, pararatibum-bum-bum, pararatim-bum-bum-bum”!!!

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Enquanto a turma toda canta, dança e batuca a marchinha gravada 12 anos antes por Almirante e a Orquestra Odeon, e que fez muito sucesso em 1949, com Carmen Miranda, a Pequena Notável voltava ao palco, desta vez com João de Barro, o Braguinha, e ambos são muito aplaudidos. O público não para de cantar o refrão de “Touradas em Madri”, até que Braguinha pega o microfone para se dirigir aos presentes.

Braguinha: - Muito obrigado, minha gente. Naquele dia eu chorei na arquibancada do Maracanã. Chorei de emoção. E se vocês não pararem eu vou chorar novamente.

Todos riem e o aplaudem. A música começa e todo mundo em pé canta e dança junto com Carmen Miranda e Braguinha. Uma festa completa.

Ao fim, a ovação é enorme. Carmen Miranda e Braguinha deixam o palco, sendo cumprimentados e cumprimentando quem estivesse pela frente. Zé Ary se apressa e anuncia.

Garçom: - Vou localizar aqui no nosso rádio do tempo a narração do Antônio Cordeiro, da Rádio Nacional, justamente naqueles minutos finais de Brasil e Espanha. Dá pra ouvir um pouco o público cantando ao fundo.

Ceguinho Torcedor: - Agora o Braguinha vai chorar lágrimas de esguicho!

Garçom: - Achei! Aqui está!

 

Todos ficam emocionados, o público aplaude, volta a cantar, e Braguinha chora copiosamente de novo, como se estivesse outra vez na arquibancada do Maracanã. É abraçado por amigos e louvado por todos:

“Braguinha, Braguinha, Braguinha...”

Ceguinho Torcedor: - Que dia, que espetáculo, que goleada, que maravilha aquele povo todo no Maracanã cantando e a seleção dando um baile na Espanha...

João Sem Medo: - Um dia muito especial pro nosso futebol, sem dúvida alguma.

Músico (no palco): - E pra nossa música também, seu João.

João Sem Medo e os demais concordam. Após a euforia, alguns devem ter se lembrado do que ocorreu no jogo seguinte e se aquietaram. Zé Ary não deixou a bola cair e pediu que os amigos seguissem em frente no bate-papo.

Veja também:
Memórias da geral do Maracanã
Maracanã, um personagem de "Contos da Bola"

Idiota da Objetividade: - Esse jogo contra a Espanha foi o segundo da seleção brasileira na fase final da Copa do Mundo de 1950. No primeiro jogo, uma goleada ainda maior: 7 a 1 sobre a Suécia.

Sobrenatural de Almeida: - No dia em que a seleção brasileira derrotou a Espanha por 6 a 1, tinha de 152 mil pagantes no Maracanã. Pagantes e delirantes. Assombroso! (dá sua risada medonha)

João Sem Medo: - Tinha muito mais gente. Umas duzentas mil. Tinha gente saindo pelo ladrão.

Todos concordam. Houve quem dissesse: “Muito mais até!”

Modificado e republicado em 11 de setembro de 2024.

Fim do Capítulo #15

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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #43

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