segunda-feira, 28 de setembro de 2009

MAIS UMA SOBRE EDUCAÇÃO

Escreveu Nelson Rodrigues em um artigo publicado no fim da década de 60 – isto mesmo, década de 60! - que não havia como se exigir uma televisão com mais qualidade na sua programação se o público não tivesse a mesma qualidade. Transportando isso para o nosso dia-a-dia percebe-se claramente que não há como se exigir melhores governantes se a ignorância, a estupidez, o desrespeito ao outro e a violência continuarem a ser as aulas diárias das crianças das classes A a Z deste país. Diz Oscar Niemeyer: “O Brasil emburreceu”. Há como discordar?

Por dois momentos distintos na semana passada a televisão acabou sendo, coincidentemente ou não, a responsável por me impelir a escrever este texto com argumentos que uso há muitos anos, mas como continuam atuais, cada vez mais, vou continuar usando-os à exaustão. Alguém há de se juntar a mim. O primeiro, não tanto pelo circo dos horrores que foi a morte transmitida ao vivo daquele bandido que tomou de refém uma senhora, ameaçando-a com uma granada, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Desta vez, ao contrário do episódio do ônibus 174, a polícia acabou agindo da melhor forma. 

O que me espanta é o encantamento das pessoas com esse tipo de ação. Ouvi coisas como “que maravilha” ou “a polícia vai limpar o Rio dessa bandidagem em dois anos”. Ou seja, é a reação do público que me indigna, como escrevi tempos atrás sobre a febre do filme “Tropa de Elite”. Como acabar com a bandidagem se a única educação que milhares e milhares de crianças e jovens recebem diuturnamente é nas salas de aula a céu aberto por “professores” que em vez de giz (sim, sou daquele tempo) usam armas de fogo poderosíssimas e em vez do quadro negro utilizam alvos vivos? 

Dias depois veio o segundo momento televisivo que me empurrou de vez para cá, pois hipocrisia e desfaçatez têm limite. Assistia eu bem impressionado a uma propaganda muito bem feita com pessoas de vários países do mundo dizendo que o grande responsável pelo desenvolvimento de suas nações era o professor, quando no fim sou informado que aquele anúncio pertencia ao Ministério da Educação do Brasil (algo como o Ministério da Guerra na Suíça ou da Marinha no Paraguai). Revoltante! Desde quando este país tem um projeto sério de educação e valoriza seus professores? 

Enquanto a discussão fica desviada para a discriminatória e revanchista questão das cotas raciais, o governo vai se divertindo às nossas custas. Os militares destroçaram a educação deste país, copiando mal e porcamente o sistema de ensino dos Estados Unidos, e os civis que portaram em seu peito a faixa presidencial posteriormente conseguiram piorá-lo. E chegamos a um presidente que se gaba de ter chegado lá sem precisar estudar. 

Semana passada também li um artigo de Zuenir Ventura, no jornal O Globo, lamentando a falta que Darcy Ribeiro faz. E como! Defensor das aulas em tempo integral com alimentação decente, solução para desviar os meninos e meninas das tais aulas a céu aberto que falei acima, os Cieps viraram piada no país da sacanagem. E o povo escolheu um sujeito que sequer merece ter seu nome citado para governador do Rio, em 1986. 

Se tivéssemos iniciado naquela época o processo educacional, com as devidas correções de rota necessárias a qualquer projeto sério, hoje estaríamos começando a colher os bons frutos. Mas como disse, o povo escolheu o tal sujeito, apoiado que era por empresários e jornalistas poderosos, os mesmos que hoje se perguntam o que está acontecendo. 

Quase um século antes de Nelson Rodrigues, o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, que faleceu em 1900, escrevia o seguinte pensamento: “Mais um século de jornais e as palavras se deturparão”. Ele não viveu como Matusalém, nem era um highlander para conhecer a TV. Tivesse conhecido, já há alguns anos poderia dizer: “Mais 15 minutos de TV e as pessoas se deturparão”. 

OS MAIORES JOGOS DE TODOS OS TEMPOS 2

HOLANDA 2 X 0 URUGUAI - COPA DO MUNDO DE 1974

Neste segundo episódio da série, apresento o início da última revolução do futebol: o Carrossel Holandês ou Futebol Total (Laranja Mecância é ótimo livro e filme, mas não se encaixa ao jogo daqueles "peladeiros" geniais de Rinus Michels). Há outros jogos exemplares da Holanda na Copa do Mundo de 1974, que acabou com a vitória na final da ótima Alemanha de Beckenbauer, Overath, Breitner e Maier - o grande responsável por segurar a vitória no segundo tempo da grande decisão - mas a estréia, contra o Uruguai, é emblemática. Aquela foi a primeira Copa do Mundo a que assisti de verdade (pela TV) e vi aquele maravilhoso jogo holandês só para reforçar a minha paixão pelo futebol-arte, viesse de que lugar do planeta fosse.
O jogo de estréia dos holandeses mostra bem (veja o vídeo abaixo) o que eles aprontariam naquele Mundial disputado na Alemanha pela primeira vez. Eles deixaram completamente tontos os respeitáveis uruguaios, que tinham Pedro Rocha como grande comandante e que haviam ficado em terceiro lugar quatro anos antes, no México. No fim, 2 a 0 foi muito pouco, como o próprio Pedro Rocha admitiu.

O creme holandês tinha ingredientes da mais alta qualidade, sendo que Johann Cruyff era o gênio a serviço do conjunto afinado graças à inteligência e o talento de seus jogadores, especialmente Krol, Neeskens, Rep e Resenbrink. A seguir, as palavras de Cruyff sobre aquele jogo (texto retirado do blog de Mauro Betting):

"Estávamos muito nervosos. Além de nunca termos atuado juntos, cinco jogadores estreavam em algumas funções. O goleiro era novo na equipe. O Haan e o Rijsbergen não haviam atuado daquela maneira. O Jansen demorou a chegar ao elenco. O Haan teve de ser zagueiro - era volante. O Jansen ocupou o lugar dele - embora atuasse na mesma posição do Neeskens O próprio Neeskens teve de se sacrificar. Eu não estava 100% fisicamente. Perdemos nosso zagueiro Hulshoff por contusão. E tudo isso junto, num só jogo, o da estreia Não sei como tudo funcionou tão bem. Não tínhamos um time antes da estreia. E quando acabou o jogo, tínhamos uma senhora equipe. Todos correram muito, se doaram bastante. Deveríamos ter feito mais gols. Mas essa é outra questão. Para mim, futebol é criar chances de gol. Fazer o gol é um tanto casual e está fora do futebol. Depende de um monte de circunstâncias: sangue-frio, casualidade, sorte, falha contrária."

Ficha técnica do jogo
HOLANDA 2 X 0 URUGUAI
Copa do Mundo de 1974
Local: Niedersachsenstadion - Hanover (Alemanha)
Público: 53.700 pagantes
Juiz: Karoly Palotai(Hungria)
Gols: Jonny Rep, aos 16 minutos do primeiro tempo e aos 41 da segunda etapa.
HOLANDA - 4-3-3 - Jongbloed (8); Suurbier (20), Haan (2), Rijsbergen (17) e Krol (12); Jansen (6), Neeskens (13) e Van Hanegen (3); Rep (16), Cruyff (14) e Rensenbrink (15). Técnico Rinus Michels.
URUGUAI - 4-3-1-2 - Mazurkiewicz (1); Forlán (4), Jáuregui (2), Masnik (3), Pavoni (6); Montero Castillo (5), Mantegazza (18) e Espárrago (8); Pedro Rocha (10); Cubilla (7) e Morena (9). Técnico Roberto Porta.

A seguir, momentos mágicos de um grande espetáculo da bola (e sem ela também, prestem atenção):


Veja também:

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

"PROFANO" CONQUISTA CORAÇÕES

A auto-promoção é algo bastante constrangedor para mim, mas se não fizer isso o livro "Profano Coração" só chegará a poucas pessoas. Por isso, conto com os amigos e uso aqui abaixo, com a permissão deles, as palavras sinceras dos que leram com atenção e carinho o trabalho ao qual me dediquei com tanta intensidade e honestidade. Agradeço de (profano) coração a todos!

Veja as opiniões de quem já leu o livro "Profano Coração":

Adriana Barreiros: "Seu livro de poesia é visceralmente honesto, de uma verdade bela e vivível. Lê-lo foi uma viagem incrível! Obrigada por capitaneá-la!"

Ana Melão: "Amei seu livro. A capa adianta o que as páginas detalharão."

Bruno Lobo: "Finalmente, Eduardo Lamas, esse poeta de mão cheia, conseguiu publicar sua primeira obra. Tenho certeza que daqui para a frente, com o sucesso garantido de "Profano Coração", muitos outros livros virão. Matéria-prima é o que não falta."

Celeste Azeredo: "Maravilhoso seu livro. Impressionante como você tem o poder de jogar com as palavras, de uma forma crua, porém doce; misteriosa sem ocultar sentimentos... Adorei ,adorei e adorei..."

Cídine Almeida: "...Gostei muito de Oferenda e de Canção para Geisa, Mata Fechada também. É muito bom!"

Denise de Oliveira: "Eduardo Lamas é uma revelação na escrita. É acido, sem perder a doçura...achei que isso seria impossível, mas lembrei da maravilhosa mistura do morango com o chocolate: é perfeito! Parabéns pelo belo trabalho. Você está na categoria dos raros."

Fernando Cid: "Cara adorei essa!!! "Deus foi criado pelo homem a sua imagem e semelhança: Ao mesmo tempo piegas e cruel" Gostei muito do livro, abraços!!!!! Parabéns novamente!!!! É o Livro da moda."

Ithamara Koorax: "Lindo e muito tocante. É difícil encontrar as palavras certas nessas horas. Você contorna tantas situações da vida e da morte, da dor, do sangue, enfim, realmente é um Profano Coração. Belo demais. Ficarei relendo e descobrindo novas sutilezas. Gostei muito também da capa e das ilustrações, realmente são sensacionais. Parabéns ao Sóter, cujo trabalho eu não conhecia."

Paula Tavares: "Ser surpreendida por palavras traz um suspiro que a vida vale a pena... Edu obrigada por me surpreender!!!"

Priscila Cardoso: "Profano Coração é uma grata surpresa. São emoções cotidianas, traduzidas em palavras extraordinárias, que nos fazem reviver de forma singular sentimentos outrora esquecidos ou banalizados. Adorei o livro e mal posso esperar pelo próximo!"

Raphael Santos: ""Profano Coração" é um livro que traz poemas de Eduardo Lamas em uma linguagem capaz de cativar os mais gélidos humanos. Com sua poesia direta, objetiva, cortante e, paradoxalmente, cicatrizante Eduardo mostra que é possível arrancar deste órgão os mais belos versos para conduzir a vida em um eterno poema".

Rosângela Aleixo: "Edu, seu livro é maravilhoso! Li e estou relendo com muita alegria! Você merece todos elogios do mundo! Ameiiiiiiiii!!! Parabéns, sucesso!"

Para comprar Profano Coração em versão digital (pode-se ler em qualquer dispositivo: smartphones, tablets e computadores pessoais), clique aqui.

Leia aqui Oferenda (ou Canção de um Ser Dilacerado), um dos destaques de "Profano Coração".

Veja também tudo o que foi publicado no blog em setembro de 2008.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

OS MAIORES JOGOS DE TODOS OS TEMPOS

CRUZEIRO 5 X 4 INTER - TAÇA LIBERTADORES DE 1976

Joãozinho, ao lado da trave, e Roberto Batata, contra Manga, Figueroa, encoberto, e provavelmente Claudio Duarte (2) na espetacular partida da Libertadores de 1976, no Mineirão 

Na tarde de 7 de março de 1976, Cruzeiro e Internacional, que haviam decidido o Campeonato Brasileiro do ano anterior, com vitória colorada, protagonizaram um dos mais sensacionais jogos a que assisti em minha vida. Estava em Olaria, subúrbio do Rio de Janeiro, na casa de meus avós maternos, de olhos grudados na televisão em preto e branco - como nas imagens da TV Cultura que aparecem no programa "Jogos para sempre", do SporTV lá embaixo. 


No fim, nove gols, com o timaço cruzeirense, que acabaria campeão daquela Libertadores, levando pequena vantagem sobre a sensacional equipe gaúcha. Com tantos craques em dia inspirado, como os dois pontas-esquerdas de ambas as equipes, Joãozinho e Lula, é curioso relembrar agora que outros dois estiveram muito mal naquele jogo. 

O zagueiro chileno Figueroa, autor do gol que dera o título brasileiro ao Inter em 1975, falhou feio em dois gols, e o volante Zé Carlos, que fez um gol contra bobo. Porém, ambos já tinham muito crédito com as suas torcidas e encerraram suas carreiras anos depois com saldo mais do que positivo. 

Ficha técnica da partida:
Local: Mineirão
Público: 65.463 pagantes
Renda: Cr$ 793.407,00
Juiz: Luís Pestarino (Argentina)
Gols: Palhinha 4' e 10', Lula 14', Joãozinho 21' e Valdomiro 39' do 1º; Zé Carlos (contra) 6', Joãozinho, Ramón 25' e Nelinho (pênalti) 39' do 2º.
INTERNACIONAL: Manga; Cláudio Duarte (Valdir), Figueroa, Hermínio e Vacaria; Caçapava e Falcão; Valdomiro, Flávio (Ramón), Escurinho e Lula. Técnico: Rubens Minelli.
CRUZEIRO: Raul; Nelinho, Moraes, Darci Menezes e Valderlei; Zé Carlos e Eduardo; Roberto Batata (Isidoro), Jairzinho, Palhinha e Joãozinho. Técnico: Zezé Moreira.

 

GASOLINA NO INCÊNDIO 8

Com "Gasolina no Incêndio" pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis. A oitava questão-provocação é a seguinte: 

Se há tanta peocupação do governo, da sociedade e da imprensa em acabar com a violência nas estradas e ruas, por que não proibir a fabricação e venda de automóveis que atinjam velocidade superior a 120km/h? 

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

ENTREVISTA: NELSON PEREIRA DOS SANTOS*

“O cinema brasileiro é a salvação para a TV”

*Entrevista concedida a Alexandre Arruda e Eduardo Lamas em 2001 para o extinto site "Papo Carioca"

Nelson Pereira dos Santos está para o cinema brasileiro assim como Nelson Rodrigues está para o teatro deste país. Ambos fincaram um marco em ambas as artes, com a genialidade e o pioneirismo, introduzindo uma linguagem ao mesmo tempo brasileira e universal de se fazer cinema e teatro. Não por acaso, foi o xará Pereira quem primeiro levou a obra de Rodrigues para o cinema (“Boca de Ouro”). E também, não pela casualidade, foi um dos poucos cineastas que respeitou a obra do mestre do teatro nas telas. Aos 72 anos de idade, Nelson Pereira não se deitou sobre os louros da glória de ter escrito seu nome na história do cinema e continua trabalhando, criando. E tocando em feridas. Ao contrário do que muitos pensam, ele afirma com a tranqüilidade dos sábios e a sabedoria dos visionários que o cinema nacional não será salvo pela união com a televisão, e sim o inverso. E mais, não se refere somente à qualidade que tanto tem faltado às emissoras de canais abertos, mas também ao aspecto financeiro.

Essa declaração e muitas histórias - como o encontro com Nelson Rodrigues, que ele relata com muito humor - estão nesta entrevista que Nelson Pereira dos Santos concedeu ao PAPO CARIOCA, num fim de manhã calorento em seu apartamento na Zona Sul do Rio de Janeiro. Um dia que pode ser muito bem definido com o título do filme que abriu os caminhos para Nelson Pereira e o Cinema Novo: “Rio 40 Graus”.

A sua obra é bem marcada por tipos regionais, o Cinema Novo principalmente. E um dos grandes vencedores do último Grande Prêmio Brasil de Cinema foi “Eu, Tu, Eles”. O senhor gostou do filme?
- Eu gosto muito. O outro filme do Andrucha (Waddington) também é muito bom, o do Nelson Rodrigues, “Almas Gêmeas”. É muito interessante o filme.
O senhor filmou também Nelson Rodrigues...
- Foi o primeiro filme do Nelson Rodrigues. Em 62. Tem tempo hein...

Inclusive o Nelson reclamava muito dos filmes que eram feitos baseados na obra dele. Ele dizia que deturpavam muito a obra dele. E um dos poucos filmes que ele dizia que foram bem feitos era o “Boca de Ouro”, dirigido pelo senhor.
- É verdade. Embora, quando ele viu o filme ele me disse (imitando o jeito de Nelson Rodrigues falar): “Xará, você puritanizou a minha obra”. (risos)

Houve na época alguma colaboração dele no filme?
- Ele dava inteira liberdade. Inteira liberdade. Eu levei o roteiro para ele ver e ele (novamente o imitando): “Eu não quero ler, quero ver o filme” (risos).

Foi o primeiro filme baseado na obra dele?
- Foi, o “Boca de Ouro”.

Até então nenhuma peça dele tinha sido filmada?
- Não. Tem uma adaptação de um romance em que ele usou um pseudônimo. Foi feito em São Paulo, nos anos 40 ou nos anos 50. Ele tinha um pseudônimo, Suzana Flag. É um filme de um italiano. Como ele se chamava? Rugero Jacob, que fez uma adaptação. Mas não era o Nelson dramaturgo, aquele figurão.

Sobre a sua obra, pode-se dizer que ela sempre teve a preocupação de revelar o Brasil para os brasileiros?
- É, isso é verdade. Já disse isso outras vezes, mas em todo caso vou repetir: sou muito grato à minha geração, a esses autores do século passado, o século XX (rindo), que fizeram a cabeça da gente. Principalmente, a gente encontra na literatura brasileira, autores como os meus conterrâneos Mário de Andrade, Oswald de Andrade; os nordestinos, o Graciliano (Ramos), o Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Lins do Rêgo (José Lins do Rêgo)... E os pintores modernos, Di Cavalcanti, Pancetti... A música, o Villa-Lobos. Você vê que o Cinema Novo é impregnado de Villa-Lobos (rindo). O cinema conseguiu dar um passo no sentido da descolonização. O que já tinha acontecido com a literatura, com a pintura, com a música... O grande exemplo é a Semana de Arte Moderna. A função do Cinema Novo foi exatamente a de começar um processo de descolonização na área do cinema. Vocês se tiverem tempo, se já não viram, os filmes que eram feitos antes do Cinema Novo, com raríssimas exceções, eram totalmente colonizados. Era um cinema sem nenhuma intenção de refletir a nossa realidade. A realidade física, não é.

O “Vidas Secas” é considerado o grande marco...
- Antes de “Vidas Secas”, é o “Rio 40 Graus”, que é de 55.

O “Rio 40 Graus, então, é o primeiro filme que mostrou a nossa realidade?
- Isso, é o chamado Brasil real.

Nelson Pereira divide com Glauber Rocha as honras da criação do Cinema Novo, embora um sempre atribuísse ao outro o título de criador. Enquanto que para Nelson, o Cinema Novo existia toda vez que o baiano Glauber vinha para o Rio, Glauber afirmava que Nelson e Godard (Jean Luc Godard, cineasta francês) eram seus grandes inspiradores. Essas declarações estão na entrevista que Nelson Pereira deu ao jornalista Tonico Mercador, publicada na edição de abril de 2000 da revista “Palavra”.

Nessa mesma entrevista, Nelson Pereira dos Santos disse que em meados dos anos 50 quando chegou ao Rio de Janeiro, vindo de São Paulo, tomou um choque ao conhecer as favelas cariocas. Segundo o cineasta, ele não conhecia até então favela no morro, só “na horizontal”. E ao freqüentar a favela do Jacarezinho, perto de onde ficava o estúdio em que foi morar após ser assistente de direção de Alex Viany no filme “Agulha no Palheiro” e onde era filmado o “Balança, mas não cai” - no qual foi assistente de produção - teve a idéia de filmar “Rio 40 Graus”.

O senhor disse em uma entrevista que a favela naquela época era a mesma coisa de hoje, só inchou, não tem diferença.
- É cresceu, cresceu...

A única diferença é essa, não é?
- Exatamente.

O ambiente, é tudo a mesma coisa?
- A mesma coisa.

Então o senhor concorda com o Zuenir Ventura, no que ele escreve naquele livro “Cidade Partida”, que essa visão ufanista de que nos anos 50 não era assim? Já era, só não era mostrado e era em menor proporção. Seria isso, então?
- É, isso mesmo. Quando eu fiz “Rio 40 Graus”, a população favelada do Rio de Janeiro era de 200 mil habitantes. A população do Rio de Janeiro, 2 milhões de habitantes. Dizem que hoje, 200 mil é só na Rocinha. (ri) Agora não existe mais a favela tal, favela tal, acho que o Rio de Janeiro todo é favelado. Todas as montanhas.

Hoje existe no Rio até a favela horizontal, que não existia naquela época. No Rocha, por exemplo, no viaduto em direção ao Túnel Noel Rosa existe uma favela debruçada sobre a pista.
- É verdade, e no caminho para Jacarepaguá também, na Ayrton Senna. O estúdio é ali no começo da Estrada do Gabinal. No começo dos anos 90, eu fui pra lá, com o negócio do Collor transferi meu escritório para lá. É uma área grande, era verde, e aí começou a ter um barraco, outro, outro, outro... Você passa lá hoje é uma cidade, horizontal.

O senhor disse na mesma entrevista à revista “Palavra”, que quando veio de São Paulo para o Rio (nos anos 50) não conhecia favelas em morro.
- É, era o cortiço...

Agora tem tudo...
- Tem tudo (ri). Quando eu cheguei, a favela estava lá em cima. A população de São Paulo naquela época era de 1 milhão de habitantes nos anos 50, 55.

Agora, voltando ao cinema, o senhor filmou Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Jorge Amado. Quais foram as principais dificuldades e as características de cada um? Por exemplo, “A Terceira Margem do Rio”, que é um filme complicado de ser feito, o senhor juntou cinco histórias (de Guimarães Rosa). Costurar isso deve ter sido muito difícil? E o Graciliano, o senhor pegou um texto só, mas tem toda aquela problemática da meticulosidade do Graciliano.Quais foram as principais barreiras para filmar as obras desses autores?
- Eu não tenho método de trabalho, eu vou trabalhando à medida que vou experimentando a matéria. No caso do Graciliano tenho duas experiências bem diferentes. Em “Vidas Secas”, é uma questão de transpor para a linguagem do cinema, toda aquela questão do ambiente, da luz e do comportamento dos personagens. E o roteiro está praticamente no livro, com poucas invenções. Na realidade são duas invenções, que não têm no livro. Ou melhor, as cenas que eu inventei, que eu acrescentei, estão sugeridas no livro. Melhor dizendo, elas não estão sugeridas, elas estão pensadas, elas não acontecem. Uma é quando ele (Fabiano, o personagem principal) sai da cadeia e tem um grupo de cangaceiros. Essa idéia de entrar no cangaço ele tem dentro da cadeia sofrendo a surra que levou. Ele começa a projetar, aquela coisa da vingança, “eu vou matar aquele filho da puta e vou entrar no cangaço, vou virar cangaceiro, vou arrasar com esses caras todos”. Tudo isso é a revolta dele. E também fazer o que não gosto, e não acho legal fazer, é trabalhar com câmara subjetiva e uma voz em off. Acho que esse é um recurso muito pobre, uma muletazinha. Quando ele vai pensar, aí vem a voz off “bababá bababá” (risos). Essa idéia toda da revolta é concretizada em uma cena, que nasce e se apaga, porque tem a família, as crianças... E toda observação do Graciliano é sempre nesse sentido: ele desce para a realidade humana mais dura...

Mais pesada...
- Mais comprometida com a realidade. O Graciliano foi um revolucionário muito... Digamos assim: ele não era de fumaças. E isso a gente vai ver em “Memórias do Cárcere”, em que ele goza todos os revoltados...

Todas as tendências...
- É, tinha gente querendo fazer a revolução dentro da cadeia. Já perdeu a guerra, já está preso! (risos) E fica brincando... Brincando não, ironizando esse tipo de comportamento. Porque isso é muito ligado a uma realidade dolorosa, pesada, que condiciona o ser humano.

E que ele vivenciou?
- E ele vivenciou isso, conhece bem, não é. Agora, a experiência com “Memórias do Cárcere” foi outra. Foi a de procurar uma síntese. O livro tem quatro volumes e mais de mil personagens e tentei reduzir a um bloco que pudesse contar a história que ele passou e no fundo é uma viagem. A história de “Memórias do Cárcere” é uma grande viagem do cara classe média, nordestino, diretor de instituição pública, que vai parar na mais baixa condição humana que existe na sociedade brasileira. E tudo isso, ele no começo, quando sabe que vai ser preso começa a idealizar a prisão. Começa a comparar como se fosse para um castelo, prisioneiro, a Bastilha. E começa a escrever as memórias, denuncia (ri). E tomas umas cachaças e fica brincando entusiasmado nesse sentido. “Memórias” é uma viagem do intelectual, do personagem filósofo, intelectual, escritor, humanista. Ele passa a enfrentar condições desconhecidas para ele, digo no plano concreto. Ele conhecia na literatura, mas encontrar aquelas condições verdadeiras...

Não tinha sofrido na carne, na pele?
- É, isso... Houve uma dificuldade, porque o livro é muito detalhista, tanto psicologicamente - ele o tempo inteiro se analisa no livro, questiona muito... Isso... a própria condição dele - quanto no ambiente.

Houve uma dificuldade para fazer essa síntese?
- É trabalho, não é. A única dificuldade é trabalho. Houve muitas versões, fazia, refazia, fazia, refazia... Com a grande colaboração do Vereza (Carlos Vereza, ator que interpretou Graciliano no filme) para criar o personagem, porque o ator aí é fundamental. Ele também é uma pessoa que tinha um conhecimento do livro, do Graciliano, da realidade brasileira, das questões sociais. Então ele soube criar o personagem, viver aquele personagem. Aquele personagem foi criado na vivência. Nós filmamos na ordem cronológica do livro, não foi na ordem do interesse da produção.

No filme, há uma inversão cronológica, não é? Que é quando ele sai da prisão. O filme fecha...
- Quando ele sai da prisão, é.

Quando na verdade no livro, ele sai da prisão e acontecem mais fatos...
- E volta...

... o senhor passou para frente. Essa foi uma necessidade mesmo para amarrar o filme, porque já estava longo?
- Não, na adaptação achei melhor para fechar, porque aí ia voltar para a segunda prisão, é uma repetição, não é. Então, os episódios mais importantes eu coloquei antes, para fechar depois no inferno e vai embora. Também com o telegrama do presidente da República... (rindo) Chega, não quero mais! (risos)

E com a “Terceira Margem do Rio”?
- A “Terceira Margem” foi uma tentativa de juntar cinco histórias diferentes entre si, com narrativas diferentes, e juntar numa só, fazer uma só narrativa num filme. Em vez de fazer esse conto, depois outro conto, juntei tentando reunir tudo a partir do núcleo familiar. A menina Dilá. Tem a história dos irmãos Dagoberto, tem a história da vaquinha. Como é que começa essa família, a história da vaca, da vaquinha Pitanga. Então juntei todas, a do famoso pistoleiro, do matador filósofo. Juntei as cinco histórias numa só e foi um trabalho de mesa, de composição literária etc. Agora, o “Terceira Margem” tem um problema de produção, que é uma outra coisa. Uma dificuldade aparece na produção. É o primeiro filme depois do Collor! É brincadeira, pôxa, eu não tinha nada.

E como está hoje a situação do cinema brasileiro, já passado esse trauma collorido? Esse renascimento está mesmo acontecendo?
- Eu acho que está. Está havendo, o número de filmes produzidos e a média está sendo mantida. E isso é um bom sinal, porque quando tem assim uma euforia, cresce e depois cai. Está mantendo firme, trinta a quarenta filmes por ano. Acho que está indo bem. Agora está com os mesmos problemas de sempre: distribuição e exibição. O mercado brasileiro não é para o cinema brasileiro, é para o cinema americano, que ocupa aqui há muitos anos e é uma questão histórica até. Mas na medida que os filmes estão sendo feitos, há um avanço nesse mercado, na participação brasileira. No tempo da Embrafilme, chegou-se a ter uma participação de 35%. Agora, acontece o seguinte, o grande mercado não é mais o mercado das salas, é o mercado da televisão e vídeo. Na televisão, o cinema brasileiro não tem vez. (rindo) Só tem o gueto do Canal Brasil.

Os canais abertos...
- Nem pensar!

No ano passado foi feito “O Auto da Compadecida”, que foi uma experiência. Aliás, o filme não foi feito para o cinema, foi feito para a TV, depois é que se pensou em fazer para o cinema. Parece que haverá um encontro do pessoal do cinema com o da TV para alinhavar essa união. Como o senhor vê isso, é uma boa idéia?
- É fundamental, é fundamental. Eu vou dizer uma coisa: não é a salvação para o cinema não, é a salvação para a televisão. Porque a televisão brasileira está distanciada de toda a cultura brasileira, a televisão aberta. Está distanciada, está ficando no circo. Não quero dizer que não seja cultura também, mas não se tem nenhuma relação, com raríssimas exceções, com a vida cultural. É uma máquina de fazer dinheiro. Ao mesmo tempo, ela está economicamente à beira de uma quebra, porque ela cresceu tanto, produz tudo o que faz, tem 30 mil empregados, então está realmente numa condição muito difícil. E a salvação vai ser terceirizar! E vai terceirizar como? Pelo cinema brasileiro, que tem uma experiência já acumulada, tem condições, tem gente, tem artistas, tem talento, tem tudo, know-how para produzir filmes, espetáculos fora do núcleo televisivo.

Ou seja terceirizar a produção?
- Terceirizar a produção, que continua com a mamata da publicidade. A fórmula de produzir tudo e ter toda a publicidade chegou a um ponto que a produção está custando mais caro que a renda da publicidade. Então é possível que esse acordo vá ser feito e vai ser vantajoso mais para a televisão do que para o cinema. Embora para o cinema vá ser muito vantajoso... E se essa conversa está rolando é porque eles estão precisando. Porque se não precisassem, estaria a mesma coisa até hoje. Quer dizer, filhos da ditadura acumularam grana, como a Varig etc, ficaram no bem-bom, protegidos pelo Governo a vida toda. A verba de publicidade do Governo é enorme, não é isso?

E agora estão sentindo...
- Agora tem que dividir o prejuízo. Então, acho que vá ser um momento importante, apesar de que a televisão é muito comprometida com o cinema importado, o cinema americano basicamente. Você vê, a quantidade de filmes que cada uma delas exibe de filmes americanos é muito grande. Na realidade, a televisão no Brasil nasceu como uma exibidora de filmes americanos.

Até as próprias novelas quando começaram aqui eram com histórias de fora...
- É, o horário nobre era série americana, o detetive não sei quantas... Então, a novela tem essa grande função. Antes ela era colonizada, depois deu uma virada, com Bráulio Pedroso, Dias Gomes... Nacionalizou a dramaturgia. Nacionalizou no bom sentido, quer dizer, abrasileirou a dramaturgia.

Teve uma época em que a televisão produzia muita minisérie baseada em obras de escritores brasileiros. E a partir da década de 80 até meados de 90 diminuíram muito. Reclamavam que a produção estava ficando muito cara e por isso estavam fazendo pouco. E agora pode retornar a esse tipo de produção com o pessoal do cinema, não é?
- Eu acho que o momento é importante nesse sentido. Acho que o cinema vai realmente começar uma nova fase, de auto-suficiência. Porque a relação com o Estado é a pior que existe, porque o Estado deu e depois tirou. (rindo) Deu porque os militares precisavam de uma relação com a cultura, aí eles perguntaram: “qual é o mais fodido de vocês? É o cinema? Ah, então vem cá, vocês agora e tal, Embrafilme não sei quê e tal...” E o segundo presidente militar da Embrafilme queria acabar. O Geisel criou e o Figueiredo queria acabar (ri). Não demorou muito e foi fritando a Embrafilme. Foi fritando, fritando até chegar o Collor e jogar fora.

Quando chegou no Collor já estava praticamente inviabilizada?
- Estava . Não tinha mais a mesma função de quando começou.

Na época da Embrafilme, a distribuição era mais fácil de ser feita?
- Porque a Embrafilme bancava a distribuição.

E o grande problema de hoje é esse, não é?
- Ainda é. De distribuição e basicamente de... Quer dizer a distribuição depende do exibidor. Os exibidores são filhotes dos americanos, eles têm a programação deles garantida para o ano todo. “Olha, você tem o Titanic, mas você tem que exibir...”. Isso é velho, isso é antigo, rola isso sempre...

Mas mesmo essa distribuição na época da ditadura, que era muito grande, era nesses padrões, ou seja: “você tem que passar o filme nacional, bom ou ruim, tem que passar”. Isso também não ajudou a criar um...
- Isso é horrível! A obrigatoriedade é contraproducente. Não interessa de jeito nenhum, porque também cria um gueto...

Só inverte a situação...
- Só vai fazer com que os filmes mais, vamos dizer assim, os filmes mais oportunistas tenham vez. A obrigatoriedade foi usada para passar filme pornô. Eram 180 dias obrigatórios, desses 180, acho que mais de cem eram para passar os filmes pornôs que na sua grande maioria eram produzidos pelos próprios exibidores. O que rolava era isso. Dessa série de pornôs até que saíram bons filmes, bons diretores trabalharam lá.

Está sendo anunciado o que dizem ser uma revolução no cinema com o fim da película, com a imagem digital. Vai acabar mesmo a película, o que o senhor acha, é uma revolução mesmo ou só um desenvolvimento normal?
- Olha, várias revoluções já aconteceram. Eu me lembro do Super 8, que diziam que ia acabar com o 35 (milímetros), “é a liberdade do cineasta etc”. Isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde, o digital vai ganhar o seu espaço. E muitos filmes já estão sendo feitos assim. É uma grande vantagem, diminui a equipe, diminui custos, dá uma liberdade, um diretor com mais dois pode fazer um filme. Ou um documentário. Essa liberdade de criação vai ser bastante, vai ser maior.

A questão técnica da imagem, tem diferença?
- Eu acho que é muito pouca a diferença. Vamos comparar com a pintura: você tem o seu filme ou o seu quadro, um vaso de flores, você pode fazer uma aquarela. Vai usar em sua casa, você usa aquarela e um papelão, peças básicas. Agora se o seu quadro vai ser um mural no palácio não sei das quantas, você não vai fazer uma aquarela, porque vai desaparecer com o tempo. Você tem que fazer algo que possa durar tanto tempo quanto os muros do palácio. Aí vai usar tudo. Usa o principal, a base mais forte por enquanto é o 35 milímetros ou então aquele filme dos astronautas - você tem o espaço assim, um negativo fantástico... Daquele negativo você pode fazer tudo, faz 16, faz Betacam, vai embora. Ele reproduz em todos os sentidos. O digital que está sendo iniciado, ele tem essa qualidade próxima do 35. Faz tudo em digital e depois “cinescopa”, porque os cinemas ainda estão funcionando com películas, as salas, evidente.

Elas têm de se adpatar também... A câmara digital fica como base só para passar depois...
- Exatamente. A pedra é a seguinte: realmente eu acho que tem um passo adiante que é voltar o cinema a ser feito por quem cria. E não o cinema ser feito por quem faz captação de dinheiro, pelo fulano de tal. E sim por quem está perto da área da criatividade: o produtor, o diretor, o escritor, o ator. Isso é muito mais fácil ter o poder da realização. O digital permite isso.

Há um tempo houve um debate no GNT, o José Mojica estava presente, e eles chegaram à conclusão que quem faz cinema é quem consegue recurso, não é mais quem cria. O senhor falou que hoje a produção de filmes está sendo muito grande, mantendo uma média anual. Mas e a qualidade?
- Quantidade nem sempre é sinônimo de qualidade.

Se o cinema está sendo feito basicamente somente por quem capta recursos, a qualidade deve estar caindo, o senhor acha isso?
- A qualidade vem com a quantidade. Em cem filmes, você vai ter condições de fazer dez filmes de qualidade. Se você fizer dez, vai ter condições de fazer um filme de qualidade. É muito difícil você encaçapar dez a dez. Essa é a experiência mundial, em todas as produções do mundo. Você tem que arriscar, em cinema ninguém sabe se o filme vai ser bom ou não. Em mil casos... “Aqui, esse é o melhor diretor, esse aqui é o melhor escritor, esse é o ator mais nhenhenhém, esse é o fotógrafo...” Junta aquilo tudo e dá um nada. (risos)

Dá um time dos sonhos do Flamengo (referência ao ataque formado nos anos 90 por Edmundo, Romário e Sávio que acabou não dando certo)...
- É, é. E há muitos casos assim, muitos, aqui no Brasil também, não vou citar, mas houve muitos casos do fracasso programado. (risos) Acho que também nem é filme para dar dinheiro, nem é filme que agrade às pessoas, que tenha sucesso de estima, né, nada (risos). Agora, de repente, aparece alguém assim, vem um jovem, junta aqui, junta ali e sai uma coisa nova. Eu acho que o espírito de invenção e pesquisa tem de permanecer e só permanece em quem está arriscando, a quem não tem nada a perder. O cara que bota dinheiro, ele está querendo segurança, ele só vai pelo que é convencional.

E aí não muda.
- Não muda, é o caso do cinema americano...

... que é a mesma coisa há muitos anos.
- Agora tem uma grande produção americana que a gente não conhece. Os independentes, a produção alternativa, é muito importante. Onde tem esse grande, tem o pequeno; onde tem o convencional, tem o transgressor. Realmente se você passar um tempo nos Estados Unidos e for estudar o cinema americano no seu todo, com todos os seus afluentes, você vai encontrar coisas muito interessantes.

Novas...
- Novas.

Mas que não chegaram aqui.
- Mas que não são consideradas comerciais. A produção lá é grande fora do esquema das majors.

Fora do esquemão, né? E o projeto do senhor de filmar a vida de Castro Alves?
- Ficou inviável, porque ficou muito caro, né. Então eu cancelei o projeto e os recursos que eu havia captado para o Castro Alves eu passei para fazer o “Casa Grande” (& Senzala, baseado no livro de Gilberto Freyre). E é muito difícil nesse momento se pensar em filme com lançamento muito grande. Era um filme que tinha um lançamento em torno de 5 milhões de dólares. Não é nada no mundo, mas no Brasil é muita grana. Para captar isso... Quando o real era equivalente, e a gente viveu essa ilusão um tempo, ainda era possível, mas depois nem pensar. Por enquanto não tenho nenhum projeto definido. Aliás, tenho muitos projetos, mas não tenho nenhuma decisão ainda.

O “Casa Grande” vai passar só na televisão ou vai passar no cinema também?
- Não sei ainda, depende. Porque o investimento para fazer uma versão para o cinema é muito grande. Nós não temos. Dependendo do sucesso na televisão, pode ser que se faça. Tenho uma proposta da televisão francesa, de fazer uma versão mais reduzida, de uma hora e meia.

E no total ele tem quanto tempo?
- Quatro horas. São quatro episódios de uma hora.

E aí se reduziria para uma hora e meia?
- Uma hora e meia. E isso aí tem um custo, tem que remontar. Se fizer em uma hora e meia para televisão já ficaria para o cinema.

Mas agora uma produção dessa de quatro horas passar para uma hora e meia seria um corte monumental.
- É complicado, difícil. Agora, ainda nem pensei como faria isso, nem sei se vou fazer. Mas é muito difícil realmente, porque são quatro episódios. O primeiro é a vida do Gilberto Freyre. Não é bem a biografia dele, mas a gênese do livro, como ele escreveu. Depois é um sobre o índio, outro sobre o português e sobre o negro. E cada episódio desse tem o professor que é o narrador e uma aluna, que acompanha. E é diferente. No primeiro é uma brasileira, um produto miscigenado brasileiro; no índio é uma negra; no português é uma índia; e no negro é uma portuguesa loira, de olhos azuis. Então para fazer uma hora e meia (risos) vai ser complicado. Não sei, realmente.

A filmagem em quatro capítulos de “Casa Grande & Senzala”, de Gilberto Freyre, para o canal GNT, começou a ser exibido em abril de 2001. “Ele deve ser lançado com uma grande festa em Pernambuco um pouco antes de ir para o ar”, informa Nelson Pereira dos Santos. Homenageado recentemente pelo segundo Grande Prêmio Brasil de Cinema, o cineasta estava feliz com o reconhecimento ao seu trabalho (“veio na hora certa”), embora naquele mesmo dia fosse sofrer uma cirurgia por causa de catarata nas vistas, que o impediam de, por exemplo, ler as matérias dos jornais. “Só consigo ler as manchetes. Mas é até bom porque assim não leio as besteiras que saem”, diz rindo.

Queríamos saber por curiosidade, para finalizar, qual é a cena mais antiga que o senhor tem na sua memória relacionada ao cinema.
- Uma vez estava brincando sobre qual é o primeiro filme que você viu. Isso é engraçado, realmente, eu me lembro que eu disse um filme que me veio à cabeça, mas logo minha irmã disse que “não, esse filme você viu depois. O primeiro foi um assim, assim”, mas o “Cara Pálida” realmente era um western fantástico. O cara no fim do filme tem que voltar para a cidade dele e tem que atravessar um deserto e a água acaba e ele encontra um poço e tem assim: “essa água é envenenada, se você beber essa água você só vai viver mais uma hora”. Mas como ele quer voltar para encontrar a noiva dele, ele bebe a água, porque calcula que vai chegar para ver a noiva e morrer. Quando ele chega está todo mundo na igreja. E ele vai para igreja e o que é? A noiva dele está se casando com outro e ele morre. (risos) É um romântico pessimista, bem puritano. Depois eu fui recompor a história, mas o que ficou mesmo foi a coisa de beber ou não beber a água.

Essa foi a imagem que ficou.
- Essa foi a imagem. Aquele poço assim. (rindo)

Isso foi em São Paulo?
- Foi, foi em São Paulo.

O senhor ainda se lembra do cinema?
- Ih, deve ter sido o cinema que o meu pai todo domingo levava a família.

Qual era o bairro?
- Era o Brás, no cinema chamado Cinema Columbo. Acho que era um filme mudo. Devia ser um filme mudo.

Foi na década de 30 ou 40?
- Na década de 30, no começo dos anos 30. Eu nasci em 28. Quer dizer, minha mãe dizia que eu já ia ao cinema na barriga dela. (risos)


Foto de Nelson Pereira dos Santos: Júnior Aragão

Imagens: Cena do filme "Boca de Ouro" e cartazes dos filmes "Rio 40 Graus", "Vidas Secas" e "Memórias do Cárcere".

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O PAPA DO ATEÍSMO

Li recentemente no jornal “O Globo” uma entrevista do biólogo Richard Dawkins, defensor ferrenho e propagador do ateísmo. Antes já soubera que ele fora um grande sucesso na mais recente Flip - Feira Literária de Paraty (RJ). Para quem é ateu e já escreveu um artigo, publicado na seção de cartas da revista “Caros Amigos” poucos dias depois do trágico 11 de setembro de 2001 sob o título “Esqueçam Deus”, sinto-me inteiramente à vontade para criticar Dawkins por vários aspectos de seus pensamentos e ideais.
Primeiramente, a presunção preconceituosa de que ateus são mais inteligentes do que religiosos. É tão estúpida a afirmação que nem vou me alongar muito sobre ela. Desconsiderar a inteligência daqueles que buscam entender a vida por outras vias - não falo dos comerciantes da fé, muito menos dos senhores das guerras santas, que fique bem claro – digamos menos concretas, visíveis, daqueles que estudam o obscuro, o misterioso, e ainda chamar a Bíblia de “livro horrível”, é de uma sandice atroz. Você pode se opor aos dogmas religiosos e ao criacionismo, aqueles que instituem como verdade única a sua crença. Mas o que faz Dawkins? O pensamento deste biólogo esconde sob um véu transparente que nada oculta exatamente um dogma que pode ser considerado uma nova religião. Muito bem perguntado sobre isso, se não estava fundando uma pseudo-religião com sua insistente propagação do ateísmo, ele fugiu da pergunta dizendo: “Nós não precisamos de uma religião”.
Dawkins é também defensor voraz da razão, parece desprezar qualquer ação movida com emoção e desconsiderar a existência de motivações sem razões aparentes ou acasos, coincidências, destino ou poesia (cada um que chame como quiser). Tudo, para ele, é preciso explicar à luz da razão. Como creio na dualidade, na extrema sabedoria do I Ching (yin e yang), não concebo separação entre razão e emoção. É monolítico o pensar apenas sem o sentir, como seria sentir sem pensar. Creio no desequilíbrio dentro do equilíbrio e vice-versa. Como bem disse Raduan Nassar por intermédio de um personagem de “Lavoura Arcaica”: “em toda ordem há uma semente de desordem”.
O biólogo se mostra obcecado pela verdade, diz que apenas quer descobrir a verdade, mas não consegue se dar conta que não existe a verdade. Dawkins pode entender muito sobre o evolucionismo, sobre o ser humano como corpo, mas quando despreza as religiões, a necessidade da idéia de Deus, que a fé numa força superior salvou muitos de sucumbirem (desde que o Homem é Homem) e que isso não quer dizer necessariamente que represente ignorância, mas pelo contrário, pode ser uma forma bastante inteligente de se salvar, e que sem ela a sociedade seria ainda mais caótica do que é, não tem a menor noção dos desejos e das necessidades humanas.
Um cientista que quer ver o mundo apenas à luz da razão, que desconsidera as sombras que toda luz inevitavelmente produz, está se cegando com ela, está pronunciando meia verdade. E meia verdade é mentira inteira.
Veja também:
tudo o que foi postado em julho de 2008
"Profano" conquista corações
Monólogos 6 (Muito Próximo da Lucidez e da Loucura)
Futebol-Arte: Os Maiores Jogos de Todos os Tempos

Gasolina no Incêndio 8
Os bichos vão se rebelar

sexta-feira, 19 de junho de 2009

ESMOLA OFICIAL


"Eu tenho um sonho que um dia esta nação se levantará e viverá o verdadeiro significado de sua crença - nós celebraremos estas verdades e elas serão claras para todos, que os homens são criados iguais...

"Eu tenho um sonho que minhas quatro pequenas crianças vão um dia viver em uma nação onde elas não serão julgadas pela cor da pele, mas pelo conteúdo de seu caráter. Eu tenho um sonho hoje!" (Martin Luther King, em 28/8/1963)


O sistema de cotas para negros nas universidades é a assinatura oficial do Estado brasileiro no atestado de racismo e de falência do ensino público e gratuito. O governo assume oficialmente, portanto, duas facetas da sua perversão, mas não para corrigi-la, e sim agravá-la. É como um réu confesso que recebe como pena continuar a praticar os crimes dos quais sempre fora acusado.
Por que o sistema de cotas foi criado? Para reparar injustiças ou jogá-las para debaixo do tapete? Porque o negro (de definição complexa num país mestiço como o nosso, “chovo” no molhado), que representa a maior parte da população miserável brasileira, continuará não tendo acesso às escolas e, quando tiverem, continuarão freqüentando escolas públicas cada vez mais vilipendiadas, sucateadas, programadas para valorizar as particulares e na dependência do amor de quem trabalha quase de graça e do voluntariado para sobreviver. Aliás, voluntariado este que surgiu espontaneamente devido à inoperância do Estado, que passou a usá-lo para fazer campanha política e encher de números favoráveis as estatísticas da Unesco, enquanto continua remunerando muitíssimo mal e, conseqüentemente, formando pessimamente os professores atuais e futuros.
A incompetência, a inoperância, a arrogância, a hipocrisia, a indolência, a ignorância, assim como todos os seus antônimos, não escolhem raça ou cor. Quantos negros que renegam a sua raça e a sua cultura não estão agora se "pintando" de negros? Quantos negros que jamais passarão pelas universidades, mas continuarão a ter grande influência sobre a população (como cantores e jogadores de futebol) permanecerão ignorando a sua própria História?

Por outro lado, qual é a porcentagem de negros nas plataformas mais altas das grandes empresas? E nos governos? Na presidência das escolas de samba, maior das ironias? Ínfima, quase zero, respondo sem medo de errar. Qual a porcentagem de negros na mendicância, colhendo alimentos nas lixeiras, no crime organizado e desorganizado, pousados na base cada vez mais larga dessa pirâmide social hierarquizada militarmente, no subsolo das empresas que seguem o mesmo sistema de patentes? Quase a totalidade, diria eu.
E quantos de nós, brasileiros tidos como brancos por aqui (porque no exterior seremos sempre negros ou índios, como verdadeiramente somos), não temos, apesar de renegar consciente ou inconscientemente, uma grande porcentagem de negritude? E o indígena, verdadeiro dono desta terra (e não os Orleans e Bragança que são mantidos por um imposto tão antigo quanto absurdo e que ninguém ousa questionar)? Infelizmente, o índio e o negro têm muito pouco de sua cultura preservada, graças a essa civilização pasteurizadora de comportamentos e culturas, processo também tão antigo, quanto absurdo.
A pseudo-democracia deste país é um sutil sistema de dominação que impõe a cultura que interessa aos dominadores, os detentores do capital e dos votos viciados de uma população cada vez mais adestrada para ser ignorante. A "democracia" teoricamente dá voz (voto) a todos, mas essa voz é afinada pelo diapasão do dominador, pois ela só repete o que se ouve e vê. E o que se ouve e vê é tão somente tudo o que o seu mestre mandar. E vamos obedecendo cegamente.
Recuso-me a aceitar um sistema que qualifica as pessoas pela cor de sua pele, recuso-me a aceitar, enfim, esse sistema de cotas, que não passa de uma esmola oficial, que mais se vinga e segrega do que repara. Enquanto aceitarmos esmolas de todos os tipos de governos eles continuarão dormindo de consciência tranqüila, sem cumprir os seus deveres. Prefiro fazer barulho embaixo da janela dessa gente!
Para terminar: se está na Lei deste país que é crime privilegiar ou discriminar alguém pela cor da pele, o que é a cota racial?
A ilustração foi tirada de outro blog (chamado Casa da Mãe Joana), onde não havia crédito.
A base deste texto foi escrita logo que as cotas começaram a ser aprovadas, no governo do presidente anterior.
Veja também:
Os bichos vão se rebelar

sexta-feira, 22 de maio de 2009

GASOLINA NO INCÊNDIO 7

Com "Gasolina no Incêndio" (agora também no orkut, clique aqui) pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis. A sétima questão-provocação é a seguinte:
Para o ciumento, o ser possessivo, o que os olhos não vêem, a cabeça inventa e o coração não agüenta.


Vídeo: O Ciúme, com e de Caetano Veloso (a imagem não está boa, mas o som está, e é o que interessa)
Veja também: Gasolina no Incêndio 5
O Espírito dos Insensatos
"Profano" conquista corações
Monólogos 6 (Muito Próximo da Lucidez e da Loucura)
Futebol-Arte: Os Maiores Jogos de Todos os Tempos

Gasolina no Incêndio 8
Gasolina no Incêndio 9

quarta-feira, 6 de maio de 2009

Resultados das enquetes

"O que você acha do voto nulo num país em que é obrigatório votar?" só recebeu três votos. Dois (66%) foram para a resposta "Uma justa e eficiente forma de protesto" e um (33%) para "Uma forma de entregar o poder aos mesmos de sempre". "É apenas uma maneira de se abster de opinar" e "Essa possibilidade não deveria existir no voto eletrônico" não receberam voto.

Sobre a pergunta "Você é dono de um jornal de bairro e descobre que seu principal anunciante comete várias irregularidades, o que você faz?", a maioria (quatro pessoas, 66%) votou em "Publico matéria denunciando as irregularidades, sem deixar de ouvir a explicação do anunciante" e duas (ou 33%) votaram na opção "Simplesmente cancelo o contrato com o anunciante, mas não publico nada a respeito". As outras três alternativas ("Deixo pra lá, afinal não dá pra continuar com o jornal sem a grana do anúncio", "Só publico matéria depois de conseguir um anunciante que o substitua" e "Publico matéria só com a versão do anunciante para não dizerem que o assunto não foi tratado no jornal") não receberam voto.

Houve unanimidade na enquete "Se você fosse (ou é) um fotógrafo ou cinegrafista e visse uma pessoa se afogando ou em grande perigo, com poucas chances de se salvar, o que você faria?": 11 pessoas votaram na opção "Largaria tudo e tentaria salvá-la ou buscar o auxílio de alguém para salvá-la.". A inspiração veio de uma seqüência de fotos publicadas nos meios de comunicação tempos atrás, em que uma mãe tentava salvar o filho de um afogamento. Aquele fotógrafo optou na hora pela opção "Agiria profissionalmente e faria o seu trabalho de registrar a imagem de um drama humano", mas pode ser que aqui ele marcasse a opção humanamente correta.

Sobre a pergunta "O que você acha das cotas raciais nas universidades e escolas do Brasil?", a maioria (cinco pessoas, 55%) votou em "Uma aberração, pois são no fundo racistas e só vão acirrar as discriminações" e duas (ou 22%) votaram na opção "Muito justas, pois ajudam a corrigir desigualdades históricas provocadas pelo racismo" e na "Somos um país mulato, melhor seria instituir cotas por renda familiar". A outra alternativa ("Não sei, tanto faz") não recebeu voto.

Sobre a pergunta "Se o seu time ganha um título com um gol claramente irregular, você...", 40% (quatro) votaram nas opções "Comemora constrangido" e "Não comemora", 20% (um) votaram em "Comemora normalmente". Ninguém votou na opção "Comemora ainda mais".

Com relação à pergunta "Se o seu time ganha um título com um gol claramente irregular, você...", 40% (quatro) votaram nas opções "Comemora constrangido" e "Não comemora", 20% (um) votaram em "Comemora normalmente". Ninguém votou na opção "Comemora ainda mais".

Na questão "Lula culpou banqueiros de pele branca e olhos azuis pela crise econômica global. O que você acha da afirmação?", 53% (sete) votaram na opção "Ele foi infeliz" e 15% (duas) em cada uma das seguintes opções: "Ele está certo", "Ele foi racista" e "Ele disse o que seus assessores mandaram dizer".

Para a pergunta "O que você acha da pena de morte?", todos que votaram (quatro, ou 100%) se disseram completamente contra. As outras opções eram "Sou a favor somente para crimes contra crianças" e "Sou completamente a favor".

A pergunta foi "Qual a sua opinião sobre o voto obrigatório?". A maioria (cinco ou 62%) votou na opção "Uma aberração, isso não é democracia"; duas pessoas (25%) escolheram a opção "Extremamente útil, pois só assim o povo exercitará sua cidadania"; uma (12%) optou por "Agora sou contra, mas já teve a sua utilidade", e ninguém marcou a opção "Tanto faz: anulo, voto em branco ou não vou lá e pago a multa".

Sobre a pergunta "O que você acha da realização da Copa do Mundo de futebol no Brasil, em 2014?", a enorme maioria (88%, ou oito votos) respondeu que "Será um prato cheio para políticos e empresários encherem o bolso com dinheiro público", e 11% (ou um voto) escolheu a opção "Será uma grande oportunidade para mostrarmos que o país pode realizar megaeventos como este". Não houve voto para as respostas "Será mais uma grande festa do futebol, como sempre" e "Será um fracasso, o Brasil não tem condições de organizar um megaevento como este".

"O mais importante é a democracia. Prefiro um senador corrupto a um Congresso fechado. Quando começa uma desmoralização política que chega a esse ponto, começam rumores: Então pra que serve isso? O importante é o Congreso funcionar melhor" (Marieta Severo). Para esta afirmação, 75% (ou três pessoas) marcaram a opção "A atriz está certa, é preciso defender a democracia a todo custo e melhorar o nível dos parlamentares com voto consciente", e 25% (ou uma pessoa) votou na alternativa "A atriz está equivocada, é preciso acabar com o Senado e manter apenas a Câmara dos Deputados". As opções "A atriz está completamente equivocada, é preciso fechar o Congresso e limpar essa sujeirada nacional" e "A atriz está certíssima, só quem sofreu na ditadura militar sabe o que é um Congresso fechado, a censura e o horror das torturas" não receberam votos.

Houve unanimidade na enquete com a questão "Um profissional deve fazer tudo o que seu chefe mandar. O que você acha disso?". Todas as dez pessoas que votaram optaram pela alternativa "Eu me recusaria a fazer algo que ferisse uma lei ou mesmo a ética". As outras foram: "É preciso ser profissional acima de tudo"; "Só se deve fazer aquilo que julgar importante e necessário", e "Não faria algo que ferisse uma lei, embora eticamente pudesse não ser correto".

"O que de pior existe na música brasileira atual?" A maioria considerou "A promiscuidade violenta do fânqui carioca", com quatro votos, ou 80%. Apenas uma pessoa votou (20%) em "A aeróbica coreografada do axé baiano". Ficaram sem votos as seguintes opções: "A pseudo-malandragem do hip hop", "A louvação açucarada do gospel", "O duplo esganiçamento vocal do sertanejo", "A pasteurização do forró eletrônico", "A deturpação do samba pelo pagode paulista" e "A pseudo-intelectualidade de protesto do rap". Houve mais opções que votos.rsrs

À pergunta "O que você achou do grupo do Brasil na Copa do Mundo de 2010 (Coreia do Norte, Costa do Marfim e Portugal)?" apenas três pessoas responderam. Sendo que duas (66%) acredita que é "Difícil, mas a seleção se classifica em primeiro" e uma crê que será "Mole, a seleção vence os três jogos". Ninguém optou pelas alternativas "Muito difícil, a seleção se classifica em segundo" e "Ih, ferrou, a seleção vai dançar".

"Você levaria Ronaldinho Gaúcho para a Copa da África do Sul?": duas pessoas (66%) responderam que "Sim, mas para ficar no banco como opção.", e uma (33%) optou por "Não, ele já teve as suas oportunidades e não as aproveitou." Ninguém respondeu "Claro, craque sempre tem vaga na seleção", nem "De jeito algum, ele nunca jogou na seleção o que joga nos clubes."

"O que você mais gosta de ler?": Poesia, três votos (60%); Romance/Ficção e Conto, dois cada um (40%); Crônica, História em Quadrinhos, Biografia/Autobiografia/Perfil, Filosofia, História e Outro, um cada (20%), e Ficção cientíca e Noticiário, zero.

terça-feira, 21 de abril de 2009

DIA 1º DE MAIO ESTAREI DE PRETO. E VOCÊ?


"Tartarassa ni voutor
no sent tan leu carn puden
quom clerc e prezicador
senton ont es lo manen."
(Urubus e abutres não farejam carniça fedorenta tão rápido quanto clérigos e políticos farejam a riqueza)
Este é o início de um poema do trovador provençal Peire Cardenal (?1180 - ?1278), cuja música, chamada "Tartarassa ni Voutor", foi gravada pelo grupo Anima no CD "Espiral do Tempo".

Caros(as),
o 1º de maio, dia do Trabalho, foi escolhido pelas autoridades municipais, estaduais e federais para ser a data da visita dos membros do Comitê Olímpico Internacional (COI) à maltratada cidade do Rio de Janeiro. Com o mesmo discurso dos anos anteriores ao Pan de 2007, as autoridades vêm dizendo que as Olimpíadas de 2016 serão importantíssimas para o Rio pelo legado que deixará para a cidade e para o país. Bom, o mais alienado dos brasileiros, mesmo aquele que se esconde nos confins do mato mais denso que existe nesta terra, sabe que o legado deixado pelo Pan foi uma série de obras hiper-faturadas, construções sub ou inutilizadas, de muitas e deslavadas mentiras (como a do metrô na Barra) e muita grana no bolso de autoridades. Já começou uma campanha para que o povo do Rio vista verde e amarelo no dia 1º. Eu, mesmo idiotamente sozinho, estarei de preto, de luto por toda a já histórica e cultural roubalheira descarada das autoridades deste país com a nossa ingênua e passiva contribuição. É apenas um gesto, mas que se ganhar vulto (sombrio para os poderosos) mostrará que não somos macacos de auditório, nem claque para ficar batendo palmas pros malucos dançarem com a nossa grana e nossa cara de idiotas. Se você aceita participar deste protesto silencioso e contundente que também é contra toda a roubalheira cínica dos congressistas deste país, faça-a circular por todos os meios que puder.
Atenciosamente,
Eduardo Lamas.
Obs.: no dia 1º de maio o blog mudou sua cor de fundo para preto para ficar vestido à caráter contra os que não possuem caráter.
Ilustração: criação de Elizabeth M. Dias.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

A JUVENTUDE CONSERVADORA

"...mas é essa a juventude que quer tomar o poder?... Se vocês forem em política como são em estética, estamos feitos...” (Caetano Veloso, em 1968)

É uma pena que Caetano não seja mais o mesmo, se é que foi mesmo quem pensamos algum dia. Mas os jovens de um modo geral continuam tão conservadores como sempre, repetindo os erros de seus pais (“...minha dor é perceber, que apesar de tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais...”, Como nossos pais, Belchior). Mesmo os movimentos de liberdade, paz e amor dos anos 60 revelaram mais tarde a verdadeira cara de muitos daqueles jovens hippies: a de yupie. E eles acabaram tomando todas as formas de poder, demonstrando que aquele Caetano estava certo.
Hoje, quem tem mais de 35 anos dificilmente encontra um emprego, porque as vagas estão nas mãos de jovens que pensam que não envelhecerão jamais. Era bom que envelhecessem logo, como Nelson Rodrigues clamava já em plenos 60. Gente sem história para contar está decidindo os rumos de uma geração vazia de idéias e ideais, fingindo mudar só para nada mudar; alguns se travestindo de diferentes, mas como um todo exercendo o poder, ou se submetendo a ele, da forma mais torpe, vil possível.
Outro dia falei dos senhores da guerra que mandam matar sem ódio. Pois é, os que exercem os pequenos poderes é que estão legitimando a existência desses inescrupulosos jovens senhores. Mas a questão não é só de idade, como pode parecer. É o poder! Porém prefiro me ater ao pequeno poder, pobremente (ou “podremente”) exercido por quem tem um bloquinho de multas na mão, um volante a sua frente, um apito na boca, uma caneta para punir, um martelo para julgar, um jornal para escrever. Ande pelas ruas desta e de outras cidades e observe como o fazem de forma impiedosa, revelando claramente o que fariam com um país, o mundo inteiro se os tivessem que governar.
Como podem clamar por justiça no fim das contas? Mas não sou pessimista, vejo chances naqueles que têm a sabedoria de abrir mão do podre poder, por menor que ele possa parecer. E que não usam a vingança para se impor. E que ainda questionam e se questionam. E que não ficam esperando por líderes, heróis, ídolos para caminhar.
Os que insistem em manter uma posição outorgada sabe-se lá por quem, continuarão se sentindo enormes, gigantescos, mas somente por algum momento, porque logo, logo perceberão que são tão pequenos quanto os poderosos nos quais se espelham.



Vídeo: "Como Nossos Pais", de Belchior, com Elis Regina

Veja também tudo o que foi publicado em março de 2008

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

NAU POESIA: CHORINHO

Sílabas cortadas
metades de meias-palavras
meias-palavras sopradas
meias-palavras tragadas
frase golfada
frase engolida

Dedo pedindo silêncio
dedos equilibristas bailando
língua sem freio, boca sem céu
finos lábios vibrantes

Saliva, gengiva
quase sorriso, sorridente,
risinho
Rosto contorcido, dentes
quase choro, choramingo,
chorinho.

Ilustração de Sóter França Júnior

Veja também:
Nau Poesia: Amores
Nau Poesia: Nada mais
Chorinho no Lamascast


Obs.: Esta poesia foi republicada no dia 6 de agosto de 2023.

Vídeo: "Santa Morena", de Jacob do Bandolim, por Trio Madeira Brasil


Esta poesia faz parte do livro "Profano Coração", o de estreia de Eduardo Lamas Neiva. A obra está à venda na Amazon do Brasil e de mais 12 países na versão digital (ebook). Caso queira adquirir o seu na amazon.com.br, é só clicar aqui.

Veja também:



UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #47

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46 Garrincha e Pelé, durante a Copa do Mu...

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