terça-feira, 7 de junho de 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

quinta-feira, 19 de maio de 2011

BELEZA E CAOS: ARTE EM TODA PARTE

Diz-se dos artistas de um modo geral e dos poetas especificamente que eles têm uma proximidade muito grande com assuntos que dizem respeito ao divino, que enxergam o invisível, o abstrato, a alma das matérias. Disse o americano Ezra Pound, com toda autoridade que lhe é conferida pela sua obra, que o poeta é a antena da raça. Muitas poesias e obras literárias anteciparam acontecimentos, ou revelaram algo que ninguém – ou quase ninguém - podia ou conseguia enxergar.

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Entrevista: Nelson Pereira dos Santos
Anna Karenina: cinema, teatro, música, dança, literatura


A beleza e também o horrendo – por que não? – estão à nossa volta o tempo inteiro. Talvez seja melhor dizer a ordem natural e o caos, que tanto podem produzir o belo como o horror. Depende de como se veja. Estão em toda parte, concreta e abstratamente, talvez em maior quantidade e intensidade no mundo em que olhos nus não alcançam.
A Física já se aproximou muito da arte e da espiritualidade como já nos mostrou Fritjof Capra. Não existe divisão, departamentos, seções, classificações na natureza. Tudo é um todo. Quem divide, departamentaliza, secciona e classifica é o homem, que facilita seu entendimento, mas se esquece que uma parte não vive sem a outra, que uma interfere na outra, mesmo sem conexões plausíveis, proximidades. É como aquilo que um dia li em algum lugar (já não me lembro quem disse ou escreveu): “uma batida de asas de uma borboleta na América pode ser o princípio de um vendaval na Ásia”.





A vida ainda traz muitos mistérios que o homem nem ousa chegar perto, mesmo os cientistas mais aclamados ou santos e sacerdotes mais próximos do que chamam Deus. A vida está em constante movimento, produzindo beleza e caos, com a contribuição ativa do ser humano, tanto para um – cada vez menos – como para o outro – cada vez mais. Uma ótima ilustração é o pensamento do escultor Auguste Rodin: “Tudo é movimento, até um corpo morto, em seu processo de decomposição, produz movimento”.
Mas se a vida é eterna, infinita, o que dizer da morte? Outro dia li uma frase de Walt Withman, o poeta americano que revolucionou a língua inglesa, especialmente em seu país. Do meu modo de entendê-las, Withman retrata muito bem o que significam: “A vida é o pouco que nos sobra da morte”.

E respaldado pelas palavras de dois gigantes da poesia e um das artes plásticas, além de um físico fora do comum, posso terminar este texto que muito me honrou ter escrito para a Coluna do LAM dizendo duas coisas que acredito muito no meu ofício de escritor e poeta. Uma é que o verdadeiro artista não expressa apenas aquilo que o público quer, mas aquilo que é necessário. Fazer só o que o público deseja é ser o bobo da corte. E para fechar: poesia sem filosofia é mero jogo de palavras.

* Este texto foi originalmente publicado no antigo site do jornalita Luiz Antonio Mello, Coluna do LAM. Atualmente, Coluna do LAM é um blog

Ilustrações (por ordem, de cima para baixo): Ezra Pound; capa do livro Ponto de Mutação, de Fritjof Capra; Fritjof Capra; retrato de Auguste Rodin feito por seu xará Renoir, e Walt Whitman.

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quarta-feira, 27 de abril de 2011

REENCONTRO COM LOBÃO *

Já começava a querer dar por encerrada a leitura de mais um capítulo do livro "Lobão, 50 anos a Mil" na madrugada deste 27 de abril de 2011 quando me deparo com algo surpreendente que me fez corrigir o rumo que traçava nesta noite chuvosa: em vez de dormir, afinal já estava na cama com sono, vim para o computador. Conta Lobão, creio que em 1997, quando se recuperava bem de mais uma tentativa de suicídio e já começava a compor as músicas do histórico e excelente CD "A Vida é Doce", que foi assistir com sua mulher, Regina, ao filme "A Eternidade e Um Dia", do cineasta grego Theo Angelopoulos, no Cine Estação Botafogo, e que foi por intermédio deste filme que conseguiu fechar aquela que é uma das que mais gosto dele, a que dá título ao álbum numerado e vendido em banca, justamente com a frase que faltava: "A Vida é Doce".
Caramba, eu estava na mesma sala, na mesma noite, assistindo ao filme e não sabia que havia sido tão importante para ele como foi para mim. Acho que fui sozinho ao cinema, mas nunca esqueci desse episódio, por alguns bons motivos. Primeiro, o fato de ter me surpreendido na fila com um artista conhecido e era um Lobão bem mais magro do que estava habituado a ver na TV e nos jornais. Até fiquei um pouco na dúvida se era ele mesmo, mas já dentro da pequena sala (ele entrou primeiro) confirmei que era o próprio. E principalmente porque aquele ótimo filme (que aliás preciso rever) me inspirou a escrever a poesia "Minha Noite". Fiz inclusive questão de destacar que ela fôra inspirada no filme do cineasta grego. Quatorze anos se passaram para que houvesse esse reencontro, embora ele mal saiba quem sou e muito menos que houvera um encontro.

MINHA NOITE

Inspirada pelo filme “A Eternidade e Um Dia”, de Theo Angelopoulos

Nunca precisei tanto de um abraço!
E na solidão da minha noite
o que eu mais quis
foi o que nunca tive:
o seu!
Cheguei a pensar em alugar um corpo
pra fingir ser o seu...
Sim, mil vezes sim:
o amanhã é a eternidade
e um dia;
E sei que posso morrer
a qualquer instante,
mas também que posso
viver cem anos
num só dia.

* Este texto também está publicado no site Coluna do LAM
Ilustração: Fábio Oliveira (http://desenhafabio.wordpress.com/)
Vídeo: cena do filme "A Eternidade e Um Dia", de Theo Angelopoulos. Esta é a que Lobão descreve no livro como sendo a que o fez achar o verso que faltava para fechar a música "A Vida é Doce", que também dá título ao CD lançado em 1999.
Veja também:
A brutal delicadeza de Kieslowski
Esquizofrenia
Os Sopros Mágicos de Carlos Malta

sexta-feira, 15 de abril de 2011

PARA MILTON E NOSSOS AMIGOS

Talvez Elis ou outro alguém muito inspirado disse certa vez que se Deus tem uma voz ela é a do Milton Nascimento. Sou lá muito sabedor das coisas de Deus não, embora com ele tenha esbarrado por vezes, ou imaginado isso, porém não é só a potência e beleza de voz que sai da boca desse carioca de Três Pontas (MG), as palavras, as frases, a poesia cantada - até quando não há palavras.

Tá certo, tá certo, Milton não fez, nem faz, tudo sozinho, mas o cara sempre soube escolher muito bem seus amigos, e ninguém cantou melhor a amizade do que ele, ninguém. Que bom amigo é coisa pra se guardar...

Eu, que nasci no Dia Internacional do Amigo, que sempre valorizei e exaltei a amizade, e que além de tudo amo as Minas Geraes, não poderia deixar de ser fãzaço desse gênio da música chamado Milton Nascimento. Ele é um grande inspirador. Salve Milton! Vida eterna, meu amigo. Voz e poesia eternas.


Vídeo: Caxangá (Milton Nascimento), com Elis Regina e Milton Nascimento.

Veja também:

Uma Viagem no Tempo e no Espaço com Loreena McKenitt
Músicas que nos fazem viajar #5: Cais

terça-feira, 29 de março de 2011

DAS PELADAS DE RUA ÀS ARENAS

"Futebol", de Orlando Teruz

Hoje divaguei um pouco em pensamentos desconexos sobre futebol. Na verdade, tudo começou quando, encadeado a outras lembranças que agora não me recordo mais, percebi que as peladas de rua morreram no bairro da Zona Norte carioca onde cheguei em 1971 e em muitos, muitos outros do Rio de Janeiro. Isso para não dizer em todos, pelo menos em todos por que passei nos últimos 10 anos ou mais  (me diga um que ainda tenha para eu ir). Lembrava das muitas que joguei em ruas bem e mal asfaltadas, de paralelepípedos, de terra, esburacadas, um pouco íngremes, até em ladeiras (bom era jogar no time de cima). Voltou à minha mente também o dia em que, no afã de salvar um gol, fui atropelado por uma Brasília – ou a atropelei, já nem sei.

A violência urbana certamente afastou a criançada das ruas para jogar bola e a atraiu para fazer malabarismos nos sinais de trânsito, mendigar e cheirar cola. Lembro muito bem da voz imponente de João Saldanha no radinho de pilha criticando, ainda na década de 70, a especulação imobiliária que andava acabando com os campinhos de pelada. E os playgrounds dos prédios, que brotaram como mato nesta cidade, com o tempo deixaram de ser espaço para a criançada se divertir para virar local de festas de adultos, cada vez mais reservados e caros.

Logicamente estou aqui falando da classe média, média baixa, porque no andar debaixo da pirâmide social - fora as antenas parabólicas e os "gatonets" – talvez tenha mudado um pouco menos, embora o espaço tenha ficado cada vez mais apertado nas favelas. A pelada sempre foi um fator de integração entre os garotos das mais variadas idades e classes sociais. Ali, no campinho improvisado no meio da rua, com balizas demarcadas com chinelos, latas, pedras ou até mesmo com estacas de madeira presas das mais diversas maneiras, todos se encontravam, dividiam-se em times para correr atrás da bola de borracha, plástico, couro ou meia. A distinção só existia para os que a controlavam melhor. Eram os mais respeitados e logo escolhidos, quando não eram os próprios a tirar o par ou ímpar ou "adedanha" e montar seus times. E entre os melhores poderia estar o neguinho do morro, o branco azedo da maior e mais bela casa da rua, o moreno da casa pobre da esquina, o cara de índio do prédio mais velho, ou o mestiço do prédio mais alto e luxuoso. O gordinho, o magrelo, o baixinho, o grandão, tanto faz. Neste aspecto as meninas de outrora levavam uma grande desvantagem.

Hoje, essa integração que as ruas promoviam estão extintas. As crianças estão separadas por grades, muros, entre escolas particulares e públicas, as ruas cada vez mais cheias de carros sempre velozes e furiosos e o futebol nosso de cada dia cada vez mais esquematizado taticamente e empobrecido tecnicamente. Se uma coisa é conseqüência da outra não posso precisar, mas posso intuir ou desconfiar. É o que sinto. Há muitos outros aspectos, sem dúvida. O modo de vida das pessoas no Rio – só para não ter a pretensão de dizer que é no país inteiro - mudou muito. E se sinto cada vez menos prazer em assistir a um jogo de futebol (as duas últimas Copas do Mundo foram pavorosas, numa decadência que vem da pior que assisti, a de 1990) é porque fui muito mal acostumado – ou muito bem, dependendo do ângulo que se veja. E não só pelos grandes jogadores que via no Maracanã e na televisão na época de torcedor, mas pelos que enfrentava ou tinha como companheiros nas peladas de rua. Joguei com muita gente que teria facilmente chegado à seleção brasileira se tivesse se profissionalizado.

Zico e Maradona na Copa de 1982. Foto: J.B. Scalco (Placar)

Esse apartheid brando do Rio de Janeiro que vislumbrei desmoronando a cidade no apito final das partidas de futebol disputadas em campos improvisados – e não do Playstation – me levaram em viagem para a Europa, onde o racismo recrudesce de maneira clara e tem nos estádios ou arenas um de seus palcos principais. Se no dia-a-dia, desconfio, essa discriminação é mais disfarçada – ou menos explícita –, foi nos campos de futebol profissional que ganharam força, porque a massa esconde o indivíduo. E, como todos sabem, o covarde só é forte quando se traveste de multidão. Vejo com tristeza, certa amargura até, a minha paixão infanto-juvenil, o futebol, ser usado por fascistas para manifestarem suas frustrações, seu ódio à vida, às diferenças. Esse racismo contra tantos africanos e brasileiros que atuam em clubes da Europa - e agora Neymar na vitória do Brasil sobre a Escócia - está revestido do fascismo que sempre ressurge em períodos de crise econômica. Certamente esses estúpidos que levam bananas aos estádios, não para se alimentar, mas para ofender, estão incomodados com os negros – ou estrangeiros de todas as cores e credos – que, segundo eles, estão ocupando um espaço que lhes pertence.

Aqui no Brasil, os fascistas do futebol se integram a torcidas organizadas para atacar quem não torce para o mesmo time e os homossexuais. São os pitboys. Nunca apreciaram uma boa partida de futebol, jamais jogaram uma pelada na rua ou em qualquer lugar. Para eles, mais até do que o time, é a torcida – ou quadrilha – organizada que precisa ser defendida, atacando quem pensa diferente. Para eles, melhor que o grande clássico é o encontro com os rivais - inimigos - para se digladiarem dentro ou fora dos estádios.

Diante de tudo isso me vem uma pergunta à cabeça: chegará o dia em que será preciso tirar a bola, os jogadores e o árbitro de campo para que esses fascistas adentrem o gramado e transformem em campos de batalha medievais as luxuosas arenas do mundo?

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sobre minhas
 sugestões de leitura pra você.
Quem leu, recomenda!


Veja também:
Ademir da Guia, o Divino
Setenta Anos do Canhotinha de Ouro
Maradona Cinqüentão
Garrincha, 77
Pelé, Só Ele
Reinaldo, o Rei do Galo Mineiro
Corinthians 4 x 3 Palmeiras (1971)
Beckenbauer, a Elegância do Kaiser
Fluminense 1 x 0 Bayern de Munique (1975)
Holanda 2 x 0 Uruguai (1974)
Cruzeiro 5 x 4 Internacional (1976)

segunda-feira, 28 de março de 2011

FRAGMENTO DE O NEGRO CREPÚSCULO NA COLUNA DO LAM

O jornalista, radialista, produtor musical e escritor Luiz Antonio Mello, um dos fundadores da Rádio Fluminense FM (juntamente com Samuel Wainer Filho), me convidou na semana passada para que eu lhe enviasse um texto de minha autoria para ser publicado em seu site, Coluna do LAM, que eu leio diariamente e, obviamente, recomendo com todas as letras. Fiquei muito feliz e honrado e (es)colhi um trecho do livro que pretendo lançar ainda este ano - com ou sem editora - e lá está desde este último dia 27 de março Fragmento de O Negro Crepúsculo com uma ilustração que me fez lembrar uma cena que imaginei para o roteiro de cinema que fiz para O Anjo Grave. Este livro já tem alguns trechos publicados aqui neste blog na série Monólogos. Alguns já estavam escritos e apenas retirei para postar aqui, mas outros eu incluí no Negro Crepúsculo, como por exemplo aquele que mais visitas recebe, justamente o que deu origem à série: O Jogo dos Espelhos. Além de agradecer novamente a Luiz Antonio Mello e reforçar o convite a todos que naveguem pelo seu site, queria recomendar um texto de outra convidada de LAM, Cyana Leahy-Dios. Ela fala da importância da leitura e da necessidade de se criar novos leitores neste país. Eu só posso apoiar com todas as minhas forças, afinal o que será do escritor se não houver mais leitor? Veja também: Monólogos 9 (A Solidão e a Angústia) Monólogos 5 (O Espírito dos Insensatos)

quarta-feira, 23 de março de 2011

A MIDIOTIZAÇÃO

Vinha eu dia desses caminhando pelas fétidas, esburacadas e lotadas ruas do centro do Rio de Janeiro (o lado modernoso que tombou o antigo) e não conseguia – na verdade, nem tentava - tirar da cabeça um pensamento profético de Nietzsche: "Mais um século de jornais e as palavras se corromperão". Muitas coisas se passaram na minha cabeça em torno disso, não propriamente sobre os jornais, mas sobre as palavras. As palavras não como símbolos da Comunicação, mas como expressão de algum sentimento, de alguma ação, comportamento, expressão, manifestação.

Assim, como de relâmpago, voltei ao pensamento nietzschiano e me lembrei que ele não contava (e nem poderia!) com a participação decisiva da televisão, muito menos da internet. O que os jornais levaram cem anos para fazer (talvez até menos), a TV realizou com absurda competência em poucas décadas. E a internet parece realizar em poucos segundos, embora por outro lado ela seja uma brecha interessante para quem não deseja se entregar a qualquer lixo e se manifestar - e espero que este blog seja um bom exemplo.

A era da rapidez da informação on line também expande as imbecilidades com muita pressa. E vejo diariamente em tempo real a mídia eletrônica vilipendiar a escrita automática, expressão criada por Maurice Blanchot. Automática sim, mas livre e espontânea, jamais.

Juntando tudo e voltando às palavras da forma como as citei, fui observando as pessoas nas ruas (o que já vinha fazendo desde o momento em que iniciei minha caminhada sob sol escaldante). E descobri que a TV fez muito mais que os jornais: ela corrompeu pessoas.

Percebi com bastante clareza que não há quase diferença entre gestos, modo de falar, andar, vestir (provavelmente também despir), o comportamento, enfim, das gentes nas ruas. Não há diferença sequer entre as putas da Praça Tiradentes e as dos escritórios e das faculdades. Nem entre os contínuos e os engravatados, ambos suando em bicas. Talvez a única diferença residisse nos mendigos, mas eles não valem, pois não assistem à TV com regularidade e nem chegam perto da internet. E olhei pra mim, que andava na contra-mão do fluxo, para ver se também eu não havia me corrompido, igualado, pasteurizado...

Diante de tudo isso, fiquei me indagando e até agora não encontrei resposta definitiva (e existe resposta definitiva para algo?): será que ainda há nesses turbulentos tempos em que vivemos espaço para manifestações espontâneas? Artísticas, principalmente, será? Sem a massificação de atitudes, conseqüência do máximo e praticamente único interesse comercial, é bem difícil identificar. É complicado até identificar quem pelo menos tenta, com honestidade, se livrar dessas amarras que a sociedade globalizada criou. De minha parte, continuarei a lutar ferozmente contra as mediocridades, inclusive - e principalmente - as minhas. Acabo de desligar mais uma televisão que esqueceram tagarelando sozinha...


Vídeo: "Televisão", de Marcelo Fromer, Tony Belotto e Arnaldo Antunes, com Titãs.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

O ESCREVER


Escrever para mim é pôr a alma pelos poros. Obviamente que, como jornalista formado desde março de 1988, quase sempre tive de escrever para sobre(sub)viver como a puta que, enquanto dá, lê um gibi. Não acredito em profissão, creio em vocação, esse instinto de animal voraz que rosna com dentes afiados dentro de cada ser criador. O grande mal de nossos tempos é que existem profissionais demais e amadores de menos. Amadores não no sentido que lhes grudaram, de despreparados, inexperientes, mas sim daqueles que amam o seu ofício.


Amador é aquele que não precisa do dinheiro como combustível para exercer seu trabalho, embora seja muito bem-vindo para que possa fazê-lo menos preocupado com as contas a pagar. Pratica-o sempre, não o deixa jamais, até porque ele o acompanha onde quer que vá, como uma sombra que se confunde com o próprio corpo que a produz. E para isso é necessário que haja a luz eterna da vocação.

Os profissionais, por melhores que sejam, se não tiverem essa iluminação, jamais conseguirão transpor um milímetro sequer as cercas eletrificadas da mediocridade que os envolvem. Até para ser boa puta é preciso ter vocação! Mas para ser puta da informação, basta ser profissional.
Ilustração: "Drawing Hands', de M.C. Escher.
Veja também:
Um Sonho Chamado Kurosawa
A "Arte Transgressora"
Entrevista: Nelson Pereira dos Santos

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

SONHOS E PESADELOS NOS QUADROS DE CLÁUDIO NEIVA, O REPRESENTANTE DA PINTURA NUMA FAMÍLIA DE ARTISTAS


Em um almoço no segundo dia deste ano, meu primo João Arthur me disse algo que nunca havia me dado conta inteiramente: nossa família, a Neiva, de meu saudoso pai (Sebastião), tem representantes vivos em quase todas as artes. Que eu saiba, ainda não temos um cineasta - quem sabe um dia emplaco um dos roteiros que já escrevi - e um escultor, considerando-se as sete artes tradicionais (música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura e cinema).

A minha referência mais antiga de artista na família era o meu avô paterno, Geraldo, que tocava clarinete e compunha, embora eu não tenha chegado a conhecê-lo. Agora já soube por intermédio de meu tio Edson Cláudio Neiva, personagem principal deste espaço, que um tio-bisavô chamado Edimundo Barros era um grande compositor de músicas sacras, e que meu bisavô Francisco Marçal, além de barbeiro, também era clarinetista e regente da banda da terra de meu pai, Itaverava (MG), no início do século passado. Uma viagem e tanto no tempo.

Há bailarina (minha prima Luciana Bagby, irmã de João Arthur), atriz (Camila Meskell, prima), músico (meu irmão Léo Neiva, contrabaixista), cantora (minha tia e madrinha, Elza Neiva), escritor e o pintor das obras expostas aqui.

Cláudio Neiva, como assina, tem um belo e vasto trabalho que merece ser mais conhecido e valorizado. Desde 1981 expõe suas pinturas e desenhos, especialmente no Rio de Janeiro e em Brasília, onde mora, e já teve suas obras adquiridas por colecionadores das mais diversas partes do planeta. Num mundo que hoje valoriza mais o entretenimento do que a arte, está com seus quadros em seu próprio estúdio na capital federal desde 2002.

Porém, falar desse trabalho que revela sonhos e pesadelos, reais e imaginários, os inconscientes coletivos e individuais, é muito pouco, por mais que se escreva um livro. É preciso mostrá-lo cada vez mais para que as pessoas que ainda têm interesse em arte possam conhecê-lo, valorizá-lo e divulgá-lo, e é isto que me proponho aqui.

Aproveitem bem esta mini-exposição. Quem quiser saber mais sobre Cláudio Neiva, que também é arquiteto, e ver fotos de outros quadros seus é só visitar o endereço http://www.multistudio.arq.br/. Alguns quadros do artista, inclusive alguns destes aqui, estão inscritos no evento Artists Wanted 2010: http://www.artistswanted.org/portfolio.php?preview=true&artist=Neiva. Lá você pode dar a sua avaliação para o conjunto de obras, de uma a cinco estrelas, quantas vezes quiser (uma por dia). Já votei várias vezes nas 5 estrelas, porque é a nota máxima que ele merece.




Quadros (fotos da Multistudio):
1- Sonhando com os Pássaros - acrílico sobre tela (1995)
2- Rumo Inevitável - óleo sobre duratex (1987)
3- Mãos Suplicantes - óleo sobre duratex (1987)
4- Horizonte da Metrópole - óleo sobre tela sobre duratex (2000)
5- Eolo e os Filhos de Ícaro - óleo sobre tela (2000)

Veja também:
Poesia Sem Versos
Um Sonho Chamado Kurosawa

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

SETENTA ANOS DO CANHOTINHA DE OURO

O grande comandante daquela que é considerada a maior seleção de todos os tempos completou nesta terça-feira 70 anos de idade. Gérson, o Canhotinha de Ouro, que desde 1974 comenta jogos em rádio e televisão, sempre com seu jeito irreverente, merece ser lembrado como um dos mais talentosos e importantes jogadores da História do futebol.

Praticamente não vi Gérson jogar. Os lances que guardei na memória desde pequeno são praticamente dos lançamentos e gols da Copa do Mundo de 1970, no México. Na época em que ainda sonhava me tornar jogador de futebol, eu procurava imitar o Canhotinha - geralmente com o pé direito - na hora de fazer lançamentos longos. Buscava sempre copiar a forma como ele batia por baixo da bola para que ela chegasse limpa ao companheiro. 

Não cabe aqui dizer se fui bem ou mal-sucedido nas minhas tentativas nas muitas peladas que joguei em campos esburacados ou nas ruas de terra e de asfalto, mas o fato de muito novo ainda eu imitar um jogador que nunca havia visto jogar ao vivo já demonstra o respeito que sempre tive por ele. Um grande maestro da bola.

Veja também:


No vídeo abaixo está a homenagem que o "Esporte Espetacular", da TV Globo, fez a Gérson no último domingo, com imagens raras e sensacionais. Mas há um erro no início da matéria do excelente Renato Ribeiro: ele diz que Pelé empatou de cabeça a final contra a Itália, em 70, e que Gérson virou o jogo. Não, o Brasil abriu o marcador e a Itália empatou no fim do primeiro tempo. 

Apenas um detalhe que não chega a atrapalhar a bela homenagem ao cracaço que lançava a bola com precisão milimétrica. Que o digam Pelé, Jairzinho, Tostão, entre outros.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

FOLIA DE REIS

Dia de Reis me lembra Rio do Ouro (São Gonçalo-RJ), onde morei por 13 anos (de dezembro de 1993 a novembro de 2006). No primeiro ano meu lá, provavelmente em 6 de janeiro de 1994, um grupo de senhores e poucos jovens vestidos do que para mim - na minha imensa ignorância - eram apenas fantasias coloridas, vieram à porta de minha casa, que nem portão direito ainda tinha, com instrumentos, tocando e cantando. Fiquei paralisado com meus dois filhos e minha mulher com o terceiro na barriga assistindo da varanda àquele show particular, meio sem saber o que fazer.

Aplaudimos e eles se despediram rumo a outra residência da rua de terra em que morávamos. Descobrimos depois que teríamos de presenteá-los com algo, um bolo, algo para comer, talvez. Pelo menos foi o que nos disseram. Mas, como disse, ignorávamos. Mal sabíamos que o folclore havia batido à porta de nossa casa e se despedira para nunca mais voltar...


Veja também:
A Força Nordestina
Antúlio Madureira, o Mestre de Obras-Primas


O trecho a seguir, retirei do Wikipedia e explica bem o que representa para a cultura brasileira este dia:

Na cultura tradicional brasileira, os festejos de Natal eram comemorados por grupos que visitavam as casas tocando músicas alegres em louvor aos "Santos Reis" e ao nascimento de Cristo; essas manifestações festivas estendiam-se até a data consagrada aos Reis Magos. Trata-se de uma tradição originária de Portugal que ganhou força especialmente no século XIX e mantém-se viva em muitas regiões do país, sobretudo nas pequenas cidades dos estados de São Paulo, Minas Gerais, Bahia, Espírito Santo, Goiás, Rio de Janeiro, dentre outros.

Na cidade de Muqui, sul do Espírito Santo, acontece desde 1950 o Encontro Nacional de Folia de Reis, que reúne cerca de 90 grupos de Folias do Espírito Santo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. É o maior e mais antigo encontro de Folias de Reis do país. O evento é organizado pela Secretaria de Cultura do Município e tem data móvel. astião e padroeiro do Estado.


Detalhe: Muqui era a terra de minha saudosa avó materna.


Ilustração:
"Folia de Reis", de Fernando Pires (http://fernando_pires.blig.ig.com.br/)
Vídeo: "Folia de Reis", com Baiano e os Novos Caetanos (Arnaud Rodrigues e Chico Anysio)

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

ADEMIR DA GUIA, O DIVINO

Outro dia a trabalho tive o prazer de ver um vídeo produzido pelo site do Palmeiras com um bate-papo entre César Maluco e Ademir da Guia e pude recordar o quanto o Divino tem de valor dentro e fora de campo. Simplicidade e elegância. Para mim, Ademir da Guia foi o Paulinho da Viola dos campos de futebol, genialidades pouco reconhecidas, talvez até pelo jeito tímido de cada um desses artistas. Daria um belo papo entre o palmeirense e o vascaíno. Fica a idéia.
Ademir, que começou no Bangu, foi um dos melhores jogadores que vi atuar, embora tenha pego já o finzinho de sua carreira. Mesmo assim, o modo como dominava a bola e a visão que tinha do campo e do gol sempre me impressionaram. Para os mais novos poderem ter uma idéia, sem entrar na babaca discussão de quem foi o melhor, Zidane tinha um estilo de jogar muito semelhante ao de Ademir. Cabeça em pé, telescópio do time, avistava cada canto do campo, com a bola grudada nos pés. E a mesma facilidade para arrematar de pé direito ou esquerdo e também de cabeça.
Pena que ele não tenha tido mais chances na seleção. Não sei se foi por causa da desistência de Pelé que ele entrou na lista de Zagallo para a Copa de 1974. Mas o certo é que o Divino ficou em segundo plano e só jogou 66 minutos na decisão do terceiro lugar contra a Polônia que terminou com derrota brasileira. No vídeo abaixo, muto bem produzido por Renato Palestrino, você pode ver lances, gols e saber mais da história deste grande jogador da história do futebol brasileiro.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

A QUESTÃO DO FÂNQUI E O VELHO ANGENOR

A prisão de fanqueiros no Rio de Janeiro fez levantar a turma dos bailes em defesa da liberdade de expressão. A situação educacional, cultural e ética deste país anda tão rasteira que muitos acham que ter liberdade para dizer o que se pensa (pensa!?) é se eximir de qualquer responsabilidade sobre o que publicamente se diz – ou canta (canta!?) – e consequentemente ficar livre de qualquer penalidade.
Antes de tudo, o fânqui é um produto cultural de uma cidade que optou ao longo dos últimos 30, 40 anos por se descaracterizar, se aculturar, pela superpopulação, pelo crescimento urbano desorganizado, pela baderna, pelo jeitinho, o passa-perna, a esperteza, a valorização do grotesco, do imundo, do desrespeito e da bandidagem, que não se limita aos morros é muito bom que se ressalte.
Não sou advogado, muito menos juiz, para saber se a punição com prisão destes fanqueiros especificamente foi exagerada ou não. O que sei há muito, muito tempo é que o fânqui chamado de “proibidão” sempre foi o braço cultural do tráfico de drogas e armas e obviamente por ele foi financiado. Então, quem se associou com o tráfico tem sim de ser preso. O maior problema é que os verdadeiros financiadores deste lucrativo comércio ilegal, os barões do tráfico de drogas e armas, continuarão livres para mandar e desmandar por essas bandas. Um parêntese: em tese sou a favor da liberação das drogas (das armas, jamais), mas não vou entrar neste mérito agora para não misturar as estações.
Infelizmente este esgoto cultural, esta anomalia carioca chamada fânqui (e aqui me refiro não só ao “proibidão”) desceu as vielas dos morros cariocas, onde antes se produzia o melhor do samba, para ganhar não só mansões e casas de festa do Rio de Janeiro e do Brasil, mas boates de várias partes do mundo, com suas letras chulas e musicalmente da pior espécie.
Um dos fanqueiros defensores da “liberdade de expressão” chegou a insinuar que se fosse criado nos morros no mundo de hoje, Cartola comporia e cantaria fânqui. Prefiro acreditar que o velho Angenor optaria por continuar lavando carros pra tirar um trocado, até o fim da vida.

Vídeo: "O Mundo é um Moinho" (Cartola)
Veja também:
Brasil, um Edificio que Cresce sobre Frágeis Alicerces
Os Infernos de São Sebastião
Villa-Lobos, o Pai da MPB
Os Sopros Mágicos de Carlos Malta

sábado, 4 de dezembro de 2010

HOMENAGEM AO TEATRO

Quando ficamos doentes também nos tornamos mais emotivos. Já dava este dia como perdido, quase todo ele dormindo, impossibilitado de ir para o trabalho, quando à noite, já um pouco melhor, resolvi pôr no aparelho de DVD “Tempos de Paz”, um filme adaptado da peça “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, escrito por Bosco Brasil. É uma grande e emocionante homenagem ao teatro e a muitos artistas e cientistas que “a guerra tornou brasileiros”. Como no texto de Brasil, em que as memórias de Segismundo (Ramos) e Clausewitz (Stulbach) são o centro da história, e o teatro, o elo que acabará os unindo, muitas lembranças me vieram. Abaixo, quando falo do filme “A Suprema Felicidade”, critico Stulbach, afirmando que ele já havia feito trabalhos bem melhores. E em “Tempos de Paz”, ele está magnífico e me comoveu muito, especialmente com seus gestos (os gestos do ator dentro do ator) em sua interpretação final. Um grande momento. Mas, como dizia, talvez por estar mais emotivo neste dia quase perdido, muito pelos belos trabalhos não só dos dois atores principais, mas também do diretor do filme, Daniel Filho, recordei-me de quem me abriu as portas do teatro (tanto como espectador, como operador de som e autor) e como fui conhecendo textos, encenações, atores, diretores, figurinistas, cenógrafos, iluminadores... E como nasce uma peça, seu desenvolvimento, avanços e recuos, acréscimos e cortes, até ficar pronta para ser assistida pelo público. Foi por intermédio de Cristine Cid, minha primeira mulher, mãe de meus três filhos, que conheci e me apaixonei pelo teatro. Uma das lembranças mais ternas que tenho dos meus primeiros contatos com aquele mundo até então desconhecido para mim é de quando eu a ajudava a passar os textos que estava encenando, fosse na faculdade ou nos cursos que fez. Uma peça da qual tenho especial lembrança é “Um Bonde Chamado Desejo”, de Tennessee Williams, eu fazendo Stanley para que ela pudesse decorar o texto de sua Blanche Dubois. Foram muitos outros, textos de Nelson Rodrigues (“Vestido de Noiva”), Plínio Marcos (“Dois Perdidos Numa Noite Suja”), Federico García Lorca (“A Casa de Bernarda Alba”)... Cristine, além de me abrir as portas do teatro, ainda teve a coragem de levar aos palcos a minha peça “Sentença de Vida”, que escrevi para ela atuar. Não foi possível, Denize Nichols fez o papel do monólogo, mas como diretora e produtora me deu este último grande presente antes de partir, há sete anos. Muito obrigado por tudo, o teatro pra mim é você. Veja também: O Teatro e o Futebol 

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

LHASA DE SELA JÁ SE FOI E EU NÃO SABIA


Surpreso, espantado, chocado mesmo. Foi desta forma que recebi a notícia da morte da cantora Lhasa de Sela, com quase 11 meses de atraso. Vim decidido para casa neste dia 22 de novembro de 2010 disposto a escrever sobre ela e colocar pelo menos dois vídeos desta extraordinária artista, que cantava em inglês, espanhol e francês. No entanto, assim que fui começar minha pesquisa, li: "Lhasa de Sela foi uma cantora..." 

Como assim, foi? Para mim ela era mais nova do que os 37 anos que contava quando faleceu no primeiro dia deste ano de câncer de mama e achei se tratar de outra cantora, de quem talvez ela tivesse recebido o nome. Na verdade, não quis acreditar. Lamentável, mais uma grande cantora se vai no auge.


Conheci Lhasa por intermédio de uma grande amiga, que mora em Londres. Toda vez que ela vem ao Brasil me traz uma bela surpresa. Pode ser um CD de um artista que eu já conheça de nome, mas de quem não tenha quase nada ou nada ouvido, ou de um desconhecido. Este foi o caso de Lhasa. 

Veja também:
Música pra viagem: Lascia Ch'io Pianga
Uma viagem no tempo e no espaço com Loreena McKenitt


O CD "The Living Road" fora encomendado por um amigo nosso em comum, que hoje está em São Paulo. Minha amiga, aproveitou a chance, e me trouxe um também. A novaiorquina da cidade de Big Indian (achava que era canadense) e sua voz incomum me arrebataram com su voz caliente na primeira audição: a música "Con Toda Palabra" (veja e ouça no vídeo abaixo), que abre o CD.

Depois de ouvir muitas e muitas vezes o disco, acompanhando o libreto trilíngüe, comecei a buscar vídeos dela no youtube e achei muita coisa bonita, tanto clips como apresentações ao vivo. Mas nunca encontrei um CD sequer dela à venda no Brasil e também, não sei por quê, jamais procurei mais informações sobre ela, só sabia que vivia em Montreal, Canadá. Quando resolvi saber mais dessa bela cantora, ela já havia partido.


Conta-me o Wikipedia de Lhasa que "sua ascendência era de um lado mexicana e de outro americano-judeu-libanesa. Filha de um professor, não convencional, que percorria os EUA e o México, difundindo o conhecimento, e de uma fotógrafa. Assim, passou sua infância, de maneira nômade, junto com seus pais ("hippies radicais", como ela os define) e suas três irmãs". Nascida em 27 de setembro de 1972, ela lançou três CDs: "La Llorona", de 1998; "The Living Road", de 2003, e "Lhasa", de 2009.

Encontrei uma entrevista que ela concedeu ao site português "TSF Rádio Notícia", em 2005, e meus olhos se encheram d'água. Diz ela, que falou o tempo todo em claro espanhol (mas revelando também cantar em português - Amália Rodrigues - armênio, russo e checheno), após ser perguntada pelo repórter Carlos Vaz Marques se a tristeza era mais bela que a alegria e dizer "não" três vezes: 

"Eu sempre tive um sentimento de urgência muito forte de viver, de gostar, de compreender. E lido muito com a melancolia, com a tristeza, com as questões da vida e da morte, porque para mim parecia o caminho mais curto para tocar a essência da vida". E acrescenta depois que para se chegar à felicidade, é necessário passar pela tristeza. E é este o meu sentimento agora.


Para mais informações sobre Lhasa de Sela visite o site: www.lhasadesela.com.ca


Veja também:
Há 40 Anos, o Fim da Voz Rascante de Janis Joplin
Nina Simone, a Sacerdotisa do Jazz

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A FORÇA NORDESTINA


A televisão fechada ainda apresenta programas de alta qualidade e em dois dias seguidos vi Rachel de Queiroz e Ariano Suassuna, ambos nordestinos, representantes do que de melhor já se produziu em arte e cultura neste país. A força da cultura nordestina, com suas origens ibéricas e mouras, sempre me arrebatou. Vide o que escrevi sobre Antulio Madureira aí abaixo.
Então, decidi prestar uma pequena homenagem aos dois grandes escritores com esse vídeo aí acima. Nele estão duas grandes mostras da maravilhosa arte criada no Nordeste brasileiro: gravuras de Gilvan Samico e a música do petropolitano Guerra Peixe (1914-1993) interpretada pelo Quinteto Armorial, movimento criado justamente por Ariano.
Veja também:
Antúlio Madureira, um mestre de obras-primas
Brasil, Um Edifício que Cresce Sobre Frágeis Alicerces

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

ANTULIO MADUREIRA, MESTRE DE OBRAS-PRIMAS

Este texto abaixo escrevi em 18 de outubro de 2000 e foi publicado na coluna que tinha semanalmente no 2º Caderno do jornal "O Fluminense", de Niterói. Recentemente achei no youtube um vídeo editado, postado pelo próprio Antulio Madureira, em que aparecem cenas da sua participação no Programa do Jô e em outros. O vídeo está abaixo do texto.

Basta estar vivo para se deparar com uma surpresa a cada esquina. Como dizia Auguste Rodin, tudo é movimento, até um corpo morto, em seu processo de decomposição, produz movimento. Pois bem, e o que isso tem a ver com este artigo, você deve estar se perguntando? Respondo, respondo, calma. É o seguinte: o artigo desta semana já estava pronto e entregue, mas teve de ser adiado para a próxima semana por causa de uma pessoa, um artista, um músico que transforma sucatas e material de construção em instrumentos musicais e tira deles sons encantados, que em outros tempos fariam até defunto se levantar arrepiado de emoção. Não, não falo de Hermeto Pascoal, embora tenha uma profunda admiração por ele. Falo de Antulio Madureira. Quem? Pois é, infelizmente pouquíssimas pessoas deste país já ouviram falar desse maestro e vou falar dele hoje, porque, para minha surpresa ele se apresentou no “Programa do Jô” de terça-feira e, como não poderia deixar de ser, fez babar a platéia, os músicos do sexteto, o apresentador e o telespectador.

Estava para dormir depois de assistir à entrevista de Marília Pera no programa da outra Marília, a Gabi, quando resolvi dar uma olhada no Jô só para saber quem eram os entrevistados, sem grandes esperanças. Pois não é que logo o primeiro entrevistado foi o pernambucano Antulio Madureira, de quem ouvi falar pela primeira vez há uns três anos, quando se apresentou em um festival de jazz no Rio. Enquanto a música jazia com pseudo-astros internacionais, o que me chamava a atenção era o sobrenome Madureira, já que conhecia de discos Antônio, o maestro do Quinteto Armorial que mais tarde vim saber é irmão de Antulio. Para quem ainda não sabe, informo agora aos meus cinco leitores, o Quinteto Armorial foi um conjunto criado por Ariano Suassuna no início da década de 70 que buscava pesquisar e recriar músicas antigas de tradição ibérica e brasileira (fazendo uma ponte entre a música árabe e a nordestina do Brasil) e de onde surgiu Antonio Nóbrega, multiartista que somente agora está obtendo alguma fama. Portanto fiquei curioso para ouvir Antulio Madureira quando soube que ele inventava instrumentos, o que só ocorreu no ano passado quando passei a ter em mãos e ouvidos o magistral CD “Teatro Instrumental”, que dá nome ao seu espetáculo atual.

Fazendo instrumentos e tirando música de latas, fios, conduítes, garrafas, cabaças, bambus, arames, serrote, entre outros, Antulio é um mestre de obras-primas. Um maestro ignorado pela mídia, tão ocupada com os “tchans” da vida. E além do mais, ainda faz as vezes de ator e dançarino. Na parte musical ele não apresentou no programa, pela falta de tempo, nem um quinto do que é capaz. Mas foi o suficiente para arrebatar a todos. Se no Jô ele tocou no serrote “Ave Maria”, de Schubert, no CD ele toca a ária das Bachianas número 5, de Villa-Lobos. Antulio está em São Paulo, mas bem poderia dar uma passada pelo Rio (está aí uma grande sugestão para o Teatro Municipal de Niterói!). Parodiando Rodin, desse músico fantástico pode-se dizer o seguinte: tudo é música, até matéria aparentemente morta, em processo de composição, produz música.


Veja também:
Há 40 anos, o Adeus de Jimi Hendrix
Nina Simone, a Sacerdotisa do Jazz
Villa-Lobos, o Pai da MPB
Entrevista: Nelson Pereira dos Santos
Monólogos Os Sopros Mágicos de Carlos Malta

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

OS MAIORES JOGOS DE TODOS OS TEMPOS 9

BRASIL 2 X 2 ALEMANHA OCIDENTAL - AMISTOSO NO MARACANÃ

Nas minhas andanças pelo youtube em busca de algum jogo específico acabo sempre esbarrando em preciosidades. Este aí em cima é um amistoso entre Brasil e Alemanha Ocidental disputado no dia 14 de dezembro de 1968. A partida marcou um duelo especial entre dois gênios da bola que nunca se enfrentaram em Copas do Mundo: Pelé e Beckenbauer, o Rei x o Kaiser.

Veja também:

A partida teve lances sensacionais, um que merece destaque, embora não tenha - por pouco - terminado num gol de placa do Rei do Futebol. Após bela jogada de Carlos Alberto Torres na defesa, o passe para Rivelino, que de trivela lança Pelé no ataque. O Rei ganha no corpo de um zagueiro alemão e quando o Kaiser vem na cobertura leva a bola por entre as pernas e cai sentado no gramado. Diante do goleiro adversário e a chegada de outro zagueiro, Pelé, pressionado, tenta colocar no canto, mas o arqueiro espalma para escanteio. Dá pra ver o delírio da galera na geral.

A seleção brasileira abriu 2 a 0, com dois gols do ponta Edu, companheiro de Pelé no Santos, ambos na primeira etapa: um de falta e outro com muito oportunismo, como se fosse centroavante. Depois, a Alemanha, que já havia desperdiçado boas chances, acabou empatando no segundo tempo.

BRASIL 2x2 ALEMANHA OCIDENTAL
Data: 14/12/1968
Competição: amistoso
Local: Maracanã - Rio de Janeiro
Árbitro: Istvan Szolt (Hungria)
Gols: Edu (2), Held e Gerwien.
BRASIL: Picasso (São Paulo), Carlos Alberto Torres (Santos), Jurandir (São Paulo),
Roberto Dias (São Paulo) e Everaldo (Grêmio); Gérson (Botafogo), depois Zé Carlos (Cruzeiro), Rivelino (Corinthians) e Tostão (Cruzeiro), depois Dirceu Lopes (Cruzeiro); Edu (Santos), Pelé (Santos) e Paulo César Lima (Botafogo), depois Nado (Vasco). Técnico: Aymoré Moreira.
ALEMANHA OCIDENTAL: Maier, Vogts, Weber (Lorenz), Schulz e Patzke; Beckenbauer e Netzer; Dörfel, Held, Overath (Wimmer) e Volkert (Gerwien).
Técnico: Helmut Schön.

domingo, 31 de outubro de 2010

A SUPREMA FELICIDADE É VER MARCO NANINI

"A Suprema Felicidade", de Arnaldo Jabor, é um filme maravilhoso? Não, não é, e seria exigir demais de um diretor que não filmava há 24 anos (o último havia sido o ótimo "Eu Sei que Vou Te Amar", de 1986, com Fernanda Torres e o falecido Thales Pan Chacon). Mas vale o ingresso, principalmente pela atuação exuberante de Marco Nanini, que vive o músico Noel, um personagem inesquecível, e algumas cenas esplêndidas.

O roteiro avança e recua no tempo, o que é um recurso bastante válido para se contar uma história simples, passada no Rio das décadas de 40 e 50, uma cidade que já foi assassinada há muitos anos, não existe, nem existirá mais. No entanto, o filme me pareceu mais uma colagem, com pelo menos cinco cenas belíssimas, outras que poderiam ter ficado melhores e mais algumas poucas menores ou dispensáveis.

Uma cena que considerei ter sido bem idealizada, mas que poderia ter ficado melhor, tem clara referência (e reverência?) a Federico Fellini: a das putas da Vila Mimosa. E reduziria um pouco às das lamentações da reprimida mãe de Paulinho, vivida pela boa atriz Mariana Lima. Por outro lado, Dan Stulbach, que faz o pai do garoto, já fez trabalhos bem melhores.

Três cenas me comoveram especialmente: a do carnaval de rua logo no início do filme, a transa de Paulinho (vivido pelo ator Jaime Matarazzo) com a dançarina Marilyn (Tammy di Calafiori) e toda a cena final, com Marco Nanini, em seu Noel, dançando cambaleante pelas ruas daquele Rio de Janeiro.

Nanini dá um espetáculo à parte e só ele já valeria o ingresso. O ator encarna bem o seu personagem: "A vida gosta de quem gosta dela".

Veja também:
tudo o que foi publicado em novembro de 2009

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

MARADONA CINQÜENTÃO

Seis belgas na caça - em vão - ao
10 na semifinal da Copa de 86
De El Pibe, com sua vasta barba grisalha para esconder a cicatriz deixada pela mordida de um cachorro que cria em sua mansão, Diego Armando Maradona já não tem mais nada. Mas foi com um futebol de espírito alegre como o de um menino e a genialidade dos grandes craques que o atarracado Maradona deixou seu nome marcado entre os maiores jogadores de futebol de todos os tempos.
Os aspectos tristes de sua biografia merecem ser deixados de lado nesta data, pois agora, neste sábado, dia 30, o senhor Maradona se tornará um cinqüentão. Parece que deseja seguir a carreira de técnico, mesmo depois da frustrada campanha com a seleção argentina na última Copa do Mundo. Por mais que faça como treinador, porém, é com a arte que desenhou nos gramados do mundo com sua perna esquerda que ele será sempre lembrado.
Não tenho o menor apreço pelo seu gol trapaceiro que tanta fama faz, mais pelo fato de ele ser ótimo frasista (como Romário) do que propriamente pelo feito em si. Gol com a mão não vale, e aquele contra a Inglaterra que ele disse ter sido feito com a mão de Deus, no meu modo de entender foi feito com a ponta de uma das pontas do tridente do Diabo.
Prefiro crer que o segundo que ele marcou naquele mesmo jogo pelas quartas de final da Copa do Mundo no México, em 1986, valeu por dois. Aliás, valeu por 50. Valeria por toda a sua carreira, se só tivesse feito aquele que já foi eleito o mais bonito de todos os tempos. Mas ele fez bem mais. Bem mais.


Veja também:
Parabéns, Dejan Petkovic
Ganso, o Mestre-Sala da Vila
Beckenbauer, A Elegância do "Kaiser"
O Teatro e o Futebol
Reinaldo, o Rei do Galo Mineiro

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

GARRINCHA, 77

Cinco dias após Pelé, com quem fez a maior e mais vitoriosa parceria de ataque de todos os tempos, Manoel Francisco dos Santos, muito mais conhecido como Garrincha, também fazia aniversário. E ele completaria neste 28 de outubro 77 anos, uma idade bastante simbólica, pois une duas vezes o número que o consagrou, tanto com a camisa do Botafogo, como com a da seleção brasileira. Ele ainda jogou por Flamengo, Corinthians e Olaria, mas já sem o mesmo brilho.
O Anjo das Pernas Tortas, a Alegria do Povo, seja lá como fosse chamado, Garrincha brilhou por poucos anos - atesta Ruy Castro, biógrafo do livro "Estrela Solitária: um Brasileiro Chamado Garrincha" - mas com uma intensidade tão grande que foi o suficiente para ajudar muito o Brasil a conquistar o bicampeonato mundial, em 1958, quando começou como reserva de Joel, do Flamengo, e enfileirou "joões" na Suécia, e em 62, quando tomou a responsabilidade por comandar a seleção que perdera Pelé no segundo jogo, contra a Tchecoslováquia, mesmo adversário da final no Chile.
Em importância para o futebol brasileiro no mundo, Garrincha só perde para Pelé. E isso não é demérito, pois juntos jamais saíram de campo derrotados pela seleção brasileira. Os dribles desconcertantes de Mané Garrincha inspiraram muitos pontas, mas hoje eles estão praticamente extintos. Fazem muita falta ao futebol, os pontas e as suas criativas fintas.
Abaixo, uma entrevista e dribles e gols de Mané, ao som de "Preciso Me Encontrar", de Candeia, com a voz inconfundível de outro gênio: Cartola.

Veja também: Reinaldo, o Rei do Galo Mineiro
Parabéns, Dejan Petkovic
Ganso, o Mestre-Sala da Vila Belmiro
Os Maiores Jogos de Todos os Tempos 3 (Alemanha Ocidental 1 x 2 Brasil)

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

PELÉ, SÓ ELE

Foto de Luiz Paulo Machado para a revista Placar

No próximo sábado Pelé completará 70 anos de idade e as homenagens, que já começaram, serão inúmeras no mundo inteiro. Por isso, não vou me estender muito ao falar do Atleta do Século XX, o Rei do Futebol, que com técnica inigualável e um preparo físico que estava a anos-luz dos demais colegas de profissão de sua época foi o principal jogador a elevar o futebol ao patamar de arte.

Tudo o que se falar do jogador Pelé será pouco pelo que ele representa até hoje para o Brasil no mundo inteiro. Nenhum outro brasileiro é tão (re)conhecido como ele no exterior e seus gols e jogadas que ficaram registradas por câmeras de TV e cinema são mostradas diversas vezes nos mais variados cantos do planeta, principalmente quando se fala em Santos, Seleção Brasileira e Copa do Mundo.

Veja também:
Reinaldo, o Rei do Galo Mineiro
Parabéns, Dejan Petkovic
Garrincha, 77


Maradona, que foi sim um gênio da bola, pode estrebuchar até depois que adentrar seu túmulo e ou virar cinzas, mas igual a Pelé não houve e, ouso dizer, jamais haverá. Classificar o que Pelé foi em campo é perda de tempo, não há um nome em língua alguma que possa descrever o que esse homem fez nos 21 anos de carreira nos gramados com a bola nos pés, na cabeça, no peito, nos ombros, nas coxas, e até mesmo sem tocar nela. Basta se informar e pesquisar um pouquinho para se constatar isso tudo.

Fique abaixo com 20 gols do dono da bola e curta um pouco do que representa Pelé para o futebol, e por que são quase sinônimos:


Obs.: a foto acima foi feita em 6/10/1976, no jogo Seleção Brasileira 0 x 2 Flamengo, no Maracanã, com renda destinada à família de Geraldo, meia rubro-negro falecido dois meses antes.



Veja também:
Ademir da Guia, o Divino
Os Maiores Jogos de Todos os Tempos 9 (Brasil 2 x 2 Alemanha Ocidental)
"Contos da Bola" em promoção imperdível

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

FRAGMENTOS DO DESEJO, UM BELO ESPETÁCULO


Para quem mora no Rio ainda dá tempo, pouco, mas dá: vai até domingo, dia 24/10, a apresentação do belo e cuidadoso espetáculo Fragmentos do Desejo, da companhia franco-brasileira Dos a Deux, no Centro Cultural Banco do Brasil. E melhor, por um preço que posso considerar gratuito tamanha a qualidade do que se vê e se sente: apenas R$ 10,00. Para quem é de Brasília, prepare-se: a partir do dia 28, ele estará no CCBB daí.
Fragmentos do Desejo é muito mais do que uma peça de teatro, é também dança, mas como bem avisa o programa da peça, sem coreografias. Quase não há palavras faladas, basicamente são os gestos e expressões faciais e corporais dos atores o "texto" da peça. Há vários momentos comoventes e muito bem executados no espetáculo - a trilha sonora, a iluminação e o cenário são sublimes - mas vou destacar dois que mais me chamaram a atenção: o balé da solidão do filho que tenta e não consegue um entendimento com o pai, e o do cinema, no qual se usa com maestria os recursos tecnológicos extra-teatrais.
A companhia foi muito feliz na sua realização, e dá pra perceber o quanto de trabalho foi preciso para se chegar ao palco e levá-lo ao público. Espetáculo do mais alto nível como esse, com o preço que o CCBB cobra, merece ser visto e apreciado por muito mais gente que a sala lotada do Teatro I, como certamente vem ocorrendo nesta temporada.
Veja também:
Oferenda (ou Canção de um Ser Dilacerado)
Tardes de Outono
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UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #47

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46 Garrincha e Pelé, durante a Copa do Mu...

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