domingo, 17 de abril de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #90: MIRANTE DO MORRO DA CRUZ

 






Fotos de Eduardo Lamas, feitas em 30 de dezembro de 2018, no Morro da Cruz, em Florianópolis (SC)

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sexta-feira, 15 de abril de 2022

MÚSICA PRA VIAGEM: FEELING GOOD

Desde que resolvi criar esta série pensava em Nina Simone. Mas qual música escolher, entre tantas composições dela e gravações de obras de Beatles, Bob Dylan, Leonard Cohen e tantos outros em que ela pôs (impôs) com personalidade única a sua marca de grande musicista, cantora e compositora? 

Eis que, ouvindo a rádio ABC, da Austrália, como tenho feito diariamente para estudar inglês, num dos programas da BBC que entram durante a madrugada de lá, tocou a parte inicial desta joia. Aí, a dúvida foi-se embora e a primeira de Nina a aparecer por aqui foi escolhida: "Feeling good", dos ingleses Anthony Newley e Leslie Bricusse.

A música foi feita para um musical, "The roar of the greasepaint - the smell of the crowd", de 1964. No ano seguinte, Nina a incluiu no álbum "I put spell on you" e a transformou na versão mais conhecida até hoje. Tanto que foi com base nela que o astro inglês George Michael, a banda inglesa Muse, entre outros, a gravaram.

Ao procurá-la no Google, veio de primeira este vídeo oficial que achei perfeito, embora sempre prefira colocar o artista executando a sua música. Mas a dança de Raianna Brown me conquistou à primeira vista. Portanto, convido você a curtir a música, a dança, as interpretações, ou seja, o vídeo inteiro. Não percamos tempo!


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quarta-feira, 13 de abril de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #11

Seleção brasileira na Copa do Mundo de 1934, disputada na Itália

Após a ovação a Carmen Miranda e Lamartine Babo, João Sem Medo reinicia o papo.

João Sem Medo: - Meus amigos, em 34, a delegação brasileira viajou 15 dias de navio para a Itália e, em 90 minutos, a vaca foi pro brejo. Isso, apesar de os quase 30 mil presentes no estádio Luigi Ferraris, em Gênova, fora os que subiram morros e telhados próximos, terem torcido pro Brasil.

Idiota da Objetividade: - O Brasil saiu perdendo de 3 a 0 pra Espanha no primeiro tempo e quando tentou reagir na etapa final ficou difícil. Houve um gol anulado, marcado pelo Luizinho, depois Waldemar de Brito perdeu um pênalti, defendido pelo grande goleiro Zamora, e a seleção brasileira foi derrotada pela espanhola por 3 a 1 e foi eliminada da Copa do Mundo logo na estreia.

João Sem Medo: - O gol do Brasil foi de um tal de Leônidas. Conhecem, né?

Ceguinho Torcedor: - Evidentemente. Ele foi a nossa grande figura em 38. Saímos daqui muito otimistas, houve uma longa preparação, a delegação chegou à França quase um mês antes do início da Copa e lá fizemos nossa primeira boa apresentação num Mundial. Ficamos em terceiro lugar, e Leônidas da Silva, o Diamante Negro, pôde assombrar o mundo com seu futebol de outro mundo.

Sobrenatural de Almeida: - Futebol assombroso!

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Na volta do Bonsucesso à Primeira Divisão, as
consequentes boas lembranças de meu avô Thomé
Adeus, Maracanã

Garçom: - E pra abrilhantar ainda mais este grande encontro e homenagear Leônidas da Silva, os Vocalistas Tropicais estão aqui pra cantar “Diamante Negro”, de David Nasser e Marino Pinto.

Todos aplaudem.

Nilo Xavier da Mota: - Obrigado, obrigado. É uma honra pros Vocalistas Tropicais estarmos aqui neste palco pra participar desta tabelinha entre futebol, muito bem representados por estes craques aqui na mesa principal, e música, a música brasileira. Vamos então a essa homenagem musical ao grande Leônidas da Silva.

São, mais uma vez, muito aplaudidos.

Garçom: - Muito obrigado, Nilo Xavier da Mota, Raimundo Evandro Jataí de Sousa, Artur Oliveira, Danúbio Barbosa Lima e Arlindo Borges.

Após a apresentação dos Vocalistas Tropicais, Leônidas da Silva passa a ser o centro da conversa no Além da Imaginação. Pairou até uma expectativa no ar se o Diamante Negro apareceria de surpresa...

Idiota da Objetividade: - Leônidas foi o primeiro brasileiro a ser artilheiro de uma Copa do Mundo, com 7 gols. A campeã, ou melhor, bicampeã, foi a Itália, que venceu o Brasil na semifinal por 2 a 1. Leônidas não jogou contra os italianos, porque, segundo o técnico Ademar Pimenta, estava machucado. Aquela Copa foi disputada em sistema eliminatório.

Sobrenatural de Almeida: - É o sistema que eu mais gosto: o mata-mata. hahahaha

Idiota da Objetividade: - O Brasil estreou na França com uma vitória de 6 a 5 sobre a Polônia, na prorrogação. Leônidas fez três gols.

Ceguinho Torcedor: - Espetacular Leônidas! Sensacional também Domingos da Guia. Nosso guardião da zaga começou o jogo com 38 graus de febre, que só piorou com a chuva que começou a cair pouco antes do jogo.

Sobrenatural de Almeida: - Com a minha intervenção ele salvou milagrosamente um gol na prorrogação, quando o Brasil vencia por 5 a 4. Batatais já estava fora do gol. No rebote, Willimonski ia fazer o gol, mas dei uma desviadinha e a bola acertou a trave

Ceguinho Torcedor: - Domingos da Guia foi outro grande herói do nosso scratch.

João Sem Medo: - No fim da partida, ele e Leônidas, que andavam meio brigados, se abraçaram emocionados.

Veja também:

Idiota da Objetividade: - Este foi o primeiro jogo de uma Copa do Mundo transmitido por uma rádio brasileira, a Rádio Clube do Brasil, do Rio de Janeiro. A narração foi de Gagliano Neto.

Ceguinho Torcedor: - O povo pôde ouvir o jogo na voz do grande “speaker”, como se falava na época.

Sobrenatural de Almeida: - O presidente Getúlio Vargas mandou instalar alto-falantes nas praças e outros locais públicos pra que todo mundo pudesse ouvir.

Idiota da Objetividade: - O pernambucano Leonardo Gagliano Neto já havia sido o pioneiro na narração de um jogo da seleção brasileira, um ano antes, durante o Campeonato Sul-Americano disputado na Argentina, pela Rádio Cruzeiro do Sul.

João Sem Medo: - O Getúlio, simpatizante do regime fascista de Mussolini, mandou três telegramas pro Gagliano pedindo que ele maneirasse nas emoções durante a semifinal contra a Itália. Getúlio depois elogiou o locutor, mas muita gente disse na época que Gagliano criticou muito o árbitro pelo pênalti, no mínimo duvidoso, de Domingos da Guia em Piola.

Ceguinho Torcedor: - O rádio é meu veículo predileto, por motivos óbvios. E aquele jogo contra a Polônia foi de matar um do coração. Saímos com 3 a 1 do primeiro tempo, mas os poloneses cresceram na segunda etapa e empataram. Fizemos o quarto, mas faltando um minuto pro fim, eles igualaram o marcador novamente: 4 a 4. Na prorrogação, Leônidas meteu dois, um com a chuteira rasgada, gol de meião e, quando a Polônia fez o quinto, já era tarde. Chorei lágrimas de esguicho, mas de alegria.

Idiota da Objetividade: - Nas quartas-de-final, contra a Tchecoslováquia, foram necessários dois jogos, pois o primeiro terminara empatado em 1 a 1, e não havia disputa de pênaltis naquela época. Dois dias depois, os times voltaram a se enfrentar muito desfalcados, mas o Brasil tinha Leônidas e ganhou por 2 a 1, com um gol do Diamante Negro, que já havia marcado no primeiro embate contra os tchecoslovacos. Mais dois dias, o time brasileiro estava extenuado, com Leônidas fora, e a Itália venceu a semifinal por 2 a 1. Na disputa do terceiro lugar, Leônidas marcou dois e o Brasil derrotou a Suécia por 4 a 2.

Ceguinho Torcedor: - Dizem que na Copa de 38 ele teria feito um gol de bicicleta que espantou o público e foi anulado pelo árbitro por não conhecer a jogada. Eu não vi, não posso falar. Você viu, João? (João finge que não escutou)

João Sem Medo: - Música, maestro!

Jorge Goulart (já no palco): - Às suas ordens, mestre João Sem Medo! Vamos com a Marcha do Bonsucesso, que destaca Leônidas como o maioral.

Jorge Goulart (muito aplaudido): - Esta marcha, do Lamartine Babo, que aqui nos dá a honra de sua presença, acabou sendo oficializada posteriormente como hino do Bonsucesso. Obrigado, minha gente.

Modificado e republicado no dia 5 de setembro de 2024

Fim do capítulo #11

Esta série é uma homenagem especial a João Saldanha e Nelson Rodrigues e também a Mario Filho e muitos dos artistas da música, da literatura, do futebol e de outras áreas da Cultura do nosso tão maltratado país.
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domingo, 10 de abril de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #89: TONS DE CINZA








 Fotos de Eduardo Lamas, feitas no dia 4 de abril de 2022, no bairro de Itaguaçu, Florianópolis (SC).

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sexta-feira, 8 de abril de 2022

MÚSICA PRA VIAGEM: NA HORA DO ALMOÇO

Veja você como são as coisas. Uma das músicas mais antigas de Belchior, creio que seu primeiro sucesso, só vim a conhecer há cinco anos, no carnaval que passei com minha mulher; o casal amigo, Ricardo Malize e Renata Couto, e um de seus filhos, o Rafael, em Ibitipoca, nas Minas Gerais de meu pai, meus avós, tios e toda uma multidão de antepassados. 

Foi numa noite fria de fevereiro - fria sim, pois lá no topo dos morros, quando escurece, mesmo no verão, a temperatura desce. Um grupo de rapazes que estava trabalhando no Parque Estadual nos viu com violão e cantoria e se aproximou. Um deles pegou o violão do Ricardo e cantou esta música que incrivelmente eu não conhecia - ou não me recordava, pois na infância é bem possível que tenha passado por meus ouvidos sempre ávidos por música.

E foi dali que passei a buscar mais informações sobre o bardo de Sobral (CE) e ouvir seus álbuns disponíveis no YouTube e nos serviços de streaming com muito mais atenção. Poeta de primeira grandeza que teve um fim de vida isolado e misterioso passou a ganhar olhos e ouvidos atentos quando noticiaram seu sumiço. Mas o que me importa é a sua preciosa poesia - e também precisa, embora ele diga que gostaria de ter palavra mais precisa a oferecer ao público.

E é ela que emerge com toda a força musical do artista, em sua própria voz e também em magníficas interpretações do ator Silvero Pereira, no documentário "Belchior - apenas um coração selvagem", de Camilo Cavalcanti e Natália Dias, disponível gratuitamente no site do Festival "É Tudo Verdade" até domingo agora, dia 10. E foi o filme que me motivou a escolher esta música para a série, escrever estas linhas acima e os versos abaixo.

BELCHIORIANA Nº 1

O melhor de não viver 
dias de glórias
é não ser tentado
a se aferrar ao passado
e estar livre, com esperança,
mesmo em dias 
de caminhadas inglórias
ter e poder contar
esta e outras tantas histórias
de subir os degraus
e descer a ladeira
se entender com os planos
sonhados, imaginados
vividos sem ser realizados
mas curtidos e levados
adiante pela estrada
com os pés descalçados
ferindo as feridas
sangrando e chorando,
com o medo e a coragem,
dois aliados 
apertados no peito
de braços dados
com tristeza e alegrias,
dores e melancolias
das curvas e das retas
de avenidas e ciclovias
calçadas e passarelas
nos asfaltos da vida
em faixas amarelas
na contramão 
ou na via certa
sinais fechados,
abertos ou de alerta.

"É preciso estar atento e forte,
não temos tempo de temer a morte" 


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quarta-feira, 6 de abril de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #10

Seleção brasileira na Copa do Mundo de 1930, disputada no Uruguai

O racismo no futebol continua sendo o tema do papo no bar “Além da Imaginação” e a bola está com o comentarista que o Brasil consagrou.

João Sem Medo: - Esse racismo entranhado em muitos clubes brasileiros é que acabou levando o futebol ao profissionalismo na década de 30. Os jogadores passaram a ser empregados dos clubes, tratados como tal, e isso foi uma forma de os dirigentes evitarem a mistura deles com a parte social na sede. Amadorismo, propriamente, já não existia há muito tempo. Com pouquíssimas exceções de jogadores ricos, o resto já era profissional de alguma forma. E, na verdade, foi o jeitinho brasileiro pra contornar a questão, pois os clubes que rejeitavam o profissionalismo, no fundo não queriam mesmo era abrir as portas ao negro. E aí caíram num dilema: ou fechavam o departamento de futebol ou aceitavam o profissionalismo. Isso causou uma cisão violenta.

Sobrenatural de Almeida: Foi por isso que a seleção brasileira disputou a primeira Copa do Mundo com um time enfraquecido...

João Sem Medo: - Foi. Eu assisti àquela Copa, morava ali perto da fronteira com o Uruguai. Aliás, assisti a todas as Copas do Mundo.

Todos os outros três (desconfiados): - Sim, claro...

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Garçom: - Senhoras e senhores, como a conversa está nos tempos do amadorismo no futebol brasileiro, temos música no palco para ilustrar o tema.

José (Giuseppe) Rielli (no palco, com seu acordeão): É “vero”! “La canzone” se chama “Amadores da pelota”, de Antônio Teixeira Borges.

Garçom: - O bar Além da Imaginação tem a honra, então de apresentar José... Giuseppe... Como devo apresentá-lo: José ou Giuseppe Rielli?

José (Giuseppe) Rielli: - Giuseppe, como “io” assinava em 1914.

Garçom: - Então, com vocês, Giuseppe Rielli!

Todos aplaudem o italiano que veio para o Brasil ainda criança no fim do século XIX. Ele agradece e se despede. João Sem Medo continua. 

João Sem Medo: - Por causa dessa rixa entre amadoristas e profissionalistas, pro Uruguai, em 30, a seleção brasileira só levou um paulista, Araken Patusca, que estava brigado com o Santos, onde foi grande ídolo e artilheiro.

Idiota da Objetividade: - Araken já estaria sendo contratado...

Ceguinho Torcedor: - Estaria sendo, Idiota???

Idiota da Objetividade: - Peço desculpas. Tentando ser mais objetivo: Araken já estaria apalavrado com o América do Rio na época. Ele é primo de Arnaldo Patusca da Silveira, autor do primeiro gol da História do Santos Futebol Clube, e filho do primeiro presidente do clube santista: Sizino Patusca. O gol de Arnaldo foi feito na vitória de 2 a 1 sobre o Santos Athletic Club, em amistoso realizado em 1912.

Veja também:
Minha primeira Copa do Mundo
O adeus de Eusébio, o Príncipe Negro do futebol

João Sem Medo: - O Santos tem uma grande história antes mesmo de Pelé. Mas voltando ao que falávamos... a CBD, que deu origem à CBF, com sede no Rio, era amadorista, enquanto que uma tal de Federação Brasileira de Futebol e a Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea), um dos muitos nomes que a Federação Paulista de Futebol teve, eram profissionalistas. Acabou que só foram jogar a primeira Copa jogadores do Rio e o Araken, que aproveitou que o navio da seleção passou pelo porto de Santos e se juntou à delegação.

Sobrenatural de Almeida: - Mas fomos eliminados logo na primeira fase!

João Sem Medo: - Sim. Com uma derrota na estreia pra Iugoslávia, por 2 a 1, e uma vitória de 4 a 0 sobre a fraca Bolívia.

Idiota da Objetividade: - Araken Patusca fez parte de uma fabulosa equipe do Santos, que no Campeonato Paulista de 1927 marcou 100 gols em 16 partidas, média recorde mundial de 6,25 por jogo. Só Araken fez 31 gols, mas o time santista terminou em segundo lugar. O campeão foi o Palestra Itália, que deu origem ao Palmeiras e que conquistava ali o bicampeonato paulista. Ele só conseguiu ser campeão no Santos, em 1935, mas em grande estilo: marcou um dos gols dos 2 a 0 sobre o Corinthians, na última partida da competição.

Garçom: - Esse Araken era bom mesmo, né?

Idiota da Objetividade: - Araken estreou no Santos, no início da década de 20, saindo da arquibancada direto pro campo, fazendo 4 gols no empate em 5 a 5 com o Jundiaí. Ele tinha apenas 15 anos, senhores. Araken ainda jogou no Paulistano, no São Paulo e no Flamengo. E escreveu um livro sobre a excursão que o Paulistano fez à Europa em 1925, quando atuou ao lado do grande Friedenreich, o maior artilheiro de todos os tempos, com 1.329 gols, reconhecidos pela Fifa.

João Sem Medo: - Os jornais franceses, encantados com a série de shows de bola em gramados europeus, chamaram os brasileiros de “Os reis do futebol”. E este é o título do livro do Araken Patuska.

Ceguinho Torcedor: - Ainda bem que depois da divisão toda, entre amadoristas e profissionalistas, o futebol brasileiro pôde ter um pouco de paz.

João Sem Medo: - A partir daí nosso futebol deu saltos gigantescos, projetou-se internacionalmente pela qualidade extraordinária de nossos craques, apesar do núcleo dirigente tentar sempre atrapalhar. Mas de 1930 até 35 foi o pior momento da História do futebol brasileiro. Eu não presenciei muito, mas eu sei também que o incêndio de Roma aconteceu, né?

Ceguinho Torcedor: - Verdade, meu amigo, é o óbvio ululante!

Veja também:
Os maiores jogos de todos os tempos 4
Os maiores jogos de todos os tempos 2

João Sem Medo: - Foi uma fase de grande crise política e econômico-financeira, depois da crise mundial dos anos 30, no começo dos anos 30.

Ceguinho Torcedor: - A crise mundial de 29 com a quebra da Bolsa de Nova York.

João Sem Medo: - Isso mesmo. Toda a seleção brasileira... toda! Do goleiro ao ponta-esquerda, foi pra Itália, Argentina e Uruguai. E os jogos aqui, eu fazia jogo de infantil, juvenil... Foi terrível, não tinha dinheiro pra comprar material, chuteira, não tinha nada. Os campos vazios, o que era um reflexo da crise mundial. Essa crise foi ferocíssima até 35, por aí. De 30 a 35. Em 34, na Itália, ainda no meio da cisão e dessa crise toda, fomos mal de novo, eliminados logo no primeiro jogo, pela Espanha.

João Sem Medo é interrompido por aplausos direcionados ao palco. Ele mesmo só se dá conta depois e revela ao Ceguinho Torcedor o que está acontecendo.

João Sem Medo: - Meu amigo, estão no palco simplesmente Carmen Miranda e Lamartine Babo.

Ceguinho Torcedor: - Extraordinário, épico, monumental!

João Sem Medo: - O povo aqui os reconheceu logo e já começou a aplaudir antes mesmo de serem anunciados.

Garçom: - Nem preciso mais anunciar a próxima atração, né, Seu João? Vou deixar a bola com eles.

Carmen Miranda: - Muito obrigada.

Lamartine Babo: - Agradeço muito. Agradecemos muito. Bom, futebol e música sempre foram a minha cachaça, vocês sabem muito bem. Pro carnaval de 34, ano da segunda Copa do Mundo, lançamos esta marchinha chamada “2 x 2”.

Carmen Miranda: - Vocês vão gostar. Quem já conhece, de ouvir novamente. E quem nunca ouviu, de conhecer.

São aplaudidíssimos. Com Lamartine dando a mão a Carmen, os dois deixam o palco ovacionados e se dirigem a uma mesa para ouvirem o recomeço do papo e aguardar a vez de retornarem.

Fim do Capítulo #10

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Modificado e republicado em 3 de setembro de 2024

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Uma coisa jogada com música - Capítulo #9
Uma coisa jogada com música - Capítulo #11

terça-feira, 5 de abril de 2022

SOMOS ESPIONADOS 24 HORAS POR DIA

Muito do que se imagina - ou se imaginava - que vá - fosse - acontecer com o vertiginoso avanço da tecnologia, especialmente com o 5G, 6G, em diante, e muito do que já foi antecipado em séries ficcionais como "Black mirror", ou indo mais atrás, em "Além da imaginação" ("The twilight zone"), posso dizer por experiência própria que já é uma realidade. Assustadora realidade. O que relato aqui abaixo é algo que aconteceu comigo ontem, dia 4 de abril de 2022, ninguém me contou.

Não foi propriamente uma novidade, mas um gigantesco passo além nos mais variados e estranhos episódios que eu já havia vivenciado, e lido e ouvido de parentes e amigos. Devido ao tempo chuvoso, não saía de casa desde a última sexta-feira (dia 1º), e após o banho do início da noite de ontem, como esfriara um pouco, resolvi colocar uma camisa de manga comprida que não usava desde o ano passado. Esta camisa tem duas estampas (uma menor no lado esquerdo do peito e outra grande nas costas) de uma marca de cerveja estrangeira que só consumi duas ou três vezes quando ainda morava no Rio de Janeiro (portanto há pelo menos uns 3 anos) e me foi presenteada por meu irmão, que a trouxe de uma viagem internacional feita já há uns 7, 8 anos, calculo. Pois bem, sem que eu tivesse feito qualquer menção verbal ou escrita à marca e muito menos feito foto ou vídeo dela, assim que liguei o celular e abri o Instagram apareceu para mim, pela primeira vez, uma propaganda desta cerveja, algo que - repito, ressalto, reforço, grifo - jamais ocorrera antes. 

Um fato espantoso em todos sentidos, ainda mais que pela repetição de casos vai se banalizando, sendo aceito como algo natural. O que definitivamente não é, nem deve ser em tempo algum. Aliás, creio mesmo que intencionalmente já não esteja se dando muita atenção a esta clara invasão de privacidade (feita provavelmente pelo próprio celular, mesmo desligado) apesar de algumas poucas notícias e filmes documentais (além de ficcionais, como os supracitados) sobre este importantíssimo tema. 

A ganância comercial espúria, nefasta, criminosa fala mais alto, o que também não é novidade na História. Porém, olhando mais à frente, numa (con)seqüência lógica, o perigo maior nem é este. Pois, se para a venda de produtos (e provavelmente serviços também) faz-se esta verdadeira espionagem dentro da sua casa, do seu bolso, das suas próprias mãos, o que já não foi feito e se fará em eleições no mundo inteiro? E, ainda pior, para se cometer roubos, atentados e outros crimes hediondos? 

Deixo estas perguntas no ar, sabendo que há e haverá ainda muitas outras a serem respondidas. E resolvidas com firmeza.

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domingo, 3 de abril de 2022

OLHARES ALHURES - FOTOS #88: SOL DE OUTONO


 



Fotos de Eduardo Lamas, feitas nos dias 24, 26 e 29 de março de 2022, no bairro de Itaguaçu, em Florianópolis, de Kobrasol, em São José (SC) e na praia do Bom Abrigo, Florianópolis.

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sexta-feira, 1 de abril de 2022

MÚSICA PRA VIAGEM: CAVALEIRO DO SOL

Sobre Antulio Madureira já publiquei aqui, há 12 anos, um texto de 2000 e jamais me cansarei de dizer que é um mestre de obras-primas pelo seu gigantesco talento para criar instrumentos e sons que me tocam profundamente a alma. Sons que vêm das profundezas do Nordeste brasileiro, das cordas de aço, dedilhadas, percutidas ou deslizadas, vindas ao longo do tempo de longínquas origens ibéricas, indígenas e africanas.

Fruto, de uma forma ou de outra, do importantíssimo Movimento Armorial, criado no início dos anos 70 pelo gigantesco artista que foi - e é, sempre será - Ariano Suassuna, Antulio Madureira não podia ficar fora desta série e voltará com outras belezas. Para iniciar sua presença por aqui escolhi a mais conhecida dele, "Cavaleiro do Sol", composição que fez parte do seu monumental álbum "Teatro Instrumental" e que serviu de abertura para a série televisiva e posteriormente filme "Auto da Compadecida", baseado na obra de Suassuna.

No vídeo abaixo, Antulio toca a cabala, acompanhado pela Orquestra Jovem do Conservatório de Pernambuco, sob a regência do maestro José Renato Accioly, num trecho do seu DVD gravado no Teatro dos Guararapes, de Olinda (PE), em 2009. Arrepie-se! 

 

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quarta-feira, 30 de março de 2022

UMA COISA JOGADA COM MÚSICA - CAPÍTULO #9

Carlos Alberto: o apelido de Pó de Arroz para o Fluminense surgiu por causa deste jogador

Fernando Brant é muito aplaudido após a execução da música em homenagem ao América mineiro, inclusive pelos nossos quatro principais personagens.

João Sem Medo: - Obrigado, Brant, muito prazer. Gostei da tua música.

Idiota da Objetividade: - Gostei também, mas esta música não é a oficial. A marcha que se tornou oficialmente o hino do América mineiro foi composta por Vicente Motta, também autor do hino do Clube Atlético Mineiro.

Ceguinho Torcedor: - Ah, Idiota, deixa de tanta objetividade!

João Sem Medo: - No hino oficial do América, a letra destaca a classe aristocrata do clube.

Garçom: - Desculpe por me intrometer, senhores. Mas não teve uma história de um jogador no Fluminense que usava pó de arroz?

Ceguinho Torcedor: - Há controvérsias...

Idiota da Objetividade: - Que nada, tá na História.

João Sem Medo: - Carlos Alberto era um mulato que foi do segundo time do América do Rio pro primeiro time do Fluminense, ainda na década de 10, e passava pó de arroz no rosto por causa do racismo. Nos jogos entre os dois times, os torcedores do América chamavam o Tricolor das Laranjeiras de “pó de arroz”. Mas esta história é polêmica, há muitas versões.

Idiota da Objetividade: - A versão oficial do Fluminense é que Carlos Alberto desde os tempos em que jogava no América já passava pó de arroz após fazer a barba. E num jogo, em 1914, entre os dois times, pouco depois de 13 jogadores do América se transferirem para o Tricolor...

Ceguinho Torcedor: - Entre eles o monumental goleiro Marcos Carneiro de Mendonça!

Veja também:
Maracanã, um personagem de "Contos da bola"
Um inesperado encontro na madrugada

João Sem Medo: - Isso mesmo, ele e um irmão dele.

Idiota da Objetividade: - Naquele jogo de 1914, a torcida americana vendo o suor fazer o pó de arroz sair do rosto de Carlos Alberto, ex-jogador do seu clube, começou a gritar como ofensa “pó de arroz, pó de arroz”. Mas, segundo o Fluminense, a torcida tricolor abraçou o jogador e adotou o pó de arroz.

Garçom: - Ah, senhor Idiota, o senhor me desculpe, mas eu não caio nessa, não.

Idiota da Objetividade: - Eu só relato o que está na versão oficial do clube. Você pode ir ao site do Fluminense e procurar.

João Sem Medo: - Versão oficial quase nunca é verdadeira, a História deste país só confirma o que digo.

Ceguinho Torcedor: - Carlos Alberto era um bom rapaz, muito fino, elegante. Ele entrava em campo e a torcida da geral gritava “Pó de arroz”. Um dia ele não jogou e os gritos continuaram.

João Sem Medo: - O Fluminense era mesmo “Pó de arroz”, querendo ser mais chique, mais elegante, mais aristocrático que os outros.

Garçom: - Amigos, aproveitando a deixa tricolor, vamos receber aqui no palco do Além da Imaginação, Américo Jacomino, mais conhecido como Canhoto, para tocar o seu tango “Fluminense”.

Todos aplaudem.

Canhoto: - Muito obrigado. Este tango em homenagem ao Fluminense foi gravado originalmente em 1927, pela Odeon.

Ao fim da execução do tango “Fluminense”, por Canhoto, toda a plateia aplaude o artista, que deixa o palco agradecendo. Há uma pequena dispersão, alguns vão ao banheiro. Ceguinho Tricolor pede ajuda para fazer o mesmo e é levado pelo Sobrenatural de Almeida numa rapidez de coelhinho de desenho animado. Assombroso!

Com todos de volta aos seus lugares, o papo é retomado, com Ceguinho dando o primeiro passe.

Ceguinho Torcedor: - O mulato Friedenreich, que tinha olhos verdes, também queria parecer branco e passava horas tentando achatar o cabelo duro e rebelde no vestiário. Usava uma toalha, pois o pente não bastava. Era craque, artilheiro, mas entrava quase sempre por último em campo. E era sempre ovacionado.

Sobrenatural de Almeida: - Ele acabava chamando mais atenção, ainda mais com aquele cabelo cheio de brilhantina. Um assombro!

Todos riem.

Fim do Capítulo #9

Modificado e republicado em 3 de setembro de 2024.

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terça-feira, 29 de março de 2022

MÚSICA PRA VIAGEM: ONDE A DOR NÃO TEM RAZÃO

Paulinho da Viola, com toda a sua elegância e humildade, jamais daria e dará um passo em direção ao estrelato. Mas que ele merecia um lugar ainda mais alto entre os gigantes da História da Música brasileira, não tenho a menor dúvida quanto a isso. Entre tantas e tantas extraordinárias composições, também por motivos particulares, os que na verdade sempre nos fazem sentir algo mais por uma obra artística, seja de que gênero for, "Onde a dor não tem razão" é a minha favorita. E está entre as minhas prediletas considerando-se tudo o que já ouvi.

Curioso que, mais uma vez, escolho uma que não está entre as mais famosas. Não tenho aversão pré-concebida contra os sucessos de qualquer artista, verdadeiro artista é bom que se frise. Porém, há sempre uma pérola meio escondida na obra de cada um. E parece que sempre vou em busca dela, talvez tenha algo a ver com solidariedade ao - não rejeitado - mas ao que é dado pouca atenção. Ou menos atenção que eu considero merecer.

Enfim, para encurtar o papo e irmos direto à música, ela está aqui abaixo com o mestre em ação, acompanhado sempre por músicos da mais alta qualidade, em conformidade com a sua simplicidade refinada, sofisticada. "Canto pra dizer que no meu coração já não mais se agitam as ondas de uma paixão, ele não é mais abrigo de amores perdidos, é um lago mais tranquilo, onde a dor não tem razão..." Isto é plenitude. Sublime. Sublime mestre Paulinho da Viola!


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