Aqui você encontra, em essência, trabalhos do escritor e jornalista Eduardo Lamas Neiva sobre os mais variados temas. Obrigado pela visita, volte sempre.
Comecei a escrever "O negro crepúsculo" em 2004. Depois de muitas versões, aversões e reversões, dei por terminada a tarefa em 2015. Nem tentei a busca por uma editora, pois creio que nenhuma me daria a atenção que eu sempre esperaria. Já me frustrei uma vez com "Profano coração", livro de poesias que lancei em julho de 2009, por uma editora do Rio de Janeiro. Por isso o relancei em versão digital na AmazonKindle no ano passado e repito agora a dose com esse romance de estréia.
É a história de um taxista, c.j. marques (assim mesmo escrito, como o poeta ee cummings), que busca uma relação incendiária, mas só encontra fogo de palha. Não sei se posso classificar "O negro crepúsculo" como romance. O que posso dizer que foi escrito e reescrito com a pele à flor da alma. O leitor que se aventurar por este livro encontrará poesias, filosofias de bar, dor, amor, paixão, ilusão, desilusão, pensamentos, sentimentos, sensações, encontros, desencontros e reencontro.
"O negro crepúsculo" só existe em versão digital. Quem se interessar e puder divulgar, o livro está à venda aqui: http://goo.gl/SdKSqU. Agradeço desde já a todos aqueles que se dispuserem a lê-lo.
Escrevo monólogos, porque sempre conversei muito comigo, continuei conversas e situações da forma que - não exatamente desejava, mas - era induzido e seduzido a criar na minha imaginação. Fluía. Em determinado momento percebi que tudo aquilo merecia ganhar vida. Quantos excelentes monólogos não deixei de escrever? Porém, certamente não foram perdidos de todo. Minha memória certamente me devolveu muito do que imaginei ter perdido. E mais um ganhou vida esta semana. Agora é saber quando e com quem estará nos palcos.
Um dos argumentos mais repetidos pelos amantes do capitalismo é que a livre concorrência é muito saudável para dar oportunidade às pessoas (ou pior, aos consumidores) escolherem seus produtos e serviços, com preços competitivos e maior qualidade. Em tese, posso até concordar. O problema é que muitos dos grandes defensores da livre concorrência não admitem sequer tocar no assunto quando o papo passa a ser os seus monopólios (ou de seus ícones) e suas exclusividades compradas com (muito) dinheiro e influências políticas e jurídicas, todas no mínimo obscuras. E ainda se dizem democratas e fervorosos advogados da liberdade de expressão. A prática está tão enraizada na nossa pátria pútrida nada gentil que os que não tem má-fé não percebem e apóiam, por comodismo ou ignorância, a manutenção desses monopólios.
Não quis, nem quero, levantar bandeira de qualquer "ismo" com este texto, porque para mim a questão é o ser humano. Ele é capaz de fazer um sistema aparentemente ruim funcionar bem ou um sistema aparentemente maravilhoso funcionar pessimamente. Tudo depende do caráter (e competência também, claro, mas me atenho aqui à distância abissal entre discurso e prática). É este o cerne da minha questão. Se você tem no discurso a livre concorrência como ideário, não pode defender o monopólio e as exclusividades quando é de seu interesse. São dois pesos e duas medidas, como normalmente acontece aqui no país dos desperdícios. O cinismo não é uma exclusividade brasileira, claro, mas certamente estamos nos primeiros lugares neste ranking que ninguém fez ainda.
Neste último dia deste ano complicado, cheio de altos e baixos, gostaria de manifestar meu desejo de compartilhar com todos que façam por merecer as maiores alegrias do mundo em 2016, aquelas muitas que temos deixado de lado por puro egoísmo. Mesmo aos que não têm feito muito bem aos outros (e a si, por inevitável conseqüência), desejo de coração e alma que melhorem (muito!). Para isso precisarão, como todos, de muita saúde, muita paz e plena felicidade.
E vamos agora, então, ao primeiro dos muitos anos de colheita, porque já semeamos muito e a lição já sabemos de cor. Não, já não nos resta mais aprender, falta só praticar mais e mais. E sempre mais. Ter bondade, é sim, ter muita coragem. Portanto, a partir deste momento, tenhamos um tanto de grandeza e muito de coragem. É o que desejo a todos nós!
PS.: grato a Beto, Renato e Cazuza, que sem saber me ajudaram a concluir este texto. E a Michel, por ter trazido ao mundo a música abaixo, além da Kristina e o pianista que não sei o nome, por executá-la tão bem, e também a Flávio, Milton e Murilo (autor de belíssima letra), que me fizeram conhecê-la ainda em meados dos anos 80. Até 2016!
Percebendo que o radicalismo político se acirra dia a dia no país e que há um lado crescente defendendo intervenção militar (filme, aliás, já visto em 1964), veio-me à cabeça uma questão atroz e deveras perturbadora: se a maioria quiser a ditadura, a democracia terá de aceitá-la?
Na infância e na adolescência, o lugar que eu mais gostava de ir era ao Maracanã, onde assisti a grandes espetáculos. Com a progressiva queda da qualidade nos campos de futebol e o meu crescente interesse pelas artes, fui aos poucos mudando de templo, e é no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) que passei a ver a maior parte dos grandes espetáculos que me fazem sair melhor do que quando entro. Espetáculos que justificam o nome. E por um preço muito menor do que se paga no ingresso para se ir ao estádio (hoje arena), onde não piso desde 2009. Um lugar em que se pode até apenas ficar, circular, sem nada pagar, que já vale muito a pena.
Ontem, mais uma vez saí de lá extasiado, após assistir à grandiosa apresentação do Barbatuques dentro do Festival Brasil Vocal CCBB 2015. Um misto de dança e música, com percussão, melodias, harmonias e solos feitos com corpos e vozes de 10 grandes artistas, quase um time de futebol. Se visse hoje um time brasileiro com tamanho talento, determinação, inventividade e entrosamento, passaria a ser o meu de coração, mesmo que vestisse um uniforme que normalmente não me agrada.
No futebol, se o jogo fosse maravilhoso, mas meu time não ganhasse, saía frustrado. A grande vantagem dos eventos artísticos e culturais é que não há chances de isso acontecer, porque mesmo quando a qualidade não é tão alta, algo raro no CCBB, sempre se aprende algo. Outra diferença é que na época de torcedor tinha praticamente só o Maracanã para ir, freqüentei muito pouco outros estádios do Rio, a grande maioria muito ruim (a única exceção era São Januário, onde fui muito mais como repórter do que como torcedor). E no caminho que escolhi percorrer, há além do CCBB outros templos da arte e da cultura nesta maltratada cidade. Se não tão grandiosos, são tão generosamente abertos à arte quanto. E hoje, é a arte que me move.
PS.: na sexta, eu e minha mulher já havíamos assistido a um grande show, no Cariocando, capitaneado pelo meu amigo Carlinho Motta e Agenor Neto, com participações especialíssimas das cantoras Dilma Oliveira, que fez a platéia ficar de pé, e Geovana Martins.
O fato de um criminoso ter curso superior, pós-graduação, ter exercido cargos públicos e privados importantes e outros títulos deveria ser agravante (quanto mais títulos, mais grave a pena) e não atenuante. Mas como se sabe, por estas terras...
Tinha eu 18 anos (faria 19 em julho), quando em 18 de janeiro de 1985, uma sexta-feira como esta, assisti ao meu primeiro show internacional de música. Os dois primeiros, de B52's e Gogo's, tiveram a minha presença na antiga Cidade do Rock, mas se já não gostava na época, muito menos agora posso considerá-los. Para mim o primeiro foi o do Queen, que fechou aquela noite memorável. O Queen mesmo, com o grande Freddie Mercury à frente, comandando uma massa de aproximadamente 250 mil pessoas.
A ida ao primeiro Rock in Rio foi ansiosamente esperada, eu comprara meus ingressos em outubro de 84, no Banco Nacional da Praça da Bandeira (hoje mais uma igreja destas muitas que se espalham por todos os cantos deste país), com a grana do meu salário de estagiário no arquivo da Caixa Econômica Federal, que ficava ali do lado, no prédio que atualmente é da Universidade Veiga de Almeida. E levei para casa os ingressos pros três últimos dias, sendo que o show que mais queria ver, perdi: o do Yes, que fechou brilhantemente aquele primeiro festival, no domingo, dia 20.
A empolgação era tanta que, no lamaçal formado naquele verdadeiro pântano pelas fortes chuvas que caíram nos dias anteriores, e mantidos por alguns pingos grossos esparsos nos dias 18 e 19, joguei tanta energia fora que minhas pernas não agüentaram e fiquei em casa no dia 20 (e 21 também, faltei ao trabalho, como já fizera três dias antes). Foi uma canseira além do normal, pois minha forma física não era das piores na época, o sonho de ser jogador de futebol havia sido frustrado tinha pouco tempo.
Ainda vi, no dia 18, as fracas apresentações do Kid Abelha, do Eduardo Dusek (o melhor nacional do dia) e Lulu Santos (que tive a oportunidade de assistir em muito melhor forma outras vezes) e, no dia seguinte, os ótimos shows de Pepeu e Baby, Whitesnake, Ozzy Osbourne, Scorpions e AC/DC, mas nenhum comparável ao do Queen.
Lançado originalmente em 20 de julho de 2009, "Profano Coração" foi reeditado em versão digital com algumas modificações e quatro poesias extras. O livro está à venda em qualquer lugar do mundo pelo site da Amazon.
Para comprar no Brasil é só clicar na capa ao lado e adquirir o seu. Se gostar, recomende a todos que conhecer, agradeço encarecidamente desde já.
Veja o que a premiadíssima cantora Ithamara Koorax escreveu sobre o que leu: "Lindo e muito tocante. É difícil encontrar as palavras certas nessas horas. Você contorna tantas situações da vida e da morte, da dor, do sangue, enfim, realmente é um Profano Coração. Belo demais. Ficarei relendo e descobrindo novas sutilezas. Gostei muito também das ilustrações, realmente são sensacionais. Parabéns ao Sóter, cujo trabalho eu não conhecia."
Foram 25 anos de respeito, carinho, muitas e importantes amizades, imensos aprendizados, ótimas oportunidades e abertura de portas. A última delas puxada e empurrada pela maçaneta com muito cuidado por minhas próprias mãos, em 1º de abril de 2013. No entanto, não houve amor. Por isso - e só por isso - afirmo que se encerrou. Hoje, dia 7 de abril*, soube que se comemora o dia do jornalista porque vi nas redes sociais e acabei sendo parabenizado por amigas e amigos que ainda me consideram jornalista. Não me considero mais, não por desprezo, rancor, nada disso, muito pelo contrário. É por respeito mesmo, por saber que embora tenha cumprido minha missão da melhor maneira que eu podia fazer dentro de redações - indo da máquina de escrever igual a esta da foto à internet - em estúdios de rádio (por pouco tempo), nas ruas, estádios, festivais etc, jamais tive o mesmo orgulho e paixão que colegas com muito mais talento e vocação que eu têm por esta profissão ao mesmo tempo tão nobre e tão miserável, como bem definia o falecido Nelson Silva.
Para começar, amava aquilo que me levou a fazer vestibular para jornalismo: o futebol. Como não tinha mais idade, nem tinha me dedicado o suficiente para me tornar jogador e a concorrência naqueles tempos (início dos anos 80) era “desleal”, optei pela profissão que poderia me proporcionar a chance de trabalhar com aquilo que tomava grande parte dos meus dias. Amava – e amo - a música também, mas ela não me levou ao jornalismo. A profissão que abracei de 1988 a 2013 me deu gigantescos presentes e só tenho a agradecer. Um deles foi (re)descobrir o amor pela literatura e a arte em geral, sendo que o teatro foi exceção, pois, como já escrevi aqui em outras oportunidades, foi presente de Cristine Cid, minha namorada e mulher nos seus últimos 15 anos de vida e mãe dos meus amados filhos**.
Ser repórter me deu a chance de entrevistar e, portanto, conversar com Oscar Niemeyer, Zico, Júnior e quase todo o time do Flamengo campeão do mundo em 1981, Telê Santana, Paulo Roberto Falcão, Carlos Alberto Parreira, Nelson Pereira dos Santos, Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Carlos Eduardo Dolabella, Evandro Mesquita, Geovani, Antonio Soares Calçada, Eurico Miranda, Marcio Braga, Roberto Dinamite, Romário, Bebeto, Zagallo, Carlos Alberto Torres, Jairzinho, Paulo Cesar Caju, Sergio Cabral (pai), Luiz Mendes, Levir Culpi, Afonsinho, Bebeto de Freitas, Tande, Giovanne, Mauricio, Bernard, Luiza Parente, Mauricio de Sousa, Veronica Sabino, Ithamara Koorax, Carlinhos Brown e mais uma infinidade de nomes mais ou menos conhecidos, mais ou menos amados e odiados. Fora os que esqueci ou não tenho certeza.
Também me proporcionou histórias pitorescas e incríveis, umas que acabaram não publicadas, como a expulsão da sede do Bangu pelo então presidente do clube da Zona Oeste do Rio e atual mandatário da Federação de Futebol do Rio de Janeiro; outras que foram para as páginas de uma revista apenas parcialmente, como as voltas que dei para descobrir onde morava Jorge, lateral do Vasco na époda do Expresso da Vitória e da seleção nos anos 40 e 50, e como acabei sabendo que era na Praia de Botafogo, a poucos metros de onde estava, e que para saber disso fui via Embratel a Jaboatão, em Pernambuco, onde morava o filho dele de mesmo nome, com quem não falava havia 30 anos, e a de Kalu, já contada neste blog (para ver, clique aqui).
Ser jornalista me deu a oportunidade de, entre muitos eventos importantes, fazer parte da equipe de redação do Jornal dos Sports na cobertura da Copa do Mundo de 1990, na Itália; chefiar a equipe da Agência Sport Press na cobertura das Olimpíadas de 1992, em Barcelona, e das eliminatórias da Copa do Mundo de 1994, disputadas no ano anterior; cobrir da redação do jornal O Fluminense a Copa dos Estados Unidos e as Olimpíadas de 2000; ser responsável pela equipe de redação do O Globo Online durante a Copa de 1998, na França; ser chefe de reportagem da Agência Lance! nas eliminatórias para Copa de 2002 e no próprio Mundial disputado na Coréia do Sul e no Japão, e fazer parte da equipe de redação do Globoesporte.com durante os Jogos Pan-Americanos Rio-2007, das Olimpíadas de 2008 (Pequim) e 2012 (Londres), além da Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.
O jornalismo me fez ler e procurar saber mais sobre assuntos que sempre adorei e também sobre aqueles que jamais despertaram meu interesse, como mercado financeiro, automóveis, informática, aviação. O jornalismo melhorou muito a minha escrita, até o ponto de me permitir criticar a forma como se escreve determinadas matérias e artigos. O jornalismo me apresentou o jornalista Gabriel García Márquez, o que me fez preferir seus "As aventuras de Miguel Littin Clandestino no Chile" e "Notícias de um Seqüestro" a "Cem Anos de Solidão" e "Amor nos Tempos do Cólera", ambos ótimos e justamente consagrados. O jornalismo me fez crescer profissional e pessoalmente graças aos muitos excelentes colegas com os quais tive a sorte de trabalhar na mesma equipe, na mesma empresa ou nas mesmas coberturas. Não citarei nenhum para não cometer injustiças.
Por essas e outras - que não relatei por esquecimento ou edição - pude reunir em 25 anos algumas amizades de inestimável valor, obter muitos aprendizados talhados por crassos erros e inesperados acertos, receber grandes oportunidades que foram bem aproveitadas umas, nem tanto outras. Foi eterno enquanto durou, por isso não foi amor, pois amor, o amor não acaba.
Se você olha para o céu e pensa na vastidão que nos cerca, que a Terra - com bem disse Carl Sagan - é apenas um pálido ponto azul, lembre-se da imensidão das coisas minúsculas que passeiam pelo ar, através do nosso corpo, abaixo de nossos pés, dentro da terra, da água, das células, das moléculas, dos átomos. Há neste mundo invisível, tão invisível quanto o grandioso universo e todas as suas galáxias, também muito de espantoso, terrível, maravilhoso e misterioso.
Não há, no meu modo de ver, música que retrate melhor o futebol do que o choro "Um a Zero", de Pixinguinha e Benedito Lacerda. Em especial o futebol brasileiro, aquele que durante décadas e mais décadas foi considerado por público e crítica o melhor do mundo (mesmo quando não vencia a Copa). Sempre que a ouço, nos mais variados arranjos, com os mais diversos feras do chorinho, logo me vêm à memória imagens de Garrincha dominando a bola, levando adiante, encarando um, dois, três marcadores, driblando, parando, fingindo avançar, voltando, colocando o pé sobre a bola, dando uma paradinha, um tapa nela pro lado direito e se livrando de mais um "joão", chegando fácil à linha de fundo e com a aproximação de mais um adversário, retorna para entrar na área...
Garrincha em ação na Copa de 1962
Porém, as imagens que fizeram a música surgir são bem mais antigas. Em 1919 - portanto 14 anos antes de Manoel Francisco dos Santos, o Garrincha, nascer em Pau Grande, interior do Rio de Janeiro -, o mestre Pixinguinha, um dos maiores compositores da História da música, e seu parceiro Benedito Lacerda compuseram "Um a Zero" em homenagem à vitória da seleção brasileira sobre o Uruguai, na final do Campeonato Sul-Americano, pelo placar que dá título à obra-prima. A dramática partida foi realizada no dia 29 de maio daquele longínquo ano, no estádio das Laranjeiras, construído especialmente para aquela competição, que reuniu ainda argentinos e chilenos. O gol da vitória foi marcado na segunda prorrogação, aos 122 minutos de jogo (!), por Arthur Friedenreich, "El Tigre", apelido que ganhou dos uruguaios justamente por este feito histórico. Friedenreich já foi tido como o maior artilheiro da História do futebol, mas há muitas controvérsias em relação ao número de gols que marcou ao longo de sua carreira, no período amador do futebol brasileiro, que vai até 1933.
Friedenreich
Certamente a emoção da conquista, a segunda da seleção brasileira (a primeira foi a Copa Roca de 1914), inspirou os dois artistas a criarem uma música à altura. Conseguiram, talvez até tenham superado. Muitos anos depois Nelson Angelo pôs letra neste chorinho, porém isso nem sempre me agrada, prefiro quase sempre a versão instrumental. Mas esta é outra discussão para uma outra hora. Fiquem abaixo com Pixinguinha neste clássico "Um a Zero".
"Não sabendo que era impossível, foi lá e fez" (Jean Cocteau ou Mark Twain)
Nunca programei com tanta antecedência assistir a um filme como O Sal da Terra. Desde que li em setembro do ano passado uma matéria de capa na Ilustrada (caderno de cultura da Folha de S.Paulo) acerca do documentário sobre Sebastião Salgado, dirigido pelo seu filho, Juliano, e Win Wenders, tive tanta vontade de vê-lo que me antecipei e comecei a buscar vídeos no youtube de entrevistas e especiais sobre o estupendo fotógrafo e humanista brasileiro.
Desde então, Sebastião Salgado passou a ser mais uma grande referência para mim. Não que desconhecesse o trabalho dele, mas passei a conhecê-lo com mais profundidade: o artista, sua obra e, principalmente, sua visão de mundo e o seu legado para o Brasil e a Humanidade.
Pois bem, só consegui ir ao cinema ontem, dia 20 de maio de 2015, acompanhado de minha mulher, já com algumas semanas de exibição nas telas do Rio (a esmagadora maioria localizada na Zona Sul da cidade). Este tempo em cartaz é na verdade outro grande feito, pois é raríssimo um documentário sobre um ilustríssimo brasileiro que, infelizmente pouquíssimos conterrâneos sabem de quem se trata, não ser retirado poucos dias depois de sua estréia. E o melhor é que a pequeníssima sala 2 do Estação Botafogo estava lotada.
O que me mostrou o filme já não me era totalmente ignorado, justamente pelo imenso interesse que tive por ele desde que soube de seu lançamento na Europa. Porém, ainda assim me surpreendeu, ensinou, me comoveu, me modificou para melhor.
Apesar de algumas fotos fortíssimas, de gente com fome, assassinada por inanição, bala ou facão, cenas de refugiados de guerra, nada é repetitivo ou cansativo. A vida e a obra deste brasileiro – sempre acompanhado e auxiliado por sua espetacular mulher, Lélia -, expulso de seu país por se opor à nefasta ditadura militar que nos abateu a partir de 1964, é sempre tão surpreendente quanto as suas fotos.
É necessário que se veja e reveja por muitas e muitas vezes este filme e a obra de Sebastião Salgado. Além de um fotógrafo de extrema sensibilidade, coragem, talento e precisão, ele é um humanista e ambientalista – assim como Lélia Werneck Salgado, é sempre bom que se frise - que deixará para os mais jovens e as futuras e futuras gerações o Instituto Terra (www.institutoterra.org).
Este projeto replantou em Aimorés, cidade mineira do Vale do Rio Doce, no então ressecado solo da fazenda onde Salgado foi criado por seus pais, juntamente com as seis irmãs, 2,5 milhões de árvores desde 2001, transformando o que era pasto novamente em floresta (como na sua infância), recuperando assim uma parte da Mata Atlântica que tinha sido arrasada pela estupidez humana.
E a estupidez humana foi o que mais este xará do meu falecido pai presenciou e documentou desde que, no início da década de 1970, resolveu abandonar a promissora e segura carreira de economista para se lançar na incerta e autônoma profissão de fotógrafo, ainda mais incerta pelos perigos que teve de enfrentar para mostrar ao mundo o que se passava onde ninguém gostaria de estar.
E de tanto retratar os malefícios humanos nos quatro cantos do mundo, mergulhou no mais profundo poço do ser, afundou nos mares turvos da depressão, desiludido por completo da capacidade de nossa raça merecer viver, de estar na Terra. No entanto, foi este momento de crise, agravado pela morte de seu pai, que o fez retornar às suas origens, à Natureza.
E, por encampar uma ideia aparentemente estapafúrdia de Lélia, construiu a sua maior obra. Ainda mais gigantesca que a sua imensa e importantíssima coleção de fotografias, penso eu.
Isso se refletiu inclusive na escolha do seu mais recente projeto: Genesis. Revela Salgado que originalmente o planejamento era fotografar mais uma vez a horrenda influência humana na Terra, desta vez na poluição do planeta. Porém, a escolha recaiu sobre a esperança, e ele foi buscar as origens da Terra, onde ela ainda preserva características dos seus primórdios. E produziu mais um belíssimo trabalho, certamente o menos sofrido.
Sebastião Salgado, como tantos outros brasileiros de primeira grandeza, são infelizmente escondidos pela nossa mídia, com raríssimas exceções, claro – elas sempre confirmam as regras. Gente como ele, que retratou o sofrimento e a beleza dos povos do mundo inteiro e reconstruiu com a contribuição valiosíssima de sua mulher uma parte da Mata Atlântica, têm pouquíssimo espaço para a divulgação de tão grandioso trabalho. Ao contrário de pseudo-heróis criados pelo pobre jornalismo nosso de cada dia, eles, os verdadeiros gênios da raça, estão no quase anonimato.
Este filme, O Sal da Terra, deveria ser exibido em rede nacional no horário nobre por todas as emissoras de televisão, incluindo as pagas, de preferência no lugar do tragicômico horário eleitoral gratuito. Quem sabe assim, nosso rude, bruto, cruel e ao mesmo tempo fútil, infantil e carente país se sensibilizasse, do mais humilde ao mais pseudo-poderoso cidadão. E então, conscientes de seus irrisórios propósitos rotineiros, os abandonassem e se levantassem para fazer disso aqui um lugar mais justo e verdadeiramente saudável e feliz.
Lélia e Sebastião na Fazenda Bulcão, em Aimorés (MG)
"... Vamos precisar de todo mundo / Um mais um é sempre mais que dois / Pra melhor juntar as nossas forças / É só repartir melhor o pão / Recriar o paraíso agora / Para merecer quem vem depois..." (O Sal da Terra, Beto Guedes/Ronaldo Bastos)
Fotos: a primeira, terceira, quarta e quinta fotos são de Sebastião Salgado.
Antes que alguém me pergunte ou faça qualquer observação sobre o tema: não, eu não gosto de escrever. Não que eu desgoste, deteste, despreze, não é isso, muito longe disso, aliás. Mas escrever é muito mais uma necessidade do que um desejo para mim. Ler, sim, é muito mais desejo que necessidade. Escrever me salva de mim mesmo e só se torna desejo quando a necessidade extrapola. O ato de pôr palavras e frases em ordem com (ou na desordem dos) meus pensa-sentimentos tenho certeza que têm me impedido de ficar louco ou morrer. Morrer mais no sentido de me anular, para ficar menos dramático, embora eu acredite piamente que signifique o mesmo.
Ler é como alimento, mata a fome e satisfaz a vontade de comer, saborear, ter prazer. É como o amor, desejo e necessidade na mesma intensidade. Escrever raramente dá prazer, já até escreveram que dói, o que não foge muito da verdade, embora me pareça uma alusão meio exibicionista, pedinte de atenção. Muitas vezes o prazer vem depois da escrita, com uma leitura inteligente e sensível, principalmente quando surpreendente. No entanto, depende necessariamente de o leitor expor ao autor o que e como o leu.
Seja em prosa ou verso, tudo o que se escreve não pertence mais ao autor a partir de seu primeiro leitor. Daí, o eu não é mais de quem criou, se é que ele pensou mesmo em si na hora de escrever. Este ato que tanto pode ser nobre, quanto pobre, que carrega um status de ricaço decadente, é muitas vezes uma libertação, um grande alívio, um gozo solitário. O suor também é uma boa imagem para descrevê-lo, pois é mesmo aquilo que sai dos poros, dos poros da alma.
Embora seja um clichê, é verdadeiro dizer que a inspiração nada mais é do que nada, se não houver a transpiração. Uma boa idéia não surge do nada, ela está apenas esperando ser descoberta, captada, capturada por quem tem olhos livres o suficiente para enxergar o invisível bailando à sua frente, por quem tem mãos e dedos sutis e hábeis para agarrá-la com delicadeza. É como a escultura: ela já existe na pedra bruta, está apenas aguardando que o artista tire os excessos e a deixe transparecer.
Nas primeiras horas do último domingo, eu e um séquito de amigos e familiares saíamos de uma grande festa, quando nos deparamos com um grande e inesperado encontro. Distante ainda, eu o vi de costas, mas não tive qualquer dúvida, reconheci-o de pronto. Aproximei-me e solicitei a foto - sem selfie, porque senti que podia desagradá-lo com essas modernices. Meio a contra-gosto, ele aceitou fazer esta foto ao meu lado. Assustada com a nossa presença, a cabra vadia se esquivou, nada confessou e foi pastar em algum canto que não vi.
Na despedida, ia parabenizá-lo pela vitória do seu Fluminense sobre o Botafogo horas antes, quando o mestre ralhou seu descontentamento comigo: "Você não me lê mais, nem assiste mais a peças de minha autoria tem já uns dez anos". Fiquei um pouco encabulado, pois tenho a consciência de que não foi por acaso ou por falta de oportunidades.
Prometi reconsiderar minha decisão, motivada pela fortíssima - quase intransponível - influência que ele exerce sobre nós mortais que lidamos com as letras, informando-o que em muito breve voltarei às suas obras completas para teatro. Ele me pareceu mais satisfeito, até esboçou um enigmático sorriso.
Nada pior para um escritor do que o período de seca. Ainda mais quando se alonga. Mesmo que idéias não faltem, elas teimam em não se transformar em palavras, frases, versos, ficam flutuando como nuvens brancas escondendo o sol sem ser sinal de chuva, se remexem dentro da cabeça, do corpo, ainda em gestação, sem estar no tempo de ganhar vida plena, esperando o momento certo de descer, fluir, nascer.
Há muitos anos parei de me sentar em frente a uma folha em branco com vontade de escrever e lançando no papel (naquela época escrevia com caneta ou à máquina) o que me viesse à cabeça. Quase sempre saía sem verdade, superficial, sem verve. Por isso, passei a respeitar meu tempo. Mesmo assim é uma enorme agonia passar por essa entressafra.
Vídeo: "Amor de índio" (Beto Guedes/Ronaldo Bastos), com Beto Guedes
SUÉCIA 2 X 5 BRASIL - FINAL DA COPA DO MUNDO DE 1958
Djalma Santos, Zito, Bellini, Nilton Santos, Orlando e Gilmar;
Garrincha, Didi, Pelé, Vavá, Zagallo e Mário Américo (massagista)
Este ano aproveitei o que de melhor a internet pode oferecer para rever alguns jogos de futebol memoráveis no Youtube. Por conta própria, revi na íntegra duas partidas emblemáticas dos meus tempos de torcedor de arquibancada: Flamengo 0 x 1 Peñarol, fase semifinal da Libertadores de 1982, uma derrota até então inexplicável pra mim, e a vitória que mais me emocionou no Maracanã: Flamengo 6 x 0 Botafogo, em 1981. A trabalho, voltei ao doloroso dia 5/7/1982 para rever Brasil 2 x 3 Itália para escrever um texto sobre aquela partida para a Revista História Viva. Corrigi falhas da minha memória e confirmei algumas impressões que haviam ficado desde então. Porém, hoje resolvi assistir a um jogo que jamais havia visto e na época em que foi realizado seria impossível, pois só nasci 8 anos depois: a final da Copa do Mundo de 1958.
Na TV já tinha visto incontáveis vezes os gols de Brasil 5 x 2 Suécia e uma ou outra jogada além e só. Todos sempre pela mesma câmera. A noção que tinha do quinto gol, marcado por Pelé, de cabeça, no finzinho da partida, era muito limitada e isso me foi confirmado hoje. Além disso, aquela jogada em que Garrincha dá uma bronca (ou finge dar) em alguém, toca de calcanhar para Djalma Santos, que levanta a bola e devolve para o ponta com extrema categoria, sempre esteve em minha memória como um lance do ataque brasileiro, mas foi realizada na saída de bola da defesa, soube hoje.
Vavá completa jogada de Garrincha para fazer o 1º gol do Brasil
Exaltar o que vem sendo decantado há 56 anos não faz o menor sentido. O que fez sentido para mim foi me surpreender com um chute espetacular de Pelé de fora da área, logo após o Brasil ter empatado o jogo, e a bola explodir na trave direita de Svensson; conhecer a qualidade de alguns jogadores da Suécia, como o ponta Hamrin e o meia Gren; me arrepiar com a obra-prima do jovem iniciante Pelé no terceiro gol, e ainda saber que houve dois pênaltis para o Brasil - um em Garrincha e outro em Vavá - na segunda etapa e ambos não terem sido assinalados pelo árbitro (que no lance de Garrincha marcou falta fora da área).
A seleção brasileira começou mal a partida, mas pôs os nervos no lugar e melhorou após levar o primeiro gol. Foi subindo de produção após empatar, fez por merecer a virada no marcador com dois gols muito semelhantes e na etapa final dominou inteiramente o adversário, vencendo com certa facilidade, com jogadas e gols espetaculares que a torcida da casa soube reconhecer e enaltecer.
Vavá, Orlando, Pelé, Gilmar e Didi comemoram o título
Num ano em que o futebol brasileiro atingiu o seu mais baixo nível, não só pelos vergonhosos 7 a 1 da Alemanha, mas pela indigência técnica e tática que seus jogadores vêm apresentando nos mais diversos gramados do país - já de muito tempo, aliás, com raríssimas exceções -, foi muito bom ter me recordado que já tivemos o melhor e mais bonito futebol do planeta.
SUÉCIA 2 X 5 BRASIL
Data: 29/06/1958 Competição: Copa do Mundo - final Local: Estádio Rassunda (Solna) - Estocolmo Árbitro: Maurice Alexandre Guigue (França) Times
SUÉCIA: Svensson; Bergmark, Axbom, Börjesson e Parling; Gustavsson, Gren e Simonsson; Hamrin, Liedholm e Skoglund. Técnico: Georges Raynor.
BRASIL: Gilmar; Djalma Santos, Bellini, Orlando e Nilton Santos; Zito, Didi, Pelé e Zagallo; Garrincha e Vavá. Técnico: Vicente Feola. Gols: Liedholm, aos 4, Vavá, aos 9 e 32 minutos do primeiro tempo; Pelé, aos 10 e aos 45, Zagallo, aos 23, Simonsson, aos 35 do segundo tempo.
Não perca a chance de ver a partida com narração do grande Jorge Cury e Oswaldo Moreira (cada um narrando o ataque de um time), comentários de Guilherme Sibemberg e comando nos estúdios do Rio de Janeiro de Antonio Cordeiro. O áudio é sueco no início do vídeo e entre os 25 e os 42 minutos da primeira etapa, devido a um problema técnico na transmissão da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Assista abaixo:
Já ouvi o CD mais de dez vezes e pensei outras tantas se deveria
publicar aqui um texto para exaltar um trabalho no qual tenho envolvimento
direto, por ser sócio da empresa que agencia, produz e assessora o autor. No entanto, não costumo fugir daquilo que
creio profundamente, então, taí, não me furtarei de escrever sobre “Além do
princípio do prazer”, álbum recém-lançado pelo cantor, guitarrista, violonista e compositor Pedro Sá Moraes, pela Delira Música. Não é trabalho para ouvidos
viciados, mas para os que buscam sempre algo novo e raro e para despertar aqueles que andam meio acomodados resmungando pelos cantos, revoltados com a
mediocridade – mais que isso, com o baixíssimo nível – que TVs e rádios vêm
apresentando dia-a-dia ao público.
Nas nove músicas do intenso e instigante trabalho de Pedro há uma infinidade de sons e ruídos que nos trazem imagens
variadas (algumas de humor, inclusive), belas melodias e quebras súbitas de ritmos que causarão
estranheza. E é isso mesmo, é para tirar o ouvinte do conforto de ligar o som e
deixar rolar enquanto vai se ocupando de outros afazeres. Pare tudo e o ouça com atenção. Com uma pegada roqueira, Pedro passeia por pop eletrônico, sob a
batuta de Ivo Senra, mas não abandona suas raízes, que nasceram no samba da multifacetada Lapa. Estão lá marcha ("Não quer que o mundo mude"), bossa (na única com letra em inglês, "Salmo 23") e vários
ritmos nordestinos, oriundos da Península Ibérica, via mouros, da África, e amalgamados
aqui mesmo nesta terra tão rica e ultimamente tão maltratada musicalmente.
Ele reprocessa tudo isso em seu caldeirão e, qual um bruxo, lança no ar poesias
e poesias de primeira grandeza por intermédio de seu vozeirão de grande cantor
que é.
Aqui vale ressaltar a qualidade das letras (verdadeiras poesias) e, nesse caso, além do próprio Pedro, é preciso citar seus parceiros Thiago Amud (nas excelentes “Alarido” e “O olho da pedra”) e Thiago Thiago de Melo (autor da brasileiríssima “Não é Água”), seus companheiros de Coletivo Chama, e João Cavalcanti (“A hora da estrela”) e Thomas Saboga (“Ela vertigem”, outra belíssima). O melhor é que ao vivo (pude constatar no Solar de Botafogo, no dia 4/12)as músicas ficam ainda melhores, especialmente pela ótima presença de palco de Pedro e também - é preciso louvar - o já citado Ivo Senra, pilotando seus teclados de mil sons, inclusive o baixo, e o grande baterista Lúcio Vieira.
Quem se interessar em ouvir as músicas de “Além do princípio do prazer”, antes de se decidir a comprar o CD (capa acima), é só clicar aqui.
Como diz a letra de “Alarido”: “você vai escutar apesar e através, com maior
lucidez pra separar bom, de dor; banal, de bom; tom, de cor, de som...”
Fui ao quarto da minha filha
desligar a televisão quando vi a imagem de um palco escuro e logo em seguida o
conhecido rosto sorridente do ator Juca de Oliveira, já num cenário bem claro.
Resolvi escutá-lo, e ao comentar sobre a peça Rei Lear, que encena como monólogo no Rio, ele disse
algo que é de uma obviedade rodrigueana (aquela que quase ninguém enxerga): “Até o
mais miserável dos mendigos tem o desejo de algo supérfluo para se reconhecer
como humano. Se ele apenas supre suas necessidades básicas, não sai da condição
de animal”. Lançou esta e completou com uma clara intenção política que quero
eliminar daqui para me ater apenas à questão filosófica: “Marx não deve ter
lido Shakespeare”.
Certo que o desejo para o ser
humano (“a gente não quer só comida, a gente quer comida, diversão e arte”) tendo
essa magnitude que Juca expressou por intermédio do bardo inglês passa a ser
também uma necessidade. E passando a ser mais importante que tudo, repetidamente, significa
vício. Certo também que o ser humano tendo somente
as suas necessidades básicas satisfeitas, passa a abanar o rabo e a seguir seu
dono. Não é difícil imaginar como os tiranos de todas as correntes ideológicas
dominaram - e dominam - seus povos, direcionando seus desejos (o supérfluo citado pelo ator) aos seus objetivos mais funestos.
É uma equação até fácil de se
resolver, me parece, se assemelha mesmo a uma lógica matemática. O líder supre o básico de
seus comandados e, como sabe que eles depois de algum tempo não se contentarão
só com o que lhes é oferecido, pois se entediarão, inventa um inimigo, um medo
a ser vencido, uma guerra. E assim rastejaria a Humanidade não fossem os
rebeldes, os pensadores, os sonhadores, os contestadores corajosos para pensar,
sentir e agir com independência. Aqueles que pensam por si próprios, sem se
deixar levar por ondas.
São eles que tiram a Humanidade da letargia, são
eles que fazem o outro se levantar da cadeira com os olhos brilhando a enxergar
um novo e amplo mundo à sua frente, com milhões de possibilidades. É ele, o
poeta de todas as artes e ofícios (o artista no sentido mais amplo da palavra,
abarcando todas as áreas do conhecimento), a verdadeira antena da raça, se
assim Ezra Pound me permite citá-lo.
Ilustração: "Rei Lear e o bobo na tempestade", de William Dyce (1806-1864) Vídeo: "Comida" (Arnaldo Antunes/ Sérgio Brito/ Marcelo Fromer), com Titãs
Veja também: Fábrica de ídolos A midiotização A mídia bizarra
Começo esta nova série aqui no blog com "Selva Amazônica", música de Egberto Gismonti que me paralisou desde a primeira audição, em meados dos anos 90. Esta longa música instrumental, tocada pelo mestre num violão de 8 cordas (e mais voz, surdo e cooking bells), abre o CD "Solo", gravado em 1978, e tem me feito ao longo desses quase 20 anos, todas as vezes que a ouço, viajar não só pra selva - ou pra selvas - mas ao Norte e Nordeste do país que posso dizer praticamente desconheço (só estive em Salvador e Jauá, na Bahia, por duas semanas entre o fim de 2005 e o início de 2006). No CD, "Selva Amazônica" é tocada junto com Pau Rolou, cantada por Egberto, mas em outra versão que aqui apresento, é "só" ela mesmo, em apresentação ao vivo em Berlim com outro mestre, Naná Vasconcelos, que certamente estará aqui em breve.
O CD Solo achei numa loja de discos que não existe mais há muitos anos, na Avenida Amaral Peixoto, em Niterói. Estava na época à procura de um CD do Egberto há muito tempo, e foi este que inaugurou a pequena coleção do multi-instrumentista brasileiro que juntei a partir de então (mais 4 ou 5). Nem preciso dizer que gosto muito deste disco, que todo ele é espetacular, mas "Selva Amazônica/Pau Rolou" é que me capturou de vez. Prepare-se, siga as setas abaixo. Ótima viagem.
Vídeos: o primeiro é a gravação original do CD Solo com belas fotos de Luciano Daini e o segundo é uma gravação de uma apresentação ao vivo de Egberto Gismonti com Naná Vasconcelos, em Berlim, postado no YouTube por Mateus Talles.
Com o amor ao próximo tão fora de moda é realmente uma felicidade ler um livro que o eleva ao patamar do qual jamais deveria deixar: o da máxima grandeza. Em seu "O filho de mil homens" (Cosac & Naify), o escritor Valter Hugo Mãe, nascido em Angola, mas que vive em Portugal desde a infância, proporciona aos anacrônicos, sonhadores, utópicos ou ingênuos voltarem a acreditar que o sentimento que nos torna além-humanos ainda está vivo, mesmo que numa ficção. Porém, como já escrevi algumas vezes há mais verdades nas ficções do que no noticiário do dia-a-dia, é mais que uma esperança, bate uma certeza de que os tempos, eles mudarão.
Com notória influência de José Saramago e Gabriel García Márquez, Mãe tece seus personagens individualmente, com ternura, para ir entrelaçando-os ao longo da trama, numa narrativa envolvente, acolhedora, embora a dor, a discriminação, a ignorância, a intolerância, a ganância estejam bem presentes para nos mostrar em contraponto a beleza dos opostos - ou do oposto - disso tudo. Com o pescador Crisóstomo à frente de todos, como um condutor do mais nobre sentimento, Mãe faz jus ao sobrenome e exalta o amor maior, o verdadeiro e gigantesco e puro amor em tempos de egoísmos extremos, em plena Era do Cinismo.
Desesperançar-se e esperançar-se,
eis a mola-mestra da vida. Terminei de ler o contundente livro-reportagem “Holocausto
Brasileiro”, da jornalista Daniela Arbex, e vi mais uma vez como a raça humana
é capaz das mais abjetas ações – e omissões – e das mais sublimes também. Mesmo
tendo a plena consciência de que convive em mim (e em todos os seres humanos) o
que há de pior e de melhor, não me vejo capaz de fazer nem de perto o que foi
feito com as pessoas que foram internadas no antigo Colônia, manicômio da cidade mineira de Barbacena.
Nem sendo
um dos muitos responsáveis diretamente pelas 60 mil mortes ocorridas naquele
verdadeiro campo de concentração utilizado das mais diversas formas para
degradar e reduzir a zero a condição humana (mesmo após a morte, com o lucro da venda de
corpos para universidades das mais diversas partes do país). Nem enfrentando aquilo tudo com tamanha coragem, abnegação e amor para salvar alguém
daquele inferno.
Daniela Arbex
Espero estar errado quanto a isto, sei que muitas vezes nos superamos, e é a partir da autocrítica, do autoconhecimento, que crescemos nas horas certas. Porém, de sã consciência, neste momento, não consigo me ver nem mesmo no lado que defenderei sempre com tanta coragem, abnegação e amor ao próximo. Não é culpa (cristã ou não) que jogo sobre meus ombros, apenas uma reflexão para tentar me entender. E crescer.
Nem como jornalista, minha profissão por 25 anos
(de 1988 a 2013), creio que teria sido capaz de produzir uma reportagem tão
completa e corajosa. Daniela passou a ser para mim uma referência tardia da
profissão que deixei para trás. Antes dela muitos outros denunciaram o que
ocorria no Colônia, localizado numa cidade com a qual tenho uma ligação
familiar e por onde passei quando criança com meu falecido pai, que lá viveu quando garoto antes de vir para o Rio. Estão todos no livro, grandes homens e grandiosas mulheres.
O livro não
recomendo a qualquer um ler, nem sequer observar o vasto material fotográfico
de Luiz Alfredo, produzido em 1961, quando trabalhava na revista "O Cruzeiro". Somente àqueles dispostos a se defrontar e
encarar de frente o quanto de desumano – e também de divino – a nossa raça
encarna.
Este texto abaixo escrevi em dezembro de 1990, e não tenho certeza se ele chegou a ser publicado no Jornal dos Sports, onde trabalhava na época. Encontrei-o, numa recente arrumação em minha casa, escrito numa lauda (que para os jornalistas mais novos deve ser algo de outro mundo) do JS à máquina de escrever (outro produto de outra era) e reproduzo aqui – com pequenas correções - porque reforça e muito tudo o que escrevi aqui e nas redes sociais durante a última Copa do Mundo, no jornal Portal Grajaú, logo após a competição disputada no Brasil, e por todos estes anos em que, pese o fato de a seleção brasileira ter conquistado duas copas do mundo (1994, com dois desarmadores e mais dois meias com funções mais defensivas que ofensivas, e 2002), fomos cada vez mais nos afastando de nossas raízes, de nossas mais genuínas características. O resultado hoje todos podem ver: um futebol baseado no chutão, na truculência e na correria, com pouquíssimos bons valores revelados nos últimos 10, 15 anos. Para situar melhor os que não conhecem, os jogadores que me deram entrevista para a matéria são Arturzinho, ex-ponta-de-lança de Fluminense, Operário-MS, Corinthians, Bangu, Vasco e Vitória, entre meados da década de 70 e o início dos 90; Deley, meia-armador que se destacou no Fluminense nos anos 80 e também atuou por Palmeiras e Botafogo, e Ailton, volante que começou no Olaria e se destacou no Flamengo em meados dos anos 80, e depois jogou por Fluminense e Grêmio. Na época da entrevista Ailton tinha sido deslocado para a lateral-direita pelo técnico Vanderlei Luxemburgo, mas depois voltou a jogar como um típico desarmador até o fim da carreira no início dos anos 2000, apesar da declaração que encerra o texto.
Até algum tempo atrás, a maioria dos grandes times brasileiros possuía, vestindo a camisa 8 de sua equipe, aquele jogador que, com sua habilidade e visão de jogo, tinha a função de armar as jogadas ofensivas. Ele que coordenava o ritmo do time, dando maior ou menor velocidade às jogadas, dependendo do momento da partida. O meia-armador saía com a bola de sua defesa já com um jogada ofensiva “arquitetada”, parecido com o armador do basquete. E como no outro esporte, que utilizava antigamente dois, mas atualmente só usa um, o futebol brasileiro de hoje eliminou o meia-armador substituindo-o pelo desarmador. Com raríssimas exceções, os grandes clubes do Brasil possuem o cabeça-de-área tradicional, desde a época do armador, e mais um jogador para destruir as jogadas ofensivas adversárias.
O desarmador pode ser chamado de Robin Hood. Se o personagem roubava dos ricos para dar aos pobres, o desarmador, com sua pouca habilidade e grande disposição física, rouba a bola dos craques – os poucos existentes – e acaba errando o passe, dando-a a outro adversário.
Tupãzinho, autor do gol do título do Corinthians, é derrubado durante a
final do Brasileiro de 90 contra o São Paulo. Foto: Nelson Coelho (Placar)
Na final do Campeonato Brasileiro deste ano, disputada entre Corinthians e São Paulo, ambos os times tiveram Wilson Mano e Márcio, do lado alvinegro, e Bernardo e Flávio, do tricolor, os perfeitos representantes do futebol-força que invade cada vez mais o futebol brasileiro. Na Copa do Mundo da Itália, o técnico Sebastião Lazaroni escalou, além de três zagueiros, mais três desarmadores no meio-de-campo da seleção brasileira: Dunga, Alemão e Valdo (nota: Valdo na verdade era um armador com funções defensivas naquele time). O nono lugar e as péssimas apresentações da equipe comprovam que este foi pelo menos um dos erros de Lazaroni.
Porém, se o atual treinador do Fiorentina, da Itália, insistiu com desarmadores, o novo técnico da seleção, Paulo Roberto Falcão, não parece ter aprendido com os erros do passado recente. Nos cinco amistosos da seleção sob o seu comando, ele escalou no meio-de-campo nove jogadores diferentes, sendo que cinco com características de marcação. Nos dois amistosos contra o Chile, a seleção jogou com três jogadores marcadores (César Sampaio ou Moacir, Cafu e Donizete Oliveira) e Neto no meio.
Logo Falcão, que formou ao lado de Sócrates e Cerezo um trio que se revezava na armação das jogadas e encantou o mundo em 1982, na Espanha. Não vencemos, é verdade, mas esta foi a única participação brilhante de uma seleção brasileira em uma Copa do Mundo depois da conquista da Taça Jules Rimet, em 1970, no México.
O que está levando técnicos brasileiros a optar por desarmadores? Será o futebol moderno?
Para Arturzinho (foto ao lado), que já foi ponta-de-lança, e hoje atua na posição de meia-armador no Bangu, a maior escassez acontece na sua antiga posição, pois, segundo ele, não existe mais jogadores com as características de um Zico e Sócrates – quando atuava pelo Corinthians – de participar das jogadas no meio-de-campo e chegar na área para concluir. Ele acha que a escalação de um meia-armador exige do time um quarto homem para o meio-campo atual.
- Senão, o meio fica muito aberto para o adversário. Se tiver um ponta que vá à linha de fundo e saiba marcar no meio-de-campo melhor, porque se o meio estiver com poucos jogadores na hora de o adversário atacar, a defesa ficará sobrecarregada – explicou Arturzinho.
Para o meia-armador Deley (foto abaixo), que começou sua carreira no Fluminense como cabeça-de-área, e que está sem clube atualmente, acha que os argentinos quando chamam o brasileiro de “macaquito” têm razão, pois segundo o jogador, o Brasil continua imitando o futebol europeu. Como exemplo do jogo troncudo que se pratica atualmente no país, Deley citou o jogo final entre Corinthians e São Paulo, pelo Campeonato Brasileiro, quando um jogador que não quis citar o nome (Márcio, do Corinthians) “deu porrada a partida inteira e saiu de campo ganhando todos os prêmios como o melhor em campo”. Ele critica o incentivo a este tipo de jogo:
- Em 1974, a Holanda deu um show e alguns de nossos treinadores por confusão ou por acomodação acharam que o futebol moderno era parar as jogadas do adversário a qualquer custo e não ocupar todos os espaços do campo, como fez a seleção holandesa na Copa da Alemanha.
Como exemplo de time vencedor que não precisou de nenhum jogador de choque, Deley cita o Flamengo do início da década passada, quando foi de campeão estadual a mundial interclubes. Ele disse que torce sempre para os times dirigidos pelo técnico Telê Santana, que apesar de não conhecê-lo pessoalmente, é considerado pelo apoiador um treinador que faz o seu time jogar futebol. O jogador acredita que somente com esta filosofia o futebol brasileiro voltará a atrair grandes públicos aos estádios.
- Além disso estamos num processo vicioso em que o juiz não aplica a regra, o técnico não quer perder o emprego, entre outras coisas – concluiu.
Ailton (foto ao lado), do Flamengo, que sempre fez da força física e da resistência as suas maiores armas no futebol, depois de ser muito criticado como meia, agora quer se firmar como lateral-direito e pensa até em seleção brasileira. O novo técnico de seu time, Vanderlei Luxemburgo o considera um dos melhores laterais do país. O jogador acha que na lateral ele ficará mais à vontade e livre das pressões da torcida e da imprensa esportiva.
- Fico feliz com os elogios e tenho certeza que não quero mais voltar para o meio-de-campo – declarou.