quarta-feira, 19 de setembro de 2012

FÁBRICA DE ÍDOLOS

"A violência é tão fascinante
E nossas vidas são tão normais..." 
(Renato Russo)

CENA 1: dois meninos, um de 8 e outro de seis anos, sentados no chão, assistem à TV. Propaganda com imagens de dribles e gols: “Futebol ao vivo, amanhã!”
Os meninos se olham, levantam-se rapidamente, pegam a bola, improvisam uma baliza entre dois pés da mesa da sala e começam a jogar, um na linha, outro no gol. “Gol!”

CENA 2: os mesmos dois meninos, sentados no chão, assistem à TV. Propaganda com imagens de um jogo de basquete, com jogadas e cestas espetaculares: “NBA ao vivo, não perca este grande jogo!”
Os meninos se olham, levantam-se com pressa, pegam a bola e começam a quicá-la e arremessar para uma lata de lixo posta em cima da mesa. “Cesta!”

CENA 3: os meninos na mesma posição, novamente vendo TV. Propaganda com imagens de uma partida de vôlei, com defesas e cortadas, grandes ralis: “Vôlei ao vivo na sua tela, hoje às 21h!”
Os meninos se olham, levantam-se correndo, improvisam uma rede na varanda, com um barbante, e começam a jogar. “Que cortada! É ponto!”

CENA 4: novamente os dois meninos vendo TV. Propaganda com imagens de homens se agarrando num ringue, um esmurrando continuamente a cara do outro. Sangue espirrando pra todo lado: “Ultimate fighting, vale tudo pra você. Hoje à meia-noite, não perca!”
O mais novo nem tem tempo de olhar o mais velho, que lhe desfere um soco no meio do nariz e se debruça sobre o irmão, sufocando-o e batendo nele até se cansar.

Ilustração: imagem retirada do blog "Mais saúde no B.P.C."
Vídeo: "Baader-Meinhof blues" (Renato Russo/Flávio Lemos/André Pretorius/Fê Lemos), com Legião Urbana.
Veja também:
A midiotização
Brasil, um edifício que cresce sobre frágeis alicerces
A "arte transgressora"
Os muros
Mais uma sobre educação

segunda-feira, 17 de setembro de 2012

A MÍDIA BIZARRA

Será que a forma como Amy Winehouse foi se matando e os “motivos” que a levaram a desistir da vida não são muito semelhantes aos dos outros astros que se foram aos 27 anos, com a única diferença de ela ter sido muito mais exposta do que os anteriores por viver num mundo paparazzo, bigbrotheriano? A degradação de Amy era espiada e transmitida quase diariamente pela mídia. Será que as angústias, dores, depressões e pressões que sofreu não foram tão intensas quanto às de Cobain, Morrison, Hendrix e Joplin? Talvez a ela tenha sido acrescido esse pré-show de Truman que vemos diariamente na internet e na televisão, mesmo que não queiramos.
Que o homem sempre se sentiu atraído pelo escândalo e os crimes é uma verdade que existe desde que o mundo é mundo. Porém, creio que não haja precedentes na história dos veículos de comunicação tanta bizarrice e sangue para alimentar os consumidores sedentos e famintos da vida alheia. A glamourização do grotesco está nas páginas e telas sendo vendida como o último grito da moda desde o movimento punk.
Veja na cabeça de Neymar e seus imitadores o resultado da manifestação daqueles garotos pobres da Inglaterra, que revoltados por não terem grana pra pagar ingressos dos shows das mega-bandas dos anos 60 e 70 começaram a protestar gritando e xingando contra aqueles que amavam. Primeiro se tornaram tão ricos e famosos quanto os ídolos e depois foram vendidos em prateleiras de lojas de vestimentas e supermercados. Che Guevara também sofreu o mesmo processo depois de morto, mas isso esticaria demais este assunto.
Mas não é só, claro que não. No Brasil, por exemplo, veja nas bundas e peitos inchados das mulheres hortifrutigranjeiras (mais granjeiras que frutas e hortaliças) e nas desafinadas e “belas” e “cantoras” que surgem diariamente o quanto Gretchen, Rita Cadilac e Xuxa foram influentes para as jovens dos últimos 30 anos. Veja o quanto elas vêm se deformando para ficarem parecidas com esses grandes exemplos. Veja no fânqui (funk carioca) como o que de pior existia na música e cultura americanas mais a cultura do tráfico fez com a cabeça e os corpos de adolescentes dos barracões às mansões nos últimos 20, 30 anos.
Por fim, veja na mídia e nos seus patrocinadores: a bizarrice tem mais valor que a arte.

Ilustração retirada da página oficial de Amy Winhouse no facebook.
Vídeo: "Back to black" (Ronson/Winehouse), com Amy Winehouse.
Veja também: 
Há 40 anos, o fim da voz rascante de Janis Joplin
Há 40 anos, o adeus de Jimi Hendrix
A midiotização

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

ESTILHAÇOS 3

Não me apego ao livro como objeto. Há quem goste de senti-lo nas mãos, até cheirá-lo. Eu só quero lê-lo. O que me interessa necessariamente é o que ele contém, suas palavras, suas frases, suas idéias, suas imagens.



Veja também:
A grandiosidade de Victor Hugo
Poesia sem versos

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

ESTILHAÇOS 2

Eu me interesso bem mais pelas sombras, pelo lado oculto do ser, do que por aquilo que ele irradia. Isto já está presente em mim desde a infância.

Ilustração: gravura de Oswaldo Goeldi (quem souber o nome me informe, por favor)

Veja também: tudo o que foi publicado em setembro de 2011


quinta-feira, 23 de agosto de 2012

GASOLINA NO INCÊNDIO 12

Com "Gasolina no Incêndio" pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis. A décima-segunda questão-provocação é a seguinte:

Uma sociedade (ou um grupo social) que não respeita nada, nem ninguém, que em nome da defesa - algumas vezes até legítima - de seus direitos atropela sem se importar com os dos demais (que seja de uma só pessoa), é tão repugnante quanto a mais feroz ditadura.

Veja também:
Gasolina no incêndio 3
Penso, logo sinto 3
Brasil, um edifício que cresce sobre frágeis alicerces

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

AGRADECIMENTO A ALTAMIRO

Dizem que pedido de amigo é uma ordem. Meu irmão Bruno Lobo me pediu que escrevesse aqui sobre Altamiro Carrilho porque não tem blog (deveria ter, deveria), portanto, a ordem foi dada e já está sendo cumprida. Sempre procurei evitar que o blog virasse um obituário, ainda mais em épocas sombrias como esta, quando no espaço de poucos dias se foram grandes músicos, como o flautista que é tema deste texto, Severino Araújo e Celso Blues Boy, que acabou motivando, em meio à consternação de sua morte, o encontro de amigos que citei na postagem Conexões.
Não desfilarei aqui as virtudes, muito menos a biografia de Altamiro Carrilho, porque isso felizmente alguns sites e jornais fizeram bem, embora seja sempre muito pouco para alguém de uma dimensão incalculável. Queria, mesmo que tardiamente, fazer um agradecimento ao grande flautista por ter com o CD "Flauta Maravilhosa", de1996, tornado mais ameno alguns dos dias mais duros de minha vida. Já conhecia algumas músicas altamiranas até aquele difícil ano de 1998, lembrando que chorinho pouco se toca em rádio - e quase nada na TV - desde sempre e que não havia a internet com toda a expansão que há hoje com acesso fácil a tudo o que se refere a música.

Naquele que foi um dos dois piores anos da minha vida, estando fora de minha casa com minha família por circunstâncias que não vem ao caso comentar - e agradecendo eternamente a hospedagem e a atenção que recebemos durante três messes de dona Lêda Cid Maia e seus filhos - ouvi pela primeira vez um "álbum" inteiro de Altamiro, justamente o citado acima. Foi um bálsamo, que me motivou a comprar posteriormente o mesmo CD e uma coletânea e sempre exaltar a obra desse grandioso músico. Aqui presto minha humilde homenagem e faço o meu agradecimento por ter tornado melhores dias tão duros. Como ele bem disse, em um especial da TV Cultura, seu nome deveria ser Flautamiro. Viva Altamiro! Altamiro vive.
Fiquem abaixo com Altamiro demonstrando todo seu talento e toda sua vitalidade aos 85 anos em show de maio de 2010, com direito a um solo de percursão e bateria de Eber de Freitas.

Ilustração: capa do CD "Flauta Maravilhosa" (1996), de Altamiro Carrilho.
Vídeos: 1- imagens de  e música "Bem-te-vi tristonho", de e com Altamiro Carrilho, música do CD "Flauta Maravilhosa; 2- "Urubu Malandro" (Louro), com Altamiro Carrilho.
Veja também:
Adiós, La Negra
Villa-Lobos, o pai da MPB
Nina Simone, a sacerdotisa do jazz
Os sopros mágicos de Carlos Malta
Tardes de outono

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

CONEXÕES

Recentemente comentei numa rede social sobre um dia ganho por ter lido uma pequena obra-prima, o conto "O Evangelho segundo Marcos", do livro "O informe de Brodie", do escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), e a conexão mental e sensorial que fiz com o filme "Viridiana" (1961), do diretor espanhol Luis Buñuel (1900-1983). Em suma, as imprevisíveis e cruéis conseqüências da caridade cristã. Espero que quem conheça as duas obras venha me dizer se há insanidade, idiotice ou algo perfeitamente pertinente de minha parte. Pois bem, chego hoje em casa, já madrugada, após um ótimo encontro com velhos amigos, incluindo o meu irmão, Léo Neiva, e tenho a surpresa de ver que a locadora havia me enviado durante o dia o documentário sobre o excepcional LP "Who's next", de 1971, da mesma série (Classic Albuns) de "The dark side of the moon", do Pink Floyd, "Kind of blue", de Miles Davis, e outros que não me lembro e ainda não tive o prazer de assistir.

Este sempre foi o álbum que mais gostei do Who, especialmente pela balada-porrada "Behind blue eyes". Porém, só uns poucos anos atrás me detive mais à letra e um verso sempre me intrigou muito: "my love is vengeance that's never free" (meu amor é vingança que nunca é livre, corrija-me algum tradutor se eu estiver errado). Afinal, por mais questionador que seja, minha formação cristã ocidental tem uma força grande em meu sangue e minha mente, algo que por mais que se lute é difícil se desvencilhar. Tradição, cultura, inconsciente coletivo, nada disso se extirpa com facilidade, se é que é possível. Somos todos aqui filhos da pieguice do amor romântico, somos latinos e americanos, brasileiros, frutos da miscigenação do banzo e do fado, do lamento, do choro, da saudade.


Talvez seja, por isso, tão complexo, tão profundo, tão instigante e tão intenso este verso para mim. Como é o título do filme de Rainer Werner Fassbinder (1945-1982), "O amor é mais frio que a morte" (Liebe ist Kälter als der Tod, 1969), que já usei em forma de indagação em alguma poesia ou texto meu que já não me recordo agora. E vejo que tanto o verso da música, como o nome do filme me levam de volta a Borges e Buñuel, mas de forma invertida: nas obras do argentino e do espanhol haveria uma espécie de vingança pelo amor recebido. "O amor é mais frio que a morte" ainda não assisti, está na fila me esperando há anos, como alguns outros desse diretor alemão que tanto admiro e que conta, em apenas 37 anos de vida, com a impressionante marca de 43 filmes (sendo que "Berlin Alexanderplatz", de 1980, tem 15 horas e meia de duração). Porém, essa rede de conexões, tendo Towshend e Fassbinder como fios condutores, foi inevitável nesta alegre e produtiva noite.


Graças à IA, 13 anos após a publicação deste texto posso publicar aqui um "encontro" de Buñuel, Fassbinder, Townshend e Borges. Veja abaixo e diga o que achou.


Fotos:
Rainer Werner Fassbinder, Jorge Luis Borges e a capa do filme "Viridiana".
Vídeo: "Behind blue eyes", The Who.

Veja também:

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

GASOLINA NO INCÊNDIO 11

Com "Gasolina no Incêndio" pretendo provocar quem aqui venha, mexer com os brios mesmo. Incomode-se, reclame e até xingue se achar necessário, mas aqui não cabe a indiferença. Não vou censurar nenhum comentário, mas assuma-se, não se esconda no anonimato (in)conveniente, nem com apelidos irreconhecíveis. A décima-primeira questão-provocação é a seguinte:

O Brasil é um país de adolescentes. Grande parte tem mais de 30 anos de idade.

Veja também:
Penso, logo sinto 10
Gasolina no incêndio 10

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

ENTREVISTA: NILZE CARVALHO

"Nilze Carvalho, a volta da menina prodígio" é uma entrevista que fiz com a bandolinista, cavaquinista, violonista, cantora e compositora no campus da UNI-Rio, na Urca, zona sul do Rio de Janeiro, em 2001. Naquele local e naquela época, eu só fiquei sabendo agora, ela já estava arquitetando o grupo Sururu na Roda, do qual ainda faz parte, atualmente com a companhia de seu irmão Silvio Carvalho (voz, percussão e cavaquinho), Fabiano Salek (voz e percussão) e Juliana Zanardi (voz e violão). Este texto abaixo (com mínimas alterações) foi publicado originalmente no extinto site "Papo Carioca".


Ela surgiu como fenômeno musical no início da década de 80, quando com 11 anos gravou o seu primeiro disco (“Choro de menina”), tocando seu bandolim com a habilidade de um adulto, embora já se apresentasse em televisão e rádio desde os seis anos de idade. Gravou clássicos do chorinho, muitos ao lado do conjunto “Época de Ouro”, e se tornou a menina prodígio do gênero em mais cinco LPs e depois sumiu para os fãs brasileiros. 

Por onde andava, Nilze Carvalho era uma pergunta que me acompanhava desde que conheci quase que por acaso o seu primeiro disco há apenas dois anos. A resposta veio primeiro com a sua belíssima apresentação na Praça XV, em frente ao Paço Imperial, num sábado de abril. Ela estava por perto e continuava tocando muito bem, já ficara sabendo, e, melhor, estava cantando igualmente. 

Veja também:


No entanto, continuava sem saber porque estava tanto tempo sem aparecer, tanto tempo sem dar notícias. E resolvi marcar uma entrevista para esclarecer o assunto e conhecer um pouco mais dessa mulher de sorriso infantil e mãos virtuosas, hoje com pouco mais de 30 anos de idade.

Nilze começou a viajar em 1984, quando com apenas 15 anos apresentou-se na Itália, na França e na Espanha. E, depois de gravar os volumes dois, três e quatro do “Choro de Menina” e os discos em que fez suas primeiras incursões cantando, o “Deixa-me Cantar” (antes do seu lançamento, em 1989, passou 11 meses nos Estados Unidos) e “Apresentação”, passou a ficar mais tempo no exterior do que no Brasil. 

De família humilde e tocando músicas pouco valorizadas pelo mercado fonográfico brasileiro – o chorinho e o samba – Nilze não teve como recusar seguidas viagens para se apresentar em casa de shows e restaurantes do Japão, onde acabou gravando um disco. De 1991 a 1997 passou praticamente seis meses por ano no país do sol nascente, sendo que em 1998 esteve na China e no ano passado passou quatro meses e meio na Austrália e um mês na Argentina. 

Em 1998, no tempo em que esteve no Brasil, conseguiu gravar o seu primeiro CD, pela mesma gravadora CID dos LPs, o volume quatro da série Chorinhos de Ouro. Nos outros volumes a CID aproveitou gravações dela feitas para os seus primeiros LPs.

Dessas viagens todas, as coisas que mais a impressionaram foram a adoração que os japoneses têm pela música do Brasil e a obstinação deles para aprender a tocar os ritmos brasileiros: “Eles brigam para ficar junto ao palco. Gravam tudo com filmadoras. Alguns japoneses tocam tão bem chorinho, que se você não vir quem está tocando, vai pensar que é um brasileiro”, afirma quem é mestra no assunto. 

Embora tenha toda essa experiência, isso não a impediu de voltar a estudar para se aprimorar naquilo que está em seu sangue: a música. Nilze está estudando na UNI-Rio: “A gente precisa estudar sempre e, como sou autodidata, não leio muito bem partituras”.

Veja também:
O áudio da entrevista de Nelson Pereira dos Santos
Nina Simone, a sacerdotisa do jazz


Nilze reclama um pouco da distância que tem de percorrer de Campo Grande (zona Oeste do Rio), onde mora, à Urca, onde fica a universidade, mas diz que está sendo muito interessante poder se aprofundar no assunto que ela mais entende desde os cinco anos, quando para surpresa de seu pai, o compositor, pistonista e violonista Cristino Ricardo, e de toda família, começou a tocar de ouvido “Acorda, Maria Bonita” e nunca mais parou. 

“Na universidade é bom também porque a gente vai tocar em festas e posso mostrar algumas músicas novas e ir, dessa forma, vendo a repercussão, fazendo a divulgação do trabalho”. Trabalho que ela pretende fazer cada vez mais de forma elaborada, meticulosa. Já com um estilo de repertório definido (“quero tocar e cantar sambas antigos, de Ary Barroso, Ataulfo Alves, além de um choro com letra de Klecius Caldas”), Nilze quer trabalhar com um produtor e um arranjador na gravação de seu próximo disco.
Ela tem visto com muito bons olhos o movimento de gente nova no choro, o que pode facilitar a sua permanência por mais tempo no Brasil. Para ela, a música comercial, tipo axé e pagode, está saturando as pessoas, que estão procurando ouvir outras músicas, o que tem feito o choro voltar a crescer. 

Nilze, inclusive, esteve em Brasília há quatro anos, num curto período em que esteve no Brasil, juntamente com mais 49 cavaquinistas para a homenagem que a Escola de Choro da capital federal fez a Waldir Azevedo. “Toco mais o bandolim, mas fui de cavaquinho mesmo”. Modéstia de quem é autodidata, canta e toca também violão e, de quebra, percussão.

O fato de ter ficado tanto tempo fora do Brasil também dificultou um pouco a formação do grupo que toca com ela atualmente – “Chamei o pessoal da minha área, como se diz”. Mas, pela exibição e o assédio do público após o espetáculo de abril, já deu para perceber que o time está entrosado e a capitã continua inspiradíssima. Não foi à toa que as pessoas ficaram encantadas com a simpatia e o talento de Nilze – muitas que jamais haviam falar nela, como as crianças de um colégio que passavam com suas professoras para uma visita ao Centro Cultural Banco do Brasil e pararam para sambar a valer ao som da bandolinista. 

Tocam com Nilze os seus irmãos Sérgio e Sílvio, na percussão; Pedrinho, que toca violão de sete cordas também com o mestre da flauta Altamiro Carrilho; além de Mequinho, filho de Pedrinho, no teclado e violão; Nilson, na percussão e voz, e Toninho, no cavaquinho. Neste mês, ela e sua turma se apresentaram na Lona Cultural de Campo Grande, com repertório novo, inclusive com composições dela e de seu pai e os maravilhosos chorinhos de Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth, Waldir Azevedo e muitos outros mestres valorizados pelo toque pessoal de Nilze Carvalho.


Fotos: Nilze Carvalho (do site oficial do Sururu na Roda) e reprodução da capa do LP "Choro de Menina".
Vídeo: "Carioquinha" (Waldir Azevedo), com Nilze Carvalho em participação mais que especial em show de Julião Boêmio, no Teatro da Caixa, de Curitiba, em 2010.

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segunda-feira, 23 de julho de 2012

DOM DE JOGAR BOLA E BOLERO DE RAVEL

Uma das mais cansativas e inócuas discussões de futebol são acerca do jogar bonito e perder x jogar feio e ganhar. Lógico que a vitória é o objetivo de qualquer time decente, mas os que marcam mesmo são aqueles que praticam a arte de jogar bola. Alguns nem precisaram sair com a taça para gravarem seus nomes na história. Exemplos não faltam. 

O que mais me incomoda é a descaracterização do futebol jogado no Brasil. Conversava numa rede social com um amigo da boa e velha infância sobre o aniversário da vitória da seleção brasileira na Copa de 94, completada no último dia 17. Dizia a ele que aquela equipe não me trazia qualquer boa lembrança, nem má. Acrescentava: um time acuado, medroso, que optou por jogar no erro do adversário, que sempre era muito bem aproveitado por dois craques: Bebeto e Romário. 


Porém, venceu com méritos, embora pelas circunstâncias (calor de mais 40 graus e as condições físicas precárias de dois dos principais jogadores italianos, Baresi e Baggio) levasse uma grande vantagem na final e poderia ter conquistado o caneco com mais tranquilidade, no tempo normal. Ali a seleção não jogou o futebol brasileiro, mas como ganhou veio o enfadonho debate de sempre.

Pelé dribla o goleiro uruguaio Mazurkievski, sem tocar na bola, na semifinal da Copa de 1970
           
Para mim é simples, quero ver sempre nos times brasileiros o nosso jeito de jogar, aquele que me fez querer ver e jogar futebol todos os dias na minha infância e adolescência. No entanto, a conclusão que cheguei no meio do papo é que se descaracterizamos no dia-a-dia nosso jeito de cantar, tocar, dançar, andar, falar, pensar (?) o futebol não tem como escapar disso. Faz parte da nossa cultura. 

Nada a ver com xenofobia, mas sim com a miscigenação antropofágica (se quiserem os modernistas) que sempre nos fez diferentes e um dos mais criativos povos do mundo. Mas o mundo anda cada vez mais pasteurizado e não temos feito muito para fugirmos disso. Em nenhuma área.

Ultimamente, a seleção espanhola tem sido exaltada no mundo todo, e com razão, afinal tem conseguido resultados fantásticos com jogadores excelentes em seu elenco. Mas, por favor, não comparem com o futebol brasileiro. 

A Fúria é como uma excelente orquestra sem um solista improvisador. Muito bons músicos, capazes de alguns virtuosismos, mas sempre numa toada (me permitam o termo) mais próxima do Bolero de Ravel – e aqui pego emprestada uma analogia do saudoso João Saldanha. Sempre a mesma melodia, num ritmo crescente da defesa para o ataque que vai se aproximando, se aproximando, se aproximando da meta adversária, com toques e mais toques, até conseguir o gol. Tudo muito correto, limpo, reto, muito bem ensaiado, mas sem a quebra (ou requebro) de ritmo, a inventividade, a surpresa, a magia.

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O Barcelona se diferencia da seleção espanhola porque tem um solista genial, Lionel Messi. E o futebol brasileiro, quando jogado de acordo com suas características históricas, tem pelo menos três, mesmo que haja um que se sobressaia. E joga ora em toques rápidos ou lançamentos, ora com cadência e dribles para segurar o jogo ou surpreender a marcação adversária. 

O drible é o solo, a improvisação, a fantasia em meio à harmonia e à melodia. A Fúria tem ótimo arranjo, bela harmonia, excelentes instrumentistas, mas lhe falta o toque do gênio, do craque, daquele que inventa o que ninguém espera, que sola improvisadamente num determinado momento, de surpresa, mesmo que não seja gol - vide várias jogadas de Pelé em 1970 reprisadas milhões de vezes na TV sem que a bola tivesse ganho a rede adversária. 

Não me ufano como qualquer Dom e Ravel cantando “Eu te amo, meu Brasil” apenas porque a seleção do meu país ganhou. Eu quero ver um time com a nossa marca, o nosso jeito. Porém, admito, talvez isso seja saudosismo, afinal já não somos mais os mesmos faz muito tempo.


Vídeo: "Bolero", de Maurice Ravel, com a orquestra dirigida pelo maestro alemão Andre Rieu.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

ESTILHAÇOS

Se algum dia me vir muito eufórico, embriagadamente espargindo felicidades, desconfie. Desconfie seriamente. Por trás de tanta alegria certamente haverá uma melancolia, uma angústia latente me agulhando. Sou bem comedido nos momentos felizes. Isso só se vê no olhar e num breve e sincero sorriso.

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Espiral do Tempo

terça-feira, 10 de julho de 2012

PENSO, LOGO SINTO 10

Nem direita, nem esquerda, nem centro. Nem por cima, nem por baixo. Não estou dentro, muito menos por fora. Estou fora!

Veja também:
Beco sem saída
Penso, logo sinto

domingo, 1 de julho de 2012

UM FLA-FLU E UM HERÓI QUASE ESQUECIDOS

No início dos anos 80, estava eu e amigos conversando na rua Grajaú sobre o que mais gostávamos de falar: futebol. Uns sentados no murinho da casa de um deles, outros no chão, mais alguns de pé ou agachados, contavam sobre jogos do passado que tinham visto ou se lembravam de terem ouvido no rádio ou lido em jornais, revistas ou livros. Naquele quase atropelo de vozes empolgadas e nostálgicas consegui contar a minha história.

"Lembro de um Fla-Flu de 76 ou 77 em que o Flamengo ganhou de 3 a 0, no Maracanã, com três gols de um cara chamado Kalu. Ele era formado no Flamengo mesmo, saiu de campo como herói, e eu fiquei achando que seria o parceiro de ataque ideal pro Zico. Mas pouco tempo depois, não sei por quê, venderam o cara pro Santos e acho que depois ele foi pro México e sumiu. Esse jogo foi num sábado à noite e ouvi no rádio na casa dos meus avós (maternos) em Olaria."

Ninguém se recordava do jogo. De todos presentes, achava que só um grande e eterno amigo tricolor poderia se lembrar, mas nem ele.

Meados dos anos 90, já jornalista e trabalhando na área esportiva, conversava com colegas na redação sobre jogos antigos e contei a mesma história. Ninguém sabia absolutamente nada sobre aquele Fla-Flu.
"Mas não tenho certeza de que essa partida aconteceu. Acho que sonhei com ela e com esse cara, o Kalu. Tem coisas na minha memória que não sei se aconteceram mesmo ou se foram sonhos."

Veja também:


Nas vezes em que trabalhei no Jornal dos Sports, principalmente na primeira (entre janeiro de 1990 e agosto de 1991), em que pude várias vezes passar muito tempo no arquivo pesquisando edições antigas por conta própria ou para alguma matéria ou ficar conversando e aprendendo com o grande Geraldo Romualdo da Silva, infelizmente já falecido, perdi a chance de verificar se essa partida havia mesmo existido.

No entanto, primeiramente num livro de Roberto Assaf e depois, com a internet, já nos anos 2000, pude constatar que, apesar de algumas imprecisões da minha memória, aquele Fla-Flu não foi sonhado. Ela me voltou no fim do ano passado ou início deste quando Arthur Muhlenberg publicou no seu blog no Globoesporte.com, uma foto do time de juvenis rubro-negro na época de Andrade. 

Kalu havia sido companheiro do Tromba e foi aí que vi seu rosto pela primeira vez. Achei essa foto de novo no site "O Historiador", de Marcelo de Paula Dieguez, mas não é ela que publico abaixo, pois consegui outra com o próprio Kalu, em que ele está com três jogadores que se sagrariam campeões mundiais em 1981. 

Pesquisei muito até encontrá-lo, e fiquei sabendo por ele que antes daquele Fla-Flu tinha acabado de voltar de empréstimo de seis meses para o Fluminense de Feira de Santana (BA) e que acabou sendo escalado por Claudio Coutinho porque Luizinho Tombo se recusou a jogar sem contrato no dia do jogo e Marciano, reserva imediato, estava machucado.

Em pé: Ronaldo, Júnior, Amaro, Gaúcho, Brochado e César.
Agachados: TITA, ANDRADE, Renato, ADÍLIO e KALU.
                  
A partida foi realizada no dia 5 de fevereiro de 1977, um sábado à noite, marcava a estreia de Carlos Alberto Torres com a camisa rubro-negra no Maracanã, e acabou sendo também a de Tita no time profissional, e terminou 3 a 1 para o Flamengo, com dois gols de Kalu (e não três como imaginara) e outro de Luiz Paulo. Para o Flu marcou o meu primeiro ídolo no futebol: o argentino Narciso Doval, ex-Fla. 

No entanto, isso só soube agora, buscando mais informações sobre aquele jogo. E sobre Kalu, que tinha apenas 19 anos na época (eu tinha 10), achei-o agora, aos 55, em Cancún, no México. Falei com ele por telefone na última sexta-feira, e ele me confirma que o site Flaestatística está certo em um ponto: ele estreou justamente neste Fla-Flu. Porém erra em outro: ele não nasceu em Barra Mansa (RJ), mas em Volta Redonda (RJ), onde sempre vai, quando vem ao Brasil. 

Kalu pouco ficou no clube do coração fanático de seu falecido pai, sendo que a sua última partida pelo clube da Gávea foi apenas um mês e dez dias depois (no dia 15/3/1977). Foram somente sete jogos com a camisa rubro-negra e dois gols, justamente aqueles do dia em que foi o grande nome do Clássico das Multidões. Depois ele foi para o Santos, na negociação que trouxe Claudio Adão para o clube da Gávea.
"O Coutinho era apaixonado pelo Cláudio Adão", disse, sem qualquer amargura.

Veja também:
Setenta vezes Maracanã
Sócrates, o doutor da bola


Kalu disputou o Campeonato Paulista daquele mesmo ano, e posteriormente foi para o León, do México. Jogou em outros times mexicanos e acabou encerrando a carreira aos 28, 29 anos, desiludido com os dirigentes do país onde vive que o impediram de se transferir para o Málaga, da Espanha. 

Hoje ele vive em Cancún, mais precisamente em Playa del Carmen, na Riviera Maia, onde é dono de um restaurante e sócio de um hotel. A entrevista que fiz com ele contando detalhes daquela partida, com uma deliciosa história ocorrida um dia antes, quando ele nem sabia que jogaria, será publicada durante esta semana no Globoesporte.com. Veja aqui!


No próximo dia 8, quando Fla e Flu se enfrentarão pelo Campeonato Brasileiro, haverá uma grande celebração pelo centenário do clássico que começou 40 minutos antes do nada, segundo definição de Nelson Rodrigues. Poderia lembrar aqui dos vários que presenciei ou me recordo... 

... como o primeiro que ouvi, o da final do Carioca de 73, quando o Tricolor venceu por 4 a 2 e quis jogar minha camisa do Flamengo pela janela; ou o da Zicovardia de 76, quando o Galinho fez quatro na Máquina de Rivelino, Paulo César, Doval e companhia, que também ouvi pelo rádio; ou os que vi no Maraca, como os que o Flu ganhou, em 1978 por 2 a 0 e em 88 por 1 a 0, quando o Fla já era campeão da Taça Guanabara; ou o que levei uma baquetada de um tricolor menor do que eu na arquibancada do Mario Filho e nada pude fazer por estar com a camisa do meu time no meio da tricolada, no jogo em que Zezé Gomes "venceu" Zico, por 2 a 1, em 81, ano em que o Fla deu o troco, por 3 a 1, com um gol antológico de Lico; o olé rubro-negro de 82, com 3 a 0 no primeiro tempo e um torcedor tricolor invadindo o campo implorando para que Zico, Júnior, Andrade, Leandro, Tita e companhia parassem com a humilhação (deu certo, não houve mais gols); ou os decisivos gols de Assis em 83 e 84 (estava no estádio neste segundo); podia falar do empate com o chutaço de Leandro em 85 ou da despedida oficial de Zico no Fla, naqueles 5 a 0 em Juiz de Fora que assisti pela TV; a final de 91 que para mim serviu de vingança por 73; o gol de barriga de Renato em 95, que ouvi entre muitas interrupções dramáticas por causa da chuva, do local distante em que me encontrava e do rádio de má qualidade que tinha na época...

Porém, fico com o Fla-Flu quase esquecido de um herói quase esquecido, que tive o imenso prazer de reencontrar.


FICHA TÉCNICA
FLAMENGO 3 X 1 FLUMINENSE
Amistoso
Data: 5/2/1977
Local: Maracanã
Público: 20.162 pagantes
Árbitro: Arnaldo César Coelho
Gols: Luiz Paulo, aos 14 minutos do primeiro tempo; Kalu, aos 43 do primeiro e 44 do segundo tempo para o Flamengo, e Doval, aos 43 do segundo tempo, para o Fluminense.
Flamengo: Roberto; Júnior (Dequinha), Rondineli (Paulo Roberto), Carlos Alberto Torres e Vanderlei; Merica, Dendê e Adilio; Tita (Júlio Cesar), Kalu e Luiz Paulo. Técnico: Claudio Coutinho
Fluminense: Félix; Rubens Galaxie, Edval, Jorge Luís e Carlinhos; Cléber (Arturzinho), Wílson Guerreiro (Zé Maria) e Erivelto (Geraldão); Paulinho, Doval e Dirceu. Técnico: Mário Travaglini.

Fotos: Kalu concedendo entrevista antes de um jogo no Maracanã (o repórter provavelmente é Luiz Orlando - ex-empresário de Túlio Maravilha - da Rádio Mauá), o time juvenil (hoje corresponde ao júnior) de 1976 do Flamengo e reprodução do jornal O Globo com a matéria sobre o Fla-Flu em que brilhou (arquivo pessoal).

Veja também:
tudo o que foi publicado em julho de 2011

terça-feira, 26 de junho de 2012

LIÇÕES DE JOÃO (A MÚSICA É INTERDISCIPLINAR 2)

Nada melhor do que ter uma tese reforçada por um mestre. Mesmo sem saber que eu existo, ou mesmo o que escrevi aqui no blog dias atrás (A Música é Interdisciplinar), um dos maiores compositores da história da música brasileira, João Bosco, disse que é preciso se dar mais atenção à questão educacional da música em bela e didática entrevista a Roberto D'Ávilla que foi exibida em sua primeira parte neste domingo na TV Brasil - prossegue no próximo domingo e eu mais que recomendo. Ele mencionou este pensamento logo após dar uma pequena aula sobre o samba sincopado, afirmando que a "sílaba forte" do batuque não é uma batida, mas o silêncio. E completou: "Isso é Matemática e Filosofia".
Obviamente que esta conexão (tudo a ver com o nome do programa!) me fez ficar com olhos, ouvidos, todos os sentidos vidrados na entrevista que peguei já iniciada e bem nesta parte que citei. Entre tantas outras pequenas lições que deu em menos de uma hora, destaco aqui mais uma: a de como João Gilberto - a quem muito respeito, mas de quem não sou grande fã - revolucionou o violão. Bosco mostrou no seu violão como seu xará baiano transpôs para as cordas o que anteriormente apenas instrumentos de percussão faziam. Para ele, João Gilberto reinventou esse instrumento tão identificado com a riquíssima música brasileira. E lembrei de um show que assisti em Salvador, no iniciozinho de 2006, no qual um violonista que infelizmente não me recordo o nome deu uma aula-espetáculo parecida, explicando como João Gilberto mudara o andamento do samba e chamando a atenção para o quase sussurrar de seu canto. Esqueci o nome do professor, mas não da aula.
Mas voltando ao outro João, Bosco também falou de Dorival Caymmi, que tinha a capacidade de transformar seu violão de acordo com o cenário que criava para suas músicas: praieiro, urbano ou de terreiro. E relatou também como, sendo um anônimo rapaz de Ponte Nova (MG), estudante de Engenharia em Ouro Preto (MG) no fim dos anos 60, reuniu coragem para ir até Vinicius de Moraes, que estava hospedado num hotel na cidade histórica mineira, para mostrar suas músicas, logo fazer uma parceria com o poeta na mesma madrugada e as conseqüências daquele dia.
Algum tempo depois, no início dos anos 70, Vinicius o chamou em sua casa no Rio para que João Bosco e seu grande parceiro, o estudante carioca de Medicina Aldir Blanc, apresentassem seus trabalhos a um grupo que tinha, entre outros, Tom Jobim, Chico Buarque e Toquinho. A pedido de Roberto D'Ávilla, João tocou inteira uma das músicas que tocou naquele dia: Agnus Sei. Gostaram tanto, que ele a gravou no Lado B de um compacto distribuído pelo jornal O Pasquim, tendo no Lado A a então inédita "Águas de Março", de e com Tom Jobim.
Sempre que ouço Agnus Sei, prestando muita atenção à poesia de Aldir, fico imaginando por quantos lugares e tempos na História música e letra percorreram até desaguarem na maravilhosa composição dessa dupla. E vou aprendendo assim mais algumas das lições de João.
Foto: Capa do compacto lançado pelo jornal O Pasquim no início dos anos 70, com Tom Jobim num lado e "o tal" de João Bosco no outro.
Vídeo: "Agnus Sei" (João Bosco/Aldir Blanc), com João Bosco.
Veja também:
Reencontro com Lobão
Para Milton e nossos amigos

quarta-feira, 20 de junho de 2012

A MÚSICA É INTERDISCIPLINAR

A Música é uma Arte tão completa e poderosa que poderia perfeitamente ser a base do currículo escolar inteiro. Com os vários elementos que a compõem e toda a história que percorre nos mais variados recantos da Terra desde os mais distantes tempos - talvez antes mesmo de existir um ser vivo por aqui - ela abrange com seus sons, ritmos, compassos, acordes, melodias, harmonias, partituras, letras, cantos, vocalizações, afinações, instrumentos, regências, orquestrações, pausas, conexões, improvisações, arranjos, técnicas, produções, composições etc etc etc todas as matérias que aprendemos separadamente na escola.
Música é a interdisciplinaridade por excelência. Por intermédio dela se aprende Matemática, Línguas, Literatura, Artes, Filosofia, História, Geografia, Física, Religiões (ou Crenças, inclusive as Pagãs) e quem sabe até Química e Biologia. A Música unifica todas as matérias. Mais do que aulas de Música, que haja ensino com a Música.

Vídeos: "O mestre-sala dos mares" (João Bosco/Aldir Blanc), com Elis Regina; "Ponta de Areia" (Milton Nascimento), com Milton e Naná Vasconcelos, e "Canto das três raças" (Paulo César Pinheiro/Mauro Duarte).
Veja também:
Para Milton e nossos amigos
Os sopros mágicos de Carlos Malta
Villa-Lobos, o pai da MPB

domingo, 17 de junho de 2012

ELOGIO AO FUTEBOL

Não pude ver os jogos da Eurocopa deste sábado, mas à noite procurei na internet saber como havia acabado o Grupo A da "Copa do Mundo sem Brasil e Argentina" e tomei um susto. Menos pela classificação tcheca, já que sua seleção tinha vantagem de um ponto sobre os poloneses, um dos donos da casa, mas pela eliminação do bom time russo, que deixou a vaga nas mãos (ou melhor, pés) dos limitadíssimos gregos. O futebol é mesmo uma síntese da vida, com suas improbabilidades, incertezas, surpresas, justiças, injustiças, mil lições a cada lance.
Vi os melhores momentos dos dois jogos e em ambos os vencedores foram os que menos criaram lances de gol, sendo que no último de Polônia 0 x 1 República Tcheca, o time da casa não marcou porque havia um adversário atento e esperto em cima da risca da baliza. O empate não serviria para os poloneses, mas eliminaria os tchecos e daria a vaga para os russos. Muitos caprichos e emoções, bicho.
Na primeira rodada, a Rússia goleou com enorme facilidade a República Tcheca, por 4 a 1, e só não fez mais três, porque o seu camisa 11, Kerzhakov, não sabe chutar. Ontem, ele perdeu mais uma ótima oportunidade e ajudou sua seleção a cair mais cedo do que se esperava. Ficaram os persistentes gregos, que já venceram uma Eurocopa surpreendentemente, em 2004, numa final contra Portugal, que era a anfitriã da festa e ficou com o sabor amargo da derrota.
Avançam, portanto, para as quartas-de-final, os tchecos do cabeludo e barbudo Jiracek, com seu jeito de roqueiro dos anos 70, e os gregos do herói nacional Karagounis, já alçado ao Olimpo do esporte em seu país por todos os gols decisivos que marcou, vencendo todas as probabilidades imagináveis. Isso tudo prova mais uma vez que só o talento não basta, é preciso suar muito a camisa para se alcançar a vitória. E auto-confiança. Eis o segredo: auto-confiança.

Fotos: Jiracek (Aris Messinis/AFP) e Karagounis (AP).
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Sócrates, o doutor da bola
Das peladas de rua às arenas
Ademir da Guia, o Divino
Futebol-Arte: os maiores jogos de todos os tempos

quarta-feira, 13 de junho de 2012

PENSO, LOGO SINTO 8

Para trazer algo novo ao mundo é preciso visitar os clássicos.


Vídeo: "Une Larme" (G. Rossini), "Pezzo Capriccioso" (P. I. Tchaikovsky), "Prelude from Suite No. 3" (J.S. Bach) e "Lamentatio" (G. Sollima), com Tilly Cernitori.
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Monólogos 15
Penso, logo sinto 3
Esquizofrenia

segunda-feira, 11 de junho de 2012

domingo, 3 de junho de 2012

DOIS GAROTOS

Tive o privilégio de mais uma vez assistir a um belo espetáculo musical na Sala Paulo Moura, que fica no Centro Municipal de Referência da Música Carioca Artur da Távola, na Tijuca, sábado, dia 2. Mais que música, tocada com virtuosismo e sensibilidade pelo violonista Marcello Gonçalves e o cavaquinista Henrique Cazes, foi uma aula sobre dois dos maiores compositores da história da música: Pixinguinha e Garoto.
O primeiro é por demais conhecido e aplaudido pelo público, embora nunca seja demais relembrá-lo, mas Anibal Augusto Sardinha, o Garoto, que viveu pouco menos de 40 anos, é infelizmente ainda muito pouco divulgado. Por isso, Cazes se concentrou em contar as histórias desse multi-instrumentista paulistano, que começou sua carreira aos 11 anos e tocava banjo, cavaquinho, bandolim, violão tenor, guitarra elétrica e havaiana, mas que perto do fim da vida se concentrou no violão.
Segundo o cavaquinista, tivesse mais dez anos, pelo caminho que tomava em seu trabalho, Garoto se tornaria o maior compositor para violão do século XX. Mas um ataque cardíaco fulminante o levou em 3 de maio de 1955. Cazes, que é autor de um livro que pretendo comprar em breve chamado "Do quintal ao Municipal", não só contou, como ilustrou musicalmente com Marcello, que Garoto foi um precursor da bossa nova e de tudo o que outro gênio das cordas, Baden Powell, iria fazer alguns anos depois. É só ver e ouvir o vídeo abaixo para se ter uma idéia do que o compositor paulistano era capaz, e como esses dois garotos brincam com as cordas do violão e do cavaquinho.

Vídeo: "Lamentos do morro", de Garoto, com Marcello Gonçalves e Henrique Cazes.
Ilustração: "Garoto", de Miécio Caffé.
Veja também: tudo o que foi publicado em junho de 2011.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

MÚSICA PRA VIAGEM: CHILDREN'S CRUZADE

Cruzada das Crianças, de Gustave Doré
Sempre gostei muito de Children's Cruzade, música de Sting, e hoje, após ouvi-la na Rádio Vitrola, fui procurar a letra e entender que Cruzada das Crianças era aquela. Sting fala de 1914 (ano da Primeira Grande Guerra) e 1984 (ano em que provavelmente a música foi composta e que George Orwell escolheu para escrever em 1948 a sua obra-prima futurista, prevendo um mundo vigiado por câmeras), mas o evento, ou melhor, os eventos originais se referem ao ano de 1212.

Em meio a muitos relatos fantasiosos - e romanceados ou poetizados, como vários livros sagrados? - conta-me o Wikipedia que dois meninos pastores, um da Alemanha de apenas 10 anos, chamado Nicholas, e outro de 12 da França, conhecido como Stephen de Cloyes, lideraram grupos de milhares de crianças e adolescentes por uma Europa devastada pela fome, a miséria, e atravessada por grandes movimentos populacionais causados pela migração dos campos para as cidades dos fazendeiros que perderam suas terras e pelas Cruzadas, que pretendiam impor na marra o cristianismo à Terra Santa, onde fica a Palestina, então dominada pelos turcos otomanos.

Veja também:


Nicholas quis que o Mediterrâneo se abrisse para que ele e seus 7 mil seguidores passassem rumo a Jerusalém. Stephen disse ser portador de uma carta de Jesus de Nazaré para o rei da França e foi para Saint-Dennis com 30 mil pessoas a lhes dizer amém. Teria até feito milagres. Nos dois casos, muitos dos jovens - possivelmente alguns nem eram tão jovens assim - morreram de fome, sede, afogados (no trajeto de barco, já que o Mediterrâneo cerrou-lhes a porta por entre suas águas) e vendidos como escravos.

Oitocentos anos depois vemos a Europa novamente em grave crise econômica, acirrando seus cantões históricos de fascismos e etnicismos e um país periférico na América com manias de grandeza construir para suas crianças uma estrada infectada de ignorância, inversão de valores, submissão a crenças distorcidas, fanatismo religioso, truculências, homofobia, xenofobia, racismo, ganância. Muitas se perderão no caminho desta nova Cruzada, mas em breve a maioria será adulta e representará uma nação.

terça-feira, 20 de março de 2012

OS SOPROS MÁGICOS DE CARLOS MALTA

A música - e a arte em geral - tem um poder inimaginável. Tanto sobre quem a cria e executa, quanto sobre quem a ouve. Nunca consegui aprender a tocar qualquer instrumento, embora tenha tentado o violão, canto com dificuldades (e insisto), não sou crítico musical, mas sei muito bem ouvir, apesar de ter somente uns 30% de audição no ouvido esquerdo. E posso dizer sem medo de errar que o último 16 de março ficará marcado na minha vida como o dia em que assisti à melhor apresentação de um instrumentista ao vivo. Muito bem acompanhado por André Siqueira, na guitarra; Augusto Mattoso, no contrabaixo acústico, e Kesso Fernandes, na bateria, Carlos Malta fez de seus saxofones, flautas, flautim e até apito a extensão de sua alma para deixar extasiada uma platéia de mais de 200 pessoas que abarrotaram a sala Paulo Moura, que fica no Centro de Referência da Música Carioca Artur da Távola, na Tijuca, zona Norte do Rio de Janeiro.

Ficou claro também, durante todo o show e principalmente no fim, que Malta e os outros excelentes músicos perceberam que haviam sido responsáveis por uma noite de gala. Foi uma viva emoção que ia do palco para o público e do público para o palco. Ele próprio me confirmou isso num rápido bate-papo pelo facebook no dia seguinte. Malta credita à Elis Regina, a homenageada da noite, grande parte dessa magia. Sim, o repertório é de primeiríssima qualidade, com as músicas de Tom Jobim, Milton Nascimento, João Bosco e Aldir Blanc, Gilberto Gil, Edu Lobo e Gianfrancesco Guarnieri, entre outros, que se eternizaram na voz de Elis. No entanto, a releitura dessas músicas nos sopros mágicos de Malta as transformaram em novas, renovadas.

Entre tantos destaques daquela noite gostaria de citar um em especial, não só por ser uma das músicas que mais gosto - e já publicada aqui no blog com interpretação de Milton e Nana -, Cais (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos), mas pela sensibilidade inteligente do arranjo. Ela inicia com Augusto Mattoso usando o arco e deslizando o dedo anelar da mão esquerda sobre a mesma corda do seu contrabaixo acústico para nos remeter ao som das gaivotas (veja no vídeo abaixo, ele há 12 anos, quando fazia parte do grupo Tríade). Um instrumento enorme, grave, voando por notas tão altas como se fosse uma ave. Um momento sublime que só foi ganhando força e emoção conforme ia sendo executada. A praia, o vento, o saveiro, as gaivotas, tudo está lá naqueles sons. Como faz com outras músicas, Carlos Malta pega o tema, o descontrói e reconstrói como bem entende. Não é uma simples reprodução da melodia original, mas uma releitura, uma recriação genial. E parece que as notas  se desmancham à sua frente, para logo em seguida se rearrumarem e seguirem seu rumo.

Esta memorável apresentação, baseado no premiado CD "Pimenta", de 1999, e que farei de tudo para rever no dia 31 no Largo do Machado, conseguiu superar a do Trio Madeira Brasil e Armandinho, em 2000, no Teatro Municipal de Niterói, que até então era o que de melhor eu havia visto e ouvido. Curiosamente, no dia anterior ao show de Carlos Malta havia achado o ingresso daquele maravilhoso espetáculo. E para expressar a minha enorme admiração por aqueles que há doze anos também me proporcionaram uma noite inesquecível, reproduzo abaixo o texto que escrevi para o jornal O Fluminense naquela ocasião.

Momento de gênio

Se tive na vida um instante de genialidade, um mínimo momento que seja, este foi quando decidi comprar um ingresso para assistir ao espetáculo do Trio Madeira Brasil anteontem no Teatro Municipal de Niterói. O curioso é que depois do espetáculo fui abordado por um rapaz de vinte e poucos anos para me falar de Deus. Como, se sem a necessidade de palavras tinha estado no céu sem sair da cadeira há poucos minutos? O Trio formado por Ronaldo do Bandolim, José Paulo Becker (violão de sete cordas) e Marcello Gonçalves (violão) é, como diz a rapaziada, show de bola. E espetáculo dado com as notas passando de pé em pé, ou melhor, de mão em mão. Assim como já fizeram Gérson, Tostão, Clodoaldo, Rivelino, Jairzinho, Carlos Alberto nos palcos gramados – ou para puxar a sardinha para o meu time, Leandro, Júnior, Adílio, Andrade, Tita, Lico.
Ali se jogou para o time e para a platéia, arte. O jogo não foi contra ninguém, todos ganharam. Essa equipe fantástica fez desfilar músicas (jogadas) de virtuoses de outros tempos como Jacob do Bandolim, Ernesto Nazareth, Pixinguinha, Lamartine, Manuel de Falla, Astor Piazzolla. Como os craques citados nos fizeram lembrar tantas vezes de que existiram antes deles Nilton Santos, Didi, Domingos da Guia, Zizinho e tantos outros brasileiros e estrangeiros da mesma categoria. Mas não se esqueceram dos que ainda estão em ação como Egberto Gismonti, Chico Buarque, Edu Lobo. Para completar, depois de apresentarem quase todas as músicas de seu primeiro CD (destaques para “Santa Morena”, de Jacob; “Danza de la vida breve”, de Manuel de Falla; e “Loro”, de Egberto Gismonti) e algumas do que estar por vir, chamaram mais uma fera chamada Beto Cazes para o molho percursivo.
No entanto, o que até então era arrepio de emoção, misturou-se a risos, encantamento e até escondidas lágrimas. Foi quando entrou o Zico, o Pelé, ou mais adequadamente, o Garrincha Armandinho. Faltava o gênio e ele chegou para fazer o imprevisível e arrebatar de vez a platéia do Teatro Municipal. Com seu bandolim elétrico ou o cavaquinho, Armandinho dialogava com a percussão fazendo sons de cuíca, surdo, tamborins, tantãs e outros instrumentos que nunca foram inventados. Passeou pelas “Noites Cariocas” com Jacob do Bandolim, fez baixar a “Ave Maria” no terreiro, varreu o salão com as “Vassourinhas” e "Apanhei-te Cavaquinho” para recordar Ernesto Nazareth. Tudo com uma alegria contagiante de criança. Ou seja, como todo gênio,  distribuía o jogo, assumia a responsabilidade da partida, antevia as jogadas e decidia com maestria. Pode-se dizer que o gênio tem parte com Deus, e o Diabo, mas não faz pacto de vida ou morte, pois é eterno.
É impressionante como tantas lições foram aprendidas sem a necessidade de qualquer palavra, apenas com os sons mágicos da música fantástica de todos esses maravilhosos artistas. E música brasileira. Sim, nunca uma noite foi tão brasileira ao som de chorinhos, sambas e frevos, mas também de ragtime, polca, bolero, tango, música sacra. A grande lição da noite foi a que tantas vezes aprendemos e, infelizmente, andamos nos esquecendo de praticar: somos miscigenados e, principalmente, miscigenadores. Não há a mínima necessidade de importarmos ritmos para apenas reproduzi-los e chamarmos de música brasileira apenas porque se fala português (quando isso!). Na noite de terça passada, a universal língua musical nos transformou a todos que compareceram ao Teatro Municipal de Niterói. Eu, pelo menos, saí de lá uma pessoa muito melhor do que quando entrei.


Fotos: Carlos Malta (divulgação) e Armandinho (Ivan Eric).
Vídeos: "Upa, Neguinho" (Edu Lobo/Gianfrancesco Guarnieri) e "Cais" (Milton Nascimento/Ronaldo Bastos), interpretações de Carlos Malta, com Ricky Sebastian (bateria), Larry Sieberth (piano) e o Grupo Tríade: Dalmo Mota (violões e berimbau), Augusto Mattoso (baixo acústico) e Luis Sobral (bateria), e "Loro" (Egberto Gismonti), com o Trio Madeira Brasil.
Veja também:
Samba Líquido
A questão do fânqui e o velho Angenor
Antúlio Madureira, o mestre de obras-primas

terça-feira, 13 de março de 2012

O JORNALISMO EM QUESTÃO

Em 2000, uma aluna de jornalismo que tinha como professor um ex-companheiro meu de trabalho me ligou para marcar uma entrevista por indicação dele. O assunto, obviamente, seria a profissão que ela escolheu e para a qual eu já trabalhava há mais de dez anos. Lembro que marquei de encontrá-la no Centro Cultural da Justiça Federal, no Centro do Rio, onde eu assistiria à peça Insensatez, de Jean Cocteau, duas horas antes do início do espetáculo.
A menina, da qual jamais lembrarei o nome, gravou a entrevista, então há alguma possibilidade (embora considere remotíssima) de que ela possa ser confirmada. No fim do nosso papo, a estudante me perguntou como se poderia praticar o jornalismo independente e respondi que isso só seria possível se ela montasse um jornal - logicamente naquela época a internet não tinha a dimensão e a popularidade que ganhou nos últimos anos. E ainda assim, isso não seria garantia de nada, afirmei.
Prossegui: digamos que eu tivesse um jornal no meu bairro e um dia descobrisse que o dono do açougue (digamos) Boizão, principal patrocinador do meu pequeno e bravo veículo de comunicação, adulterara a balança do seu estabelecimento comercial para passar a perna nos fregueses e lucrar mais. Disse a ela: se eu publicasse matéria sobre isso - logicamente com a comprovação da fraude -, mesmo tendo como certa a perda da minha principal fonte de renda, agiria como jornalista. Porém, se optasse por deixar pra lá, seria qualquer coisa, menos jornalista.
Convidei-a a assistir à peça, mas ela recusou, dizendo que precisava ir para casa bater o trabalho que acabara de apurar. Então, me despedi da estudante dizendo que veria mais verdades na sala ao lado do que em todo noticiário do dia.
Veja também:
Adeus, Maracanã
A conversa continua
Entrevista: Nelson Pereira dos Santos

quinta-feira, 8 de março de 2012

ELES NÃO NOS ENTENDEM*

Caí na besteira de aproveitar um gancho numa conversa de bar, quando já me despedia, para dizer a um americano que estava à mesa que nós brasileiros éramos desvirtuados por natureza. Eu, naquele momento ainda sob os efeitos do álcool (não muito, é bom que se diga!) e da verdadeira aula de cultura popular que acabara de presenciar no Largo do Curvelo, quis resumir numa palavra tudo aquilo que nossas elites e os gringos têm muita dificuldade de entender (alguns conseguem, é verdade, mas a dificuldade existe): somos diferentes, porque através de uma mistura de raças que não se esgota temos a mais rica e variada cultura do mundo, quer eles queiram ou não. Nosso desvirtuamento está exatamente neste ponto: passamos de síntese da cultura mundial para nos transformar em algo original. E não estou dizendo novidade alguma, é só lembrarmos de Darcy Ribeiro e a sua tese de que somos desíndios, desafricanos e deseuropeus.

Pois bem, dizia eu que caí na besteira de ter dito o que disse para um estrangeiro. E por quê? Porque o americano, talvez impregnado por sua cultura nacional de colonização e de especialização - o especialista, como se sabe, é aquele que sabe quase tudo sobre quase nada - logo quis me rotular de algo que minha ignorância não me permitiu perceber de primeira. Ele me disse com seu sotaque canhestro que eu deveria ser um seguidor de Oliveira Viana, que só depois que deixei o bar - socorrido por uma amiga - fui saber se tratar de um consultor do primeiro Governo Getúlio Vargas que defendia que uma minoria deveria conduzir o povo (sabe-se lá para onde). Como não sabia de quem se tratava, mas desconfiado de que coisa boa não deveria ser, rechacei a idéia do gringo dizendo que nunca ouvira falar de Oliveira Viana e que tinha o "péssimo" hábito de ter idéias próprias.

Foi muito divertido saber depois, descendo as belas ladeiras de Santa Teresa, que se tratava de um americano e, que quando nos despedíamos, ele tentava convencer sua namorada brasileira de que é moreno. Ora, um branquelo de cabelos claros e olhos azuis querendo convencer uma "morenaça" que é da mesma cor dela, como se isso fosse a prova cabal de que entendia o espírito brasileiro, foi hilariante. Foi exatamente neste momento que entrei com a história do desvirtuamento, porque mesmo ele estudando tudo sobre a nossa história e cultura (e quem sabe se tornar um dia um brasilianista) e querendo se tornar moreno (num processo inverso do seu falecido compatriota Michael Jackson), terá sérias dificuldades para nos entender, simplesmente porque não é brasileiro (e para isso, ressalto aqui, não basta nascer nesta terra).

O americano em particular e seus compatriotas, em geral, me perdoem, mas é muito mais fácil conseguirem se identificar aqui com governantes e pseudo-religiosos que não compreendem a nossa cultura, com tudo de ótimo e péssimo que possuem. Isso vale tanto para os atuais, como para os do início do século XX, que proibiam o samba e a capoeira nas ruas do Rio, e para os frustrados que não se conformam de terem nascido no Brasil.

* Este texto, com modificações feitas agora, foi originalmente escrito entre 1997 e 99. O evento no Largo do Curvelo mencionado no texto foi uma manifestação de músicos, artistas e público em geral contra a proibição de música ao vivo em Santa Teresa pelo então prefeito que prefiro não citar o nome.



Vídeo: "Querelas do Brasil" (Aldir Blanc), com Elis Regina.
Veja também:

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

OS MAIORES JOGOS DE TODOS OS TEMPOS 10

BRASIL 2 X 1 URUGUAI - TAÇA DO ATLÂNTICO DE 1976

Todo mundo fala da corrida que Rivelino levou de Ramirez, mas quase ninguém se lembra do belo gol que ele fez nesta partida válida pela Taça do Atlântico de 1976. A briga começou a se desenhar depois que Keosseian foi expulso ao acertar o craque do Fluminense, que já havia se desentendido com Dario Pereyra (craque que jogou de zagueiro no São Paulo) no primeiro tempo. 

Em seguida, quase no fim do jogo, Zico fez uma jogada espetacular, driblando quatro uruguaios e sendo derrubado com uma falta violenta pelo quinto, Ramirez, que seria companheiro do Galinho no Flamengo pouco tempo depois. Armou-se uma confusão, com Rivelino aparecendo como o mais revoltado pelo sarrafo no então jovem camisa 8, no seu primeiro ano na Seleção principal.

Veja também:


Marco Antônio cobrou a falta na trave esquerda do goleiro Corbo, que depois jogaria no Grêmio. Veja que além de Zico, Rivelino e Roberto Dinamite, ainda havia pelo menos mais um excelente cobrador de faltas na equipe brasileira. Logo depois, a partida acaba. Rivelino ia tranqüilamente para o vestiário, quando Ramirez sai feito um louco atrás do 10 brasileiro. Foi agarrado por Orlando Lelé e acabou apanhando muito de outros adversários. Um final lamentável que tornou este jogo histórico.

BRASIL 2 X 1 URUGUAI
Data: 28/04/1976
Competição: Taça do Atlântico/Taça Rio Branco
Local: Estádio do Maracanã - Rio de Janeiro
Árbitro: Romualdo Arppi Filho (Brasil)
Times
BRASIL: Jairo, Toninho (Orlando), Miguel, Amaral e Marco Antônio; Chicão, Zico e Rivellino; Gil, Enéas (Roberto Dinamite) e Lula. Técnico: Osvaldo Brandão.
URUGUAI: Corbo; Ramirez, de los Santos, Chagas e González; Acosta, Jiménez e Dario Pereyra; Julio Rodriguez (Revetria), Morena e Daniel Torres (Keosseian).
Técnico: José María Rodríguez.
Gols: Daniel Torres, aos 15 minutos do primeiro tempo; Rivelino, aos 10, e Zico (pênalti), aos 27 do segundo tempo.
Cartão vermelho: Keosseian.


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quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

PENSO, LOGO SINTO 6

Maus votantes e péssimos cidadãos devem ficar longe das urnas. Não existe democracia com voto obrigatório.



Vídeo: "Admirável gado novo", de e com Zé Ramalho.

Veja também:
o que foi publicado em janeiro de 2011.

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #47

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46 Garrincha e Pelé, durante a Copa do Mu...

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