quarta-feira, 9 de março de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #6

Mimi Sodré
Enquanto Gonzaguinha, Ruy e Magro se despedem da plateia, agradecendo pelos aplausos, Zé Ary vai à vitrola e põe pra tocar a faixa “Futebol de Bar”, do disco “São Paulo-Brasil”, de Cesar Camargo Mariano, lançado em 1977.

Um músico: - Ótima escolha, Zé Ary! Cesar Camargo Mariano é muito fera.

Garçom: - E o nome da música tem tudo a ver com o que estamos presenciando: Futebol de Bar.

João Sem Medo: - Boa, Zé Ary. Muito boa!

Ao fim da música, a plateia volta todas as suas atenções aos quatro amigos, que aproveitam a deixa silenciosa para prosseguirem a conversa de onde haviam parado antes da interpretação de Gonzaguinha, Ruy e Magro de “Seo meu time não fosse o campeão”.

João Sem Medo: - Ainda nos anos 10 do século XX, as vitórias dos grandes clubes, principalmente nos clássicos, já estavam fazendo os torcedores vibrarem mais com a gozação após a vitória sobre um rival.

Ceguinho Torcedor: - É verdade, João. Certa vez, em 1915, encomendamos um jantar de vitória quando vencíamos o América por 3 a 0, mas quem apareceu no restaurante no Centro da cidade foram os americanos. Eles viraram pra 5 a 3.

Sobrenatural de Almeida: - A partir daí, os jantares só eram marcados quando o árbitro apitava o fim do jogo. hahahaha

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Ceguinho Torcedor: - O problema era contratar a banda pra tocar. Os músicos ficavam escondidos. Se vencíamos, eles apareciam e tocavam a noite toda. Mas se perdêssemos, a banda ficava esperando a turma do time rival sair de frente do restaurante ou da sede pra ir embora de fininho.

Músico (do palco): - E os músicos não recebiam?

Ceguinho Torcedor: - Sim, recebiam. Eram pagos mesmo assim.

João Sem Medo: - Pros clubes grandes da zona sul do Rio, Fluminense, Botafogo e Flamengo, o pior era aguentar o gozo dos torcedores do América, que era até então, o único time grande da zona norte. E isso começou a criar rivalidades que iam pro campo, e a cordialidade já não era mais a mesma. Houve muita invasão de campo e pancadaria, inclusive no aristocrático estádio das Laranjeiras.

Ceguinho Torcedor: - Em 16, num Fla-Flu, Coelho Netto, que era deputado, foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras e pai de Preguinho, grande ídolo tricolor...

Idiota da Objetividade: - ... autor do primeiro gol da seleção brasileira numa Copa do Mundo, em 1930, no Uruguai.

Ceguinho Torcedor: - Ídolo tricolor de todos os esportes, o Preguinho. Um super-campeão, um multi-homem! Mas eu falava de seu pai, deputado, escritor, um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras junto com Machado de Assis... pois bem, ele, naquele Fla-Flu de 1916, pulou o alambrado pra invadir o campo, inconformado com o árbitro, que tinha mandado repetir uma cobrança de pênalti pro Flamengo que Marcos Carneiro de Mendonça...

Idiota da Objetividade: - O primeiro goleiro da seleção brasileira!

Ceguinho Torcedor: - Exatamente, exatamente... Como eu falava antes de ser interrompido pelo Idiota, o árbitro mandou repetir uma cobrança de pênalti que Marcos Carneiro de Mendonça tinha defendido, e a elegância do Coelho Netto foi deixada nas sociais. Com sua bengala ameaçadora foi pra cima do juiz. Aquela ação do nobre deputado acabou incentivando a torcida tricolor a invadir o campo também. O jogo, que era vencido pelo Flamengo por 3 a 2, foi suspenso e disputado em outra data. O Fluminense acabou vencendo por 3 a 1.

Idiota da Objetividade: - Uma vergonha!

Sobrenatural de Almeida: - Naquele dia, eu já tinha feito o Fluminense perder um pênalti, cobrado pelo Riemer, pra fora.

João Sem Medo: - Naquele tempo, a regra determinava que se a confusão durasse pelo menos cinco minutos o jogo era suspenso.

Sobrenatural de Almeida: - O pessoal entrava na confusão de olho no relógio se o seu time estivesse perdendo.

Idiota da Objetividade: - Como sempre, o jeitinho brasileiro prejudicando o espetáculo.

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João Sem Medo: - Mas nos primeiros anos do futebol tivemos também grandes exemplos de esportividade e honestidade. Mimi Sodré, um dos maiores nomes do escotismo brasileiro, é um deles. Mimi apontava ao árbitro quando cometia uma infração.

Garçom: - Isso existiu no Brasil? Ah, só antigamente mesmo.

João Sem Medo: - Mimi Sodré, campeão pelo Botafogo em 1910 e 1912, quando também foi artilheiro do campeonato, se a bola batesse na mão dele, não dava mais um passo sequer. Chegou a pedir ao árbitro pra anular um gol seu, num jogo da seleção brasileira militar.

Ceguinho Torcedor: Mario Filho contou também que Mimi Sodré tirou algumas vitórias do Botafogo com sua honestidade. Os outros jogadores do Botafogo tentaram mudá-lo, em vão.

Garçom: - Seu Mario Filho bem podia vir aqui pra contar essas e muitas outras histórias.

Ceguinho Torcedor: - Seria ótimo, mas infelizmente ele não poderá vir desta vez. De alguma forma, ele está presente, pois muito do que estamos contando ele revelou em seu clássico livro “O negro no futebol brasileiro” e em crônicas que assinou nos jornais em que trabalhou e comandou. Recomendo que leiam.

Sobrenatural de Almeida: - Mario Filho conta também que quando Mimi Sodré levantava o dedo, a arquibancada vinha abaixo, parecia gol, mas o “Menino de Ouro”, que depois virou “Velho Lobo” pros escoteiros, era muito querido da torcida por ser honesto demais. As moças davam gritinhos entusiasmados e todo mundo batia o pé na arquibancada. Assombroso o Mimi, assombroso!

Alguém na plateia: - Assombroso mesmo. Já pensou hoje um jogador pedindo ao árbitro pra anular um gol que marcou? É capaz de apanhar da própria torcida.

Sobrenatural de Almeida: - E ainda ser expulso de campo por desacato ao árbitro. (dá sua risada medonha) hahaha

João Sem Medo: - Aconteceu algo parecido, não tem muito tempo, num clássico em São Paulo...

Idiota da Objetividade: - ... Isso mesmo, João. Foi no primeiro jogo da semifinal do Campeonato Paulista de 2017. O zagueiro Rodrigo Caio, do São Paulo...

João Sem Medo: - Hoje no Grêmio...

Idiota da Objetividade: - Isso mesmo. Ele, naquele clássico paulista,  disse ao árbitro que Jô, atacante do Corinthians, não havia atingido o goleiro tricolor Renan Ribeiro e sim ele próprio. Com isso, o cartão amarelo que havia sido dado pro Jô foi retirado pelo árbitro Luis Flávio de Oliveira.

João Sem Medo: - Alguns torcedores do São Paulo não gostaram. Parece que o técnico, o Rogério Ceni, e alguns jogadores do time tricolor também não.

Idiota da Objetividade: - O Corinthians, que já vencia por 1 a 0, depois fechou a vitória com mais um gol.

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João Sem Medo: - No início da década de 10, o torcedor se manifestava poucas vezes, era mais contido durante os jogos. Até pelos próprios árbitros, como já dissemos. Às vezes parecia jogo de tênis. Mas com o passar do tempo, com o futebol ficando cada vez mais popular e os estádios ficando mais cheios, o barulho foi aumentando.

Ceguinho Torcedor: - Nos anos 20, o público cresceu ainda mais nos estádios de futebol, e as arquibancadas começaram a ficar sem os rostos conhecidos e passou aos poucos a receber a massa. O barulho aumentou muito e aí eu já não estava mais tão sozinho nos gritos. Mas era um solitário, pois a multidão é inumana, não tem cara.

Sobrenatural de Almeida: - Até música passou a ser cantada e tocada nas arquibancadas.

O papo estava tão animado que ninguém – ou quase ninguém – percebeu que Mussum tinha subido ao palco e aguardava a deixa pra poder se anunciar.

Mussum: - Cacildis! Vou aproveitar a brecha pra penetrar nessa área. Cês me permitem?

Os quatro amigos e o público concordam, com entusiasmo.

Mussum: - Obrigadis! Cês tão falando de torcedor e música, então vou cantar uma coisinha do Dicró, que está por aí, eu acho. Ele, depois de tomar umas e outras com a gente, vem aqui pra cantar umas boas também. “O torcedor”, vamo lá, rapaziadis!


Depois de se divertirem muito, todos aplaudem.

Mussum: - Obrigadis, minha gente! Olha, antes de me pirulitar, quero deixar um recado pros babacas racistas que sacanearam meu filho num estacionamento lá no Rio outro dia. Eu pego vocês, me aguardem!

É mais aplaudido ainda. De pé.

Fim do capítulo 6

Republicado em 19 de agosto de 2024

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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domingo, 6 de março de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #81: VESTÍGIOS DO SOL



Fotos de Eduardo Lamas, feitas em novembro de 2021, nos dias 26, na Beira-Mar Norte, e 30, em Itaguaçu, Florianópolis (SC)

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sábado, 5 de março de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #80: KITESURF FESTIVAL

 







Fotos de Eduardo Lamas, feitas no dia 28 de fevereiro (com dois celulares diferentes), na praia do Campeche, em Florianópolis (SC)

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sexta-feira, 4 de março de 2022

COLUNA NO MAISPB PASSA A SER SEMANAL

A partir da próxima segunda-feira, a coluna que assino no portal MaisPB, de João Pessoa, passará a ser publicada semanalmente. Gostaria de, mais uma vez, agradecer ao editor Kubi Pinheiro pelo convite e todo apoio ao meu trabalho desde que me entrevistou há cerca de um ano para falarmos do lançamento do livro e ebook "Contos da Bola". Agradeço imensamente também a cada um dos leitores.

Até o momento foram publicados quatro textos de minha autoria no MaisPB e você pode ler cada um clicando no título abaixo:

Beleza e caos: Arte em toda parte

O mendigo e as crianças

A solidão plena

O gato e o pássaro

Conto com o seu prestígio, comentando e compartilhando, caso goste. Agradeço desde já.

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quarta-feira, 2 de março de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #5


Ceguinho Torcedor, Sobrenatural de Almeida e Idiota da Objetividade agradecem e, juntamente com João Sem Medo, aplaudem a homenagem a Mario Filho. Há uma breve dispersada, com papos paralelos com integrantes de outras mesas, até que os quatro amigos voltam a se reunir e o papo retorna à Zona Oeste do Rio de Janeiro.

Sobrenatural de Almeida: - Em Bangu a torcida era enfurecida. Foi lá que nasceu a expressão “ganha, mas não leva”, depois que criaram o troféu João Ferrer.

Idiota da Objetividade: - João Ferrer era um espanhol, dono da fábrica Bangu. 

Sobrenatural de Almeida: - Pois é. Se o Bangu perdia, o time adversário era corrido até o trem e os jogadores tinham de ir deitados pra não levar as pedradas que estilhaçavam os vidros do trem. Ou seja, eles podiam ganhar, mas não levavam a taça. (solta sua risada medonha) hahahaha

João Sem Medo percebe a entrada no palco de um velho conhecido seu, dá um sorriso maroto, mas fica prestando atenção na conversa.

Ceguinho Torcedor: - É, mas o meu Fluminense, como sempre muito fidalgo, levava para os banguenses uma corbeille, como se falava naquele Rio afrancesado da época, e saía de lá com a taça sem problemas.

João Sem Medo (com um olho no palco e outro nos amigos à mesa): - O Botafogo não levava a corbelha de flores e tinha sérios problemas pra sair do antigo campo do Bangu, na Rua Ferrer, que ficava bem perto do atual, em Moça Bonita.

Idiota da Objetividade: - Oficialmente, a Taça João Ferrer foi disputada apenas em 1907 e 1911, ambos os torneios vencidos pelo Bangu.

João Sem Medo: - Mas estes torneios foram disputados apenas com clubes do subúrbio. Daqueles times, só o Bangu ainda disputa campeonatos profissionais.

Idiota da Objetividade: - Em 1907, jogaram também Esperança, Brasil e Cascadura. Em 11, o Cascadura não disputou, só os outros. Mesmo assim, o Esperança não compareceu aos dois últimos jogos e perdeu por WO.

João Sem Medo: - O Botafogo certa vez levou prum jogo em Bangu um segurança chamado Manuel Motorneiro. Mario Filho conta essa também no livro “O negro no futebol brasileiro”. De revólver em punho, Manuel ficou à frente do barracão, como eram os vestiários daquela época, onde estavam os jogadores do Botafogo, depois de uma vitória sobre o Bangu.

Sobrenatural de Almeida: - Que sururu em Bangu! Hahaha

João Sem Medo: - Ninguém saía de dentro, enquanto a polícia não chegava. A multidão enfurecida aguardava, sem avançar, por causa do revólver do Manuel, branco pobre que não podia jogar no time, mas podia salvá-lo dessas situações. A polícia veio, os jogadores alvinegros, alguns brancos de medo, saíram protegidos pelos policiais e Manuel Motorneiro. Porém, quando chegaram ao trem tiveram de se abaixar, porque ao primeiro sinal de partida, as pedras voaram na direção deles, mesmo com a presença da polícia e do revólver de Manuel Motorneiro.

Veja também:

Garçom: - Senhores...

João Sem Medo: - Meus amigos, o Zé Ary está aqui porque tem uma grande atração no palco.

Garçom: - É verdade, seu João. Sem querer interromper a conversa, que está muito interessante. (a todos) Senhoras e senhores, com muito prazer, gostaria de anunciar a presença de Gonzaguinha no palco do Além da Imaginação!

Gonzaguinha (agradece os aplausos): - Muito obrigado. Muito obrigado. Vou cantar uma música que vai fazer uma boa tabelinha com o papo dessa ilustre mesa onde está o João Sem Medo e o Ceguinho Torcedor. É um grande prazer, aliás. Os outros dois senhores, me desculpem, não os conheço, mas agradeço pelos aplausos.

Sobrenatural de Almeida: - Você já me viu em ação em alguns jogos do teu Vasco, mas não pôde me reconhecer, me ver em pessoa.hahaha Sobrenatural de Almeida, às suas ordens.

Idiota da Objetividade: - Não tem importância, nós conhecemos muito você e gostamos muito das suas músicas.

Gonzaguinha: - Muito obrigado, mais uma vez. Prazer. Vamos, então, de “Geraldinos e arquibaldos”.


Todos aplaudem muito. Gonzaguinha agradece e continua no palco. Conversa descontraidamente com os músicos que o acompanharam, enquanto o papo prossegue.

João Sem Medo: Muito bom!

Ceguinho Torcedor: - Verdade, João, muito bom mesmo. Olha, voltando ao assunto, nas Laranjeiras recebíamos clubes de fora, como o Palmeiras da Floresta, que deu origem ao São Paulo Futebol Clube, e havia baile de gala na sede das Laranjeiras. Inesquecíveis bailes. Para vencedores e vencidos.

Sobrenatural de Almeida: - Pixinguinha tocou muito nesses bailes no salão nobre das Laranjeiras. (grita com sua voz roufenha em direção a Pixinguinha) Não é Pixinguinha?

Pixinguinha (de sua mesa ao fundo do restaurante, com os outros Batutas): - Verdade. Eu e essa turma aqui também (fala se referindo aos outros Batutas que estavam à mesa com ele).

Sobrenatural de Almeida faz um sinal de positivo para Pixinguinha, que retribui.

Veja também:

Sobrenatural de Almeida: - Em campo, a elegância do goleiro Marcos Carneiro de Mendonça é que chamava a atenção de todos.

Ceguinho Torcedor: - Havia uma canção que a garotada tricolor daquele tempo sabia de cor e salteado: “O “refe” apita. A linha avança. O Fluminense não dá confiança”.

João Sem Medo: - “Refe” é como os brasileiros passaram a chamar o juiz, referee, em inglês.

Sobrenatural de Almeida: - Com o tempo, as rivalidades foram se acirrando, as gozações dos torcedores aumentando, e o baile ou festa passou a ficar restrito apenas aos vencedores. Os vencidos iam pra casa com a cabeça inchada.hahaha

Ceguinho Torcedor: - Presenteei muito flamenguista e botafoguense com um chapéu com número maior pra caber na cabeça inchada deles. Hahaha

João Sem Medo: - Tinha um botafoguense, chamado Paulo Lira... essa quem me contou também foi o Mario Filho... que, quando o Botafogo vencia, botava encaixado no chapéu de palha um papelão com o placar do jogo bem grande e ia assim na segunda-feira pras estações de bondes esperar escondido atrás de uma coluna um amigo do Fluminense ou do Flamengo. Quando algum deles aparecia, Paulo Lira saltava em cima do amigo sem o largar.

Risada geral no bar.

Sobrenatural de Almeida: - Assombroso, o Paulo Lira, assombroso. hahaha

Ceguinho Torcedor: - É, mas quando o Botafogo perdia, ele sumia. E nós íamos atrás dele.

Todos caem na gargalhada de novo. Inclusive Gonzaguinha, que passara a prestar atenção na conversa.

Gonzaguinha: - Olha, essa história me lembrou uma composição minha que eu não cheguei a gravar e fez sucesso com o MPB-4. Então, vou chamar dois grandes amigos, Ruy e Magro, pra cantarem comigo “Se o meu time não fosse o campeão”. Sejam bem-vindos, Magro e Ruy.

Os dois cantores que fizeram parte da primeira formação do MPB-4 vão ao palco, abraçam Gonzaguinha, cumprimentam os músicos e agradecem os muitos aplausos da plateia.


Gonzaguinha, Ruy e Magro são ovacionados, agradecem e deixam o palco.

Fim do Capítulo 5

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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Veja também:
Uma coisa jogada com música - Capítulo 4
Uma coisa jogada com música - Capítulo 6


Obs.: postagem republicada no dia 18 de janeiro de 2024

terça-feira, 1 de março de 2022

MÚSICA PRA VIAGEM: MASTERS OF WAR

A volta da série, nesta terça-feira "semicarnavalesca", se fez necessária exatamente pela lembrança quase imediata desta música, que já estava na minha lista desde o princípio, na semana passada. "Masters of war", composta por Bob Dylan foi gravada no seu segundo álbum, "Freewheelin' Bob Dylan", lançado em 1963, portanto três anos antes de eu chegar a este mundo ao mesmo tempo sublime e abjeto, única e exclusivamente por causa do ser humano e o ser desumano.

Ela posteriormente foi gravada também pelo Pearl Jam, cantada por Eddie Vedder, o cantor da banda em sua carreira solo, e muitos outros artistas, cantoras, inclusive. Uma delas, Odetta, a incluiu logo em 1965 em seu álbum dedicado a composições do bardo vencedor do Nobel de Literatura de 2016.

Com mais uma absurda guerra - como todas são - estourando no mundo, mais uma vez na Europa, colocando outra vez em grave risco o confronto entre grandes potências, desta vez vou oferecer três versões da mesma música para você que se dispôs a vir aqui prestigiar este blog: a original, de Dylan, e a de Odetta, com áudio-vídeos abaixo, e o link para uma do Pearl Jam no YouTube (basta clicar aqui). A letra vai lá embaixo também, se quiser acompanhar. 

E que a Luz do Amor irrompa de vez as trevas do poder. 



Come you masters of war
You that build the big guns
You that build the death planes
You that build all the bombs
You that hide behind walls
You that hide behind desks
I just want you to know
I can see through your masks
You that never done nothin'
But build to destroy
You play with my world
Like it's your little toy
You put a gun in my hand
And you hide from my eyes
And you turn and run farther
When the fast bullets fly
Like Judas of old
You lie and deceive
A world war can be won
You want me to believe
But I see through your eyes
And I see through your brain
Like I see through the water
That runs down my drain
You fasten all the triggers
For the others to fire
Then you sit back and watch
When the death count gets higher
You hide in your mansion
While the young people's blood
Flows out of their bodies
And is buried in the mud
You've thrown the worst fear
That can ever be hurled
Fear to bring children
Into the world
For threatening my baby
Unborn and unnamed
You ain't worth the blood
That runs in your veins
How much do I know
To talk out of turn
You might say that I'm young
You might say I'm unlearned
But there's one thing I know
Though I'm younger than you
That even Jesus would never
Forgive what you do
Let me ask you one question
Is your money that good?
Will it buy you forgiveness
Do you think that it could?
I think you will find
When your death takes its toll
All the money you made
Will never buy back your soul
And I hope that you die
And your death will come soon
I'll follow your casket
By the pale afternoon
And I'll watch while you're lowered
Down to your deathbed
And I'll stand over your grave
'Til I'm sure that you're dead

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domingo, 27 de fevereiro de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #79: AVES NO POSTE

 



Fotos de Eduardo Lamas, feitas no dia 19 de fevereiro de 2022, em Itaguaçu, Florianópolis (SC)

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sábado, 26 de fevereiro de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #78: BRINQUEDOS DE FERRO

 




Fotos de Eduardo Lamas, feitas no dia 17 de fevereiro de 2022, no Mestre das Chaves, Abraão, Florianópolis (SC)

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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #4


O samba de enredo em homenagem ao centenário do Flamengo não animou muito os quatro amigos, mas vendo a empolgação de muitos dos presentes, eles acompanharam respeitosamente a execução da música, com alguns comentários entre eles que não foram captados. Mas o time rubro-negro e seu rival tricolor continuaram na pauta da mesa.

Ceguinho Torcedor: - O Flamengo começou a ficar popular naquela época. Tinha a festa do reco-reco, que era homem dançando com homem. Jogador do Fluminense não ia a reco-reco. E as mocinhas passavam correndo pela garagem do Flamengo pra não ver aquela pouca-vergonha.

Um novo grupo de músicos já está no palco e a cantora Lila Olive, passando pela mesa dos 4 amigos, ouve a conversa e não deixa de comentar.

Lila Olive: - Num Fla-Flu, tem sempre sururu. Vamos cantar, ouçam só!


A diversão com a embolada “Fla-Flu”, composta por Camburé Silva, é total em todas as mesas. Depois dos aplausos, os nossos quatro amigos retomam a pelota e dão tratos à bola.

Sobrenatural de Almeida: - No Botafogo também tinha o reco-reco.

Ceguinho Torcedor: - No meu Tricolor não se admitia isso. Mas o Flamengo começou a levar o reco-reco pra rua e fazia um carnaval fora de época que foi atraindo o povo. As noites de qualquer domingo passaram a ser de carnaval, graças ao reco-reco do Flamengo.

Veja também:
Os maiores jogos de todos os tempos 11
Pelé, só ele

Garçom: - Humm, a história que me contaram foi a do time que passou a ser popular por treinar na rua, perto do povo. Não foi isso?

Ceguinho Torcedor: - Como o Flamengo, que ficava na Rua Paissandu, não tinha campo, os jogadores passaram a treinar no gramado do Russel, na Glória. Aí juntava a garotada e os marmanjos pra verem os jogadores do Flamengo treinar.

Sobrenatural de Almeida: - O campo ficava cheio. De gandulas. Qualquer chute fora, iam correndo uns 20 garotos atrás da bola.

Garçom: - Então não foi só o Flamengo que foi ficando popular, mas o próprio futebol.

João Sem Medo: - Sim, Zé Ary, e a garotada louca pra bater uma bola.

Sobrenatural de Almeida: - Com isso, passaram a aparecer nos estádios as primeiras fitinhas rubro-negras nos chapéus de palha, exclusividade dos tricolores até então.

João Sem Medo: - As fitinhas eram encomendadas da Inglaterra, por isso eram usadas pelo torcedor da arquibancada, aquele mais rico. O povão ficava na geral.

Ceguinho Torcedor: - Mas mesmo o torcedor da geral, nas Laranjeiras, queria mesmo ser igual aos brancos, da elite, do clube fidalgo, tricolor. Alguns, pretos, mulatos ou mesmo brancos pobres, procuravam se vestir elegantemente.

Sobrenatural de Almeida: - As moças só ficavam na arquibancada. Muitas que antes acompanhavam suspirando os musculosos rapazes do remo, nos dias de regatas, passaram aos poucos a se encantar mais com os jogadores de futebol.

João Sem Medo: - Naqueles primeiros anos do futebol no Brasil, o árbitro advertia os torcedores que fizessem barulho fora da hora. Dava uma espécie de cartão amarelo, que não existia ainda, claro.

Ceguinho Torcedor: - Fui advertido várias vezes, várias vezes.

João Sem Medo: - Você deve ter dado muito trabalho, junto com o Gravatinha.

Ceguinho Torcedor: - Uma vez quase fomos expulsos. Mas certa vez foi até interessante: existia um juiz que era um canalha em estado de pureza, de graça, de autenticidade. Um domingo, ele vai apitar um jogo decisivo. Que fazem os adversários? Tentam suborná-lo. Ora, o canalha é sempre um cordial, um ameno, um amorável. E o homem optou pela solução mais equânime: — levou bola dos dois lados. Justiça se faça a ele: — roubou da maneira mais desenfreada e imparcial os dois quadros. Ao soar o apito final, os 22 jogadores partiram para cima do ladrão. Mas o gângster já se antecipara, já estava pulando muros e galinheiros. Era uma figurinha elástica, acrobática e alada. Isto foi em 1917. O juiz gatuno está correndo até hoje.

Todos riem muito.

João Sem Medo: - Essa coisa de juiz advertir torcedor que fizesse barulho ocorria mais pela Zona Sul, em clubes como Fluminense e Botafogo. Lá em Bangu a coisa era diferente.

Idiota da Objetividade: - É verdade, The Bangu Athletic Club era formado pelos ingleses da fábrica e alguns operários, brancos pobres, mulatos e negros também. E naqueles primeiros anos do futebol no Rio de Janeiro, no início do século XX, começou a haver aquela distinção de clube dos grandes e dos pequenos, porque os times de Fluminense, Paysandu e Botafogo, por exemplo, eram formados por ingleses, alemães e brasileiros abastados, quase todos brancos.

Ceguinho Torcedor: - Os que tinham pele negra só eram aceitos se fossem de família abastada também.

João Sem Medo: - E eles procuravam se vestir, até pra jogar, com as melhores roupas da época.

Sobrenatural de Almeida: - Pois em Bangu, começou essa rivalidade que levava a torcida a não aceitar derrotas em casa.

João Sem Medo: - O grande Mario Filho nos contou estas histórias no clássico “O negro no futebol brasileiro”. Aliás, o Mario Filho é o tio de vocês. Afinal era irmão de Nelson Rodrigues.

Ceguinho, Sobrenatural e Idiota concordam.

Veja também:
Memórias da geral do Maracanã
"Contos da Bola", quem lê recomenda

Ceguinho Torcedor: - É verdade. Mario Filho foi o criador das multidões!

Garçom: - E veja que absurdo, “seu” Ceguinho, quase tiraram o nome do Mario Filho do Maracanã há pouco tempo. Ainda bem que recuaram.

Ceguinho Torcedor: - Seria uma injustiça colossal!

Sobrenatural de Almeida: - Se confirmassem este absurdo,  o estádio que virou arena seria amaldiçoado, desmoronaria em ruínas de tantas podridões depositadas em suas entranhas ao longo dos anos por lorpas, pascácios, interesseiros minúsculos, e seria transformado definitivamente num coliseu, num Parthenon brasileiro.

Os amigos dão uma dispersada. Um vai ao banheiro, outro cumprimenta alguém de outra mesa, outro faz umas anotações num guardanapo, e Zé Ary vai, então, ao rádio mágico do restaurante e sintoniza na composição de João Fellipe Ramos e Maurício Lage para a exposição "Mario Filho: o criador das multidões", ocorrida no Rio de Janeiro no início dos anos 10 do século XXI.



Fim do capítulo 4

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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Veja também:
Uma coisa jogada com música - capítulo 5
Uma coisa jogada com música - capítulo 3

Obs: Postagem republicada em 25 de outubro de 2023

domingo, 20 de fevereiro de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #77: MATIZES DO CÉU








Fotos de Eduardo Lamas, feitas entre os dias 9, 15, 18 e 19 de fevereiro de 2022, em Itaguaçu, Florianópolis (SC)

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sábado, 19 de fevereiro de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #76: "LUA LUA LUOU"










Fotos de Eduardo Lamas, feitas em 16 de fevereiro de 2022, em Itaguaçu, Florianópolis (SC)

Desta vez vem acompanhada da música que inspirou o título da postagem: Andarilho de luz, de Flavio Venturini, Murilo Antunes e Márcio Borges


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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

NAU POESIA: HÁ MUITO O QUE FAZER

Ainda ecoa o grito sufocado da noite
nesta tarde abafada sem sol
E os reflexos do olhar perdido
neste céu cinzento

Tudo se perde neste dia
tão igual ao outro
O formigueiro humano
escoa sob os meus pés

girando, girando, girando
em torno do ralo gigante
que é esta grande cidade
tão provinciana

É a torrente imaginária
carregando a multidão
sempre pros mesmos lugares
com os seus mesmos gestos,
olhares, a mesma prisão

O espelho de carne e osso
se partiu na noite passada
e reflete uma vida despedaçada
ninguém vê, ninguém vê
há muito o que fazer

O incenso do lixo urbano
não é recolhido, nem reciclado
fica jogado no meio desse dia nublado
ninguém percebe, ninguém percebe
há muito o que fazer

Ainda grita no vácuo do tempo
o urro desperdiçado da noite
ferida no ventre inchado da madrugada
ninguém ouve, ninguém ouve
há muito o que fazer.

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