sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

A MEMÓRIA VIVA DE MANDELA

Na África do Sul sob o cruel apartheid, Mandela ficou preso 27 anos lutando pela liberdade dos oprimidos, o povo negro de seu país, e também pela libertação dos opressores. Entendo o pensamento e as ações do grande líder que se foi ontem como uma verdadeira ode à paz, ao entendimento, à mudança de postura ofensiva e defensiva contra alguém, ao amor. Creio que Mandela defendia a libertação do ódio para ambos os lados: o injustificável do opressor, e o da vingança, do oprimido.

Nós, brasileiros miscigenados, que temos correndo em nossas veias tanto o sangue do senhor, quanto do escravo, como bem escreveu Darcy Ribeiro, precisamos muito aprender mais essa lição. Manter viva a memória deste e de outros tantos grandes homens que lutaram pela união (e não a padronização) de todas as etnias, culturas, religiões e nações é o dever nosso de cada dia. Mandela está e continuará vivo!
Vejam como são as invisíveis conexões neste mundo. Ontem à tarde, horas antes de saber da morte de Mandela, entrei num desses sites de streaming para ouvir o grupo chileno Illapu, que gosto muito e há anos não ouvia. Pois a primeira música a tocar foi exatamente esta acima, "Mande Mandela".
Veja também:
Los fragiles y los fuertes
Adiós, La Negra
Esmola oficial

quarta-feira, 16 de outubro de 2013

UMA TARDE INESQUECÍVEL NA CIDADE DE DEUS

Retratada de forma ao mesmo tempo histórica e ficcional em livro de Paulo Lins que depois foi para as telas de cinema, a Cidade de Deus sempre teve a fama justificada de um dos lugares mais violentos do lado mais cruel do Rio de Janeiro. A coisa se acalmou um pouco nos últimos anos com a "pacificação" implementada pelo Governo do Estado, que por outro lado jamais se preocupou em dar sustentação ao projeto das UPPs com os mais fortes alicerces que crianças e jovens devem ter: a Saúde e a Educação. Como o Governo se  ausenta destes e de outros vários setores prioritários, a sociedade se movimenta para fazer a sua parte e a de quem deveria estar à frente de tudo. Assim, já há três anos, a Agência do Bem atua na Cidade de Deus com um pólo da Escola de Música e Cidadania, atendendo a 200 meninas e meninos.
Levado por um grande amigo (mais que amigo, irmão), tive a honra de conhecer o trabalho dessa organização da sociedade civil em 7 de agosto deste ano em seminário realizado num hotel da Barra da Tijuca. Lá pude assistir comovido a uma apresentação de um sexteto selecionado da Orquestra Nova Sinfonia, que abrange jovens e crianças de outras duas comunidades atendidas pela Agência do Bem: Beira Rio, em Vargem Grande, e Novo Palmares, em Vargem Pequena. E no debate realizado naquele dia, após a apresentação de Alan Maia, diretor da Agência do Bem, dos seus parceiros e da sensacional palestra do economista Sérgio Besserman, vi claramente que muito mais do que formar músicos profissionais, o objetivo é sensibilizar e formar público para músicas de qualidade. E isso também vale para os adultos.
Esse trabalho fantástico me motivou a levar a ajudá-lo de alguma forma. E depois de cedermos alguns DVDs e CDs para o acervo da Escola de Música e Cidadania, tivemos a chance de levar ontem, 15 de outubro, dia do Professor, o ator-palestrante internacional Raul de Orofino para uma apresentação especial e gratuita na Cidade de Deus. E como pus no título, foi uma tarde inesquecível, por tudo. Pela apresentação inspirada e inspiradora deste grande ator, a interação com o público jovem presente, a participação de todos na conversa que houve após a peça "O Homem do Fecicebuque e outras histórias", o brilho no olhar de cada um, o carinho e o amor dado e recebido, todo o aprendizado que se colheu em mais ou menos três horas naquela sala de aula.
Saí da Cidade de Deus, pouco depois das 16h, uma pessoa muito melhor do que a que chegou lá, por volta de 13h. E vi reforçado em mim que não serão grandes reformas políticas, legislativas ou judiciárias, revoluções, protestos - ainda mais os violentos -, projetos mirabolantes e milionários, que farão mudar para melhor nosso dia a dia, nossa casa, nosso prédio, nossa rua, nosso bairro, nossa cidade, nosso estado (e o Estado), nossa região, nosso país, nosso continente, o mundo. É somente exercendo por inteiro o amor, uma palavra que anda sendo desgastada por tão mal usada, que poderemos "sacudir o mundo" (viva também o outro Raul!). Tenho agora isso definitivamente dentro de mim.
Foto: Vanderson Rodrigues
Veja também:
Brasil, um edifício que cresce sobre frágeis alicerces
Villa-Lobos, o pai da MPB 

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

LUIZ MELODIA, O NEGRO GATO E SUAS PÉROLAS

Luiz Melodia no Sesc Tijuca, com Renato Piau
ao violão. Foto: Cristina Velloso.
Corrigi ontem, no Sesc Tijuca, uma falha no meu currículo de apreciador de música: assisti pela primeira vez a um show de Luiz Melodia. Um espetáculo para guardar na memória. Casa cheia, com ingressos esgotados, e o cantor e compositor demonstrando estar ainda no auge, muito bem acompanhado de um trio de cordas de primeira linha, formado por Renato Piau (violão de seis cordas), Alessandro Cardoso (cavaquinho) e Leandro Saramago (violão de sete cordas).

Melodia brincou com a platéia, deu espaço para os seus músicos brilharem, dançou, e cantou como sempre, passeando pelos seus grandes sucessos, como "Pérola negra", "Juventude transviada", "Magrelinha", "Fadas", "Estácio, holly Estácio" e "Negro gato", que encerra o show em altíssimo astral.

Ele deixou "Codinome beija-flor" de fora, para decepção de algumas fãs. Até gosto muito da música do Cazuza (com Ezequiel Neves e Reinaldo Arias), mas sinceramente não fez falta para mim. Luiz Melodia preferiu apresentar uma música nova, "A cura", e mostrar uma de seu pai, Oswaldo Melodia, que agora não me recordo o nome. Ambas muito boas.

Neste domingo, dia 13 de outubro, houve quem escolhesse o Maracanã para ver o meu Flamengo perder para o Botafogo, outros foram à Apoteose encarar o peso pesado do Black Sabbath, mas preferi o Luiz Melodia. E posso dizer sem medo de errar: foi a melhor escolha para mim. Em todos os sentidos!


Vídeo: show gravado pelo programa "Talentos", da TV Câmara
Veja também:
Filipe Catto, entre cabelos, olhos e furacões
A nova dinâmica da viola de Hugo Linns
Clarice Niskier, de corpo e alma
Panacéia cura os males musicais
Antúlio Madureira, mestre de obras-primas

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

GASOLINA NO INCÊNDIO 14

Com "Gasolina no Incêndio" pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis. A décima-quarta questão-provocação é a seguinte:

Comprar drogas no morro é financiar o tráfico, e pagar os escorchantes impostos que nos cobram os governos municipal, estadual e federal sem nos dar retorno em Saúde, Educação e Transporte Público é financiar a corrupção oficial.

Veja também:
Gasolina no Incêndio 1
Fábrica de ídolos
Brasil, um edifício que cresce sobre frágeis alicerces

sexta-feira, 6 de setembro de 2013

ROGER WATERS SETENTÃO

Roger Waters jovem
Falar de Roger Waters, que hoje completa 70 anos de idade, é falar de Pink Floyd, para mim o mais importante grupo de rock de todos os tempos. É tão importante pessoalmente que repito aqui o que já escrevi anteriormente: se fosse condenado a ouvir apenas um artista da música para o resto da minha vida não hesitaria em escolher a banda que Mr. Waters liderou do fim dos anos 60 até 1983. Escrever sobre ele e o Floyd me faz voltar a meados dos anos 70, quando eu ouvi pela primeira vez o antológico "The Dark Side of the Moon", na casa de um vizinho. Todas as sextas-feiras, como esta, eu e meu irmão subíamos ao 404 do prédio onde morávamos no Grajaú, para juntamente com esse colega, sua irmã e uma amiga dela ouvirmos esse disco, um do Elton John que não me recordo agora, jogar War e ver As Panteras. Não necessariamente nesta ordem, muito menos separadamente.

Demorei muitos anos para me tocar qual disco misterioso, com sons amedrontadores e fantásticos, de capa preta com um "triângulo" desenhado, ouvia lá pelos meus 8, 9 ou 10 anos. E percebi que foi ali que toda minha admiração por Waters, David Gilmour, o saudoso Richard Wright e Nick Mason começara. Nunca os vi juntos ao vivo, mas tive a feliz oportunidade de me emocionar muito com duas apresentações do aniversariante deste dia 6, que trouxe ao Rio versões completas de dois álbuns históricos: o próprio "Dark Side of the Moon", em 2007, na Apoteose, com músicas de outros excelentes discos, como o "Animals", e da sua carreira solo, e um show dilacerante em março do ano passado de "The Wall", que, pelo que dizem hoje as autoridades cariocas, poderia ter posto o Engenhão abaixo.

Roger Waters, com seu baixo, em ação num show

Veja também:

Vida longa, muito longa, a este gênio da música!

Vídeo: show completo de "Dark Side of the Moon Live Tour", na Argentina, em 2007.

Para quem não sabe, Roger Waters é criador das músicas da ópera "Ça Ira", sobre a Revolução Francesa, já apresentada no Brasil (quem quiser assistir é só clicar aqui). Já ouvi, mas só verei em breve.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

FILIPE CATTO ENTRE CABELOS, OLHOS, FURACÕES

Pode a máfia internacional do jabá estender seus tentáculos de polvo faminto e impor nas rádios e TVs seus ídolos fabricados para durar pouco mais de algumas quinzenas. Pode os tecnocratas da indústria do entretenimento, em parceria com essa máfia, continuarem a pôr o lucro à frente da criatividade, como bem conta André Midani em seu livro "Música, ídolos e poder. Do vinil ao download". Pode o mercado ser hostil e estrebuchar furioso, pois nem assim vai conseguir impedir que o verdadeiro artista chegue ao seu público e dure na sua memória e em seu coração, passando de geração em geração. Mas para isso, ensina o mesmo Midani na autobiografia, o ser criativo terá de pôr as mãos na criatura ao mesmo tempo fascinante e amedrontadora aos seus olhos: a grana. E, assim, reverter a ordem das prioridades: criatividade primeiro, lucro depois.

Creio plenamente que Filipe Catto esteja fazendo seu dever de casa direitinho. Um imenso talento para cantar e compor ele tem de sobra e tem tudo para eternizar seu nome na História da música brasileira. E, mesmo sem ser tão badalado como alguns apadrinhados (ou, principalmente, algumas apadrinhadas) dos velhos coronéis da nossa música, está conquistando o seu merecido espaço, que - queiram ou não - será ilimitado.



A primeira vez que soube dele foi por intermédio de um grande amigo, e quando ouvi "Roupa do Corpo" achei que se tratasse de um samba antigo, embora a letra fale na primeira pessoa de uma mulher que foge de casa. Fiquei extremamente surpreso e feliz quando pesquisei e soube que Filipe Catto era o autor. Agora, no meu aniversário, ganhei o DVD "Entre Cabelos, Olhos & Furacões" de uma pessoa muitíssimo especial para mim e pude atestar o que já vinha pescando em alguns vídeos no youtube: interpretações inteligentíssimas, com uma sensibilidade diferenciada para tornar sua uma música de outro brilhante compositor, como é o caso de "Ave de Prata", de Zé Ramalho, e que deu nome ao primeiro disco de Elba Ramalho (1979). Para completar, uma banda muito bem entrosada e arranjos muito inspirados e inspiradores.

Vida longa a este grande artista!



Foto de Ricky Scaff.
Vídeos: "Roupa do corpo", de e com Felipe Catto; e "Ave de prata" (Zé Ramalho), com Felipe Catto no programa Ensaio, da TV Cultura.
Veja também: A fronteira
O resgate de memórias e de um LP perdido ao som do Supertramp
Panacéia cura os males musicais
Um encontro com Martinho da Vila
Um índio ao piano no Municipal
Agradecimento a Altamiro
Entrevista: Nilze Carvalho
Dois garotos

sábado, 13 de julho de 2013

TORCEDORES DO RIO, UNI-VOS!

No próximo dia 21, torcedores de Fluminense e Vasco, e no dia 28, de Flamengo e Botafogo, terão uma grande oportunidade de dar uma imensa demonstração do quanto anda insatisfeita (muito mais do que isso, indignada) a população do estado do Rio de Janeiro com o despótico governo de Sergio Cabral Filho. Dentro da "arena MacanaX" os novos donos poderão proibir cartazes, faixas, bandeirões, instrumentos de percussão, peitos nus, que se torça em pé, xingamentos e palavrões, poderão vigiar tudo por um trilhão de câmeras, mas não conseguirão impedir o grito em uníssono contra a privatização do estádio a preço de banana , os passeios de helicóptero do (des)governador e de seus secretários, a truculência de seus policiais, as mansões construídas com misteriosa fortuna, o sucateamento da Educação e da Saúde públicas e tantas outros abusos que ocupariam um espaço gigantesco se fossem enumerados.
As próprias declarações infelizes do presidente do Consórcio que adquiriu de mão beijada a arena, João Borba, com relação às novas condutas que os torcedores deverão ter a partir de agora podem - e devem - ser condenadas e desobedecidas pelos torcedores dos quatro grandes times do Rio de Janeiro. A imprensa estará lá para mostrar tudo para o Brasil inteiro. E ai daquela que tentar camuflar algo, pois também será alvo dos protestos posteriormente, como já ocorreu nas recentes manifestações nas ruas.
Quando a bola rolar, cada um grite o nome de seu time, vibre com as jogadas de seus atletas, mas antes dos jogos flamenguistas, tricolores, vascaínos e botafoguenses terão uma grande chance que não pode ser desperdiçada. É hora de torcer por um time só: o Rio de Janeiro. Sem Cabral!
Veja também:
Adeus, Maracanã
Das peladas de rua às arenas
Futebol, uma metáfora da vida
O dom de jogar bola e o Bolero de Ravel

segunda-feira, 1 de julho de 2013

NÓS DA DANÇA DESATADOS EM "AUTORRETRATO"

A dança, mais do que qualquer outra arte, padece de um problema quanto ao seu o público, por ser quase que majoritariamente formado por pessoas que trabalham (ou que pretendem trabalhar) na própria área. Também por isso, convido a todos, principalmente os que nunca foram a um espetáculo de dança, a assistir o espetáculo "Autorretrato" (que eu escreveria com a grafia antiga, "auto-retrato", mas não posso modificar o título de uma obra), da Cia Nós da Dança. Depois de muito sucesso no CCBB-RJ, o grupo faz uma mini-temporada no Teatro Angel Vianna que se encerra no próximo fim de semana. Para quem ainda não sabe o teatro fica no Centro Coreográfico da Cidade do Rio de Janeiro, na Rua José Higino, Tijuca.
Não ia a um espetáculo de dança há mais de dez anos e posso dizer que voltei por cima, agora não só como espectador, mas com o prazer de ser assessor de imprensa do evento. É nítido que o trabalho da coreógrafa Regina Sauer e de todos os bailarinos envolveu muita emoção e criatividade. Estão lá no palco todas as alegrias e dores, inspirações, transpirações e aspirações dos artistas da dança tratadas com muita delicadeza. Cenário, figurinos, luz e a excelente trilha sonora só valorizam ainda mais o espetáculo. As imagens criadas no palco, com o corpo dos próprios bailarinos e elementos como fitas, espelho (virtual e real), tapetes, molduras e a iluminação, creio que vão além do que foi imaginado por Regina Sauer. Esse é o grande poder que a Arte tem: de fazer o público recriar a obra que nasce com o artista.
A galera de Niterói também terá a chance de ver o "Autorretrato" do Nós da Dança (www.cianosdadanca.com.br), entre 30 de agosto e 1º de setembro, em seu belíssimo Teatro Municipal. Imperdível!
Fotos de Ricardo Adami
Veja também:
Panacéia cura os males musicais
A nova dinâmica da viola de Hugo Linns
Lições de João (A música é interdisciplinar 2)
Dois garotos

terça-feira, 25 de junho de 2013

O BRASIL EM CHAMAS

A reboque das últimas - ao mesmo tempo importantes e tumultuadas - manifestações populares nas ruas do Brasil, veio um medo do retrocesso, de um novo golpe militar em virtude da infiltração de extremistas (de direita ou esquerda?) confundidos e ou misturados com bandidos. Isso tanto no asfalto, como nas redes sociais. Porém, já há muitos anos vejo como o maior risco que o país vem correndo não é a volta dos militares ao poder na base da força bruta. O enorme perigo que corremos é a eleição "democrática" de um pastor evangélico para a Presidência da República com maioria no Congresso.
Com a condescendência do PT em sua da sêde de poder, a representatividade dos políticos-pastores cresceu num ritmo ainda maior do que vinha acontecendo anteriormente, com seu projeto de uma portinha, uma igreja que vem corroendo culturalmente o país nos seus mais remotos recantos desde o início da década de 90 - embora a semente tenha sido plantada muito antes, é só recordar os programas de Jimmy Swaggart nos anos 70.
Adquirindo jornais, emissoras de TV e rádio e comprando horários nas que (ainda) não os pertenciam, os pastores foram se aproveitando da continuidade da política de investimento maciço em ignorância popular que vem norteando os governos civis e militares desde 1964 para conduzir e aumentar em progressão geométrica seu rebanho de fiéis financiadores e eleitores. Estamos muito próximos de nos depararmos com essa realidade. E se isso se confirmar, aí sim o Brasil arderá nas chamas do inferno.



Vídeo: "Tomara" (Alceu Valença/Rubem Valença Filho), com Alceu Valença.
Veja também: O outro ovo da serpente
Profecia
Mais uma sobre Educação

segunda-feira, 24 de junho de 2013

PENSO, LOGO SINTO 17

Saúde pública não se resume a mais e melhores hospitais, clínicas e postos de saúde, é preciso antes de tudo Saneamento Básico e Educação.

Veja mais: Penso, logo sinto 9
Questão em questão 2
Estilhaços 4
Gasolina no incêndio 11

quinta-feira, 20 de junho de 2013

PENSO, LOGO SINTO 16

De nada adiantará revolucionar o sistema, os regimes político e econômico, a forma de governar e as leis se o ser humano não mudar.

Veja também: Penso, logo sinto
Penso, logo sinto 2
Penso, logo sinto 3
Penso, logo sinto 4

terça-feira, 4 de junho de 2013

PELAS RUAS DO MEU BAIRRO


Há certas coisas que são tão intensamente boas que parecem não existir - e as ruins também, mas não é delas que desejaria falar. Quando passeio pelas ruas do meu bairro há momentos em que nem sinto caminhar, perco-me nos pensamentos, nos sonhos de episódios acontecidos e imaginados, fico vendo e revendo a arquitetura única de sua natureza e de suas casas e prédios antigos.

Quantas vezes percorri as ruas desse vale perdido na escuridão de noites que quase me apagaram, esbarrando com fantasmas que me perseguiam sem tréguas. Quantas vezes vi a luz de seu céu aberto colorir as folhas das amendoeiras. Folhas verdes, folhas vermelhas, folhas amarelas, folhas marrons. Quantas pisei como se andasse num tapete mágico por essas hoje maltratadas calçadas, cheias de sulcos cada vez maiores, saliências inconvenientes, interferências malfeitas nos irregulares asfaltos.

Tendo à vista a onipresença fundamental da pedra imensa como uma guardiã divina, oro uma poesia que invento na minha caminhada para implorar que esta gigantesca santa preserve estas belezas da ganância imobiliária, dos sujismundos que insistem imaginar que é poesia ou pintura escrever garranchos ininteligíveis em seus muros, que é instalação artística grandes sacos pretos e azuis de lixo ou o cocô de seus cães nas calçadas. Preserve quem te preserva, não intacto, mas renovado, com o ar e o aroma frescos de tuas matas e o cantar de teus pássaros a cada fim de madrugada. 

Que esta oração imperfeita ajude a manter a poesia das ruas do meu bairro e meu olhar atento e carinhoso para elas. Por mais tempo que seja possível.


Foto: Eduardo Lamas (1) e Daniel Neiva (2)
Veja também: tudo o que foi publicado em junho de 2012

quinta-feira, 16 de maio de 2013

FUTEBOL, UMA METÁFORA DA VIDA

Um dos motivos que fazem o futebol ser fascinante é que, mais do que qualquer outro esporte, ele é uma metáfora da vida. As frases mais usadas por comentaristas, narradores, repórteres, dirigentes, jogadores, técnicos e torcedores para definirem uma situação de jogo, uma partida ou o próprio esporte servem para o cotidiano de todos nós. Se o futebol é uma caixinha de surpresa, a vida é algo diferente?

Qual torcedor nunca lamentou que seu time - ou algum amigo, por exemplo - tenha perdido tantas oportunidades que acabou sendo derrotado? É, quem não faz, leva. Quem não bobeou por ficar esperando a bola no pé (ou uma chance com uma menina ou um cara), em vez de ir em sua direção, e ver um rival  mais rápido e esperto ficar com ela? Quantas vezes um jogador ou time - pessoa ou família - foi desprezado e deu a volta por cima

Que partidas épicas - ou momentos grandiosos na vida de alguém - ocorreram quando um time (ou a própria vida) parecia acabado(a), mas conseguiu arrancar forças para uma virada espetacular? Quem nunca se enfureceu com sua equipe - amigo ou colega de trabalho - por ficar morcegando, sem se esforçar para ao menos cumprir seu papel? Ou mesmo por jogar - ou agir - burocraticamente?

Veja também: 


Quantas injustiças não vimos nos gramados e na vida? Quantas carreiras - e vidas - desperdiçadas por quem teve todas as chances do mundo? E quantos venceram mais pela persistência do que pelo talento? Quantas derrotas dolorosas nos trouxeram grandes aprendizados e quantas vitórias fáceis não nos estragaram? E que lição nos traz a frase "Quem tem medo de perder perde a vontade de vencer"!

No entanto, o grande problema é que a imensa maioria dos torcedores - especialmente os ditos "profissionais" - não usam em suas vidas o que exigem de jogadores, técnicos e dirigentes de seus times.
Vídeo: os gols de Brasil 2 x 3 Itália, pelas quartas-de-final da Copa do Mundo de 1982, na Espanha. Imagens da TV Globo, narração de Luciano do Valle.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

JUSTÍSSIMA HOMENAGEM A CRISTINE CID

Daqui a uma semana, a Associação dos Amigos da Mama (Adama) prestará uma bela e mais que justa homenagem a uma mulher que dedicou seus precoces últimos anos de vida a esta ONG de Niterói, sua cidade natal. No ano em que se completam dez de sua despedida deste mundo, Cristine da Costa Cid (foto ao lado, de Sóter França Júnior) é lembrada para que aqueles que não tiveram a mesma sorte que nós, parentes e amigos, possam conhecer  quem ela foi e o que representou. No dia 24, às 10h, a Adama vai inaugurar seu reformado auditório, no Centro de Niterói, dando-lhe o nome de Espaço Cristine Cid.

Tive não só o privilégio de conviver com Cristine por 16 anos - iniciados há exatos 25, na tarde de 17 de abril de 1988 - como ter com ela meus três amados filhos, Lucas, Luísa e Daniel. Atriz, arterapeuta, professora, ela me ensinou tanto, tanto, que passaria minha vida inteira lembrando de passagens nossas e dela com outras pessoas que amava.

Difícil selecionar, mas faço questão de recordar algumas imagens que minha memória me devolve neste momento. Eu, "Stanley Kowalski", passando em casa com ela, "Blanche Dubois", o texto de "Dois perdidos numa noite suja" (Tennessee Williams) para a faculdade; grávida de Lucas no palco do Teatro da UFF, interpretando a Juíza na peça "Coquetel Molotv" (Alvaro Ramos); carregando nas ruas de terra de Rio do Ouro Lucas e Luísa no canguru de bebê para a UNI-RIO; dando o peito que perderia anos depois para amamentar a sobrinha Manuela; nervosa na primeira noite de agosto de 1994 por sentir pela primeira vez as contrações de um parto, no terceiro filho, Daniel; sorrindo muito, mesmo com tanta porrada que a vida lhe dava; dançando comigo, os irmãos, filhos, sobrinhos e cunhados numa animada festa de Ano Novo; orientando as senhoras da Adama nas peças que montava com elas ou na quadrilha das festas juninas; dirigindo Denize Nichols na peça que escrevi para ela, "Sentença de vida", até oito meses antes de partir...


Veja também:
Homenagem ao teatro
O quanto devo ao Centro de Artes UFF


Uma grande mulher igual a Cristine jamais deveria morrer, muito menos aos 33 anos de idade. Porém, ela teve de ir para cumprir sua missão no Mundo Espiritual e, assim, abriu-se a permissão aqui neste plano físico para que eu conhecesse quatro anos depois, namorasse e me casasse com Denise de Oliveira, também arteterapeuta e muito amada por mim. 

Creio que foi pensando na breve passagem de Cristine por este mundo que a Adama decidiu retribuir novamente todo o amor e a garra que ela lhe dedicou em tão pouco tempo: que seu nome fique como um imenso exemplo por muito mais tempo que todos nós que a conhecemos poderemos permanecer por aqui.

Veja também:
Música pra viagem: Réquiem
Trecho do ebook "Velhos conhecidos"


PS.: a poucos dias de se completar 20 anos da partida de Cristine, volto aqui (em 14/11/2023) para, além de reforçar minha eterna gratidão a ela, prestar também uma homenagem aos seus irmãos  Fernando, que chegou a publicar na época seu comentário aqui abaixo, e Marcos, ambos também já no Mundo Espiritual. Foram meus cunhados e amigos que também jamais esquecerei.

terça-feira, 2 de abril de 2013

GASOLINA NO INCÊNDIO 13

Com "Gasolina no Incêndio" pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis. A décima-terceira questão-provocação é a seguinte:

Deus tem religião? Afinal, qual é a religião de Deus?

Veja também:
Estilhaços 4
Gasolina no incêndio 7
Penso, logo sinto 3

sábado, 30 de março de 2013

domingo, 17 de março de 2013

ANNA KARENINA: CINEMA, TEATRO, MÚSICA, DANÇA, LITERATURA...

"Anna Karenina", filme baseado no clássico do escritor russo Leon Tolstói, me deixou surpreso e muito satisfeito. Uma produção hollywoodiana que foge aos padrões, com as cenas se deslocando de dentro de um teatro (não só palco, mas todas as áreas internas) para locações numa agilidade precisa. A decisão do diretor Joe Wright de usar a linguagem expressionista em muitas cenas pode causar estranheza, mas considero bastante acertada esta opção, pois além de destacar as sensações dos personagens, permite ao espectador uma visão distanciada da obra, sem a catarse emocional que a imensa maioria das produções americanas traz.
Se não chega a haver brilhantismo nas atuações, figurinos, cenários, músicas e danças são de uma beleza literalmente estonteante. Recomendo o filme especialmente ao público viciado na xaropada sentimental de Hollywood, que terá a chance de conhecer algo diferente e abrir a cabeça e a visão para outras possibilidades. Estimulado pelo filme, vou agora - quase 15 anos depois de comprado o livro - mergulhar novamente na literatura de Tolstói, autor também de "Guerra e Paz" e "A morte de Ivan Ilitch", que já tive muito prazer de ler.
Veja também: Clarice Niskier, de corpo e alma
A brutal delicadeza de Kieslowski
Homenagem ao teatro

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

A NOVA DINÂMICA DA VIOLA DE HUGO LINNS

Tive a felicidade de assistir nesta terça-feira ao show do meio-dia do multi-instrumentista Hugo Linns dentro do projeto Pernambuco Contemporâneo, no Centro Cultural Banco do Brasil, do Rio de Janeiro. Mais, tive a oportunidade de conversar com ele, alguns membros de sua banda e equipe, e ainda acompanhar a entrevista que concedeu ao programa Estúdio Móvel, da TV Brasil. Apesar de tocar outros instrumentos (piano, baixo, violão, guitarra), Linns é apaixonado mesmo por sua viola dinâmica.

Ele conta que, como sempre acontece com os violeiros, foi procurado por ela, entregue a suas mãos - para sua surpresa - por um professor de violão quando tinha uns 17 anos de idade.  Tem tantos ciúmes dela que diz não emprestar a ninguém. Quando lembrei de brincadeira que durante o espetáculo ele troca de viola com Eduardo Buarque, que toca a tradicional, de 10 cordas, Hugo Linns respondeu rindo que é porque o companheiro está por perto.

Com a viola dinâmica, Linns foi o primeiro a registrar em disco (o CD "Fita branca", de 2009, gravado em seu próprio estúdio) esse instrumento característico dos cantadores em solo, só com músicas instrumentais. Explica que, apesar de alguns outros artistas de Pernambuco estejam seguindo o mesmo caminho, normalmente a viola dinâmica apenas faz acompanhamento para os cantadores.

Ele tem experiência de acompanhar muitos artistas pelo exterior tocando outros instrumentos e tenta desbravar o mercado de música no Brasil com sua música original. Está prestes a lançar o segundo CD, "Vermelhas nuvens", previsto para sair no segundo semestre deste ano. Neste próximo Linns inclui elementos muito comuns num gênero que adora e que poderia soar como ruído para os puristas: o roquenrol.

- Escuto muito rock. Ouço Doors, Led Zeppelin, Yes, dos mais antigos. Dos atuais, Beck e Radiohead são os meus preferidos – revela o violeiro.

Com pedais diversos e até slide, que passou a usar também nas músicas do primeiro CD em suas apresentações, Linns cria uma sonoridade nova para a característica música pernambucana, passeando por cocos, maracatus, xaxados, emboladas, baiões, cavalos marinhos e cirandas com uma pegada roqueira muito interessante. Segundo ele, o importante é expandir as possibilidades sonoras de sua viola dinâmica. E realmente consegue dar ainda mais dinamismo ao instrumento que ajudou a recriar.

Foto (Carol de Hollanda): Hugo Linns usando o slide em sua viola dinâmica, ao lado de Rogério Victor (baixo acústico), no CCBB-RJ.
Vídeo: "Vermelhas nuvens" (Hugo Linns), com Hugo Linns e banda (Eduardo Buarque, no violão tenor; Rogério Victor, no baixo acústico, e Carlos Amarelo, na percussão, em 2011.
Veja também: A força nordestina
Antulio Madureira, mestre de obras-primas
Samba líquido

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

OS MISERÁVEIS, VERSÃO 2012: NEM TANTO AO MAR, NEM TANTO À TERRA

O filme-musical "Os miseráveis", dirigido por Tom Hooper, foi claramente feito para emocionar o público, o que se tratando da obra monumental de Victor Hugo não é lá algo tão difícil de se conseguir. É só não fazer muita besteira. Hooper arriscou ao levar o sucesso da Broadway para a telona, deixou furos, mas a direção musical deu conta do recado, teve muito mais acertos que erros. O diretor se equivocou ao optar por um início corrido, meio videoclipado. A virada na trágica história de Jean Valjean começa ali e a dramaticidade desta mudança radical foi um pouco perdida, embora a cena do conflito pessoal  tenha sido muito bem feita. Ponto para Hugh Jackman, que cumpre bem o papel principal.


A montagem do filme também tem uns vacilos, com cortes estranhos. Um dos momentos mais importantes da história apresenta um grave problema a meu ver: o espectador só sabe que Marius desconhecia que Valjean o havia salvado no levante de 1832 no momento em que o personagem vivido por Eddie Redmayne descobre quem tinha o levado desacordado nas costas pelos esgotos de Paris. Mas o que mais chama a atenção negativamente é a atuação de Russel Crowe, logo no importantíssimo papel de Javert. Claro, interpretar cantando não deve ser moleza, mas acho que ele se saiu bem melhor usando sua voz, o que não significa muito.

Por outro lado, as músicas são belíssimas, assim como figurinos, maquiagem e cenários, e a atuação de Anne Hathaway merece tanto destaque quanto a estatueta que arrebatou na noite de domingo passado (melhor atriz coadjuvante). Excelente a Fantine composta por ela. Como excelentes também são as crianças, em especial o que interpreta um personagem que já havia me cativado no livro: Gavroche, que o lourinho Daniel Huttlestone fez com maestria.

Não tive a oportunidade ainda de ver o musical no teatro, lacuna que pretendo preencher nem que seja pelo vídeo, mas para o filme, se tivesse a oportunidade de opinar, diria que o melhor seria intercalar falas com cantos. Creio que funcionaria melhor.


Foto: Hugh Jackamn (Jean Valjean) e Anne Hathaway (Fantine), no filme "Os miseráveis".
Vídeo: "Do You Hear The People Sing" e "Look Down (The Beggars)", músicas do mesmo filme.
Veja também: A grandiosidade de Victor Hugo
A Cruzada das Crianças
A conversa continua

domingo, 24 de fevereiro de 2013

PENSO, LOGO SINTO 14

Os opostos se atraem é uma lei da Física, mas também pode ser uma lei do físico, do orgânico, emocional, sexual. Mas como amar alguém que não ama o que você ama?


Vídeo: "Eu queria ter uma bomba" (Cazuza/Roberto Frejat), com Barão Vermelho.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

CLARICE NISKIER, DE CORPO E ALMA

"A alma imoral" é uma inusitada peça de teatro que precisa ser vista pelo maior número de pessoas possível. Os ensinamentos são tão profundos e certeiros, que a atriz Clarice Niskier se propõe a repetir partes do texto que os espectadores desejarem. A peça encerrou sua temporada no teatro Zimbienski, na Tijuca, no último domingo (16/12), mas voltará em janeiro no Serrador, no Centro do Rio. Só digo uma coisa: quem perder é mulher do padre.

Clarice Niskier. Foto: Dalton Valerio (almaimoral.com)

A peça fala basicamente dessa desobediente e rebelde que faz o mundo girar de verdade: a alma. Da tradição que representa o corpo e a traição que significa a alma, o corpo obediente e a alma desobediente. E é um espetáculo que, se não chega a subverter totalmente os preceitos da dramaturgia, desobedece sim muitas de suas "normas". A própria Clarice Niskier fala sobre isso no início da peça quando explica quando e como teve a idéia de levar o livro homônimo, do rabino Nilton Bonder, para os palcos. Ela se indaga como pode não haver ação dramática se dentro dela tantas transformações haviam ocorrido quando leu o livro. E, inspirada (inspiradíssima!) pelos pensa-sentimentos e parábolas do livro, ousou. Com brilhantismo.

Não existe um personagem, é a própria atriz que se apresenta literalmente nua para, com técnicas de interpretação, nos agulhar com verdades tão contraditórias como só o ser humano pode ter naturalmente em si, e construir, destruir e reconstruir ao longo de sua vida. E influir diretamente na vida das pessoas, como fazem há séculos os religiosos. Veja bem, os religiosos, e não as religiões. Ela e Bonder defendem que as religiões complementam-se umas às outras e não conheço uma sequer que não tenha como fundamento o amor. Repito, falo das religiões, dos seus escritos sagrados, e não do que fizeram - e fazem - com elas muitos de seus líderes e fiéis. Nenhuma pode ser apartada da Filosofia. Não tenho religião, creio em partes do que dizem e discordo de outras, penso com a alma, sou portanto imoral. Porém, fico muito à vontade para defender o que acabei de escrever.

Não há um personagem, mas Clarice ocupa todo o espaço cênico com uma apurada expressão corporal auxiliada por um grande pano preto, que serve para os mais variados figurinos. E o momento mais forte é quando ele vira uma burca. O texto é tão bem costurado, tão incômodo, comovente e ao mesmo tempo tão simples que já encomendei meu livro e mais um para dar de presente. Separei duas frases que guardei da peça para encerrar este texto e deixar quem o ler com algumas pulgas atrás das orelhas:
"A pior solidão é a ausência de si".
"Quantas vezes empreendemos todos os nossos esforços para nada".

Veja também:

Homenagem ao teatro

"Fragmentos do desejo", um belo espetáculo

O teatro e o futebol

sábado, 15 de dezembro de 2012

PENSO, LOGO SINTO 12

Nunca fui músico, embora gostasse de ter sido. No entanto, tenho um amor tão incondicional pela música que tento escrever como se compusesse uma canção. De vez em quando acerto.


Vídeo: Animamusic

domingo, 9 de dezembro de 2012

RESGATE DE MEMÓRIAS AO SOM DO SUPERTRAMP

Em épocas de vacas magérrimas andei vendendo uns LPs que tinha em casa. Um deles, o primeiro de rock que comprei, sempre me causou arrependimento: "Paris", o duplo ao vivo do Supertramp. Os motivos são obviamente o valor sentimental, e também porque o repassei para um colega do jornal "O Fluminense" com os encartes, com as fotos do antológico show, que me haviam sido dados por Big, meu mais que amigo, um irmão. 

Quando me dei conta da burrada que fiz, já havia perdido os discos que tantas vezes ouvi com emoção e os encartes, com um papel de qualidade da época do lançamento do LP no Brasil e não o posterior, bem vagabundo, dos tempos do famigerado Plano Cruzado. Agora, com o lançamento do DVD "Live in Paris '79", que já adquiri e vi uma vez, resgato muito daquilo que perdi, vivi e imaginei.

A primeira vez que ouvi um disco do Supertramp foi justamente esse, o mais importante do grupo, um LP duplo ao vivo que registrava uma turnê de 1979 na capital francesa. Lançado em 1980, fui me deparar com ele na casa de um grande amigo no início daquela década. Já conhecia "The logical song" e "Take the long way home", duas faixas que haviam tocado muitas vezes nas rádios FM desde que o LP anterior "Breakfast in America" (1979) havia sido lançado, mas isso só soube alguns anos depois. Nenhuma das outras músicas eu conhecia e fiquei paralisado, querendo escutar sem parar.

Pouco tempo depois teria o meu exemplar, mas com uma pequena decepção: sem os encartes com as fotos do show que havia no disco de Francis, amigo de Kunta, na casa de quem estávamos. A partir daí ouvi aqueles dois LPs uma infinidade de vezes, inclusive em fita cassete, pois o gravara para continuar curtindo no meu velho gravador a pilha nas muitas viagens de carro que fizemos, eu e minha família, a bordo da velha Brasília 1975 de meu pai. Além do futebol e dos grandes amigos que já tinha e os que foram conquistados, foi principalmente a música do Supertramp que me salvou de mim mesmo na adolescência. Época muito complicada que encobriu com uma grande sombra a alegria natural da infância. Meus anos de chumbo tardios.


Escutando quase sempre deitado no sofá ou no chão da sala no moderno aparelho de som que tínhamos em casa, com um headfone confortável e de excelente qualidade, eu podia ouvir detalhes das músicas e da reação do público parisiense. Quantas vezes não me arrepiei com os mesmos pontos do disco, num eterno retorno de emoções. E ficava com aquelas músicas na cabeça o dia todo, mesmo sem entender muita coisa das letras, mas intuía o tema, o ambiente, o som me levava a muitos locais meus que desconhecia e a outros, como Paris, que até hoje não conheço. E aquilo me impulsionou a escrever, algo que já fazia muito esporadicamente, mas que se tornou mais intenso. Só muitos anos mais tarde viria a descobrir que não teria como me apartar disso nunca mais.

Depois de "Paris" comecei a comprar os outros LPs do grupo, porque queria conhecer mais músicas e saber mais sobre Roger Hodgon (composições, voz, teclados e guitarra), Rick Davies (composições, voz, teclados e harmônica), John Anthony Helliwell (sopros, teclados e voz de apoio), Dougie Thomson (contrabaixo e voz de apoio) e Bob Siebenberg (bateria) e a história deles. Não recordo a ordem de aquisição, mas imagino que tenha sido esta: "Even in the quietest moments" (1977), "Crime of the century" (1974), "Breakfast in America" (1979), "Crisis? What crisis?" (1975), "Indelibly stamped" (1971) e "Famous last words" (1982), que acabou sendo mesmo as últimas de Hodgson na banda, para minha tristeza. Nunca consegui encontrar o primeiro, de 1970, que tinha o nome da banda, mas a internet já me permitiu não só finalmente conhecer a capa - que nos 80 já me diziam ter uma flor, mas nunca me mostraram - como ouvir todas as faixas.

Davies e Hodgson sempre casaram perfeitamente suas excelentes vozes desde o início, embora o som do grupo nos dois primeiros discos fosse mais sombrio e bem diferente do que se tornaria a partir do monumental "Crime of the century", o primeiro com Helliwell, Thomson e C. Benberg (como o americano grafava seu nome por estar clandestinamente na Inglaterra) a formar o quinteto titular no coração dos fãs. "If everyone was listening", única faixa não incluída em "Paris" deste LP de 1974 é tão boa quanto as outras sete. Os arranjos muito bem elaborados e as quebras de ritmo no meio das músicas, com uma mescla de jazz, blues, rock e pop, e letras de questionamentos profundos e ótimo humor, para mim sempre foram a grande marca da banda. Soube usar o pop com muita inteligência e originalidade, tanto que não conheço até hoje nenhuma banda semelhante. Se alguém conhecer que me apresente.


Depois que Hodgson deixou a banda ainda comprei os dois LPs seguintes ("Brother where you bound", de 1985, e "Free as a bird", de 87) e o primeiro solo do dono da voz aguda do Supertramp, "In the eye of storm", de 1984, mas nenhum me agradou por completo. Tive depois a oportunidade de ver o Supertramp na Apoteose, em 1988, e Hogdson, no antigo Metropolitan, dez anos depois, mas ficou claro para mim, tanto num espetáculo como no outro, a falta que um faz ao outro.

Supertramp está longe de ser a melhor banda da história, com o passar do tempo ela deu lugar a muitas outras na minha vida e perdeu o posto de predileta para o Pink Floyd já tem muito tempo. Mas ela sempre ficará guardada em mim com muito carinho, pois como disse acima ajudou a tornar a minha adolescência mais tolerável e me abriu muitas portas, de sensações e percepções.

P.S: uma briga judicial ameaça impedir que o DVD continue à venda. Portanto, quem quer adquiri-lo é bom ser rápido.

 

Ilustrações: capa do DVD "Live in Paris '79"; Roger Hodgson, Dougiew Thomson e John Anthony Helliwell; capa do LP "Paris" e Roger Hodgson e Rick Davies.

Vídeo: "Crime of the century (Hogson/ Davies), Supertramp.

sábado, 1 de dezembro de 2012

ESTILHAÇOS 6

Dizem por aí que o fim do mundo está próximo, mas o mundo já acabou. Vivemos apenas os ecos de um berro muito antigo e os reflexos de um espelho quebrado há muitos séculos.

Veja também: tudo o que foi publicado em dezembro de 2011.

domingo, 25 de novembro de 2012

PANACÉIA CURA OS MALES MUSICAIS

"Quem canta seus males espanta". Panacéia era a deusa da cura para os gregos, e a Mostra Instrumental com seu nome foi remédio para curar todos os males musicais que assolam - e desolam - rádios e TVs. A massa adestrada por sons pasteurizados vicia diariamente seus incautos ouvidos com melodias e ritmos simplórios, adocicados e ou repetitivos para melhor empobrecer suas vidas esvaziadas.

Quem esteve na última terça-feira, dia 20, no Parque das Ruínas, em Santa Teresa, pôde fugir do óbvio e construir pedra por pedra a sonoridade musical que escolheu para seguir - e se expandir. Quem lá esteve pôde ouvir até a alegria dos passarinhos cantando ao som de sopros, teclados, cordas e percussões e sair com a alma impregnada de música da mais alta qualidade.

Sentiu o lufar e os uivos dos Inventos soprando de e para todos os lados, afastando para longe as nuvens pesadas que se imagina cobrem todo o cenário musical brasileiro da atualidade.

Viu e ouviu a correnteza fluir em rios de sangue a circular em nossas veias e artérias quando os Afluentes fizeram os pêlos do nosso corpo eriçarem nos carregando à deriva com sua força e beleza de tempos e espaços tão próximos e tão distantes. Um rio que trouxe especiarias sonoras de vários países, com muito de suas histórias e culturas.


Viu o mestre Tom Jobim abrir as portas do casarão de Laurinda Santos Lobo para Cole Porter e promover uma nova comunhão de elegância de sons e ritmos ao piano de Deborah Levy, os sopros de Dani Spielman, o "violalino" de Dhyan Toffolo e o violoncelo de Mateus Ceccato.

Teve em mãos a pedra de toque na magia do Pedra Lispe em sua incursão por campinas, ruas e vielas de asfalto, paralelepípedos e terra batida do Nordeste brasileiro.

E assistiu ao despertar de todas as suas pedras com a verdadeira algazarra musical da família Itiberê Zwarg quando a noite chegava e o público exultava o fim de um belo dia, que só se fingiu de feio quando acordou para melhor ficar. Um dia para a memória guardar.

ATENÇÃO: em dezembro, Inventos e Afluentes lançam seus primeiros CDs com shows no Espaço Sérgio Porto. O Inventos, no dia 5, e o Afluentes, no dia 21. Mais que recomendo!


Fotos: Inventos e Afluentes, na Mostra Panacéia Instrumental (Micael Hocherman)
Vídeo: "Sarau da Laurinda" (Itiberê Zwarg), com Itiberê Zwarg & Grupo.
Veja também:
Os sopros mágicos de Carlos Malta
Antúlio Madureira, mestre de obras-primas
Dois garotos
Agradecimento a Altamiro

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

UM ENCONTRO COM MARTINHO DA VILA

O Centro Cultural Carioca abriu suas octogenárias portas na segunda-feira passada, dia 12, exclusivamente para Martinho da Vila conceder uma entrevista a uma emissora de televisão para falar de uma das grandes mulheres da sua vida - provavelmente a maior delas: a Unidos de Vila Isabel. Tive a sorte de estar presente juntamente com os amigos Paulo Almeida e Alexandre Aquino, que sugeriram que nossa reunião marcada a princípio para o Grajaú, bairro onde Martinho morou por muitos anos, fosse transferida para o casarão da Rua do Teatro.


Encerrada a entrevista com o repórter Fabio Judice, o sambista e sua assessora, Rejane, se aproximaram do bar, onde Paulinho já se encontrava. Ao sabor de uma boa cerveja papeavam animadamente. Sorrateiramente, eu e Alexandre, que nos encontrávamos no canto oposto, fomos nos aproximando para ao menos ouvir a conversa. Falavam do Grajaú e do tempo em que o cantor e compositor vivera no bairro. Paulinho então perguntou ao cantor e compositor se ele já havia ido ao Samba do Trabalhador, encontro que leva o nome de uma irônica música de Darcy da Mangueira que fez sucesso com Martinho e é comandado por Moacyr Luz todas as segundas-feiras à tarde no Clube Renascença, no Andaraí.

“Fui uma vez, mas tenho evitado ir a esses lugares. Quero ir pra ouvir a música, mas toda hora chega alguém pra falar comigo e não consigo ver, nem ouvir nada. Antigamente, eu ia e quem se aproximava eu falava “sai pra lá”, “não enche o saco”, “me deixa” (contou rindo e espanando o ar como se fossem incômodos fãs). Eu fiquei conhecido logo, aí já viu. Mas hoje eu entendo o outro lado e dou atenção. O cara vai lá, me vê e é a chance que ele tem de falar comigo, de tirar uma foto, eu atendo. Mas aí não ouço, nem vejo quase nada”, contou.

A conversa animava e ótimo proseador que o poeta Martinho é prosseguiu: “O problema maior é quando chega o cara que é compositor e vê a chance de me apresentar um samba dele. Ali, na hora. Eu sou compositor, então, é complicado pegar música dos outros. Mas o cara não quer nem saber, chega e diz: “Martinho, fiz um samba que é a sua cara”. Pô, com a minha cara eu já tenho. Mas os caras não desistem”. Para dar mais vida ao que estava relatando, o sempre sorridente Martinho deu a volta por trás da pilastra entre mim e ele,  postou-se às minhas costas e começou a batucar no meu ombro direito e a cantar um samba ininteligível no meu ouvido, como se ele fosse um fã compositor daqueles que o abordam insistentemente e eu fosse ele. “Eu não ouvia o samba do cara e nem conseguia prestar atenção no que o pessoal estava cantando”.

Então eu disse que se por um lado ele entendia o outro lado, o outro lado não entendia o dele. “É, mas teve um tempo que eu adotei uma tática. Chegava no lugar fingindo que já estava doidão (e reproduziu cambaleante e com a voz pastosa como fazia), aí os caras desistiam de ficar perto. O problema é que depois de um tempo eu já não sabia se estava fingindo ou estava doidão de verdade. Aí, eu pensava: “Ih, tá na hora de ir pra casa”, contou, sempre entre risos de todos. Sim, chegara a hora de ir pra casa, com mais uma história pra contar.

Foto: Fabio Judice e Martinho da Vila no Centro Cultural Carioca (Alexandre Aquino)
Música: "Samba do Trabalhador" (Darcy da Mangueira), com Martinho da Vila.
Veja também:
Entrevista: Nilze Carvalho
Chorinho
Samba matéria

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

UM BRILHANTE ESQUIZOFRÊNICO

Na tarde do último domingo aproveitei uma brecha no tempo disponível para viver uma pequena esquizofrenia. Isolei-me do mundo da bola, onde todos pareciam estar concentrados, para assistir a “Uma mente brilhante” (A beautiful mind, 2001), dirigido por Ron Howard, com Russell Crowe muito bem no papel principal. É um filme brilhante? Longe disso. Mas retrata a história verídica de um homem brilhante, o matemático e esquizofrênico John Forbes Nash.

Para alguém como eu, que não tem muita afinidade com os números, o que mais me comoveu na história desse grande homem não foi aquilo que o levou à glória, a sua profissão, a sua contribuição para a economia mundial, a sua dedicação obsessiva a uma arte que não entendo, e portanto estou impedido de admirar profundamente: a matemática. O que engrandece aos meus olhos o imenso Nash, que é bem retratado com suas virtudes e defeitos (sua arrogância na juventude é bem instrutiva para quem deseja vencer a própria), é como usou sua mente brilhante para ludibriar a esquizofrenia e evitar os eletrochoques e os remédios que o limitavam como grande estudioso de seu ofício e como homem.

Logicamente que para isso contou muito com a persistência e o amor de sua mulher, Alicia (interpretada pela bela Jennifer Connelly), que enfrentou corajosamente todos os gigantescos problemas que se avolumam com a convivência com uma pessoa dificílima por natureza e ainda mais doente. A ela, Nash dedicou merecidamente o prêmio Nobel ganho em 1994. Além disso, ele tem grandes amigos (os reais, pois os imaginários se mostraram traiçoeiros). Porém, ele só se superou porque teve vontade maior que a doença e as ignorâncias – e arrogâncias – de médicos e psicólogos, ao não se deixar vencer pelo mundo tortuoso e perigoso que sua brilhante mente criava e tornava real a seus olhos. John Forbes Nash é mais que um artista dos números, é um artista que enfrentou e recriou a própria mente.


Ilustrações: cartaz brasileiro do filme "Uma mente brilhante" (A beautiful mind, 2001) e John Forbes Nash (Getty Images).
Veja também:

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

PARIS DE NOVO NO RIO

Por qual ou quais motivos você ficaria duas horas numa fila imensa sem ao menos se importar? Poderia citar algumas razões hipotéticas e outras reais, mas fico com o que me aconteceu no sábado passado, dia 3. Tive o imenso prazer de estar acompanhado de pessoas muito queridas esperando - sob sol forte no início e vento e tempo fechado depois - a hora de poder ver a exposição Impressionismo - Paris e a Modernidade, no CCBB do Rio de Janeiro, com paciência e alegria. E não só eu. Inclusive minha afilhada Beatriz, de 5 anos, aguardou sem se impacientar um segundo sequer e também se sentiu recpompensada, tenho absoluta certeza. A sensação de sair de lá depois de tanta espera, com os pés moídos e exausto pelo cansaço físico e mental, foi não só de imenso prazer, mas de ter saído melhor do que quando entrei na primeira sala da exposição que vai até 13 de janeiro.

Difícil não se emocionar diante de alguns quadros. Especialmente os de Pierre-Auguste Renoir me arrebataram, mais até que de Monet, alguns já vistos na exposição de meados da década de 90, no Museu Nacional de Belas Artes. "Jovens meninas ao piano" (1892) particularmente  foi a obra que mais me prendeu, não queria sair de frente sem apreender todos os detalhes. Impossível. Mas quem muito quer, deseja o impossível. E ainda ver num quadro ao lado o pequeno Jean Renoir (diretor do filme  "A grande ilusão", de 1937) no colo de sua babá (e tia), como se fosse uma foto pintada por seu pai, também me comoveu.

Curioso que leio ainda nas primeiras páginas um livro sobre o designer gráfico Rogério Duarte, e um muito bom texto dele defende a arte como uso e não contemplação. Apesar dos bons argumentos que apresenta para defender a arte no desenho industrial, discordo quando critica a contemplação - guardando as devidas contextualizações -, porque a arte modifica, melhora, eleva, sacode. Diante da arte nenhum razoável espectador é passivo: todos os seus seis sentidos entram em ebulição. Foi assim que me senti sábado no CCBB.

Ilustração: "Jovens meninas ao piano", de Pierre-Auguste Renoir.

Veja também:
A brutal delicadeza de Kieslowski
Beleza e caos: arte em toda parte
O escrever
Poesia sem versos

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

UM ÍNDIO AO PIANO NO MUNICIPAL

Ver-se diante de um instrumento, frente a uma numerosa platéia e ter de compor ali, na hora, as músicas que - todos esperam avidamente - vá engrandecer a noite de cada pessoa presente, é tarefa que só alguém dotado de extrema coragem, concentração e capacidade criativa pode se dispor a fazer. Eu, que aprendi a respeitar todos os meus fluxos criativos e a ter paciência para aguardar as dores do parto para manusear e trazer à luz meus pensa-sentimentos, talvez tenha é arrumado uma desculpa elaboradamente convincente para não ter de encarar solitariamente, sem nada previamente em mente e no coração, o terrível olhar esbranquiçado do papel - ou da tela.

Keith Jarrett se propôs a isso mais uma vez, e na última quarta-feira, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, compôs frente ao público músicas que jamais tocará novamente. São natimortas. Sim, algo sempre fica com artista e público, ainda mais se for gravada a apresentação, mas como cigarras, entoam e morrem. Dignamente.

No entanto, em minha memória ficará para sempre a última improvisação da primeira parte do espetáculo. Jarrett tocava e dançava ao piano como um indígena, como foi bem observado - em conexão com o que eu via, ouvia, sentia - pelo meu irmão Bruno Lobo. Em tempos como esses, nos quais os guarani-kaiowás encaram de frente a morte digna, para não viverem a vergonha e a indecência impostas pela expulsão de suas terras, é algo bastante representativo. Talvez o pianista tenha entrado em contato com seus ancestrais, recebido alguma onda magnética solidária dos apaches para tirar das teclas de seu piano - praticamente tocado o tempo todo do meio para a sua esquerda (onde estão as notas mais graves, mais introspecivas) - a música dos índios.

Só faltou fazer chover.

E me fez tremer ao pensar no papel - e na tela - em branco. E no prometido suicídio coletivo dos índios.
Veja também:

domingo, 7 de outubro de 2012

PENSO, LOGO SINTO 11

Sou o que escrevo. Quem nunca me leu não conhece nem 10% do que sou.

Veja também: tudo o que foi publicado em outubro de 2011.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

ESTILHAÇOS 4

Escolhi - ou fui escolhido para - trilhar um caminho árduo, difícil, aquele que muitos sequer passam perto, o que invariavelmente leva às profundezas do ser, lá onde quase ninguém quer ir, nem saber o que há. Mas é onde cada um verdadeiramente é. Com tudo o que há de mais belo e mais horrendo.

Vou na contramão, mas é a escolha, não há volta. Acho que por isso tenho grande afinidade com quem fala sozinho e quem tem sérias divergências com o espelho.


Ilustração de John Tenniel para o clássico "Alice através do espelho", de Lewis Carroll.
Vídeo: "Espelho" (João Nogueira/Paulo César Pinheiro), com João Nogueira.

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #47

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46 Garrincha e Pelé, durante a Copa do Mu...

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