quarta-feira, 16 de fevereiro de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #3


Após o êxtase com a recordação da conquista do Campeonato Sul-Americano de 1919 e a apresentação de “Um a Zero” pelos Oito Batutas, quem toma a dianteira no papo entre os velhos amigos é o Idiota da Objetividade, que, amante do futebol de resultados, contesta a paixão pelo chamado futebol-arte. 

Idiota da Objetividade: - Vocês precisam ter uma visão mais pragmática das coisas. A tática, a estratégia... O jogo de futebol é igual ao xadrez.

João Sem Medo: - Sem essa, Idiota. Foi você que soprou nos ouvidos dos cartolas da CBF pra botarem o Dunga como técnico da seleção duas vezes, né?

Idiota da Objetividade: - Não fui eu, não! Quem faz essas coisas é o Sobrenatural. Mas eu achei boa a opção. Melhor vencer jogando feio, do que perder jogando bonito.

Os outros três, os músicos que subiram ao palco, algumas pessoas em mesas próximas e até o garçom protestam.

João Sem Medo: - Mas não venceu nem jogando feio, Idiota!

Idiota da Objetividade: - Venceu sim, João! A Copa América de 2007 e a Copa das Confederações de 2009.

João Sem Medo: - E serviu pra quê este torneio da Fifa? Perdemos pra Holanda em 2010 nas quartas e voltamos mais cedo pra casa.

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O torcedor de futebol

Zé Ary se aproxima da mesa.

Garçom: - Senhores, desculpe interrompê-los, mas recebi um pedido das pessoas das outras mesas pra ouvir a conversa de vocês. Estão todos muito interessados.

João Sem Medo: - O papo é a vida do futebol, como eu disse.

Ceguinho Torcedor: - E a verdadeira apoteose é a vaia. E como só os imbecis têm medo do ridículo, vamos estender a nossa conversa, então. Como faremos?

Garçom: - Podem se sentar àquela mesa ao lado do palco que todo mundo vai conseguir ouvi-los muito bem.

João Sem Medo: - Perfeito. Vamos, então.

Enquanto os quatro amigos trocam de mesa, aplaudidos pelos presentes, um grupo musical que está no palco se apresenta: é o grupo Francisco Lima.

Francisco de Oliveira Lima: - Senhoras e senhores, já que a conversa aqui é sobre o “foot-ball”, vamos tocar uma polca de minha autoria que foi a primeira música relacionada a este esporte gravada no Brasil. Foi em 1912...

João Sem Medo (aos amigos): - Ano em que o criador de vocês três nasceu.

Francisco de Oliveira Lima: - ... Ou 13, já não me recordo bem. Chama-se, naturalmente,  “Foot-Ball”.

Aplaudido, Francisco de Oliveira Lima e seu grupo começam a tocar.


Os músicos agradecem os aplausos e deixam o palco.

João Sem Medo: - Essa música é do tempo em que o futebol e a música do Brasil ainda eram totalmente influenciados pelos europeus, os ingleses especialmente.

Sobrenatural de Almeida: - A seleção brasileira nem existia ainda e já tinha música sobre futebol no país. Assombroso!

Ceguinho Torcedor: - Assombroso mesmo é que naquele tempo, em dias de regatas do remo, não havia jogos de futebol. Eram chamados à inglesa, de matches ou meetings no field. Depois o futebol ficou tão popular que o remo é que passou a esperar a tabela do campeonato de futebol pra marcar os dias e horários das regatas.

João Sem Medo: - O Flamengo no início resistiu muito a ter um time de futebol, mesmo recebendo nove dos onze titulares do Fluminense que foram campeões em 1911 e mais alguns sócios que trocaram de lado. Teve até um uniforme de futebol diferente do remo, que já era tradicional no clube.

Ceguinho Torcedor: - João, meus amigos, o Fla-Flu nasceu 40 minutos antes do nada. O termo, aliás é uma criação do grande Mario Filho, o criador de multidões.

João Sem Medo: - Não é por acaso que o Fla-Flu seja conhecido como o Clássico das Multidões, então.

Ceguinho Torcedor: - Pois então, o que ia dizendo? Ah sim, no primeiro Fla-Flu registrado na História, o segundo time do Tricolor, reforçado apenas por Osvaldo Gomes e Calvert, venceu o antigo primeiro time, que passou a vestir a camisa rubro-negra.

Idiota da Objetividade: - A primeira camisa do futebol do Flamengo era quadriculada.

João Sem Medo: - Que o pessoal chamava de Papagaio de Vintém.

Sobrenatural de Almeida: - Era muito feia, os jogadores até diziam que dava azar. Na verdade, andei jogando contra aquele time de desertores tricolores até arrumarem um uniforme mais bonito.

Alguns na plateia riem.

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Uma estreia muito feliz no Museu da Pelada

Idiota da Objetividade: - O primeiro título rubro-negro, em 1914, só veio com a camisa cobra-coral, que tinha listras finas brancas entre as pretas e vermelhas. Os primeiros títulos, pois foi bicampeão carioca, em 14 e 15.

Sobrenatural de Almeida: - Aliás, o primeiro título de remo do Flamengo só veio depois do futebol no clube.

Idiota da Objetividade: - Também foi um bicampeonato, em 16 e 17.

Sobrenatural de Almeida: - Mas não sou muito chegado ao remo.

João Sem Medo: - Com a explosão da Primeira Grande Guerra, os inimigos alemães foram perseguidos também aqui no Brasil. Como a camisa do Flamengo era parecida com a bandeira alemã e lá havia muitos sócios alemães, a camisa e os sócios alemães foram banidos do clube.

Garçom: - Este papo sobre as origens do Flamengo me deram uma ótima ideia.

O garçom se ausenta rapidamente e retorna com o LP das escolas de samba do Rio de Janeiro de 1995. Vai à vitrola, escolhe a faixa certa e põe pra tocar “Uma vez Flamengo...”, de David Correa, Adilson Torres, Déo e Caruso (samba de enredo da Estácio de Sá em 1995).


Fim do capítulo 3

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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Uma coisa jogada com música - Capítulo 2
Uma coisa jogada com música - Capítulo 4

Obs.: Postagem republicada no dia 3 de outubro de 2023.

domingo, 13 de fevereiro de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #75: PLANTAS EM CASA








Fotos de Eduardo Lamas, feitas no dia 19 de dezembro de 2021, em Itaguaçu, Florianópolis (SC).

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sábado, 12 de fevereiro de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #74: FLORES EM CASA

 


Fotos de Eduardo Lamas, feitas nos dias 16 de maio e 29 de junho de 2021 e 15 de janeiro de 2022, em Itaguaçu, Florianópolis (SC).

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quarta-feira, 9 de fevereiro de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #2


A música “Só se não for brasileiro nessa hora” (Galvão e Moraes Moreira) está acabando e João Sem Medo parece imerso naquela melodia e sua letra ("Só se não for brasileiro nessa hora..."), quando avista na porta do Além da Imaginação o seu grande amigo Ceguinho Torcedor, que entra auxiliado pelo Idiota da Objetividade e o Sobrenatural de Almeida.

João Sem Medo (de pé pra recebê-los): - Meus amigos, sejam muito bem-vindos! Hoje a resenha promete. Esses aqui saíram das crônicas do meu amigo Nelson Rodrigues especialmente pra esta resenha, Zé Ary. Este aqui é o Ceguinho Torcedor, ele não vai ver você, nem ninguém aqui direito, mas enxerga longe; Sobrenatural de Almeida, com todo respeito, este aqui apronta, e o Idiota da Objetividade, que veio aqui pra tirar um pouco da nossa fantasia. hahahaha Ele é o nosso copidésque!

Ceguinho Torcedor: - Que prazer, João! Garçom, traga-me um copo de leite, por favor. (a João) Meu amigo e irmão João Sem Medo, preciso tratar minha úlcera a pires de leite. Ela lambe como uma gata.

Agora é a vez de os músicos irem entrando aos poucos no restaurante-bar e arrumando seus instrumentos no palco. O bar neste momento já tinha muitas de suas mesas ocupadas.

João Sem Medo: - Amigos, o futebol brasileiro é uma coisa jogada com música. E a música aqui hoje também promete muito. Ceguinho, os músicos estão chegando.

Ceguinho Torcedor: - Que maravilha. O que vão tocar? Uma ópera, o “Rigoletto”?

Garçom: - Não, seu Ceguinho. Eles vão tocar música popular brasileira com grandes artistas, alguns já presentes aqui.

Sobrenatural de Almeida: - Artistas que são de outro mundo!

Garçom: - Isso, eles vão tocar músicas que falam de futebol. Do nosso futebol.

Ceguinho Torcedor: - Muito bem. Interessante.

João Sem Medo: - Pelo que o Zé Ary me contou, são músicas que todo torcedor de futebol deveria conhecer. 

Ceguinho Torcedor: - O torcedor é cego de paixão pelo seu clube. Mas o pior cego é o que só vê a bola.

João Sem Medo: - O torcedor é na verdade um distorcedor de fatos... 

Ceguinho Torcedor: - ... Se os fatos o desmentem, pior pros fatos.

João Sem Medo: - ... E é um grande saudosista. Principalmente quando seu time vai mal. E como nossa seleção vem muito mal das pernas já tem tempo, o melhor é falar do passado glorioso do nosso futebol, não acham? Recordar é viver! Isso dá samba, canção, marchinha, chorinho... Hum, chorinho de alegria, por favor, Zé Ary!

Com o grupo musical já a postos, um deles se levanta para se dirigir aos presentes.

Donga: - Saudações a todos! Nós, Os Oito Batutas, temos a honra de tocar aqui pra vocês novamente após tanto tempo. Estamos aqui em sete, então, pra completar o grupo, vamos chamar ao palco um ilustre integrante do nosso grupo que está lá no fundo. Vem pro palco, Pizindim!

Ceguinho Torcedor: - Os Oito Batutas aqui! Pixinguinha! Isso é fantástico.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso!

João Sem Medo: - Espetacular!

Pixinguinha se levanta de sua mesa no fundo do bar e se dirige ao palco sob fortes aplausos. Com o mestre na flauta, Os Oito Batutas tocam com maestria o clássico “Um a Zero”, de Pixinguinha e Benedito Lacerda.

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Todos aplaudem de pé. 

Ceguinho Torcedor: - Ah, que bons tempos aqueles! Amigos, eis uma verdade eterna: o passado tem sempre razão. Por exemplo: o futebol antigo. Era, a meu ver, um fenômeno vital muito mais rico, complexo, intrincado. Hoje, os jogadores, os juízes e os bandeirinhas se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Não encontramos, em ninguém, uma dessemelhança forte, crespa, taxativa. Não há um craque, um árbitro ou um bandeirinha que se imponha como um símbolo humano definitivo.

Sobrenatural de Almeida: - Tá muito saudosista, Ceguinho.

Ceguinho Torcedor: - Nada mais antigo que o passado recente, meu amigo. Esta música que tocaram há pouco me lembra o Garrincha driblando, mas ela foi feita muito antes de o Mané nascer, vocês todos sabem muito bem disso.

Pixinguinha (antes de deixar o palco): - Essa música se chama “Um a Zero” e é uma homenagem à primeira grande conquista do futebol brasileiro, o Campeonato Sul-Americano de 1919. Muito obrigado.

Pixinguinha é mais uma vez aplaudidíssimo e se dirige novamente ao fundo do restaurante, agora acompanhado dos outros sete batutas.

João Sem Medo: - Ganhamos de 1 a 0 do Uruguai, no estádio das Laranjeiras, que tinha sido construído praquela competição, a terceira entre seleções da América do Sul.

Ceguinho Torcedor: - Um jogo épico, senhores! Um jogo épico decidido pelos pés de Arthur Friedenreich.

Sobrenatural de Almeida: - Com a minha intervenção, é claro.

João Sem Medo: - Tá bom, Almeida.

Ceguinho Torcedor: - Foi uma partida dramática, assistida por 25 mil torcedores no estádio do Fluminense e mais uns 10 mil nos barrancos próximos.

Idiota da Objetividade: - Brasil e Uruguai haviam terminado o torneio empatados em pontos e foi necessária a disputa de uma final.

João Sem Medo: - Os uruguaios foram pro jogo ainda abalados pela morte de seu goleiro Roberto Chery, que se chocou violentamente com um atacante chileno durante a competição.

Ceguinho Torcedor: - É isso mesmo. Eu estava lá, na arquibancada das Laranjeiras. Eu, meu amigo Gravatinha... Ainda éramos crianças, mas me recordo bem. Ninguém se continha de tanta expectativa e apreensão. Jogamos demais, demais.

Idiota da Objetividade: - Demais mesmo, o jogo terminou sem gols no tempo normal. Passou a prorrogação de 30 minutos e nada, apesar das muitas chances pros dois lados.

Ceguinho Torcedor: - Eu estava lá, eu estava lá. Gravatinha não pôde vir hoje pra atestar o que estou falando, mas podem confiar. Foi um grande jogo, meu coração não mente.

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Zé Ary se dirige ao velho rádio em cima de uma estante, sintoniza na estação certa e todos podem ouvir a narração do gol de Friedenreich vinda do além de qualquer imaginação, pois o rádio só começou a transmitir jogos de futebol na década de 30, e - pasmem! - com imagens da partida projetadas num telão.


Transcrição da narração fictícia do gol: “Brasil no ataque. Neco invade o território uruguaio pelo lado direito, Foglino está em seu encalço. Neco leva na linha de fundo, cruza, Heitor bate firme, Saporiti defende, larga, o balão de couro sobra pra Friedenreich, é gol. Gooooooooool do Brasil, Friedenreich, Friedenreich, aos três minutos da segunda prorrogação! Nooooooooo placaaaaaaaaaaarrrrrr: Brasil uuuuuuuuuuum, Uruguai zerooooo”.

Todos no restaurante fazem uma festança com o gol, como se tivesse ocorrido naquele instante.

Sobrenatural de Almeida: - Que coisa linda! Que coisa linda eu fiz.

Idiota da Objetividade: - Ainda foram jogados mais 27 minutos, mas o placar ficou mesmo no 1 a 0 pro Brasil, que se tornaria assim, pela primeira vez, campeão sul-americano de futebol.

Sobrenatural de Almeida: - Eu desviei levemente a bola chutada pelo Heitor, por isso o Saporiti não conseguiu segurar. Já não aguentava mais aquele jogo sem gols.

Idiota da Objetividade: - Esta conquista ajudou muito a popularizar o futebol no Brasil.

Fim do Capítulo 2

Vídeo: início do teaser do documentário "Jogada de Música". Narração de Ricardo Mazella, com texto de Eduardo Lamas; edição de Sandro Barbeita; técnico de som Vitor Zanon; imagens cedidas pelo Flu Memória.

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da tão vilipendiada Cultura do nosso tão maltratado país.
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Uma coisa jogada com música - Capítulo 1
Uma coisa jogada com música - Capítulo 3

Obs: Postagem republicada no dia 3 de outubro de 2023.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2022

"COR PRÓPRIA", O PRIMEIRO QUE VEIO A SER O QUINTO

Primeiro livro que preparei para ser publicado, com poesias que escrevi entre 1984 e 99, "Cor própria" finalmente está disponível na versão digital (ebook) para ser adquirido por quem se interessar na Amazon do Brasil e de mais outros muitos países. São eles: EUA, Reino Unido, Alemanha, França, Espanha, Itália, Holanda, Japão, Canadá, México, Austrália e Índia.

Trata-se na verdade de uma coletânea dos primeiros versos que me arrisquei a compor, alguns já publicados neste blog. Este (projeto de) livro eu apenas havia distribuído para alguns amigos no início deste século por email. Agora, passa a ser o meu quinto à disposição do público leitor brasileiro e estrangeiro que entenda a Língua Portuguesa e que vive no país ou em qualquer parte do mundo.

Como são poesias que escrevi entre os meus 17, 18 e 32, 33 anos de idade, acredito que possa ter uma conexão com os jovens leitores do século XXI que estejam mais ou menos nesta mesma faixa etária. É uma expectativa que só me veio depois que escrevi este texto aqui, mas que espero seja bastante plausível. Sem excluir os jovens de todas as outras idades, claro. 

Fica aqui o meu convite para você prestigiar mais este trabalho. Sem leitor, as palavras de um escritor ficam enjauladas, trancafiadas. Agradeço muito aos que libertam meus versos e prosas, ao oferecerem a eles o seu "pensentir", com aquele outro olhar (o olhar do outro). Livre olhar. 

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domingo, 6 de fevereiro de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #73: ARCO-ÍRIS





Fotos de Eduardo Lamas, feitas no dia 5 de fevereiro de 2022, em Itaguaçu, Florianópolis (SC)

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sábado, 5 de fevereiro de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #72: LUZES, SOMBRAS E CORES









Fotos de Eduardo Lamas, feitas em 7, 15, 17 e 31 de janeiro e 3 de fevereiro de 2022, em Itaguaçu, Florianópolis.

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sexta-feira, 4 de fevereiro de 2022

ENTREVISTA A TV DE GOIÂNIA

No último domingo, dia 30/1, foi ao ar uma entrevista que concedi ao programa "Parlatório" da TV Pai Eterno, de Goiânia, apresentado pelo padre Rafael Vieira, para falar do livro "Contos da Bola" e estender o tema futebol à nossa cultura. Com uma pauta de perguntas muito bem feita, pude abordar os vários aspectos da influência do esporte mais popular do mundo na vida dos brasileiros, desde o início do século XX até os dias de hoje.

Agradeço demais em especial ao Caio Marx, produtor do programa, pelo convite e a oportunidade. Só queria fazer um acréscimo que ficou fora na edição. Quando falo da pouca importância dada, de um modo geral, à estrondosa goleada de 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil, na semifinal da Copa do Mundo de 2014, estava pondo em contextualização a enorme diferença da sociedade brasileira atual para a de 1950, quando a derrota na final para o Uruguai, por 2 a 1, foi tratada como uma tragédia e houve grande comoção nacional, que inclusive prejudicou carreiras de alguns jogadores daquele time brasileiro, especialmente a do goleiro Barbosa.

"Contos da Bola" tem me proporcionado falar não só sobre o livro e seus 19 contos, mas também dos meus outros trabalhos, projetos, estudos e pesquisas a várias partes do país e até do mundo, já que fui entrevistado pela Rádio França Internacional e o L'Équipe no ano passado.

Fica aqui mais uma vez o convite para você ter mais contato com o que venho oferecendo ao público, seja adquirindo algum ou alguns dos meus livros (tem novidade que será anunciada na semana que vem) e seguir este blog, convidando outras pessoas a virem também. Vamos lotar esta arquibancada! Agradeço desde já, especialmente àqueles que já prestigiam os meus trabalhos há muitos anos sem retroceder e os que passaram a fazer parte deste time há pouco tempo.  

Quem quiser assistir à entrevista de domingo passado, ela está aqui abaixo e no canal da TV Pai Eterno no YouTube. Espero que goste.


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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #1

Eis aqui um bate-papo à mesa da eternidade em que vivem personagens dos dois maiores cronistas de futebol de todos os tempos, com algumas participações especialíssimas que serão reveladas ao longo desta longa e divertidíssima e emocionante conversa, recheada de músicas que contam, cantam e tocam de primeira a História do esporte mais popular do mundo no Brasil. Aqui, o tempo é ilimitado. João Sem Medo, Sobrenatural de Almeida, Ceguinho Torcedor e Idiota da Objetividade marcaram um encontro no restaurante-bar Além da Imaginação.

O garçom que os recebe e participa da animada conversa é Zé Ary, nome recebido pelo pai, “seu Barroso”, que fora um fanático torcedor rubro-negro, em homenagem a dois ilustres artistas que torciam fervorosamente para o Flamengo: José Lins do Rêgo e Ary Barroso. Por isso, todos acham que Zé Ary é flamenguista, mas quase ninguém sabe ao certo, só João Sem Medo, pelo menos é o que se deduz. Seu time o garçom não revela, mas é, sim, um apaixonado por futebol e música, principalmente músicas que falam de futebol.

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João Sem Medo chega primeiro, fazendo seu cumprimento característico a conhecidos e desconhecidos: dois dedos à testa com breve movimento para frente. Senta-se a uma das mesas, reservada especialmente para eles, já com as quatro cadeiras dispostas, e pede algo para beber. Zé Ary o serve.

Garçom: - “Seu” João Sem Medo, é um prazer imenso receber o senhor novamente aqui no restaurante. Fique à vontade, por favor.

João Sem Medo: - Grande José Ary Lins Barroso! Meu camarada Zé Ary, muito obrigado. O prazer é todo meu.

Garçom: - Que isso, seu João! O senhor é sempre muito bem-vindo. Há quanto tempo!

João Sem Medo: - Muito tempo mesmo não voltava pra essas bandas. Mas acompanho tudo, tudinho. Então, me diga aí, teu time ganhou hoje? (garçom faz que não com um gesto) Ih, de novo? É, rapaz, a coisa tá mal parada. Se continuar assim, a vaca vai pro brejo...

Garçom: – Nem me fale, “seu” João. E a nossa seleção?

João Sem Medo: - Meu amigo, nosso jeito de jogar futebol era único no mundo. Mas hoje em dia tem muito jogador de cintura dura dando chutão e canelada por aí. É uma correria só. Então, fica mais difícil pro técnico escolher. Perdemos muito da nossa ginga, o drible. Ainda há alguns muito bons, mas já não são tantos como antes. Quase não tem mais peladas nas ruas, em campinhos de terra batida. Eu não vejo mais isso. Você vê?

Garçom (faz que não com a cabeça): - Joguei muita bola na rua, “seu” João. Fui até atropelado uma vez.

João Sem Medo: - Verdade?

Garçom: - Não foi nada demais, apenas um susto. Mas havia mil campinhos pra jogar também...

João Sem Medo: - Hoje, onde tem campo é quase tudo de grama sintética. E a garotada que vai pros clubes mal consegue dominar a bola direito.  A especulação imobiliária, os condomínios construídos pra tentar isolar as classes média e alta da violência, e também a tecnologia, expulsaram a garotada das peladas de rua. Acabaram os campinhos de terra.

Garçom: - É verdade. No meu tempo era difícil um garoto que não gostasse de jogar bola...

João Sem Medo: - Antigamente, quando o garoto era meio fresco, não gostava de se sujar jogando futebol ou brincando de qualquer outra coisa, todo arrumadinho, a gente dizia que ele soltava pipa em frente ao ventilador e jogava bola de gude no carpete.

Garçom (rindo): - Um tempinho atrás faziam isso tudo no computador, agora é no celular.

João Sem Medo: - Ó, Zé Ary, tô esperando uns amigos pruma resenha boa. Eles vêm de mais longe, por isso demoram um pouco mais.

Garçom: - Eu tô sabendo, “seu” João! O papo vai render...

João Sem Medo: - Dizem que a melhor coisa que existe no futebol é o gol feito pelo time que se torce. Talvez seja. Mas eu acho que o melhor de tudo é o papo.

Garçom: - Também gosto muito.

João Sem Medo: - O papo depois dos jogos conserta qualquer coisa, ganha o jogo perdido, enaltece o perna de pau, reduz o valor da estrela da partida, enfim resolve qualquer parada. E quando o papo é meio sobre a ignorância, ainda assim é bom, porque às vezes resulta em boas brigas. O papo é a vida do futebol. Quem é que gosta de ir aos jogos sozinho? Ou mesmo de escutar pelo rádio (ou assistir pela TV) sem ter alguém para comentar?

Garçom: - Por isso, o senhor foi o comentarista que o Brasil consagrou.

João Sem Medo: - O comentário pra mim era como um bom papo sobre futebol na mesa de um bar. Os músicos confirmaram?

Garçom: - Os músicos já estão sabendo e prepararam um repertório especial pra acompanhar a resenha.

João Sem Medo: - Muito bom. Hoje o repertório somos nós que vamos ditar. Quero que eles agradem à moçada que vem aqui hoje.

Garçom: - Tá bom, “seu” João. Ainda tem o nosso aparelho de som e o telão também pra mostrar uns vídeos. Daqui a pouco os músicos chegam. Um deles me contou que o futebol e a música brasileira tiveram um início muito parecido. Era música e futebol de branco, cintura dura?

João Sem Medo: - Isso mesmo. Era futebol pra inglês ver e jogar. A música...

Garçom: - Ah, é verdade que o senhor é primo do Tom Jobim?

João Sem Medo: - É, por parte de mãe.

Garçom: - Ele vinha muito aqui. Gostava muito do “seu” Tom.

João Sem Medo: - A turma dele tinha um papo muito intelectual, gosto mais da linguagem do povão... No início, a música tocada no Brasil era toda da Europa: polca, valsa, erudita... Mas aí, os negros foram entrando e deram o batuque, a ginga. O chorinho nasceu dessa mistura. Era tão elitizada e preconceituosa a coisa que era proibido tocar samba. Bom, fomos o último país a abolir a escravidão, você sabe. Aliás, pelo que tenho lido, ainda existe lá na minha terra, o Rio Grande do Sul. Mas não só lá, claro.

Veja também:
Cinema, música e futebol no YouTube

Garçom (faz que sim com a cabeça): - Vou ligar o som enquanto os músicos não chegam.

Zé Ary põe um LP na antiga vitrola do restaurante ainda com aspecto de novinha em folha. Toca  “Só se não for brasileiro nessa hora”, de Galvão e Moraes Moreira.

João Sem Medo: - Que coisa, linda, Zé Ary? 

Garçom: - É o Moraes Moreira cantando, nos tempos dos Novos Baianos. Do disco Novos Baianos Futebol Clube. Ele prometeu vir mais tarde tocar um pouco pra nós também.

João Sem Medo (prestando atenção na música e apreciando): - Muito bom. (e cantarola baixinho): - “Só se não for brasileiro nessa hora. Só se não for...”.

FIM do Capítulo 1
(republicado neste blog no dia 3 de agosto de 2023)

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Uma coisa jogada com música - Capítulo #46 Garrincha e Pelé, durante a Copa do Mu...

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