LIVRO PRA VIAGEM: A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO SER

Meu livro desgastado pelo tempo

Chegou a hora de reler, foi o pensamento abrupto que me veio outro dia de manhã, enquanto lavava a louça. A notícia da morte de Milan Kundera, divulgada esta semana por veículos de comunicação de boa parte do mundo, até me pegou de surpresa, pois não ouvia falar do escritor tcheco há muitos anos, há décadas.

Como fora há muitos anos, décadas, que assisti ao filme no cinema e um bom tempo depois comprei o livro numa banca de jornais do Rio de Janeiro e o li, com prazer. Deve ser desde esta época que nada sabia sobre o autor.

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Diz o obituário de Kundera que o escritor não gostava da adaptação de seu livro de maior sucesso para o cinema: achou simplista demais. Porém, aquela história do neurocirurgião Tomás e seus questionamentos e muitos conflitos sobre o amor, o casamento e o sexo que se passa durante a Primavera de Praga, rapidamente encerrada com a invasão da União Soviética (isso lembra algo recente por aqueles lados do planeta, né!?) me agradou quando a vi no cinema. Talvez se tivesse lido o livro antes, a minha opinião fosse a mesma de Kundera. Quem sabe?

Só sei que, assim que terminar um dos dois livros que leio atualmente ("O poder do agora", de Eckhart Tolle, e a biografia do baterista do The Who "Keith Moon: a vida e a morte de uma lenda do rock", de Tony Fletcher), pegarei de novo "A insustentável leveza do ser" para ler. Até como uma homenagem a Milan Kundera, que além deste ótimo livro, me deu a ideia de criar mais esta série aqui no blog.

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"COMENDO A BOLA" PELAS BEIRADAS

 

Da esq. pra direita: Mauricio Capellari, Carlos Falkoski, Rodrigo Titericz e eu. Foto: Anderson Duarte

A convite de Mauricio Capellari, participei no último dia 4 da gravação do programa "Comendo a Bola", apresentado por ele e que conta também com Carlos Falkoski, o Professor, e Rodrigo Titericz, o Presidente. O debate foi sobre a unificação dos títulos nacionais de futebol e o episódio 39 já está disponível a quem quiser assistir e participar do sorteio de um exemplar autografado do livro "Contos da Bola". 

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Este tema eu já havia abordado aqui neste blog, ainda no início de 2010, quando havia já uma movimentação dos clubes pelo reconhecimento das conquistas da Taça Brasil e do Torneio Roberto Gomes Pedrosa, como Campeonato Brasileiro, mas a CBF ainda não tinha decidido o que fazer. Clique aqui e leia o que escrevi em 2010, com recente atualização do texto e da lista de campeões.

O papo foi muito bacana, houve um entrosamento rápido e me senti muito à vontade. Participei ainda do quadro "VAR retrô", uma ideia espetacular do trio titular do programa, sobre um lance que ocorreu na final do Campeonato Brasileiro de 1974, entre Vasco e Cruzeiro. 

Acabei sendo novamente convidado a retornar nesta quarta-feira, dia 12, para o episódio 40, para tratar de um assunto muito sério e importantíssimo que detalharei na próxima semana quando ele for ao ar, no dia do meu aniversário. Você sabe quando é?

Assista abaixo o "Comendo a Bola 39" e deixa sua curtida lá na página do programa no Youtube até o dia 19 de julho, próxima quarta-feira, para participar do sorteio. 

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Das peladas de rua às arenas
Setenta vezes Maracanã
Papo no "Geraldinos de Arena"

LEIS DO RELATIVISMO

E cá estamos nós mudando pouco para nada mudar. No fim e no fundo de tudo dessa diária e insana guerrilha político-social, oportunistas e fanatizados de direita relativizam as tiranias mais sangrentas de direita, e oportunistas e fanatizados de esquerda relativizam as tiranias mais sangrentas de esquerda. Todos, repletos de emoções, a querer deter a razão, porque ela só pertence a eles, os do lado de lá estão no reflexo do espelho, embora ninguém perceba ou vire a cara para não ver. Eis as leis do relativismo.

Olhar-se, perceber-se, sentir-se, questionar-se? Jamais, em tempo algum. Sartre já dizia, virou até clichê, muito mais por ser tão pouco ou mal praticado: "O inferno são os outros".

E seguimos rastejando como sociedade, moribunda, malfazeja e andrajosa, com a gritaria na ordem do dia, da tarde, da noite e da madrugada, quando o quase silêncio permite que se propaguem com mais facilidade as suas mini e maxi certezas embriagadamente (não necessariamente de entorpecentes ou álcool, há drogas de todos os tipos para mentes e corações fragilizados e ingênuos, mesmo que travestidos de fortes e antenados). 

O mundo, em particular aqui mesmo onde vivemos, vai assim se tornando uma incomensurável rede social emaranhada de gente cega, surda e tagarela. Uma lástima completa. 

"A spider wanders aimlessly within the warmth of a shadow
Not the regal creature of border caves
But the poor, misguided, directionless familiar
Of some obscure Scottish poet"
(Bitter suite, de Derek William Dick, mais conhecido como Fish)

"Que grande sombra
nos impede de ver,
Que grande força
nos impele a obedecer,
Que gigantesca teia
nos aprisiona
sem que se possa perceber?"
(A teia, de Eduardo Lamas Neiva)


A BANALIZAÇÃO DO APLAUSO *

A maior vitória conquistada pelos homens que amam o poder e dão a vida para mantê-lo é sem dúvida a imbecilização de seus subalternos. Investindo na falta de informação onde ela dificilmente chega e no treinamento por repetição, chamada pomposamente de educação democrática, nas áreas urbanas, onde a informação chega de qualquer forma - mesmo ao mais alienado dos seres -, os poderosos continuam vislumbrando um horizonte infinito à sua frente por vias democráticas. 

Críticas ao baixíssimo nível da televisão são freqüentes nos jornais desde sempre, por exemplo. Para se ter uma idéia, Nelson Rodrigues, em uma crônica nos fins dos anos 60 (portanto há mais de 30 anos) já perguntava como se poderia ter uma televisão de alto nível se o público telespectador era de baixo nível intelectual. Mudou algo de lá para cá?

Li certa vez uma entrevista do diretor de teatro Antunes Filho afirmando ser muito difícil fazer peças de boa qualidade no Brasil porque o público de teatro havia piorado muito. Ele, porém, dizia que, apesar disso, não iria dirigir peças somente para agradar as pessoas. O verdadeiro artista é como o verdadeiro amigo, deve dizer exatamente aquilo que sente e não somente o que agrada. 

No entanto, o que mais temos assistido por aí são “artistas” fazendo música, encenando peças, escrevendo livros para não decepcionar o seu público. E que público é este? Exatamente o mesmo que não tem qualquer tipo de exigência, nada questiona, tudo absorve e tem horror a algo diferente do padrão. E por quê? Porque foram treinados para serem assim. E assim são. E assim repetem os erros dos poderosos. E assim permitem aos poderosos continuarem onde estão. E o círculo se torna vicioso, nada muda.

Nada mais irritante numa sala de teatro do que a turminha do “urruu”. A turma que a tudo aplaude, mesmo que a peça tenha sido de baixíssima qualidade. Há logicamente uma parte dessa turma que é altamente hipócrita (que aplaude na frente para depois meter o malho por trás), mas a maioria vai na onda e o aplauso se banaliza. 

Vi recentemente uma peça no Rio que tinha um ótimo texto (“Esplêndidos”, de Jean Genet), mas que foi simplesmente arrasada por uma turma de atores que havia saído das academias de malhação, passando rapidamente pela telinha da tevê, para cair de pára-quedas no palco do CCBB. Até o excelente Nelson Xavier parecia estar sem a menor paciência de aturar aquela turma e tropeçava no texto, chamava dois personagens pelo mesmo nome, um desastre, enfim, salvo apenas pelo excelente texto, repito, e pelo cenário. Ao fim da peça foram aplaudidos de pé. De pé!

Outro dia, fui ao maltratado Teatro Dulcina para assistir a uma bela apresentação de “Anti-Nelson Rodrigues” e me irritei profundamente com um grupinho de três rapazes atrás de mim, que não paravam de rir de qualquer coisa na peça e ainda cochichavam o tempo inteiro. Por vezes não conseguia ouvir o que os atores diziam, por causa do tititi atrás de mim. Percebi antes da peça começar que eles eram de teatro, pois faziam referência a uma matéria de jornal que publicou uma foto deles. Pois é, futuros atores que não aprenderam sequer a ser platéia. Estamos feitos!

Não é a toa que nos campos de futebol os chutes nas canelas adversárias sejam mais freqüentes do que os belos lances. As torcidas organizadas e muitos dos que estão em volta nas arquibancadas estão mais dispostos à porrada do que a assistir um bom jogo de futebol. Quantas vezes Pelé, Garrincha e outros não foram aplaudidos por torcedores adversários? Quantas vezes uma torcida não vaiou seu time quando jogou muito mal e ganhou em outros tempos? 

Quando um time joga mal a torcida não pede talento, pede raça, embora ela muitas vezes não falte. Hoje a única exigência é a vitória a qualquer custo, mesmo que seja à base de pontapés. Os espetáculos só vem piorando, entre outras coisas, porque o público é de péssima qualidade. E a imprensa, que fabrica um ídolo por dia, é a grande responsável por tudo isso. Até porque tem uma intimidade muito grande com o poder.

* Este texto foi escrito provavelmente em 2000, portanto há cerca de 23 anos.

Obs.: a ortografia antiga foi mantida. Fica também como uma forma de protesto contra a mentira deslavada da padronização nos países da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) que certamente favoreceu gente do meio editorial e desgovernamental também (só cumprido e imediatamente adotado pelo Brasil, sil, sil, o acordo foi assinado em 2008 pelo mesmo presidente de agora).

TRECHO DO LIVRO "O NEGRO CREPÚSCULO"

O Negro Crepúsculo

 PRELÚDIO

Não costumo ser chamado pelo nome de batismo, então me apresento pelo artístico, c.j.marques - assim mesmo com minúsculas, igual ao poeta e.e. cummings. Entre meus colegas sou conhecido como Marques. E assim digo, no dia-a-dia, que é este o meu nome para as pessoas com as quais vou esbarrando por força do meu trabalho.

Completei 39 anos no mês passado, sou formado em Publicidade e Propaganda já há 14, mas nunca exerci a profissão. Fiz apenas um rápido estágio numa agência, mas me senti deslocado demais naquele mundo. Ou seja, percebi tarde demais que havia feito a escolha errada. Ainda morava com meus pais, mas queria ter minha vida independente e fui trabalhar com vendas, primeiramente no mercado formal, posteriormente no informal, para ter como me sustentar.

Acabei conseguindo juntar um dinheiro e comprei um carro, apesar do financiamento extorsivo de um banco, e virei taxista, minha profissão até hoje. Mas desde sempre escrevi e guardei aquelas folhas - antes reais, batidas à máquina de escrever, e agora virtuais - com a esperança de um dia publicá-las. Procurei várias editoras, recebi elogios, e foi só: ninguém se interessou pelo taxista, publicitário só por formação universitária, e um voraz leitor metido a poeta.

Tive um casamento frustrado, que durou pouco mais de quatro anos, sem filhos. Estou há cinco vagando por esta cidade que um dia deve ter sido mesmo toda maravilhosa (eu a reconheço em seus escombros e sombras sombrias de seus prédios, morros, vales e praias), levando pessoas daqui pra lá, de lá pra cá. Algumas vezes nem isso, prefiro ficar rodando sozinho, observando a paisagem noturna, recusando os sinais de algumas criaturas perdidas na noite. Erro por madrugadas e manhãzinhas nessas ruas esburacadas e imundas, não só no meu táxi, mas também a bordo de minha solidão. Quando achei que poderia encostá-la numa calçada da vida qualquer, numa festa na casa de um amigo conheci Alice.


“... (não sei dizer o que há em ti que fecha

e abre; só uma parte de mim compreende que a
voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem mãos tão pequenas”

(e. e. cummings, em tradução de Augusto de Campos )


Quer ler a história inteira de c.j.marques, o dublê de taxista e escritor?
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