sexta-feira, 9 de outubro de 2020

"CONTOS DA BOLA" ESTÁ VOLTANDO!

Como normalmente fazem jogadores, técnicos e dirigentes às vésperas de grandes clássicos, convoco toda a galera para invadir o Catarse e adquirir o seu ingresso para se emocionar, se envolver, vibrar e também rir com as histórias do livro "Contos da Bola", que será relançado pela Cartola Editora em formato tradicional (físico) e digital (ebook). Com prefácio assinado pelo jornalista e radialista Alexandre Araújo, do grupo Pop Bola, 19 contos vão das peladas de rua e campinhos aos grandes campeonatos profissionais, passando por campeonatos de várzea surreais, com personagens que vão dos peladeiros e torcedores apaixonados aos pretensos craques, grandes pernas-de-pau, árbitros e craques consagrados.

Tem torcedores de vídeo-teipe, angustiado e volúvel e azarado; o autor de um golaço que quase ninguém viu; artilheiro e árbitro honestos; a galerinha que sofreu com a Tragédia do Sarriá, se divertiu em ruas, campos e grandes vitórias de seus times do coração e da seleção, e com o time do bairro teve uma reação heróica contra o maior rival graças a um "doping" inesperado. Isso tudo e muito mais, com partidas históricas muitas vezes servindo de pano de fundo para destacar como personagem principal o anônimo, que é aquele que mantém crepitando a fogueira da paixão pelo futebol.

Para garantir o recebimento em casa do ingresso e viver todas essas emoções, reserve já o seu livro. Pode ir de arquibancada, tribuna, cadeira, geral, como achar melhor, tem opções para todos os gostos e bolsos. E ATENÇÃO: quem investir R$ 45 ou mais nas primeiras 48 horas não paga frete. Aproveite! Agora, é só ir à bilheteria, sem fila, e adquirir o(s) seu(s) aqui.

Sua contribuição é um investimento neste projeto, vale como patrocínio. Aliás, sua empresa pode ser uma das patrocinadoras ou patrocinadora master. É só clicar aqui para saber como vestir esta camisa e ir a campo com a gente.  

Conto com sua torcida, participação, divulgação e, posteriormente, leitura, claro! Muito obrigado.


Veja também:
"Profano" conquista corações
"O negro crepúsculo", um livro muito bem recomendado
"O negro crepúsculo" pelo mundo
"Sutilezas", amor, paixão e surpresas

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

MÚSICA PRA VIAGEM: DE FRENTE PRO CRIME

João Bosco e Aldir Blanc, infelizmente falecido em maio, no início da pandemia aqui no Brasil, formam uma dupla de craques da nossa música, daquelas que em campo a gente via tabelando do meio do campo até o gol adversário. Não por acaso, muitas das composições deles o futebol aparece e por isso será papo para a coluna Jogada de Música em breve. Bosco sendo flamenguista poderia ser o Zico, e o Blanc, que era vascaíno, Roberto Dinamite, dupla de ídolos que aliás juntos nunca saíram de campo derrotados com a camisa da seleção brasileira (foram 26 jogos, 20 vitórias e seis empates, com 19 gols do rubro-negro e 18 do vascaíno, entre 1976 e 82). 

Mas o papo aqui é música e escolher uma da gigantesca (em número e qualidade) parceria de João com Aldir para esta série era uma tarefa das mais difíceis. Até que, lavando a louça dia desses, comecei a cantarolar os primeiros versos desta crônica poética genial de Aldir que acabou se tornando bordão do grande locutor Januário de Oliveira, justamente aquele que abre a obra: "Tá lá um corpo estendido no chão". E ao mesmo tempo me veio à cabeça o quanto de rodrigueana há nesta letra. Não tive mais dúvida.

Foi a imagem de "Em vez de rosto, a foto de um gol" que me levou de cara para o universo de Nelson Rodrigues, em especial "O beijo no asfalto". E Aldir e Nelson sabiam ambos contar como poucos as histórias dos subúrbios cariocas, cada um ao seu estilo. E voltando aos versos desta música, também me recordei do que disse a professora Marília Barboza numa comparação entre o Rio de Janeiro e a Bahia num curso que fiz em 1999, no teatro da UFF, e jamais me esqueci: "Enquanto no Rio, o sagrado é tornado profano; na Bahia, o profano é transformado em sagrado". 

Portanto, nada mais carioca do que estar "De frente pro crime".


Que tal esta versão com o mestre João Bosco, a ótima Roberta Sá e o fantástico Trio Madeira Brasil? Quero saber sua opinião: participe, comente, sugira, critique, compartilhe, siga. Eu? Agradeço, sempre.
 
Veja também:

quinta-feira, 17 de setembro de 2020

A REVOLUÇÃO DOS BICHOS ESCROTOS

Ilustração de Odyr Bernardi

Quando o ovo da serpente 

se rompeu 

- e já faz muito tempo -

os ratos primeiro hesitaram,

mas logo ficaram seguros

de que não eram poucos 

e entenderam que

podiam deixar

os seus bueiros imundos

para espalhar a peste

por todas as ruas

de todas as cidades

em todo o país

 

A cadela no cio

uivou insaciavelmente

e atraiu com seu

perfume embriagador

e nauseante

cérberos com 

presas arreganhadas,

gengivas escuras

sangrentas

e uma baba venenosa

inclemente e elástica

a pender quase ao chão,

onde cascos e ferraduras 

marchavam ritmados

numa nova versão

de uma antiga e 

desgastada história

que nos livros 

tiveram suas páginas

rasgadas

por quem não

se interessa

ou sabe

ler

 

Os porcos cheios 

de fantasias de poder

excitados por um novo

velho momento

que se repete como farsa

desmentem-se cínica

e hipocritamente, mas

quase todos sabem com

quem estão falando

com o que estão lidando

 

Pastores adestram

subservientes ovelhas e cordeiros

a levarem os lobos famintos

para revistarem

o galinheiro

onde os galos de briga

já foram subornados

 

A cadela no cio

novamente uivou

e os vira-latas

imprestáveis 

cada vez mais excitados

e incitados

já não se contentam mais 

com as sobras,

 juram vingança

e tocam fogo na mata

para a boiada passar

matando outros tantos animais,

 

Tanto faz!

Ninguém vai mover

uma palha sequer

pra salvá-los,

muito menos

salvá-la.

 

Veja também:


terça-feira, 15 de setembro de 2020

MÚSICA PRA VIAGEM: UNICORNIO

A primeira de certamente muitas canções na maravilhosa voz de Mercedes Sosa que farão parte desta série não é das suas mais conhecidas por aqui. Porém, além de ser uma belíssima composição do cubano Silvio Rodríguez, "Unicornio" tem um significado especial para mim. No primeiro curso de espanhol que fiz, no fim dos anos 90, em Niterói, ela foi apresentada numa das primeiras aulas pela professora, uma senhora gaúcha da qual infelizmente não me lembro o nome, num gravador em fita cassete.

Ouvir aquela interpretação de La Negra, como a extraordinária cantora argentina era conhecida, e estudar a poesia de Rodríguez me deram duas grandes motivações: conhecer melhor a obra de Mercedes Sosa e a Língua Espanhola. Foi o que fiz durante um bom tempo, comprei alguns CDs de Mercedes Sosa e fiz um outro curso, no Centro do Rio de Janeiro, um ou dois anos mais tarde, pois não pude continuar naquele. Muito graças a esta música, pude posteriormente ler alguns livros de autores de língua espanhola no original, como "Del amor y otros demonios", do grande Gabriel García Márquez.

Gracías!

Veja também:
Adiós, La Negra

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

MÚSICA PRA VIAGEM: 1974

Você se lembra de algo que vivenciou em 1974 (obviamente se já era nascido naquele ano)? Especialmente daquele ano tenho grandes recordações, quase todas relacionadas ao futebol, mas não só. Desde a primeira vez que ouvi esta música do grupo O Terço, de onde saíram dois integrantes do 14 Bis, Flávio Venturini e Sérgio Magrão, ainda - ou já - nos anos 80, viajo no tempo.

A música foi gravada no excelente álbum "Criaturas da Noite", de 1975, e acredito que estejam neste instrumental composto com sublime inspiração por Flávio Venturini, todos os acontecimentos daquele ano, o meu oitavo neste mundo. Em especial, o carnaval, para mim, está bem nítido. Curtam esta viagem, pela primeira ou mais uma vez, vale muito a pena.

Veja também:

sábado, 5 de setembro de 2020

O CHOQUE DOS BURACOS NEGROS NO BRASIL

O Brasil atingiu um nível intelectual, moral e emocional de eleitores e eleitos tão baixo, mas tão baixo, que o país corre o sério risco de, tendo algo um pouquinho melhor daqui para frente, parecerá para alguns um grande avanço. Com patamares tão subterrâneos, nos termos de comparação não fica difícil conseguir algo menos ruim, mas é bom ressaltar que sempre pode piorar. Por exemplo, com a reeleição de quase todos os atuais "representantes do povo".

Isso tudo é fruto de investimento em massa por décadas e décadas em deseducação, algo muito sério e claramente agravado pelo atual desgoverno, repleto de imbecis e gananciosos de todos os naipes. Vai ser difícil sair deste buraco negro em que nos metemos. Aliás, o choque de dois buracos negros que assustou recentemente cientistas ocorreu na verdade aqui e tem um pouco mais de tempo: o que já havia sido formado ao longo das últimas muitas décadas e o que veio em 2018.

Veja também:
O ódio presente
Fábrica de ídolos
Beco sem saída
Folia de Reis

sexta-feira, 28 de agosto de 2020

FALSOS CRISTÃOS (CHRISTIANS FAKE)

 

Até quando os verdadeiros e bons cristãos vão ficar em silêncio enquanto pseudo-sacerdotes e muitos de seus cegos fiéis seguidores continuarão deturpando, distorcendo, destruindo os ensinamentos de Jesus? 

Como bem disse Martin Luther King: "O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons".

Veja também:
A tropa do horror está no poder
Quem Jesus matou?
Eles não nos entendem



quinta-feira, 27 de agosto de 2020

MÚSICA PRA VIAGEM: CANTO DAS TRÊS RAÇAS

Clara Nunes ainda deixa muitas saudades, principalmente neste "Canto das três raças", de Mauro Duarte e Paulo Cesar Pinheiro. Esta música, que ouço e canto com freqüência, dá nome ao décimo disco da carreira da cantora, lançado em 1976. Ela está no repertório do LamasCast, logo no segundo episódio, chamado "Resistência é a palavra", publicado em maio do ano passado. Ouça aqui.

A primeira vez que a ouvi achei que fosse um samba de enredo, o que nunca se concretizou, mas deveria ter ido para a avenida, preferencialmente com a Portela, escola do coração da Guerreira. Um primor de letra (o que não surpreende de maneira alguma em se tratando do poeta Paulo Cesar Pinheiro), de História, de canto, de batuque, de banzo. 

Não precisa falar muito, apenas ouvir, ouvir e ouvir. E se arrepiar.

Veja também:
Para Milton e nossos amigos
A música é interdisciplinar
Lições de João (a música é interdisciplinar 2)
Entrevista: Nilze Carvalho

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

HOMENAGEM A DJANIRA E AOS ORIXÁS

 


Em mais uma prova - entre tantas e tantas e tantas - de seu desprezo pela diversidade cultural, religiosa e humana do país que - lastimável e incompetentemente - preside, ele(não!) e sua esposa, aquela que recebe (ou recebia) suspeitíssimos cheques de assessores do marido, mandaram retirar do Palácio do Planalto o quadro "Orixás", de Djanira. Além de toda intolerância, ignorância e estupidez, ambos demonstram completa incapacidade de perceber que não são donos da Casa, apenas ocupantes passageiros - e espero que o mais rápido possível, pois por mim nunca teriam nem passado perto de lá. 

Diante de mais esta absurda agressão artística e religiosa, fica aqui, então, a minha homenagem à memória da artista e a todos os representantes das mais diversas crenças afro-brasileiras e também aqueles de todas as outras crenças que sabem respeitar a fé alheia e a Arte.

Veja também:

 

quinta-feira, 13 de agosto de 2020

MÚSICA PRA VIAGEM: É HOJE!

A União da Ilha do Governador é a escola de samba que mais gosto por alguns motivos fundamentais, nascidos na segunda metade dos anos 70: seus enredos subjetivos ("Domingo", "O amanhã", "O que será?") os desfiles muito animados e coloridos, com fantasias, adereços e carros alegóricos muito criativos, e, principalmente, pelos seus sambas maravilhosos. "É hoje!" é de 1982, quando a escola almejava o título que tinha merecido em outras ocasiões, mas que nunca conquistou. Porém, pode se orgulhar - e muito - de muitos dos seus sambas e de seu canto e de sua bateria e de muitas e muitas  apresentações artísticas. Pode não ter ganho a taça, mas conquistou muitos corações.

Naquela época em que comecei a vibrar com a União da Ilha; vendo os desfiles, a princípio em preto e branco mesmo na velha TV de casa com meu saudoso pai, que assistia a todas as escolas, mesmo que a primeira entrasse no início da noite de domingo e a última só encerrasse ao meio-dia de segunda; a carnavalesca era Maria Augusta. Foi ela a responsável por muitos dos enredos subjetivos e todo aquele colorido levado à avenida. Muitos anos depois, entre o fim dos 80 e o início dos 90 tive o privilégio de trabalhar com ela, nos programas do saudoso ator, dublador e radialista Andre Filho na Rádio Imprensa FM, que na época ficava numa casa na esquina da Rua Felipe Camarão com Professor Manoel Rabello, bem pertinho do Maracanã e da Uerj.

Mas quando "É hoje!" veio, ela não estava mais, o carnavalesco era outro grande nome do carnaval carioca: Max Lopes. Porém, Aroldo Melodia continuava emprestando sua voz peculiar para embalar a Ilha na avenida. E ele foi outro responsável pela minha admiração pela escola, embora nunca tenha ido à sua quadra e o mais perto que morei de onde ela nasceu foi em Olaria, para quem não conhece, a uma distância bem razoável de mais de 10 quilômetros de um bairro a outro.

Bom, chega de papo e vamos curtir este samba histórico que também foi gravado por Caetano Velloso, logo no ano seguinte, em seu disco "Uns"; Fernanda Abreu, Monobloco, Dudu Nobre, entre outros. Porém, vamos ficar com o grande Aroldo Melodia: "Segura a marimba!".

Quer ver um pedacinho do desfile daquele ano? Fafá de Belém e Pery Ribeiro aparecem nesta transmissão da TV Globo, com narração de Hilton Gomes.


Aqui abaixo tem mais, provavelmente numa transmissão da TVE, hoje TV Brasil, com narração de Fernando Pamplona.
 
 
Veja também:

quinta-feira, 6 de agosto de 2020

RECONCILIAÇÃO COM O SOL E OS CÉUS











Fotos de Eduardo Lamas

Esta é a primeira postagem que faço neste blog apenas com fotos minhas, feitas do meu celular. Nenhuma pretensão de ser fotógrafo, estes acima são apenas registros de um olhar ainda mais generoso para o Sol e o Céu. A Mãe Natureza nos guia e nos ensina muito.

Veja também:
Esperar pelo sol 

segunda-feira, 27 de julho de 2020

MÚSICA PRA VIAGEM: AWAKEN

Embora não seja dos álbuns mais conhecidos do Yes, "Going for the one", o sétimo da banda inglesa, lançado em 1977, é do que mais gosto. E "Awaken", a música que fecha o disco, é sem dúvida alguma uma das melhores da banda inglesa. Para Jon Anderson, cantor do grupo e compositor desta obra juntamente com o ótimo guitarrista Steve Howe, é o que de melhor o Yes fez em sua longa e gloriosa carreira.

Há muito tempo não ouvia nada de "Going for the one" até que, há mais ou menos duas semanas, descobri este vídeo abaixo nas minhas viagens pelo YouTube e fiquei maravilhado, verdadeiramente emocionado. Nesta versão, um extasiado e extasiante Jon Anderson se apresenta em Reykjavik, em 2013, com o grupo islandês Todmobile, uma grata surpresa para mim, acompanhados de coro e orquestra da Islândia. É tudo tão bonito e bem feito que não pude deixar de assistir ao show inteiro depois e ainda o que esses islandeses espetaculares fizeram com Steve Hackett (ex-guitarrista do Genesis) e a SinfoniaNord. Recomendo muito tudo isso. Comece por aqui.
    

Veja também:
O inesquecível show do Queen
A Cruzada das Crianças
Músicas que nos fazem viajar 5: Cais
É preciso respeitar a dor do universo

sexta-feira, 24 de julho de 2020

POESIA CANTADA: "O RIO" ENTRELAÇADO À "SEQUIDÃO" *

Quando resolvi gravar em vídeo as melodias que criei para poesias que já havia escrito, meu objetivo maior era mostrar para aqueles que já acompanham e admiram o meu trabalho - e para os que possam vir a gostar dele - como as palavras que já havia juntado e publicado aqui e ali ganharam mais cor, mais vida, outros sentidos até. E fiz em vídeo por ter mais visibilidade - algo mais que uma obviedade - e porque só o áudio não sei como publicar nas redes sociais.

Portanto, estar à vontade ou não perante à câmera do meu celular, erguido e preso por livros e apetrechos ao lado do monitor do meu computador, ter a imagem e a iluminação perfeitas e mostrar a música de uma forma mais correta, com métricas, melodias mais elaboradas, instrumentação, harmonia, arranjos... Nada disso foi - e nem será - prioridade neste caso específico. Mais à frente, caso haja interesse de músicos, atores, cantores, diretores, produtores etc, aí sim pode vir a ser.

Veja também:


Aqui, cometi mais algumas ousadias, além das já citadas. A primeira foi pegar versos de um poeta que dizia não gostar de música, editá-los na primeira estrofe de uma poesia que adoro há muitos anos: "O rio". João Cabral de Melo Neto é um dos meus favoritos e, apesar de ter sido avesso à música, teve "Morte e vida severina" musicada por Chico Buarque. 

Não criei melodia para os versos escolhidos de "O rio", que relata poeticamente o curso do Capibaribe, da nascente, na Serra do Jacarará (referência que preferi retirar dos primeiros versos), ao mergulho no mar, no Recife. Entrelacei-o - como serpente que os rios também são - aos versos cantados de "Sequidão", poesia que já havia publicado neste blog (retirada tempos atrás), e que precisei mexer minimamente para encaixar na melodia.

Veja também:


Gostei muito do resultado deste entrelaçamento, por isso o apresento aqui e no YouTube. E mais vou gostar, quando os sons de viola, rabeca, flauta (ou pífano), vocais e percussão que estão na minha cabeça inundarem a "Sequidão". 

Como disse a um amigo recentemente, cheguei a um estágio da minha vida em que - embora sejam mais do que bem-vindas e, por isso mesmo, as busque sempre num primeiro momento e depois também - se as parcerias, interações e interdependências não se concretizam, faço eu mesmo sozinho, com minhas limitações e minhas verdades. Não permitirei mais que meu caudaloso rio seja barrado por diques imaginários. Nunca mais!




Abaixo você ouve a versão que foi ao ar na estreia do podcast Lamascast, com música gentilmente cedida na abertura de Hugo Linns.



O RIO
(João Cabral de Melo Neto)

"Sempre pensara em ir
caminho do mar.
Para os bichos e rios
nascer já é caminhar.
Eu não sei o que os rios
têm de homem do mar;
sei que se sente o mesmo
e exigente chamar...

"... Desde cedo que me lembro,
lembro-me bem de que baixava
entre terras de sede
que das margens me vigiavam.
Rio menino, eu temia
aquela grande sede de palha,
grande sede sem fundo
que águas meninas cobiçava.
Por isso é que ao descer
caminho de pedras eu buscava,
que não leito de areia
com suas bocas multiplicadas.
Leito de pedra abaixo
rio menino eu saltava.
Saltei até encontrar
as terras fêmeas da Mata.

Por trás do que lembro,
ouvir de uma terra desertada,
vaziada, não vazia,
mais que seca, calcinada".

SEQUIDÃO
(Eduardo Lamas)

Caudaloso rio
barrado de repente
por um dique imaginário

Rio perde todo
o seu viço
como a flor
que da manhã
pra tarde
vê as pétalas ao chão
como as folhas
que perderam seu tom vivo
despencam brincando
pelo ar
e pousam como aves
sedentas e suaves
na parca e ardente poça
que ainda não evaporou,
evaporou, evaporou...

Algo se refugiou de mim
Algo se refugiou de mim
Evaporou, evaporou
Sequei
Sequei
Sequei

Quando as solas
de meus pés racharam
a aridez invadiu e
recortou o solo
do meu peito
o ar pesou
e ressecou minha garganta
meus lábios lanharam
e o suor da madrugada
encharcou, inundou
o meu lençol.

O RIO
(João Cabral de Melo Neto)

"De onde tudo fugia,
onde só pedra é que ficava,
pedras e poucos homens
com raízes de pedra, ou de cabra.

Lá o céu perdia as nuvens,
derradeiras de suas aves;
as árvores, a sombra,
que nelas já não pousava.
Tudo o que não fugia,
gaviões, urubus, plantas bravas,
a terra devastada
ainda mais fundo devastava".

* Publicado aqui originalmente em 2016.

Veja também:

Mensagem publicitária

Clique na imagem acima para receber
mais sugestões de leitura.
Quem lê recomenda!

quarta-feira, 22 de julho de 2020

MÚSICA PRA VIAGEM: ON THE RUN

Longe de ser a melhor música do histórico álbum "The dark side of the moon", "On the run" merece de mim uma atenção mais do que especial por razões pessoais que explicarei abaixo e também pelo título desta série. Esta composição de David Gilmour e Roger Waters nos primeiros experimentos com a música eletrônica, registrados no filme "Live at Pompeii", de 1972, foi a que ficou guardada em minha memória até eu ter a noção do que era o Pink Floyd e o quanto este grupo representaria em minha vida.

Em meados dos anos 70, toda sexta-feira à noite eu e meu irmão subíamos para o apartamento de um amigo no prédio em que morávamos num bairro da zona norte carioca para jogar War, assistir As Panteras e ouvir discos, quase sempre Pink Floyd e Elton John, respectivamente artistas prediletos da irmã deste amigo e de uma amiga dela que quase sempre estava lá. "On the run" era o ápice do terror para mim, mas não guardei o nome da música, nem do grupo, nem do álbum, apenas ficaram em minha mente aqueles sons em que imaginávamos um avião em seu percurso e sua queda, com aquela gargalhada histérica de fundo, e a capa, emblemática capa.

Só no início dos 80, quando fui me ligar mais em roquenrol, é que me dei conta do que se tratava. E com o tempo, o Pink Floyd passou a ser o grupo que mais gosto. Por isso, outras músicas da banda aparecerão nesta série. Aguardem!  



Veja também:
Esquizofrenia e Arte no LamasCast 4
Roger Waters setentão
Os bichos vão se rebelar
Os muros
Músicas que nos fazem viajar
Músicas que nos fazem viajar 2

segunda-feira, 20 de julho de 2020

MÚSICA PRA VIAGEM: CÁLICE

A letra de "Cálice", música gravada no disco "Chico Buarque", de 1978, me impressionou desde a primeira vez que a ouvi, no fim da minha infância. Embora eu pouco entendesse na época o que vinha ocorrendo no país, pude sentir logo a força da letra e da forma como a composição com Gilberto Gil é cantada por Chico, seu co-autor, e (novamente) Milton Nascimento (que vai aparecer várias vezes nesta série, é inevitável). Creio que foi ali, juntamente com "Construção", embora esta tenha sido gravada bem antes, em 1971, que aprendi o que é poesia. 

Uma lástima que tantos queiram que a gente retorne aos anos de chumbo, das trevas, qualquer que seja o nome que se dê a monstruosidades, imbecilidades e ignorâncias. É veneno para curar ódio, é excremento para tirar mau cheiro, é gasolina para apagar incêndio. Cale-se!



Veja também:
Os sopros mágicos de Carlos Malta
LamasCast ao mestre Saramago
É preciso respeitr a dor do universo

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #47

Uma coisa jogada com música - Capítulo #46 Garrincha e Pelé, durante a Copa do Mu...

As mais visitadas